tradições

Casando na Alemanha parte 3 – A comemoração

Há poucos meses atrás escrevi dois posts sobre casar na Alemanha, um sobre as leis e direitos para pessoas casadas, e outro sobre os documentos necessários e o processo burocrático para poder casar aqui. Mas ficou faltando um post falando sobre a comemoração em si, que eu deixei para escrever depois do meu próprio casamento.

Casamos faz duas semanas, então é boa hora pra escrever esse post!

No geral, a comemoração de casamento na Alemanha é bem similar ao que conhecemos no Brasil, ou de filmes americanos. As tradições básicas são iguais: vestido branco, aliança, “sim”, bolo de três andares, presentes, etc. Mas nos pormenores as diferenças são várias. Algumas eu descobri só durante o meu casamento, com amigos brasileiros comentando “puxa, no Brasil não se faz assim!” (e eu nem sabia!).

Faz sentido começar com a despedida de solteiro. Aqui na Alemanha (mais especificamente aqui na Alemanha oriental, porque segundo meu (!) marido (!), que é do oeste, lá não tem isso) a despedida de solteiro é um tanto diferente. É similar para o noivo e a noiva. Um grupo de uns 5/6 amigos leva o noivo, vestido com alguma fantasia bem ridícula (banana, super-homem, noivA, tem de tudo), pela cidade pra beber cerveja por aí (e acho que pedir dinheiro pra cerveja, tb). A noiva se junta com um grupo de umas 5/6 amigas, e com um véu de noiva e talvez uma saia branca, ou alguma outra peça de roupa pra ficar bem óbvio que ela é a noiva, saem por aí vendendo bobeiras pela rua (qualquer coisinha que vc não precise mais tipo escova de cabelo, sei lá, pra vender por 50 centavos) também para usar o dinheiro para beber.  Os amigos do noivo e as amigas da noiva normalmente usam todos camisetas iguais personalizadas com alguma frase boba qualquer, talvez uma foto da noiva ou do noivo, um nome engraçado que o grupo deu pra si mesmo ou algo do gênero.

Você reconhece esses grupos de longe pela cidade, e nos fins de semanas de meses mais quentes tem dias que andando pela cidade você encontra pelo menos uns 5 grupinhos de despedida de solteiro/a.

Eu jamais teria escrito sobre essa tradição antes do meu casamento, pra não correr o risco das amigas brasileiras terem a péssima ideia de reproduzir a tradição alemã comigo…. rsrsrsrs. O meu marido também não fez nada do tipo, já que os amigos dele também são a maioria do oeste onde essa tradição não existe. Ufa!

A outra tradição mais diferentona que tem aqui em casamentos é a de serrar um tronco juntos. O noivo e a noiva, após a cerimônia, serram juntos o tronco de árvore com uma serra de dois cabos. Assim:

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A ideia por trás é simbolizar que o casal consegue, trabalhando junto, lidar com tarefas difíceis ou qualquer bobeira do tipo.

Uma diferença talvez grande entre as comemorações de casamentos daqui e do Brasil, é que na Alemanha elas costumam ser um tanto menores. Os casamentos que fui no Brasil tinham 200 a 300 convidados. Aqui, os casamentos grandes costumam ter 60, 80 convidados. Festonas de 200 pessoas são raras. Nós tínhamos 60, e sempre que eu respondia esse número quando algum alemão me perguntava quantas pessoas teriam, a reação era “nossa, bastante!”. Não é raro casamentos em que os únicos convidados são a família, ou mesmo só a família direta (pais e irmãos) dos noivos. Por outro lado, aqui as comemorações são mais longas. Não é incomum o casamento ser um programa que ocupa quase o dia todo. Pra nós, por exemplo, foi assim: a cerimônia civil foi às 11h da manhã, depois da qual fomos andando até o jardim de casa, onde fizemos os votos e comemos o bolo. Os convidados foram indo embora a partir das 13h e lá pelas 15h30 foram os últimos. Então tivemos umas duas horinhas para dar uma descansada, e logo todos se encontraram novamente, às 18h, no restaurante onde foi o jantar de comemoração. Alguns foram embora logo após a sobremesa, lá pelas 22h30, e outros ficaram até cair de sono, lá pelas 2, 3 da manhã. Os dois outros casamentos em que eu fui aqui na Alemanha foram similares: a cerimônia seguida do bolo por volta da hora do almoço, e o jantar de comemoração a noite.

Algumas pequenas variações eu descobri no próprio casamento. Por exemplo, o bolo. Eu nunca tinha percebido ou não lembrava, mas parece que no Brasil os bolos de três andares são falsos, só o andar de cima é um bolo mesmo, para a foto, e o resto do bolo é distribuido já cortado entre os convidados. Aqui os bolos são, mesmo, de três andares. Eis uma foto do nosso bolo:

Outra diferença que é mais legal aqui é em relação aos presentes. No Brasil, normalmente se faz uma lista de presentes em umas duas ou três lojas grandes de artigos para a casa ou eletro-eletrônicos, e os convidados compram o presente online, que já é enviado diretamente por correio para os noivos. No próprio casamento não se recebe presentes. E ainda me contaram algo que eu não sabia – no Brasil em várias lojas a lista de presentes nem é “real”. Quer dizer, os convidados, ao comprarem os presentes da lista, não estão de fato dando aquele presente, mas sim o valor do mesmo em vale para os noivos usarem na loja.  Os noivos podem fazer uma lista com presentes de variados preços e no fim usar o dinheiro que os convidados gastaram com os presentes para comprar algo na loja que nenhum convidado sozinho teria dado, digamos uma televisão super cara, sei lá. Aqui os presentes são comprados pelos convidados e entregues por eles no próprio dia do casamento, sempre com um cartão com algo simpático escrito.

E legal também é que costuma ter algumas coisas “interativas”, como livro de visitas e coisas do tipo. No nosso, a minha cunhada pegou um daqueles jogos de jenga e colocou as peças numa mesa com uma plaquinha “assine uma peça” e aí todo mundo assinou uma peça, ou fez um desenhinho, e tal. Agora temos um jogo de jenga com as peças assinadas pelos nossos convidados!

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Uma coisa que é comum aqui, e que a gente conhece de filmes americanos mas não de casamentos no Brasil, são discursos dos convidados. Por aqui costuma ter um momento para que convidados façam discurso ou apresentem qualquer coisa que prepararam para os noivos. No casamento de uma tia do meu marido, por exemplo, a família preparou uma música pra todos cantarem juntos… foi um tanto bobo, mas bem típico, rsrsrs. No nosso, a família dele preparou um vídeo com vários dos nossos amigos e família respondendo perguntas sobre nós. Meu marido, que quase sempre em comemorações familiares toca algumas músicas no violão para o comemorado (aniversariante / casal recém-casado…) tocou algumas músicas para mim. Alguns amigos e familiares fizeram discursos curtos e bonitos.

A cerimônia em si – a civil – é bastante diferente. No Brasil, a sala do cartório onde se assina o papel é normalmente uma salinha sem graça num predinho sem graça típico de setor público. Às vezes o escrivão vem até o local da comemoração e faz a cerimônia com as assinaturas lá – não sei exatamente como funciona. Aqui não dá para pedir pro escrivão ou escrivã se deslocar para o seu local de comemoração, mas tem algumas opções de locais onde você pode realizar a cerimônia civil além da sede do cartório. Normalmente são locais bem bonitos como centros culturais, museus, coisas assim. Espaços públicos mas bem bonitos. E mesmo o prédio do cartório é super bonito, combina bem com casamentos. A cerimônia é curta, mas eles se esforçam para que seja bonita e possa substituir bem a religiosa para quem não quer a mesma. Então o escrivão ou escrivã fala algumas frases bonitas sobre casamento, etc, tem a opção de ter alguém tocando música em determinados momentos, a sala e a mesa são bem decoradas. Nós casamos num prédio que é uma espécie de centro cultural, onde tem dois salões onde acontecem concertos e coisas do gênero. Era uma sala super bonita, com um piano de cauda e espaço para 140 convidados. Contratamos uma amiga que é pianista profissional (e também minha professora de piano) para tocar para a gente durante a cerimônia, foi tudo bem bonito. Pra quem não quer fazer uma cerimônia religiosa, essas opções de locais para a civil dão ótimas alternativas para uma cerimônia memorável e também válida (porque tem sempre, claro, a opção de fazer no dia uma cerimônia só simbólica e assinar o papel no cartório noutro dia qualquer só entre vocês).

Você tem que pagar uma taxa extra se quiser escolher um desses locais que não são a sede do cartório, mas para vários deles o valor é bem baixo. No nosso caso, por exemplo, era apenas 50 euros. Os mais caros custam 500.

Os convidados brasileiros também acharam muito diferente não ter tido vários padrinhos e madrinhas. A gente chamou o melhor amigo dele e a minha melhor amiga para serem testemunhas no cartório e foram esses, por assim dizer, nossos padrinho e madrinha. No Brasil é comum ter vários padrinhos e madrinhas. Aqui, na verdade, pro cartório nem precisa de testemunha. Podem casar só os noivos completamente sozinhos. Ou então pode-se escolher dois amigos ou parentes para serem testemunhas, um para cada noivo. É mais uma coisa simbólica, já que não precisa, mas as testemunhas assinam o papel, também.

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Nosso padrinho assinando o papel

Uma coisa que eu acho curiosa é que, enquanto algumas tradições típicas são pouco importantes – te deixando com a impressão de que os alemães não são muito conservadores – outras parece quase impossível encontrar alguém que não siga – te deixando com a impressão contrária, de que os alemães são mais conservadores que nós. Por exemplo: vestido branco e aliança foram duas tradições bem típicas que a gente não quis seguir e quase ninguém na Alemanha achou estranho. O meu vestido era vermelho, e conheço aqui várias outras pessoas que casaram com alguma cor que não fosse o branco. Ninguém me questionou por não usar branco. Também preferimos não ter alianças, e embora depois do casamento alguns tenham perguntado sobre alianças, ninguém achou muito estranho não termos – e também conheço muitos casais casados aqui que não usam aliança. Esses dois pontos foram bem mais estranhos para os brasileiros. Por outro lado, os dois manterem seus nomes sem nenhuma mudança foi uma coisa quase impossível de explicar para os alemães, e totalmente normal para os brasileiros. Aqui é muuuuito raro a mulher não mudar de nome ao casar, até escrevi um post sobre isso. Toda vez que me perguntavam se eu ia mudar de nome, rolava todo um questionamento do porquê: “Mas é pq o nome dele é estranho?” “É que dá trabalho, né?”, “Sai caro, mudar todos os documentos, é por isso?”. Parece inconcebível, pros alemães, que uma mulher queira manter seu nome de nascimento simplesmente pq é seu nome e pronto. E quando é o homem que muda o nome, eles tratam como se fosse uma coisa suuuuper romântica, um enorme favor e sacrifício que ele está fazendo por ela… eu hein! Para os brasileiros, as duas coisas mais estranhas do nosso casamento foram o noivo ter visto o vestido antes do casamento (na verdade ele me ajudou a escolher, também), e nós termos entrado juntos para a cerimônia.

Acho que é isso! Agora que passou espero ter mais tempo para colocar o blog em dia!


(Publicado em 12 de Junho de 2017)

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Sternsinger – Cantores da Estrela

Esse blog já tem 3 anos e meio. Eu nunca teria imaginado, quando comecei a escrever, que teria assunto o suficiente pra continuar escrevendo por 4 anos. Mas mesmo depois de tanto tempo eu ainda frequentemente me deparo com coisas que eu nunca tinha percebido antes e que dão um ótimo post.

Recentemente, por exemplo, notei uma coisa curiosa na porta da casa dos meus sogros:

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Aqueles escritos ali em cima da porta: 20 * C + M + B + 16.

Não era exclusivo da casa deles. Achei várias outras casas na vizinhança e também em outras cidades com escritos similares:

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A maioria das casas que vi tinha apenas “20 * C + M + B + 16“, mas a dos meus sogros em especial (a porta azul acima) tinha vários: 20 * C + M + B + 12, 20 * C + M + B + 14, 20 * C + M + B + 15 e 20 * C + M + B + 16, sendo o último o que estava mais claro, os outros mais apagadinhos.

Quem escreveu esses estranhos códigos? O que eles significam? Porque alguns estão mais apagados que os outros? Como que em 4 anos de Alemanha eu nunca tinha notado esses negócios escritos em vááárias portas??

As respostas para essas perguntas não foram difíceis de descobrir, qualquer alemão saberá te dizer o que significam esses códigos. São uma benção à casa.

No dia 6 de Janeiro, o dia dos três reis magos, grupos de crianças vestidas de três reis magos (ou 4, ou 5, ou quantos reis magos (e rainhas magas) forem necessários para o grupo de crianças em questão) carregando uma estrela vão de porta em porta cantando umas músicas e oferecendo uma bênção para a casa, em troca de uns trocados para projetos de caridade das igrejas, e também uns doces – que né, doces são sempre necessários.

Assim:

Hans Kadereit – Wikipedia

Chamam-se “Sternsinger”, ou “Cantores da estrela”

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Vários grupos de Sternsinger reunidos na igreja. Hans Kadereit – Wikipedia

E os códigos? 20 * C + M + B + 16? Os códigos são a bênção em si, que as crianças escrevem com giz. Os números, vc já deve ter concluido, significa o ano, no caso 2016. CMB é uma sigla para a frase em latim “Christus mansionem benedicat“, “que Cristo abençoe essa casa”. Mas também são popularmente interpretados como os nomes dos três reis magos: Caspar, Melchior e Balthasar. Só não sei como as crianças conseguem escrever a tal bênção lá no topo da porta… suponho que algum adulto dê uma ajudinha!

A benção do ano atual você encontra em várias portas, mas em algumas poucas portas você encontra ainda, meio apagadinho, as bênçãos de anos anteriores, como na porta dos meus sogros. Algumas casas têm até uma pequena lousinha na porta, especificamente pra esse fim (como a segunda foto lá em cima, da porta branca).

É isso! Um fato curioso que pode passar facilmente despercebido se você mora em apartamento! Agora fiquei pensando que teria feito mais sentido escrever esse post no dia 6 de Janeiro… oh well, 6 de Setembro é quase 6 de Janeiro!


(Publicado em 6 de Setembro de 2016)

Um detalhe sobre o Carnaval

No ano passado eu escrevi um post sobre o famoso Carnaval de Colônia, o maior e mais tradicional da Alemanha.

Aqui em Dresden não se comemora muito o carnaval, mas uma coisinha ou outra acontece. A principal comemoração são as crianças que fazem, nas escolas. Aqui não é feriado no carnaval (só em Colônia) então nesses dias, especialmente hoje, terça-feira, as crianças vão fantasiadas pra escola.

Mas é bem comum comer sonho (Pfannkuchen ou Berliner, fiz um post só sobre esse doce aqui) nessa época do ano, particularmente nesses dias de carnaval. Sexta, segunda e hoje tinha uma enorme caixa de sonhos na cozinha do escritório pra todo mundo. Sexta e segunda as caixas ficaram lá abertas para quem quisesse pegar um sonho. Hoje, porém tinham duas caixas enormes de sonhos, fechadas, e pouco antes do almoço a gente se juntou na cozinha para tomar um copo de champagne (pra comemorar o carnaval?) e comer os sonhos. E aí que eu descobri uma outra “tradição” dessa época. Na caixa tinha um único sonho “falso”. Em vez de ser recheado com geléia ou creme, como os outros, ele estava recheado com mostarda!! Aparentemente isso é uma brincadeira típica do Carnaval, de todo mundo comer os sonhos juntos e aí um deles ser “falso” e essa pessoa tem que fazer a limpeza depois. Sorte que eu não peguei o sonho com mostarda, não ia ter entendido nada de porque tinha mostarda no sonho, lol.

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Mas não se preocupe, pelo menos no nosso caso a pessoa que pegou o sonho com mostarda pôde substitui-lo por um gostoso com geléia.

Ok, esse post ficou meio curto, mas é porque de fato não tem muito o que falar sobre carnaval quando se mora em Dresden.


(Publicado em 9 de Fevereiro de 2016)

 

Männertag – O dia dos homens

Hoje é feriado na Alemanha. A primeira quinta feira 40 dias após da Páscoa é, na religião cristã, o dia da Ascenção, em que Jesus ascendeu ao céu. O Feriado é por causa dessa comemoração, chamada em alemão Christhimmelfahrt. Mas no mesmo dia é também o não oficial Dia dos Homens, ou Männertag em alemão, ou ainda também chamado Dia dos Pais, Vatertag.

A tradição do Männertag já vem de longa data, e, como talvez possa-se imaginar pelo nome “Dia dos Homens”, não é uma data de comemorações fofinhas.

Basicamente a tradição é juntar um grupo de amigos – só homens, claro – e fazer uma caminhada puxando um carrinho de mão cheio de garrafas de cerveja ou vinho dentro. O qual, claro, eles bebem o dia inteiro para ficar tão bêbados quanto humanamente possível. Tanto que os acidentes de tráfego relacionados a alcoolismo aumentam em 3 vezes nesse dia. Que beleza de comemoração!

Steffen Gebhart at en.wikipedia

Em certas partes da Alemanha, o dia é comemorado com mais afinco, como é o caso daqui, Dresden, onde muitos jovens (rapazes) aproveitam o dia para se embebedar loucamente.

Quanto ao fato de ser também o dia dos pais, isso na verdade não importa muito por aqui. Esses dias como dia das mães, dia dos pais, dia das crianças, que no Brasil são híper comemorados, por aqui não têm muito valor, não. Sabe-se que é o dia das mães, ou dia dos pais, mas raramente as mães ou pais ganham presentes ou almoços com a família. Aliás, nem mesmo o dia dos namorados (aqui também comemorado no dia 14 de fevereiro) recebe muita atenção por aqui.

Mas a tradição do Dia dos Homens tem um background. Provavelmente teve início em procissões do dia da Ascenção (segundo o Wikipedia), celebrado desde o século XVIII. Os homens sentavam-se em carrinhos de mão e eram levados para a praça do vilarejo, onde o prefeito dava um presente (um grande presunto) ao homem com o maior número de filhos. O que, convenhamos, é uma tradição bem mais divertida. Mas aos poucos a parte religiosa foi se perdendo e a tradição foi sendo simplificada a um grupo de homens passeando com cerveja e presunto. Tudo bem.


(Publicado em 14 de Maio de 2015)
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Pão e sal

Um costume bem interessante aqui na Alemanha é a tradição referente a mudanças para novos lares.

Como no Brasil, quando você se muda para uma casa nova, é comum fazer uma festinha com os amigos ou familiares para comemorar a casa nova. Mas uma coisa diferente e bem interessante é o presente que habitualmente se dá a um amigo ou familiar que se mudou para uma casa nova: pão e sal.

Olli Niemitalo – Wikipedia

Normalmente preparadinhos de uma maneira decorativa, o pão talvez enrolado num pano bonito e o sal em um pequeno recipiente simpático, a combinação pão e sal é uma tradição típica da Alemanha e alguns outros países vizinhos.

E, como toda tradição, o presente não é sem significado. O sal, em tempos passados um condimento muito caro, simboliza a riqueza que você deseja para seu conhecido na nova casa. O pão, um item essencial da cozinha alemã, simboliza os votos de que seu conhecido sempre tenha o suficiente para comer em sua nova casa.

Em tempos passados a combinação de pão e sal era um presente não apenas simbólico mas realmente valioso uma vez que a comida era escassa e os ingredientes, custosos. Hoje, claro, tanto pão quanto sal podem ser adquiridos por poucos euros em qualquer supermercado ou padaria, de maneira que o presente é puramente simbólico. Mas isso dá uma certo valor diferente para o mesmo. Afinal, não sendo caros, fica fácil preparar um presentinho de boas vindas para novos e desconhecidos vizinhos também, facilitando a criação de um relacionamento bom na vizinhança. Quer dizer, a simbologia do presente faz com que você passe uma boa impressão de simpatia ao bater na porta do seu novo vizinho com um pão e um pouco de sal. A tradição existe na Alemanha toda. Fica a dica!


(Publicado em 18 de Outubro de 2014)

 

Zum Mitnehmen

Eis uma maneira prática para se livrar de coisas inúteis que ainda podem vir a ser úteis para outro.

Não sei se isso acontece em vários lugares da Alemanha, ou se é uma coisa típica só aqui em Dresden, e mais especificamente da Neustadt, o bairro jovem-artístico-alternativo da cidade. Mas por aqui andando pela rua é beeem comum você encontrar caixas com tralha de diferentes tipos e uma plaquinha ou papelzinho escrito “Zum Mitnehmen” (para levar) ou “Zu verschenken” (para dar). Pessoas que estão se mudando, ou fazendo uma limpeza geral na casa, coisa do tipo, juntam as coisas velhas que não querem mais guardar, mas que ainda podem ser úteis para alguém, colocam numa caixa com a plaquinha e deixam na frente da porta do prédio. No final do dia, a caixa está vazia.

Ok, essa não tinha o papel escrito 'Zum Mitnehmen'. Mas basicamente qualquer caixa aberta com livros ou coisas velhas, totalmente à vista, na porta de um prédio vc pode ter certeza que é para doar.

Ok, essa não tinha o papel escrito ‘Zum Mitnehmen’. Mas basicamente qualquer caixa aberta com livros ou coisas velhas, totalmente à vista na porta de um prédio, vc pode ter certeza que é para doar.

O que você mais encontra nessas caixas são livros, na sua maioria livros velhos meio toscos, tipo, sei lá, um guia de leis alemãs para estudantes de advocacia, ou o livro da igreja não sei qual sobre a Bíblia, umas coisas assim que ninguém tá muito a fim de levar. Bom, talvez apareçam coisas legais e coisas ruins com a mesma freqüência, só que como as coisas legais somem rápido e as coisas ruins ficam sobrando, você acaba vendo mais coisas ruins do que legais. Seja como for, sempre que eu vejo uma caixa dessas (e é bem comum), dou uma olhada pra ver se tem algo que vale a pena guardar. Já achei um Goethe, um livro do Darwin (não era A Origem das Espécies, infelizmente, mas um outro), e uma ou outra coisa que trouxe pra casa. Minha aquisição mais recente é esse livro sobre a América do Sul que aparece na foto acima. Saí de casa só para procurar uma caixa para fotografar e colocar aqui. Achei duas caixas, e um livro que valia a pena levar. Ou seja, é bem comum.

E, claro, não são só livros. Coisas de cozinha aparecem de vez em quando, ligeiramente quebradas mas usáveis (Já vi forno microondas, panela de pressão, batedeira…), e até móveis velhos como cadeiras, poltronas. Vi uma vez até uma porta (a maçaneta e as dobradiças sumiram no primeiro dia, mas o resto da porta ficou lá bastante tempo até o dono se tocar que ninguém ia levar e jogar no lixo).

Quando nos mudamos para esse apartamento, deixamos uma caixa que continha alguns livros velhos e toscos, umas coisas de escritório (pastas, fichários), e um cachecol do time de futebol de Dresden, o Dynamo. O cachecol sumiu nos primeiros cinco minutos, os livros e pastas foram desaparecendo ao longo do dia, e no final só sobrou o livro religioso do encontro de jovens da igreja sei lá qual, que acabou tendo que ir pro lixo, mesmo.

O que não é recomendável deixar na rua para levarem são coisas quebráveis (quebráveis mesmo como vidro, ou uma TV.). Não por eventuais acidentes, mas porque por algum motivo misterioso toda e qualquer TV que você deixe na rua terá sua tela chutada e quebrada por alguém nos primeiros 10 minutos. Sei lá, acho que TVs velhas são o escape de raiva do sistema dos transeuntes, ou algo assim. TVs antigas ou outras coisas que pedem para ser quebradas é melhor doar diretamente para alguém através de um anúncio no jornal de estudantes, ou coisa assim.

Aliás, com o jornalzinho de anúncios da faculdade dá para mobiliar a casa inteira por poucos ou nenhum euro. Como aqui a maioria dos universitários mora em república, o tempo todo tem república sendo desmontadas e móveis velhos e baratos sendo oferecidos por 10 euros, uma cerveja, ou nada, para o primeiro que vier buscar correndo e livrar os atuais donos do trambolho antes da mudança. E assim doamos uma TV velha por 2 cervejas, uma mesinha de centro por 25 centavos de liras turcas (coleciono moedas), e compramos um sofá-cama por 45 euros (isso pq já tínhamos desistido de vários outros sofás, gratuitos, pq eram muito velhos e feios. Mas se você não se incomodar com móveis alternativos – e normalmente estudantes montando república não se incomodam –, dá pra arranjar muita coisa de graça!).

Neustadt

Neustadt, o bairro artístico-jovem-alternativo de Dresden.

E assim um pequeno passeio pelo bairro pode ser super lucrativo!


(Publicado em 12 de Fevereiro de 2014)

 

Natal na Alemanha 3: Outras coisas

Depois das decorações e comidas, só faltou abordar algumas informações mais gerais sobre o Natal na Alemanha.

Nos diferentes países onde se comemora o Natal, há diferenças sobre o momento em que a maior comemoração acontece e momento de troca de presentes, e tal. Aqui na Alemanha, pela minha experiência – não sei dizer se vale para todas as famílias ou não – as pessoas trocam presentes no dia 24 a noite. A meia noite do dia 24/25 não têm tanto significado aqui como no Brasil, ninguém fica esperando a meia noite para dar feliz natal. Dia 24 já é dia de dar feliz natal. Fogos de artifício não são comuns, mas esse ano eu ouvi alguns ao longe, à meia noite. Mas não é normal, não.

Claro que essas coisas não necessariamente valem para todas as famílias, são a minha experiência pessoal por aqui. Talvez em outras famílias as crianças abram os presentes só no dia 25, não sei. Tem papai-noel aqui também, mas acho que não é tããão importante contar história de papai-noel pras crianças, e nem tem aqueles papais-noéis de shopping. Um alemão me disse – embora eu não tenha confirmado a história – que em algumas regiões da Alemanha, ao invés do papai-noel, é o menino Jesus que entrega presentes. Se já era estranho receber presentes de um senhor de roupas vermelhas que viaja em um trenó voador levado por renas, recebê-los de um nenê recém-nascido é igualmente curioso… Papai-noel em alemão, a propósito, é Weihnachstmann, ou homem do Natal.

Ah, estou aqui lendo o artigo da wikipedia sobre Natal e parece que as maiores diferenças estão entre as regiões protestantes e as regiões católicas da Alemanha. Em termos de religião, a Alemanha tem 3 principais vertentes (preciso fazer um post sobre isso), 30% é católico, 29% protestante e 34% não seguem nenhuma religião. Então as diferenças de comemorações natalinas estão entre as regiões católicas e as regiões protestantes. (papai noel parece que é mais comum entre os protestantes, comemorar principalmente o dia 24 também, enquanto os católicos comemoram principalmente o dia 25… mas enfim, detalhes eu desconheço. Na dúvida, imagine que as minhas informações valem para os protestantes já que a família com quem eu passo o Natal é protestante).

Os alemães também fazem amigo-secreto de vez em quando, mas é beeeeeem menos comum que no Brasil, onde todo grupo de amigo faz amigo-secreto todo ano. Aqui eu nunca vi, mas perguntei e me disseram que existe. Chama-se Wichteln, em alemão. Mas as variantes amigo-da-onça, amigo secreto ladrão, etc, acho que não existe, não.

E para finalizar, uma particularidade curiosa é que dia 26 de Dezembro também é Natal, aqui. Não sei exatamente o porquê, mas dia 26 é também feriado, ninguém trabalha, e é dia de fazer coisas com a família assim como nos dias 25 e 24.

Fröhliche Weihnachten!

O Christmas tree


(Publicado em 26 de Dezembro de 2013)