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Eleições 5 – Wahl-O-Mat

Continuando no tema eleições, esse post é sobre o Wahl-O-Mat um app/programinha de internet bem famoso aqui pra dar uma ideia de quais partidos mais se identificam com você.

Tem, claro, diferentes aplicativos com a mesma intenção. Mas o Wahl-O-Mat foi o primeiro e é o principal por ser o mais “oficial”. Desde 2002, A Bundeszentrale für politische Bildung (Central federal de educação política) – uma instituição parte do ministério do interior alemão e supervisionada por parlamentares dos diferentes partidos que constituem o Bundestag (parlamento alemão) – organiza a cada eleição as perguntas que vão constituir o Wahl-O-Mat. As perguntas são sugeridas por um grupo de jovens eleitores que estão votando pela primeira ou segunda vez, aconselhados por jornalistas e cientistas políticos, e de acordo com determinados critérios. São elaboradas 80 perguntas a que os partidos que vão participar das eleições respondem com “Concordo”, “Neutro” ou “Não concordo”. De acordo com as respostas, são selecionadas então 30 a 40 perguntas finais que vão para o app. São as perguntas que facilitam a distinção entre os partidos. Quer dizer, se todos os partidos responderam “concordo” a uma determinada pergunta, não faz sentido colocá-la para os eleitores.

Daí sai o app, que você pode também acessar pela web, aqui.

Este ano são 38 perguntas, e 32 dos 33 partidos participantes das eleições responderam ao questionário. Você vai respondendo a cada pergunta que aparece com “Concordo”, “Neutro” ou “Não concordo”, (da mesma maneira que os partidos fizeram) e ao final o app te mostra a lista de perguntas e você escolhe quais delas são prioritárias pra você, quer dizer, quais devem ter peso maior. A partir dessas duas informações: suas respotas e sua prioridade de temas, o app calcula em que porcentagem suas ideias se identificam com a de cada partido.

Aqui quatro exemplos de perguntas que aparecem no Wahl-O-Mat desse ano.

Acima à esquerda: “Os impostos sobre diesel como combustível devem ser maiores.”
Acima à direita: “O governo deve investir a longo prazo no desenvolvimento de energias renováveis”
Abaixo à esquerda: “Operadores de páginas na internet devem ser obrigados por lei a deletar notícias falsas postadas em suas páginas das quais venham a tomar conhecimento.”
Abaixo à direita: “A vacinação de crianças contra determinadas doenças deve ser obrigatória.”

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Após responder a cada pergunta, a lista de perguntas aparece, com as suas respostas, para você escolher quais assuntos são prioritários para você. Você pode clicar nas flechinhas do lado das perguntas para ver direitinho qual era a pergunta. Clicando na pergunta ela fica amarelinha e assim marcada como prioritária. No exemplo acima aparecem as quatro últimas perguntas da lista:

35 – Os pais devem ter direito legal a escola em período integral até o final da escola primária. – foi uma pergunta com a qual concordei e coloquei como prioritária.
36 – A menção a Deus na constituição deve permanecer – Discordei mas não coloquei como assunto prioritário
37 – Na Alemanha deve haver uma renda básica incondicional – coloquei como neutro
38 – O trabalho em conjunto com os outros países da união européia deve ser reforçado – outra pergunta com a qual concordei e coloquei como prioritária.

Para ver a sua identificação com os partidos, você tem que escolher quais partidos te interessa conhecer, até 8. Dá pra ver todos, é só voltar e escolher outros. Acho que o limite de 8 é só pra não ficar muito confuso com um resultado mostrando 32 partidos. À esquerda, a tela em que você escolhe os partidos, os quatro de cima são os que estão atualmente no parlamento. Daí a próxima tela mostra a porcentagem de respostas que batem com cada partido que você escolheu. Clicando nos partidos aparece um textinho resumindo quais os ideias daquele partido, e um link para você ler mais sobre o mesmo.

Depois de ver seus resultados, você pode ainda olhar as respostas e justificativas de cada partido para cada pergunta. É provavelmente a parte mais importante do aplicativo, pq a justificativa da resposta pode te fazer repensar a sua própria opinião a respeito.

É importante frisar que esse aplicativo não é suficiente pra definir em quem você deve ou não deve votar. Ele é só um instrumento para te dar mais informações sobre como pensa cada partido. Na discussão política é sempre importante estar aberto para ouvir as diferentes opiniões antes de sair definindo a sua sem nenhuma informação, só baseado num feeling qualquer que você tem a respeito do assunto. Então apps como esse devem ser utilizados com certo cuidado. Mas é um instrumento legal para deixar as pessoas mais interessadas em discutir os assuntos políticos importantes do momento. Além disso, como as votação não é obrigatória aqui, é sempre uma discussão importante a questão: como encorajar o maior número de eleitores possível a comparecer às urnas. E esse aplicativo ajuda um pouco com isso. Como ele é divertidinho de usar, interface simpática, esquema simples de entender, dá vontade de ir respondendo às perguntas e ver o resultado (Aposto que todo mundo que tá lendo esse post – mesmo quem nem tem nenhuma noção de política na Alemanha – já foi correndo baixar pra brincar também, hehe!). E aí ver que tem partidos que concordam com você em determinados assuntos pode ajudar a encorajar às pessoas mais desinteressadas em política ou mais frustradas com a política a irem votar.

Pra quem está lendo e foi correndo ir ver o seu resultado, lembre-se de não levar isso muito a sério – a maior parte das perguntas, pra você ter alguma noção real dos vários fatores involvidos, você precisa estar morando na Alemanha há vários anos e estar super por dentro da política daqui. Sem isso metade das perguntas não vai nem fazer sentido. Mas que seria legal um aplicativozinho assim pras eleições no Brasil, bem que seria! Ou será que só ia dar treta?

Pra escrever esse post eu li sobre o funcionamento e organização desse aplicativo no artigo “The Impact of Voting Indicators: the case of the German Wahl-O-Mat” de Stefan Marschall e Christian K. Schmidt, disponível aqui.


(Publicado em 10 de Setembro de 2017)

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Casamento igualitário na Alemanha?

Uma coisa grande e inesperada aconteceu essa semana na Alemanha. O parlamento alemão decidiu votar amanhã, sexta feira dia 30 de Junho, a legalização do casamento de casais homossexuais na Alemanha.

Pois é, por incrível que lhe possa parecer, a Alemanha ainda está atrasada nesse sentido!

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O mapa acima mostra, em verde escuro, os países em que o casamento é permitido a quaisquer duas pessoas que queiram se casar, e, em verde claro, os países onde casais de mesmo sexo podem firmar uniões civis, mas não se casar. E em branco, os países em que casais de mesmo sexo não são reconhecidos pelo estado.

Para ser justa, a União Civil permitida aos casais de mesmo sexo na Alemanha (se chama Lebenspartnerschaft) é realmente muito próxima, em termos de direitos, de um casamento. Mas “quase tantos direitos quanto” não pode ser suficiente numa sociedade moderna que se orgulha em dizer que neste país todas as pessoas são iguais e têm os mesmos direitos. E o direito que casais de mesmo sexo não têm ainda na Alemanha também não é qualquer coisinha sem importância: é o direito de adotar, juntos, uma criança.

Hoje um casal homossexual não pode adotar uma criança aqui. Porém um dos dois pode adotar sozinho. Antes que você diga que isso é quase a mesma coisa, se só um dos dois adota significa que o outro não tem nenhum direito (nem dever) sobre a criança. Ou seja, se o pai ou mãe adotivo morre, o outro pai ou mãe não pode ficar com a criança. Se o casamento terminar em divórcio, a parte que não é pai/mãe adotivo não tem direito nenhum de custódia ou visita da criança adotada. E o pai ou mãe adotivo têm que arcar sozinho com os custos da criança, já que a outra parte não precisará pagar pensão. Isso sem nem falar de outras situações menores das responsabilidades mais burocráticas do dia-a-dia de um pai com seu filho que não poderiam ser divididos entre os dois. Adotar sozinho é uma opção que nem de longe substitui o direito de adoção pelo casal.

Curioso é como a decisão pela votação de amanhã se desenrolou. O reaparecimento dessa pauta no parlamento era, claro, só uma questão de tempo. Os países ocidentais vêm gradualmente legalizando o casamento igualitário nos últimos anos, começando em 2000 com a Holanda, e nessa ordem Bélgica, Espanha, Canadá, África do Sul, Noruega, Suécia, Portugal, Islândia, Argentina, Dinamarca, Brasil, França, Inglaterra, País de Gales, Escócia, Luxemburgo, EUA, Irlanda, Colômbia e Finlândia, em março de 2017. Independente do resultado de amanhã, é só uma questão de tempo até a Alemanha entrar nesse barco. E os partidos que seguem linhas progressistas (leia esse post aqui pra saber quem é quem no parlamento alemão) já defendem há anos a legalização, que só não aconteceu ainda por oposição do partido do governo, conservador, a CDU.

A chanceler Angela Merkel (CDU) era abertamente contra a legalização do casamento igualitário até a segunda-feira passada, quando, em um debate em Berlim, a chanceler fez declarações que deram a entender que sua posição contrária ao direito de adoção por casais de mesmo sexo estaria mudando depois que ela conheceu um casal de lésbicas em Mecklenburg-Vorpommern, que há anos acolhe temporariamente (é um esquema de “adoção temporária” que não sei se existe no Brasil, basicamente um casal acolhe uma criança que tem casa mas precisa temporariamente ser tirado da guarda dos pais para se afastar de situações de abuso) crianças provenientes de famílias abusivas. Atualmente, o casal abriga 8 crianças em sua casa. De ser abertamente contra, Merkel se posicionou de maneira a defender que, numa eventual votação parlamentar, os parlamentares votem de acordo com sua consciência em vez de seguir a linha do partido.

Pode parecer (e de certa forma é) uma coisa pequena, mas essa declaração abriu o espaço para que os partidos conservadores não votassem de acordo com a posição do partido, e abriu espaço para a SPD, o Die Grüne (partido verde) e o Die Linke (partido de esquerda) – que são os partidos que apoiam a legalização, e, juntos, têm maioria no parlamento – conseguissem incluir a pauta na votação de sexta.

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O motivo pelo qual esses partidos que são a favor não conseguiram ainda colocar esse assunto em votação é que a CDU e a SPD estão em coalizão desde as últimas eleições. A CDU, tendo conseguido o maior número de assentos no parlamento, é o partido do governo, mas não tendo conseguido maioria tem que fazer coalizão com outros partidos para ter maioria. Um governo com coalizão entre SPD e CDU é a alternativa mais meio-termo possível, já que a SPD é o partido de centro-esquerda e a CDU, de centro-direita. Uma coalizão entre os dois resulta num governo de centro, mas significa que os dois têm que abrir mão de determinadas pautas para entrar em acordo. Portanto, apesar de os partidos a favor da legalização serem maioria, não era possível votar o assunto sem antes entrar em acordo com a CDU.

A decisão de votar essa pauta na sexta-feira foi, na verdade, uma decisão um tanto arriscada por parte da SPD, pois foi baseada apenas nas declarações da chanceler, e não num acordo com a CDU. O que significa que parte da CDU acusa a SPD de quebrar a coalizão, ao que a SPD contra-argumenta que, se o voto vai ser por consciência (a CDU, seguindo as declarações da chanceler, definiu que seus parlamentares poderão votar como desejam, e não necessariamente segundo a linha do partido), não é uma quebra da coalizão. Mesmo as declarações dessa semana de Merkel fazem parte do jogo político: Em setembro são as eleições para o parlamento, e é amplamente sabido que por volta de 82% da população alemã aprova o casamento igualitário.

E a grande pergunta que não quer calar: quais são as chances da lei passar?

Como comentei ali em cima, os três partidos que há vários anos defendem fortemente o casamento igualitário têm, juntos, maioria no parlamento. Entre parlamentares desses três partidos, é bem improvável que haja qualquer voto contra. E além disso espera-se que por volta de 1/3 dos parlamentares da CDU também votem a favor. Ou seja, as chances são boas de que amanhã a Alemanha finalmente se junte à lista de países onde casais homossexuais têm os mesmos direitos de casais heterossexuais. Mas o futuro é sempre imprevisível, então a comemoração vai ser só depois do resultado positivo!

E uma vez definido o resultado, vou editar esse post com as informações sobre a votação e o resultado. Por hora, ficamos na torcida!


Edit: Foi aprovado! Com 63% dos votos a favor, o parlamento alemão aprovou hoje de manhã o casamento entre pessoas de mesmo sexo! Um assunto que me é tão caro merece um post detalhado, então hoje mais tarde publicarei um post sobre como foi o debate no Bundestag, sobre a votação e resultado, e sobre os próximos passos!

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(Publicado em 29 de Junho de 2017)