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Atravessando a rua na frente das crianças

Talvez você já tenha ouvido falar que os alemães esperam pacientemente o sinal de pedestres ficar verde antes de atravessar uma rua, mesmo que não tenha absolutamente nenhum carro na rua. Isso realmente acontece, mas nem sempre. Depende um pouco da cidade (em cidades maiores as pessoas são menos pacientes) e das pessoas que estão esperando para atravessar (pessoas mais novas são mais impacientes).

Mas uma coisa é regra absoluta. Se tem criança esperando pra atravessar, ninguém atravessa antes de dar verde pros pedestres. Tanto faz se a criança está sozinha ou acompanhada, parece que há uma regra silenciosa de que não se dá mal exemplo para crianças no quesito atravessar a rua.

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Até aí tudo bem, má ideia não é, tá certo. Só que como de costume, os alemães levam essa regra a sério demais. Dois exemplos recentes ilustram bem isso:

Uma vez, não muito tempo atrás, eu estava andando com o meu marido de casa até o ponto de tram, que fica a menos de 100m de casa, virando a esquina. Quando chegamos na esquina, vi que o tram já estava na estação, então saí correndo pra conseguir pegar o mesmo a tempo. Atravessei a rua, que estava totalmente vazia, mas no vermelho, e ele veio atrás de mim. Quando entramos no tram, “Mas você foi atravessando assim correndo, e na frente das crianças??”, e eu, ué, que crianças? Eis que tinha um grupo de umas 3 crianças de uns 11 anos na outra esquina, conversando na frente de uma copiadora. As tais crianças não estavam nem esperando pra atravessar, nem olhando pra rua, e nem mesmo do lado da rua onde eu estava atravessando, elas estavam na oooutra esquina.

A segunda situação foi ainda mais curiosa: saí para almoçar com duas colegas do trabalho, e o nosso caminho inclui atravessar uma rua onde só passa ônibus. Embora não tenham tantos ônibus que passam por ali, o farol de pedestre tem o mesmo tempo que numa rua normal, então frequentemente a gente fica lá esperando pra dar verde sabendo que nenhum dos carros vai entrar lá pq não pode, e nenhum ônibus por perto. Então num determinado dia lá estávamos nós, nenhum ônibus à vista, decidindo de atravessávamos no vermelho ou não. Do outro lado da rua, mas de costas para a gente, andando pra frente, um pai com uma criança. Vou repetir, eles estavam de costas para a gente. As duas colegas resolveram atravessar a rua no vermelho, meio inseguras, e quando estávamos no meio da rua, não é que a criancinha do outro lado resolve olhar pra trás? Minha colega comenta, sinceramente preocupada, “Ixi, agora a criança vai ver a gente atravessando no vermelho!”

Gente, tudo bem, a idéia é boa e tal. Mas noção sabe. Ficar preocupado achando que a criança 20m lá na frente, nos dois segundos que olhou para trás enquanto você estava atravessando no vermelho vai não apenas ver que estava vermelho, e que você estava atravessando, como também imediatamente aprender com o mau-exemplo, atravessar a próxima rua no vermelho e morrer atropelada? Já é um certo exagero… fica parecendo que as crianças vivem num mundo mágico de fantasia onde nenhum adulto jamais faz nada nem ligeiramente fora das regras, e no momento em que ela vir, assim de longe, num relance, uma pessoa – PASME! – atravessando no vermelho, seu mundo vai cair, tudo o que ela aprendeu sobre certo e errado era uma mentira! Pra quê fazer lição de casa? Pra quê jogar lixo no lixo? Pra quê escovar os dentes antes de dormir, se quando você olha pra trás os adultos estão todos atravessando no vermelho!?? Rsrsrs!

Ok, ok, a gente ri, mas é verdade que é uma coisa legal que a sociedade como um grupo se preocupe de não dar mau-exemplo para as crianças.

Aliás, já que o assunto é atravessar a rua, podemos aproveitar para falar mais sobre as regras de atravessar ruas alemãs. Você talvez tenha ouvido dizer que na Europa os motoristas sempre param na faixa de pedestres quando não tem semáforo e tem gente esperando para atravessar. Bom, sim, isso aqui é verdade. O que você não sabe é que, PLOT TWIST, quase não tem faixa de pedestre aqui!!!

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É que é o seguinte: tem duas maneiras diferentes de demarcar o espaço dos pedestres nos cruzamentos ou nos lugares onde pedestres atravessam. Uma é a faixa de pedestre normal como a gente conhece. A outra, é marcar o espaço com duas linhas tracejadas, uma de cada lado.

Assim:

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Essa travessia com as linhas tracejadas é que é a mais comum, amplamente mais comum. Faixas de pedestre, as clássicas, são tão raras que eu fiquei uma meia hora procurando no google maps nas fotos aéreas da cidade até encontrar alguma. Só encontrei depois que lembrei de uma em particular por onde eu passei algumas vezes durante as aulas práticas pra tirar a carta de motorista.

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A regra para atravessar a rua é assim: se tiver semáforo, claro, atravessa-se quando está verde para o pedestre (e sempre que tem farol para carro, tem para pedestre também). Quando não tem semáforo, o que também é bem comum, a preferência é do carro quando ele está seguindo em frente, e do pedestre quando o carro está fazendo uma conversão. Então, se você está esperando para atravessar uma rua sem farol, vc tem que esperar os carros que já estão naquela rua que vc quer atravessar passarem, mas atravessa antes dos carros que estejam virando ou esperando para virar naquela rua. Isso é assim inclusive quando tem farol, o verde do pedestre é no mesmo tempo que o verde da rua que está na mesma direção, e os carros que estão entrando na rua perpendicular têm que primeiro esperar pedestres ou bicicletas que estejam indo em frente passarem. Assim:

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Isso vale sempre, seja com ou sem essas linhas tracejadas. Elas estão lá mais para delimitar o espaço que para definir qualquer regra.

Então pra que serve a faixa de pedestre? A faixa de pedestre é justamente a exceção à regra. Quando ela aparece, é para fazer os carros que estão seguindo em frente pararem em qualquer momento em que haja pedestres querendo atravessar.

É tão uma exceção que quando aparece uma faixa de pedestre tem um monte de placa em volta pra certificar que até o motorista mais desatento vai perceber a faixa lá e parar para eventuais pedestres.

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Então quando que tem faixa de pedestre? Normalmente são em locais onde tem um fluxo grande de pessoas atravessando e um tráfego razoável de carros seguindo em frente. Normalmente nem são cruzamentos, pq cruzamentos você resolveria com um semáforo. É meio no meio da quadra, mesmo, o exemplo mais típico é logo na frente da saída de uma escola, como é o caso da faixa na foto acima.

Então nas raras ocasiões em que aparece uma faixa de pedestre, a preferência é sempre 100% do pedestre. Aí os carros param, sim. E os carros que estão virando numa rua também sempre param para os pedestres que estejam atravessando, até pq é uma regra bem clara e definida. Bom, tá, às vezes eles vêem que você está chegando pra atravessar e viram rapidinho pra não ter que parar, mas nunca de uma maneira realmente arriscada.

Acho que isso é tudo o que tem a ser dito sobre atravessar ruas alemãs!


(Publicado em 06 de Julho de 2017)

Nomes de ruas

Esses dias eu estava pensando em nomes de ruas daqui e como eles são diferentes dos no Brasil.

No Brasil, o mais comum é que as ruas tenham nomes de pessoas consideradas importantes, com feitos importantes para a cidade ou para o país. Em vários casos nem são assim “nossa, que pessoa realmente importante!”, mas alguém que algum vereador x queria homenagear por algum motivo qualquer. Também não é raro que alguma rua ou ponte ou local público (escola, aeroporto, cemitério) seja conhecido por um nome, mas oficialmente tenha um outro nome totalmente diferente – normalmente o de um fulano qualquer. Exemplos em São Paulo são vários: o Minhocão, de nome oficial, usado mais ou menos nunca pela população, Elevado Costa e Silva, o Aeroporto de Guarulhos, de nome oficial Aeroporto Governador André Franco Montoro, ou ainda a Ponte Estaiada, oficialmente Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira. Aliás pontes são ótimos exemplos, quase todas as pontes de São Paulo tem um nome popular e um nome oficial de algum fulano que quase ninguém sabe quem é. Imagino que em outras cidades brasileiras não seja diferente.

Curiosamente, vários desses ilustres fulanos são generais e marechais e outros militares da época da ditadura que certamente não deveriam estar sendo homenageados como grandes heróis e sim vilipendiados pelos abusos e crimes cometidos durante o período de ditadura.

Essa história de dar nomes a logradouros, ou mudar nomes já consolidados para outros para homenagear alguém virou um certo jogo político no Brasil, uma oportunidade de fazer alianças ou agradar as pessoas certas na esperança de obter algo em troca.

Pensando nisso comecei a prestar atenção nos nomes das ruas alemãs.

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Entre as ruas maiores, os nomes mais comuns são nomes de cidades próximas. Principalmente em cidades pequenas ou vilarejos isso fica muito claro porque quase todas as ruas têm o nome do vilarejo vizinho com o qual elas ligam. Eu percebi isso com muita clareza certa vez: eu estava trabalhando num projeto de planejamento urbano de um vilarejo vizinho a Dresden (onde moro), e montando a planta do vilarejo pensei em colocar flechinhas nas ruas que conectavam com as cidades ou bairros vizinhos indicando quais bairros ou cidades ficavam em cada direção. Exceto que era a informação mais redundante que eu poderia ter pensado em adicionar, uma vez que todas as ruas onde eu poderia colocar uma flechinha indicando a cidade com que conectavam já levavam o nome da mesma, que já estava marcado na planta. Era algo assim:

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Aqui em Dresden são vários os exemplos de ruas com nomes de cidades vizinhas: Bautzner Str. (Bautzen), Meißner Landstraße (Meißen), Tharandter Str. (Tharandt), Görlitzer Str. (Görlitz), Dohnaer Str (Dohna), Lockwitzer Str. (Lockwitz), Chemnitzer Str. (Chemnitz), Leipziger Str. (Leipzig), etcetcetc. E essa nomeação é bem consequente: a Radeberger Landstr., por exemplo, que liga a cidade com uma cidadezinha vizinha de nome Radeberg, chama Radeberger Landstr. até o momento em que ela cruza a fronteira com o município de Radeberg, quando o nome da rua então muda para… adivinha, adivinha? Dresdener Str., claro.

(Str., pra quem ainda não sacou, é a abreviação de Straße, que obviamente significa: rua.)

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Um tanto prática essa maneira de nomear ruas, certo? Imagina se as avenidas e estradas em volta de cidades brasileiras fossem assim, e em vez de “Rodovia João Hermenegildo de Oliveira”, por exemplo, você tivesse “Rua que vai pra Mairiporã”. Ficaria um tanto fácil saber chegar em Mairiporã. E também facilitaria lembrar os nomes das ruas e avenidas que saem da cidade. Além de ajudar aqueles que não se dão muito bem com mapas a criarem um mapa mental das redondezas.

Embora ruas com nomes de cidade sejam comuns, essa não é a única maneira de nomear ruas por aqui. Uma escolha muito comum para nomear logradouros alemães são referências físicas. Por exemplo: A rua ou avenida onde fica a estação ferroviária central da cidade frequentemente leva o nome de Bahnhofstraße – Rua da Estação. Uma rua chamada Am Theater, ou Theaterstraße certamente é a rua do teatro municipal. Am Pfaffenberg, por exemplo, seria uma rua ao longo do pé de um morro chamado Pfaffenberg. Uferstraße (rua da costa), Strandpromenade (passeio da praia) ou Seeweg (caminho do mar) (por exemplo) são ruas ao longo da praia ou da costa. Outro nome que aparece de vez em quando é Stadtblick, Vista da Cidade. É, claro, uma rua em algum lugar alto estratégico onde tem-se uma vista boa da cidade.

Algumas vezes o ponto referenciado pelo nome da rua nem existe mais. Um exemplo: dei um zoom em uma cidadezinha qualquer no meio da Alemanha no googlemaps, Straßfurt, na Alta-Saxônia (Sachsen-Anhalt). Uma rua chamada Zollstraße atravessa o rio que cruza a cidade naquela que deve ser a principal ponte da mesma. Zoll significa alfândega, o que nos leva a supor que em algum momento da história esse rio deve ter sido uma fronteira, a Zollstraße era a rua onde ficava a alfândega. Pra confirmar as suspeitas, uma rua logo ao lado chama-se Grenzstraße, Rua da Fronteira. Mesmo sem saber absolutamente nada sobre o local, dá pra inferir um pouquinho da sua história simplesmente prestando atenção aos nomes das ruas.

Também comum é nomear as ruas de acordo com a espécie de árvore plantada ao longo das calçadas. Lindenstraße por exemplo, é uma rua que tem em quase qualquer cidade (Linden, Tilia sp., é uma das espécies de árvore mais comuns em cidades alemãs). É também o nome de uma das principais ruas de Berlin, Unter den Linden, Sob as Tílias (não consegui descobrir se tem um nome em português para Linden então estou usando o nome em latim).

Ruas com nomes de pessoas também tem bastante por aqui, mas são normalmente nomes bem conhecidos. Típicos homenageados são nomes importantes das ciências, artes e filosofia, como Beethoven, Dürer, Einstein, Karl Marx, Nietzsche, etc. Não apenas alemães, mas outros de nacionalidades diversas também são comuns, como Newton, Vivaldi, Mozart, Freud. Esses aparecem só com o sobrenome. Também comum é homenagear pessoas que foram perseguidas pelo nazismo como Rosa Luxemburgo, Hannah Arendt, Olga Benario. Esses aparecem com o nome completo. Aparecem ainda alguns políticos importantes para a história do país como Willy Brandt, ou ainda nomes de alguns reis de um passado mais distante, como – aqui em Dresden, a capital do extinto reino da Saxônia – Augustus (Augusto, o Forte).

Dando zooms aleatórios nos mapas de diversas cidades, me parece que os nomes mais comuns são mesmo as referências físicas: igreja, escola, lago, morro, rio, orla, mercado, castelo, estação, e cidades vizinhas. Essa impressão é corroborada por essas estatísticas aqui mostrando os cinco mais comuns nomes de ruas da Alemanha: Hauptstraße (Rua Principal), Schulstraße (Rua da Escola), Dorfstraße (Rua do Vilarejo), Gartenstraße (Rua do Parque/Jardim) e Bahnhofstraße (Rua da Estação).  Hauptstraße, a mais comum, é nome de alguma rua em nada mais nada menos que 6.284 cidades alemãs!

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No Brasil também tem alguns desses exemplos, claro. E não é por acaso, essas ruas têm esses nomes não porque alguém sentado num escritório de um edifício governamental inventou assim, mas porque elas já eram conhecidas por esses nomes antes destes serem oficializados. Mesmo ruas com nomes já oficiais acabam ganhando nomes de referência não oficiais. Não é difícil imaginar alguns dos muitos diálogos corriqueiros do dia-a-dia que se encaixam nesse contexto, digamos por exemplo a sua avó te dizendo “Ô Filha, leva esse doce aqui pra Dona Maria pra mim? Ela mora ali na rua do sacolão, na casa verde!” ou então talvez “Filha, busca pra mim um pão lá na padaria? Mas vai naquela da rua da feira, que a da esquina ali da igreja o pão é mais caro!”. Então na prática a diferença é que enquanto no Brasil quem define nome de rua são uns políticos feios e antipáticos, na Alemanha quem decide são as vovós!

Pra terminar, deixo aqui algumas referências que usei para escrever esse post:

Um artigo interessante sobre a nomeação de logradouros no Brasil e o jogo político por trás;
Um mapa com os nomes de ruas mais comuns nos diferentes países da Europa;
Um artigo interessante sobre nomeação e renomeação de ruas em Berlin.

Mas a principal referência mesmo foi o Google Maps! 😉


(Publicado em 27 de Janeiro de 2017)

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Calçadas

O que há para falar sobre calçadas, você deve estar se perguntando.

Se seu interesse por urbanismo for mínimo, então há muito para se falar sobre as calçadas na Alemanha.

Quando a gente vai de um país para outro, a gente percebe bem mais as coisas que incomodam, e às vezes você precisa voltar para o primeiro país para perceber algumas das coisas boas do outro. Na última vez que estive no Brasil, uma coisa que me incomodou muito foram as calçadas, e como é difícil ser pedestre em São Paulo. Ou melhor, como é confortável ser pedestre na Alemanha.

A primeira coisa que você talvez perceba passeando por uma cidade alemã é a grande quantidade de calçadões e areas só para pedestres (e bicicletas), especialmente nos centros históricos. Aliás, uma pequena observação antes de continuar: toda área exclusiva para pedestre é livre para bicicletas também, então sempre que eu disser pedestres pense pessoas e ciclistas.

É super comum que tenha um calçadão principal, bem grande, bem comprido, que também é a rua comercial mais importante da cidade. Em Dresden, é a Prager Straße, essa daqui:

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Dá para ir quase só em áreas exclusivas para pedestres da estação central até o norte da cidade, a Neustadt. Você vai pela Prager Straße, segue pelas ruazinhas que levam à igreja principal, a Frauenkirche, continua por um calçadão-terraço ao longo do rio, cruza uma ponte que pode ser que em breve seja exclusiva para pedestres também, e continua pela Haupstraße, a rua mais fofa de Dresden.

Área só para pedestres no entorno da Frauenkirche

Área só para pedestres no entorno da Frauenkirche

Hauptstraße em Dresden

Hauptstraße em Dresden

Hauptstraße em Dresden

Hauptstraße em Dresden

E Dresden não é exceção. Calçadões em ruas comerciais nos centros históricos de várias outras cidades podem ser vistos nas fotos abaixo:

Schildergasse em Colônia

Schildergasse em Colônia

Frankfurt

Frankfurt

Mas não são só os calçadões que fazem das ruas alemãs especialmente confortáveis para pedestres (até porque calçadões no centro histórico tb não são raros no Brasil). O desenho das calçadas é muito cuidadoso, e sua execução muito precisa.

As calçadas são frequentemente arborizadas por aqui. Uma maneira de fazer isso, quando a calçada não é suficientemente larga, é pegar o espaço de uma vaga de carro (a cada x metros) para plantar uma árvore. Por exemplo nessa rua aqui:

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Ou nessa:

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Ou nessa:

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No geral as ruas não são desenhadas tendo o carro como prioridade mór do universo, mas sim o pedestre. Um outro exemplo disso são as esquinas. Quando é permitido estacionar na rua, com freqüência a esquina é alargada, tomando o espaço das vagas, para permitir maior visibilidade tanto para o pedestre quanto para o carro, e proporcionando ainda um espaço extra para o pedestre esperar de boas para atravessar, sem ficar no caminho de quem está passando.

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Também não é raro que, em algumas ruas com pouco tráfego de automóveis, não haja desnível (ou praticamente não) entre a rua e a calçada, de maneira que a rua é, de certa forma, uma extensão da calçada. É o carro que tem que dar a prioridade para os pedestres e ciclistas, claro.

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E quando eu falo da execução e do acabamento: são alguns detalhes aqui e ali na construção da rua e calçada que deixa tudo mais simpático e arrumado. Por exemplo, quando é possível estacionar em um dos lados da rua, freqüentemente a área para vagas tem um piso diferente, por exemplo um paralelepípedo, pra separar visualmente essa área do leito carroçável. Nos grandes calçadões, desenhos de piso com diferentes materiais criam essa organização e delimitação do espaço sem a necessidade de bloqueios físicos e visualmente indesejáveis. Quando o bloqueio físico é necessário – por exemplo para impedir que carros entrem em calçadões – ele é feito com elementos singelos e discretos, que não atrapalham o fluxo de pedestres.

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A rua asfaltada, a área para estacionar em paralelepípedo, e a área para atravessar no mesmo piso da calçada.

Desenhos de piso marcando diferentes espaços

Desenhos de piso marcando diferentes espaços

Desenho de piso

Desenho de piso

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Bloqueio físico para impedir a entrada de carros em uma área de pedestres

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Bloqueios físicos para impedir a entrada de carros numa área de pedestres

E às vezes são pequenos detalhes que mostram o cuidado com que esses espaços são pensados. Por exemplo nesse calçadão, como o material do piso muda em volta do mobiliário urbano, fazendo com que cada lata de lixo ou poste de luz se encaixe perfeitamente no espaço que ocupa. Mobiliário urbano é outra coisa a se elogiar também: bancos em calçadas e calçadões não são raros, e freqüentemente bem projetados. Até a maneira como a água pluvial é recolhida ao longo das ruas é feita cuidadosamente: grelhas discretas e bocas-de-lobo bem escondidas fazem o trabalho sem prejudicar visualmente o espaço.

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Drenagem de água pluvial

Drenagem de água pluvial

Drenagem de água pluvial

Drenagem de água pluvial

Mobiliário urbano em uma praça

Mobiliário urbano em uma praça

Não sei explicar bem, mas um lugar em que eu sempre percebo esse cuidado de acabamento é no encontro da rua com o edifício. É um detalhe bobo mas faz diferença e não é fácil fazer direito. Alguns bons exemplos:

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Além disso, frequentemente as calçadas e calçadões se misturam com áreas privadas dentro de lotes de edifícios diversos. Às vezes o uso público desse espaço privado é desejado e encorajado – quando por exemplo uma passagem é criada ligando duas ruas por dentro de um lote privado – às vezes indesejado e desencorajado. A grande diferença é que a separação no último caso não é feita com portões e muros hostis que tiram a permeabilidade visual dos espaços públicos mas com pequenos elementos que já avisam ao passante que aquele espaço é menos aberto – embora não completamente fechado – que o espaço público. Vegetação, desnível ou uma entrada estreita são alguns desses elementos.

Passagem aberta por dentro de lotes privados conectando duas ruas. Com restaurantes e lojinhas.

Passagem aberta por dentro de lotes privados conectando duas ruas. Com restaurantes e lojinhas.

Essa área é aberta mas é claramente marcada como privativa pela diferença de piso que desencoraja o transeunte a entrar.

Essa área é aberta mas é claramente marcada como privativa pela diferença de piso que desencoraja o transeunte a entrar.

E como já descrevi nos posts sobre bicicletas, as ruas alemãs são desenhadas para caber todo mundo – o pedestre, a bicicleta, a cadeira de rodas, o transporte público, a árvore e, quando sobra um espacinho, o carro também. Eu nunca tentei cruzar a cidade numa cadeira de rodas, mas suspeito que não seja muito difícil – não é totalmente incomum ver pessoas em cadeiras de roda sem acompanhantes por aí, e quem como eu anda quase sempre de bike também logo percebe como são incomuns calçadas sem rebaixamento na esquina. Eu posso contar nos dedos as de Dresden, são tão raras que sei exatamente onde estão.

Área rebaixada para cadeira de rodas.

Área rebaixada para cadeira de rodas.

E, talvez a coisa mais importante para o conforto visual dos cidadãos e, inclusive, sua segurança: você nunca vai ver numa cidade alemã fiação aérea. Tipo nunca. Nunca vi. Só em área rural e mesmo assim bem de vez em quando. Toda a fiação é enterrada, e que diferença gigante isso faz para a cidade. Ainda que isso não significasse uma melhoria na segurança – mas significa – só pela questão estética já faz todo o sentido ter a fiação enterrada. Estética urbana não é uma questão pequena e insignificante, ela influencia demais a qualidade de vida das pessoas. Há estudos que mostram, por exemplo, que um espaço arborizado facilita a recuperação de pacientes em hospitais, melhora a socialização entre vizinhos em um bairro, e até é responsável pela diminuição da criminalidade local. A fiação aérea prejudica demais a estética da cidade e certamente também contribui para aumentar o stress e a insatisfação das pessoas que nela moram.

Umas fotos aleatórias para terminar:

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Rua em Dresden com uma calçada bem mais larga que o leito carroçável.

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Detalhe de grelha cobrindo canteiro de árvore

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Uma rua arrumadinha em Dresden

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Uma passagem de pedestre com uma pracinha super simpática em Hamburgo

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Uma calçada arrumadinha em Hamburgo

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No centro de Hamburgo, uma rua super estreita, com apenas uma faixa, e calçadas largas e generosas.

Acho que é isso que tem a ser dito sobre calçadas alemãs. Acabou ficando um post pra arquitetos, mas taí!


(Publicado em 29 de Agosto de 2015)