casas alemãs

Abrindo e fechando portas

As vezes são as pequenas coisas e pequenos costumes bobos que são os mais difíceis de mudar. Você pode passar anos num local onde todo mundo faz determinada coisa do jeito A, tentar fazer as coisas do jeito A, mas acabar sem querer fazendo do jeito B toda vez.

Uma coisa desse tipo, pra mim, é abrir e fechar portas. Eu sei, eu sei, “Ué, tem jeitos diferentes de abrir e fechar portas?”, você está se perguntando.

Mais ou menos.

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Uma diferença a respeito das portas, aqui, é que quando vc fecha a porta, ela tranca sozinha. A fechadura funciona de um jeito que você só conseque abrir por dentro. Por fora precisa sempre de chave. Nem todas as portas de entrada são assim, mas a grande maioria é.

O que significa que você só usa a chave pra trancar a porta quando você está saindo e deixando a casa vazia. Se tiver alguém dentro, você só fecha desse jeito. E você nunca tranca a porta por dentro, nunca nunca. Até porque o objetivo desse sistema é segurança: você poder sair correndo de casa no caso de uma emergência ou incêndio, não precisar ficar procurando chave pra poder abrir a porta e correr pra fora. Faz todo sentido.

Mas isso resulta num costume diferente em relação a abrir e fechar portas que é: quem fecha ou abre a porta quando duas ou mais pessoas entram juntas num local.
Veja só: quando o normal é trancar a porta por dentro depois de entrar num local, ou trancar por fora com chave ao sair, normalmente a pessoa que abre a porta é a mesma que fecha. Porque se ela abriu a porta, ela está com a chave na mão. Então o normal, no Brasil (e a gente nem percebe que é assim) é a pessoa que está com a chave abrir a porta, sair, esperar fora enquanto as outras pessoas saem, e então trancar a porta depois de todo mundo. A pessoa que abriu a porta é a pessoa que fecha a porta, essa é a regra.
Só que aqui, quando você está saindo de um local, você nem precisa pegar a chave. E quando vc está entrando, você só precisa da chave na hora de abrir a porta. Logo, o normal é que quem for o último a passar pela porta é que fecha a mesma. Porque que a primeira pessoa que passou pela porta ficaria esperando pra fechar a mesma, se pra fechar é só puxar?

Isso parece uma bobeirinha, mas é um costume estranhamente enraizado nos pés. Quase sempre quando eu passo por uma porta por último eu deixo ela aberta subconscientemente achando que a pessoa que abriu é que vai fechar! E os alemães – não sabendo do por quê disso – sempre acham muito estranho quando eu faço isso. O meu namorado desde o começo brinca que eu nasci num metrô. Demorou pra eu enteder o que ele queria dizer… mas é porque no metrô as portas fecham automaticamente… rsrsrs

E embora eu saiba, conscientemente, que se for a última a passar pela porta devo fechá-la, várias vezes eu, distraída, esqueço. Essa semana mesmo isso ocorreu com colegas do escritório quando saímos pra almoçar. Eu passei e deixei a porta aberta – distraidamente – e minha colega ficou confusa achando que estávamos esperando mais alguém e por isso que eu tinha deixado a porta aberta!

Na hora fatídica de passar pela porta eu sempre me pego pensando “opa! quem que fecha a porta, mesmo? a pessoa que abriu ou a pessoa que saiu por último?”. Eu acho incrível como a gente fica tão profundamente acostumado com uma coisinha tão pequena e boba!

Mas embora eu ainda faça isso “errado” aqui, certamente quando for ao Brasil de novo vou fazer errado lá também…

É isso, então lembre-se sempre de fechar as portas pelas quais você for o último a passar pros alemães não te acharem estranho!

Nesse post aqui eu falei sobre chaves e sistemas de fechaduras usados na Alemanha. Tem uns bem high-tech.


(Publicado em 12 de Maio de 2017)

Casas quentinhas

Essa semana o inverno chegou. (em vários sentidos, inclusive)

As temperaturas caíram bem e ontem, aqui em Dresden, veio a primeira neve da estação. Enquanto eu aproveitava o ar quentinho vindo do aquecedor durante o trabalho, percebi que ainda não escrevi muita coisa sobre aquecedores e tal. Ou melhor, sobre como que as casas ficam quentinhas no inverno, aqui.

No Brasil é comum a gente ouvir que alguns europeus passam mais frio no Brasil que na Europa porque fica gelado dentro de casa enquanto aqui tem aquecedor no inverno. Mas na verdade não é simplesmente o aquecedor que faz a casa ficar quentinha. Tem toda uma série de particulares das casas e prédios aqui que os mantém quentinhos no inverno.

É basicamente uma combinação de dois fatores: aquecimento e isolamento.

Pra isolar uma casa ou prédio da temperatura exterior, ele tem que ser completamente fechável. Quer dizer, não pode ter nenhuma frestinha constantemente aberta, como as casas brasileiras têm. Tipo aquela frestinha embaixo da porta de entrada em que as pessoas às vezes colocam uma borrachinha pra não entrar barata por ali, ou a frestinha que normalmente tem em janelas de correr entre as duas folhas? Aqui não dá pra ser assim, as portas e janelas têm que ser de uma qualidade melhor, bem mais isoladas, pra não deixar o ar quente sair. Além da ausência de frestinhas, os vidros são sempre duplos. Em algumas casas mais antigas, inclusive, não é incomum que tenham duas janelas, uma na frente da outra. Tipo no escritório onde eu trabalho:

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São duas janelas, mesmo, simplesmente. Isso certamente porque em algum momento do passado tinha só uma, aí pra melhorar a eficiência energética da casa hoje instalaram a segunda janela na frente, pra evitar a perda de calor para o exterior.

Em locais públicos a porta também é uma questão a ser resolvida. Numa loja, por exemplo, ou num shopping, a porta é aberta com muita freqüência, então o calor pode ser perdido muito facilmente pelas portas. Por isso que nesses lugares há sempre duas portas. Uma porta, aí um pequeno hall, e uns 2 metros mais pra frente, a segunda porta. E no espaço entre as duas, um aquecedor bem forte, de maneira que o ar no interior do edifício está sempre quentinho.

É aliás pra isso que existe porta giratória. Justamente pq aí a porta está sempre fechada, mesmo quando tem gente entrando. Claro que o ar quente tb sai dessa maneira, mas bem menos que em uma porta normal. Mas portas giratórias não são muito comuns por aqui, quando tem são umas bem grandes que cabe várias pessoas ao mesmo tempo. Isso porque essas portas giratórias (são bem mais comuns na américa do Norte) são pouco práticas em termos de fluxo de pessoa – você tem que esperar a sua vez de entrar e em locais com muito movimento às vezes acaba criando uma filinha atrás da porta.

Em locais menores com bastante movimento de pessoas, como restaurantes, é relativamente comum ter uma segunda porta “improvisada”. É basicamente um cubiculozinho feito de cortinas: vc entra pela porta de entrada nesse cubiculozinho de cortinas e aí passa pela cortina pra dentro do restaurante. Isso evita que o ar geladão lá de fora entre e incomode as pessoas que tão sentadas perto da porta comendo.

E além das janelas e portas, as paredes também têm que ser construídas de maneira a isolar o interior termicamente. Isso é feito com a adição de algum material isolante à construção da parede, normalmente é ou isopor ou lã mineral. É por isso, aliás, que vários edifícios (não todoss) são assim:

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O material isolante fica no exterior da parede, e como o porão não precisa ser isolado, porque não precisa ser aquecido, é comum que o isolamento não chegue no chão. Pela presença do isolamento também que as paredes externas aqui são bem mais grossas do que a gente está acostumado no Brasil, algo por volta de 45cm de espessura. O material isolante tem que estar não apenas nas paredes, mas também no telhado e no piso. A casa inteira tem que ser isolada de todos os lados em todas as direções. Só assim pra ficar bem quentinho lá dentro.

Então um edifício seguindo as idéias do modernismo brasileiro – todo aberto sem portas, como é o caso da Faculdade de Arquitetura da USP, a FAU – nunca ia rolar, aqui!

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Os arquitetos alemães bem que sentem uma invejinha de não poderem construir algo desse tipo!

Ah, e toda essa conversa sobre ar quente que sai e ar frio que entra também se aplica a outras coisas que não prédios: metrôs, trens e ônibus. Se você já esteve aqui, percebeu que pra entrar nos ônibus ou metrôs, você tem que apertar um botão que abre a porta. A porta fica sempre fechada, só abre quando algum passageiro aperta o botão pra entrar ou sair. Então se você pára em uma estação e ninguém desce ou sobe, a porta continua fechada. Se você pára em uma estação onde tem só uma pessoa, só a porta que essa pessoa for usar abre. Pra gente que não está acostumado, é meio confuso no começo: você fica de pé ali na porta esperando ela abrir até se tocar – ou alguém te avisar – que você tem que apertar o botão. Mas aí quando chega o inverno você entende exatamente porque é assim: cada vez que alguém entra ou sai do metrô ou ônibus pela porta mais próxima de você, você xinga a pessoa mentalmente por fazer o ar geladão lá de fora entrar, rsrsrsrs.

Mas claro, isolar não adianta se não tiver como aquecer o interior. Aí que entra o aquecimento. Normalmente os aquecedores daqui têm essa cara:

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Eles funcionam da seguinte maneira: a água é aquecida (normalmente a gas) no porão e distribuída pelos apartamentos por encanamentos que então chegam nesses aquecedores. O aquecedor mesmo é basicamente vários canos um do lado do outro por onde passa a água quente.

Esses aquecedores são reguláveis:

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Tem níveis de 1 a 5, 5 sendo o mais quente. 1 e 2 você basicamente só usa pra quando você vai ficar fora do cômodo mas quer que o cômodo ainda esteja aquecido quando você voltar. Por exemplo no escritório a gente deixa os aquecedores no 1 durante a noite pra não estar super gelado lá dentro quando voltamos no dia seguinte. Normalmente enquanto você está no cômodo vc deixa no 3, e só coloca no 5 quando está gelado e você quer esquentar o cômodo rapidinho.

Em casa, é importante lembrar de desligar os aquecedores quando você não estiver em casa ou não estiver usando determinado cômodo. O preço do aquecimento pelo ano inteiro vêm só no ano seguinte e na primeira vez, se você não prestou atenção, você vai se assustar com o preço salgadíssimo do gás e da água!

Em alguns prédios mais antigos, tem aquecimento a carvão: aí tem basicamente um forno em cada cômodo onde você queima o carvão. É um método antigo e bem menos eficiente de aquecer, mas andando pela rua em bairros com muitos prédios antigos você freqüentemente sente o cheiro típico do carvão queimado (é bem gostoso, na verdade, pq é um cheiro que te remete muito a inverno, alemanha, natal, sei lá. Já até escrevi um post sobre isso aqui.)

Como os pontos mais “vulneráveis” de qualquer casa ou edifício em termos de eficiência térmica são justamente as vidraças, é sempre logo abaixo da janela que fica o aquecedor. Ou, quando a janela vai até o chão, logo ao lado. Assim:

Você vai notar, se a sua casa tiver cômodos sem janelas (o banheiro, por exemplo), que esses cômodos raramente precisam de aquecimento. É o caso do nosso banheiro, que tem um aquecedor que nós nunca em mais de 4 anos morando aqui precisamos ligar. Ele tem até aquecedor no piso, que nós também nunca ligamos porque o banheiro nunca fica gelado, já que ele fica no meio de outros cômodos aquecidos.

Ah, e se você tiver um carro por aqui, ele quase com certeza terá aquecimento nos bancos! Sim, o banco fica quentinho! É a melhor coisa!

Mas se você usa óculos, você vai se incomodar profundamente cada vez que você entra da rua num ambiente fechado aquecido: o óculos fica embaçado imediatamente, como quando você entra num banheiro onde alguém está tomando banho…

Acho que é isso que há para falar sobre aquecedores e ambientes quentinhos, exceto pelas várias outras coisas que eu vou lembrar daqui a 10 minutos!


(Publicado em 13 de Novembro de 2016)

IKEA, parte 2

Um dos primeiros posts desse blog foi sobre a loja de móveis sueca chamada IKEA. Como expliquei naquele post, essa é a loja mais barata para comprar móveis ou coisas pra casa que tem por aqui, e todo mundo conhece.

Uma particularidade dessa loja, que é bem diferente do que a gente está acostumado no quesito compra de móveis no Brasil, é que você mesmo que monta seus móveis. Eles vêm desmontados em caixas surpreendentemente compactas, com todas as peças e manual de montagem. Pra qualquer móvel é assim, você não compra nada montado.

No sábado passado fizemos algumas mudanças no nosso apartamento, jogamos alguns móveis velhos mais toscos fora e compramos alguns novos. Passamos o sábado no IKEA e montando os móveis novos e desmontando os velhos em casa. A gente escolheu aquele sábado meio por caso, desde que voltamos de férias no meio de agosto não tivemos um único fim de semana sem nenhuma visita em casa, então deixamos para esse primeiro fim de semana de outubro – que além de tudo era um fim de semana de três dias por causa do feriado de 3 de outubro (reunificação alemã). Mas coincidentemente muitas outras pessoas também estavam comprando móveis e fazendo mudanças nesse fim de semana. Isso porque em outubro começa o ano letivo das universidades alemãs, então no começo de outubro muitos estudantes se mudam para as cidades onde vão começar a universidade, ou se mudam de um apartamento para repúblicas novas, etc. E compram vários móveis. Além do que todos certamente também acharam o fim de semana de três dias uma data conveniente para mudanças.

Outra coisa importante de saber sobre comprar móveis ou mudar de casa é que por aqui raramente contrata-se uma empresa para fazer a mudança. A solução mais comum é alugar uma van, chamar uns amigos, e fazer a mudança com os próprios braços.

Fizemos isso: Alugamos uma van da empresa CarlundCarla (que aluga vans por períodos curtos (uma manhã, uma tarde ou uma noite)) e fomos até o IKEA buscar nossos móveis novos. Você pode comprar online e ter os móveis entregues em casa, mas o normal é ir comprar na loja. Compramos a cama, um gaveteiro, umas estantes e alguns outros pequenos objetos que estávamos precisando. Também aproveitamos a van para ir buscar um colchão que tínhamos comprado, que foi o único objeto que não veio do IKEA, hehehe. Embora também vendam colchões lá.

Ao descarregar a van, colocamos as caixas todas no hall do lado do nosso apartamento:

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(tem uma cama aí!)

E logo começamos a montar os móveis…

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Colaboração felina não é essencial, mas recomendada!

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Aprovação felina é necessária!

Uma coisa que pode ser necessária, caso você já tenha em mente quais móveis quer comprar, é olhar se eles estão disponíveis na loja que você pretende visitar, e onde encontrá-los na mesma. Essas informações ficam disponíveis no site do Ikea, onde você pode ver quantas unidades daquele móvel têm disponíveis na loja perto da sua casa, e em que estante estão as caixas.

As lojas são organizadas da seguinte maneira: você entra pelo andar de cima, onde estão montados cômodos de exemplo para você ver os móveis montados e experimentá-los. Daí no andar debaixo está o depósito, onde vc encontra primeiro os objetos e depois os móveis. Como os móveis ficam em caixas, lógico, para encontrá-los nas estantes o jeito mais fácil é olhar na internet o número da estante em que está o móvel que você procura, ou usar um dos computadores disponíveis na loja com esse fim. Alguns móveis maiores, como era o caso da nossa cama, ficam guardados no armazém que não tem acesso para o público, de maneira que você tem que pedir para um vendedor, que faz o pedido por um computador e o móvel é trazido para a área pública da loja depois que você paga no caixa.

Certamente não são os melhores móveis do mundo, mas é extremamente prático e os preços são realmente imbatíveis… Casas de pessoas jovens na Alemanha são quase sempre praticamente um catálogo do IKEA!


Publicado em 5 de Outubro de 2016)