empregos

A pirâmide social alemã

Um tópico sugerido por uma amiga que eu achei interessante para discutir aqui é sobre os empregos que não exigem qualificação acadêmica. Eu já escrevi, bem no começo do blog, sobre empregos que não existem na Alemanha. Em um país onde a desigualdade é uma das mais baixas do mundo (12˚ lugar de acordo com o índice de GINI que mede a desigualdade dos países), empregos com baixos salários e que não exigem alta qualificação são bem menos numerosos. Um texto muito interessante (e já extensivamente compartilhado em redes sociais) sobre o assunto da desigualdade nos países europeus é esse, escrito por um brasileiro que mora em Amsterdam.

Mas vamos ao assunto. Quem faz os trabalhos com menores salários, na Alemanha?

Vários empregos são ocupados majoritariamente por estrangeiros. Peões de obra, por exemplo, especialmente na ex-Alemanha Oriental, são em sua grande maioria poloneses. Na Alemanha Ocidental, turcos. Outras ocupações empregam esses mesmos grupos, como lixeiros e trabalhadores rurais.

Já para ocupações relacionadas a atendimento – caixa de supermercado, atendentes em padarias, garçons em restaurantes – que para a gente no Brasil estaria no mesmo patamar de salário dos peões de obra, a situação é um tanto diferente. Em cidades como Dresden, com poucos estrangeiros (em relação ao resto da Alemanha), mas em que mesmo assim as obras são realizadas em peso por poloneses, os empregos de atendimento são ocupados principalmente por alemães.

Mas entre esses empregos também há uma diferença: enquanto, por exemplo, atendendo em uma padaria ou dirigindo um ônibus você vai encontrar alemães de diferentes idades, garços e garçonetes de restaurantes e cafés são na maioria jovens de menos de 30 anos.

Essa breve descrição mostra então três “níveis” de empregos de baixa-qualificação, e que, no Brasil, estão mais ou menos na mesma linha: Trabalhos pesados braçais, ocupados por estrangeiros; garçons e garçonetes, ocupados por jovens alemães e outros empregos gerais de baixa qualificação, ocupados por alemães em geral.

Por que a diferença?

Acontece que por aqui, mesmo um emprego que exige baixa-qualificação é razoavelmente bem pago. Esse ano mesmo o governo alemão aprovou o salário mínimo de 8,50 euros por hora, o que corresponde a aproximadamente 1360,00 euros por mês em um trabalho de período integral. 1360 euros, como você pode imaginar, é dinheiro suficiente para uma vida decente por aqui. Somando ainda extras que você recebe do governo alemão, por exemplo, se tiver filhos, um emprego em período integral que pague o salário mínimo é suficiente para morar num lugar bom, sustentar os filhos, opções de lazer, compras necessárias e algumas desnecessárias, e assim vai. Vejo esse salário mínimo não como “o mínimo salário que alguém pode pagar”, mas como “o mínimo salário que alguém pode receber”. Por isso esses empregos gerais são ocupados por alemães diversos de várias idades. Para quem escolhe não continuar a educação em uma instituição de ensino superior (leia aqui como funciona o sistema educacional alemão), as opções são suficientes e proporcionam vidas dignas.

A diferença dos garçons e garçonetes é que não são empregos vistos como duradouros, digamos assim, não são vistos como profissões. A maioria desses cargos são ocupados por estudantes universitários aproveitando as horas livres para ganhar um dinheiro extra durante os estudos. Essas ocupações são no geral mais flexíveis e pagam por hora.

E, finalmente, na base da pirâmide social, empregos braçais. Esses, sim, são última alternativa. Além dos malefícios para a saúde que essas profissões causam a longo prazo, empregos como trabalhador rural e trabalhador em canteiro de obras são por temporada: não existem no inverno. Os imigrantes que ocupam esses cargos são normalmente pagos salários bem abaixo daqueles que recebem os alemães (mesmo alemães exercendo a mesma função), mesmo trabalhando aqui legalmente. 3 ou 4 euros por hora, são porém salários mais altos que receberiam nos seus países de origem (mesmo no caso da Polônia, ainda sendo um país vizinho), e por isso continuam atrativos. Mas, para os alemães, tais empregos com piores conseqüências para o corpo e a saúde, são de fato última alternativa.

(Ironicamente, na Suiça os alemães é que são a mão-de-obra barata)

Vale ainda fazer uma pequena observação a respeito de estrangeiros na Alemanha. Embora os empregos menos desejados por alemães sejam ocupados majoritariamente por estrangeiros, não significa que a maioria dos estrangeiros ocupem tais empregos por aqui. Na verdade, de acordo com uma pesquisa recente, a população de origem não-alemã, na Alemanha, é em média mais qualificada que a população alemã. O que também não significa que tendo um doutorado você tem entrada livre no mercado de trabalho alemão, muito pelo contrário. Já escrevi um pouco sobre a aceitação dos alemães aos imigrantes aqui, mas para resumir: a língua é uma barreira difícil de transpor, e a “desconfiança” dos alemães por profissionais estrangeiros é, infelizmente, ainda bem alta.


(Publicado em 7 de Novembro de 2014)

 

Empregos que não existem na Alemanha

Aí vai uma lista de empregos que não existem na Alemanha. Se você trabalha em qualquer uma das áreas abaixo e pretende vir morar na Alemanha, fique avisado que sua experiência não terá valor! Vai pensando em outra carreira…

Frentista – Precisando reabastecer o carro, pode esquecer a ajuda. Melhor já ir descobrindo onde que fica o tanque e como que usa a bomba de gasolina que aqui ninguém vai fazer isso pra você!

Porteiro de prédio residencial – “Deixa com o porteiro se eu não estiver em casa” é uma frase que você nunca precisará saber em alemão. Os prédios residenciais não têm porteiro, quem recebe as cartas são as caixinhas de correio com o seu nome na entrada do prédio, e quem abre a porta para a visita é você apertando o botão do interfone. Aliás, detalhe interessante: normalmente você usa uma única chave para abrir o portão do prédio, a porta do prédio, a porta do porão com os depósitos dos apartamentos, a porta da garagem de bicicleta, e a porta do seu próprio apartamento. Ainda assim, a sua chave não abre o apartamento do vizinho. Hi-tech!

Cobrador de ônibus – Sua passagem você compra na maquininha de passagens no ponto ou estação, e carimba na maquininha dentro do ônibus/tram/metrô ao entrar. Se não carimbar, viaja de graça. A não ser, claro, que entre o fiscal no seu ônibus para fiscalizar as passagens de todo mundo. A multa por não carimbar o bilhete, se você for pego por um fiscal, é de 40 euros. Não adianta tentar fazer as coisas a la Brasil, eles calculam a quantidade de fiscalizações necessárias para que, estatisticamente, não valha a pena o risco de não carimbar. Tudo bem alemão.

Entregador de sofá – sei lá, não precisa ser só sofá. Mas aqui, se vc compra alguma coisa numa loja, você é que se vira para levar pra casa. De um gato a um piano de cauda, não é muito comum as lojas oferecerem serviço de entrega. Ok, talvez pro piano de cauda, que é um artigo mais específico, mas para trazer o sofá que compramos outro dia, precisamos alugar uma van e ir na loja buscar.

Os caras da mudança – Ok, não é que não existe. Dá para contratar uma empresa para fazer a sua mudança. Mas é super caro e bem incomum, mais para famílias maiores e casas grandes. Se você for estudante, ou um casal novo morando junto num apartamento, ou enfim uma pessoa jovem sem rios de dinheiro para distribuir, é normal você fazer a sua mudança por conta própria. Alugue uma van por um dia, escale alguns amigos e amigas fortes e energéticos, e ponha-se a carregar móveis pra cima e pra baixo!

Empregado doméstico – Tudo bem, existe também pessoas que você pode contratar para limpar sua casa um dia ou outro. (Aliás, aqui não é nada incomum a pessoa da limpeza ser um homem) Mas ter alguém que vá todos os dias arrumar sua cama e lavar sua louça, esquece. Pode ir descobrindo como funciona a máquina de lavar roupa. E esse negócio de “ajudar” a esposa a limpar a casa, só se você tiver mais de 40 anos. Aqui os homens não “ajudam”, eles fazem metade da limpeza e cuidados da casa que é de obrigação de todo mundo que lá mora.

Manobrista – Pfffffff…. esquece.

Ok, esses são só alguns exemplos. Aliás, são também empregos que provavelmente serão mais e mais raros no Brasil também, com o preço da mão-de-obra subindo para, imaginem, salários justos, e tal! Enfim, seja como for, o fato é que os europeus não são nada preguiçosos, por aqui você não contrata ninguém para fazer coisas que você pode fazer sozinho! Nada mal!


(Publicado em 17 de Março de 2013)