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Arquitetura da Paisagem na Alemanha

Estou completando um ano no escritório onde trabalho como arquiteta paisagista, e achei que era uma boa hora de fazer um post sobre o assunto. Eu sou formada em arquitetura e urbanismo e trabalhei um pouco com paisagismo no Brasil. Como é minha área preferida da arquitetura, resolvi me focar nisso por aqui.

E após um ano de experiência na área na Alemanha, já dá pra fazer um post sobre as diferenças – que são muitas – dessa área aqui e no Brasil. Vou dividir o post em quatro partes pra organizar melhor. Alguns pontos valem não só para paisagismo, mas também para arquitetura.

1. Incumbências e responsabilidades do arquiteto paisagista na Alemanha

A primeira grande diferença é que aqui arquitetura da paisagem – Landschaftsarchitektur – é uma área separada da arquitetura. O curso universitário de paisagismo é de 5 anos, como o de arquitetura, e só pessoas formadas nisso é que fazem projetos para espaços livres. Arquitetos nunca projetam espaços livres.

Uma outra diferença importante são os tipos de projetos mais comuns. No Brasil eu fiz muitos jardins, jardim de casas ou mesmo de sacadas. Eram projetos pequenos para pessoas que podiam pagar um arquiteto. Ou ainda jardins de edifícios comerciais. Fizemos também alguns projetos públicos, alguns parques e praças. Mas aqui os projetos de paisagismo são quase todos para espaços públicos. É que basicamente aqui para qualquer espaço livre se contrata um paisagista. Mesmo que seja uma área pequena, mesmo que nem dê para fazer muita coisa ali, sempre se contrata um arquiteto paisagista, porque é ele o responsável por projetar espaços livres e ninguém mais. E os tipos de projeto são bem variados: a gente faz muitas escolas (todas as escolas tem um projeto de paisagismo), áreas livres de edifícios de apartamentos (que são áreas semi-públicas, já que são sempre abertas) e praças. Um tipo de projeto interessante que é responsabilidade de paisagistas são áreas esportivas, quaisquer que sejam. No escritório eu já participei de projetos de campos de futebol, um percurso de BMX e um percurso de Biathlon (ski + tiro ao alvo). Projetos de jardins particulares são raríssimos. Isso certamente porque os alemães gostam de jardinagem e gostam de ter um jardim. Poucos pensariam em contratar um paisagista para fazer o jardim de casa porque preferem fazer isso eles mesmos.

E uma coisa particular do escritório em que eu trabalho é que a gente também faz vários projetos de planejamento da paisagem, que são projetos em escala maior. A maior parte dos escritórios de paisagismo trabalham só com projetos de lugares (Objektplanung) mas alguns fazem também planejamento da paisagem. São por exemplo a parte ambiental de projetos de zoneamento (Bebauungsplan, ou B-Plan), onde se decide coisas como a porcentagem de cobertura arbórea de uma rua ou de uma área verde em planejamento, localização de parquinhos, ou áreas esportivas, ou ainda bacias de retenção de águas pluvias, entre outras infraestruturas urbanas.

2. Burocracias

Essa é a parte boa. A parte ruim desse trabalho aqui é que ele é muuuuuuuito mais burocrático que no Brasil. Isso eu já falei no post sobre Arquitetura na Alemanha (porque vale pra arquitetura e paisagismo), aqui pra cada coisa que você faz tem mil burocracias que vão junto: formulário x, lista y, texto não sei qual, etcetc. Tem uma coisa que aqui se faz para cada projeto chamava Leistungsverzeichnis, abreviado LV. É uma descrição nos mí-ni-mos-de-ta-lhes de tudo que vai no projeto. Tudo. Nos mínimos detalhes. Quando eu digo mínimos detalhes, vc tá pensando “ah, ok, detalhes, tal, tudo bem”. Mas é muito pior do que você está imaginando. Por exemplo, digamos uma parede. Só isso, uma parede. O texto do LV seria algo desse tipo:

“Parede de tijolos, DIN EN 1996, parede externa, 15m²

Largura da parede 24cm
Tijolos de arenito calcário, DIN EN 771-2 em conexão com DIN V 20000-402 ou DIN V 106, KS L-R, classe de resistência 12, Densidade 1,6,
Argamassa MG II a DIN V 18580 ou DIN V 20000-412 em conexão com DIN EN 998-2.”

(os códigos loucos são as normas que especificam detalhes do material da parede, resistência, coisas assim)

Daí se na parede tem por exemplo um vão para uma janela ou uma porta, isso é um texto a parte. O revestimento da parede é um texto a parte. Etcetc. O negócio é todo descrito nos mínimos mí.ni.mos detalhes. É uma coisa meio insana. Isso é o texto que você manda para a construtora para eles calcularem o preço do serviço. Por isso que tem que estar tudo nos mínimos detalhes, porque se não cada coisinha que você não especificar – ainda que seja óbvio e que seja feito sempre assim e que não dê pra fazer de outra forma – a construtora vai aproveitar pra te cobrar extra depois porque eles tiveram que fazer “extra”, já que não estava no seu texto descritivo dos serviços.

Você está se perguntando: mas meu Deus, COMO é que eu vou saber todos esses detalhes???

Basicamente você sempre copia. Ou de outro projeto similar (mudando só as quantidades, claro), ou então tem sites onde você encontra textos modelos para cada tipo de coisa (precisa ter uma conta paga), e assim vai. Quando é alguma coisa mais diferente, que você mesmo projetou assim (por exemplo um banco, uma pérgola, sei lá, algo que você projetou daquela maneira específica), aí você tem que projetar tudo nos mínimos detalhes, mesmo. A descrição acaba sendo fácil quando você pensou tudo até cada parafuso.

Isso é uma coisa que assusta no início, mas você vai aprendendo aos poucos. Os alemães também não se formam sabendo fazer isso não. É uma coisa de aprender na prática.

Outra coisa interessante são as fases do projeto (Leistungsphasen, abreviado LPH). Aqui o projeto é bem precisamente separado em 9 fases, e o tempo todo se faz referência a essas fases. São elas:
1 – Grundlagenermittlung – Avaliação básica: é o levantamento, basicamente. Isso quem faz não é o arquiteto mas um escritório de levantamentos (Vermessungsbüro) que vai no local da obra e mede tudo nos mínimos detalhes.
2 – Vorplanung mit Kostenschätzung – Pré-projeto com estimativa de custo: São os primeiros desenhos do projeto, não muito detalhados, com uma estimativa de custo (seguindo um padrão específico, claro, por motivos de Alemanha).
3 – Entwurf mit Kostenberechnung – Projeto preliminar com cálculo de custos: o projeto um pouco mais detalhado, com um cálculo de custos um pouco mais detalhado.
4 – Genehmigungsplan – Projeto da prefeitura (o projeto para aprovação na prefeitura, ou nos órgãos de licenciamento que forem necessários).
5 – Ausführungsplan – Projeto executivo, com todo o detalhamento necessário.
6 – Vorbereitung der Vergabe – Preparação das orçamentos. Aqui é que vem o LV, que é o documento enviado para as diferentes empresas com quem se quer fazer um orçamento para a construção. Eles colocam o preço para cada item e te entregam então a oferta final.
7 – Mitwirkung der Vergabe – Comparação dos orçamentos. Tendo recebido orçamentos de diferentes empresas de construção, o arquiteto compara e escolhe a empresa que será contratada para a execução do projeto (normalmente a que ofereceu o serviço pelo preço mais baixo, claro).
8 – Objektüberwachung – Acompanhamento da obra
9 – Objektbetreung – Gestão da obra, ou tudo o que precisa ser feito depois que a obra fica pronta: checar as faturas das firmas que foram contratadas para a construção, verificar se tudo foi feito direitinho, contatar as firmas pra corrigirem eventuais erros ou coisinhas que ficaram faltando, etc…

 Dessas 9 fases você ouve falar o tempo todo, todo mundo sabe qual é qual, em qual delas o projeto está, etc. E isso vale não só pra projetos de paisagismo, claro, mas para qualquer projeto de construção. Raramente um escritório de arquitetura faz só o projeto sem a obra, por exemplo. Normalmente o mesmo escritório faz a obra inteira em todas as suas 9 fases.

3. Detalhamento e execução

Mas toda essa precisão e detalhamento tem seu lado postivo. As coisas aqui são Executadas! De Acordo! Com O Projeto! Direitinho! Bonito! Bem Feitinho!
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Não quero ser aquela pessoa que fica “ui, porque olha que lindo aqui na Alemanha, imagina no Brasil…”, mas gente. Olha que lindo isso, sabe! Imagina no Brasil? As fotos acima são uns detalhes de um espaço livre de uma escola pública, sabe. Nem tudo é lindo na Alemanha, mas a execução perfeita dos projetos de arquitetura é sim!
Outra coisa um tanto invejável é o mobiliário urbano usado por aqui. Os bancos são bonitos, bem acabamos, com materiais bons. Seria impensável colocar numa praça pública aqui aquele banco horroroso de concreto comum em pracinhas em cidades pequenas do Brasil.
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Mobiliário urbano em uma praça

E antes que digam “ah, mas eles têm dinheiro pra gastar com isso”, é importante notar que esses detalhes bem feitos nem sempre é uma questão de dinheiro. É claro que um banco mais bonito custa mais caro que um bloco de concreto tosco no formato de banco. Mas aqui também se procura manter o preço da execução o mais baixo possível, especialmente quando se trata de um espaço público. Não é diferente. A diferença é o que é o “mínimo aceitável”. É muito mais uma questão de prioridades do que de preço. Não tô dizendo que no Brasil rolaria fazer os projetos tão bonitos e bem executados que aqui pelo mesmo preço que a gente paga normalmente pela reforma de um espaço público lá, mas que se a estética do espaço público não fosse vista como algo de pouca importância, não seria tão difícil para arquitetos executarem projetos melhores. Porque a estética do espaço público é extremamente importante, um espaço livre bem projetado e bem executado – mesmo que simples – faz muita diferença na qualidade de vida das pessoas que passam por ali diariamente.

4. Plantas

Mas porque nem tudo são flores – literalmente – ainda resta um assunto para discutir quando se fala de arquitetura da paisagem: as plantas.
Talvez a parte mais frustrante de ser arquiteto paisagista aqui – em relação ao Brasil – são as plantas. As plantas, mesmo, árvores, arbustos, forrações, flores, etc.
Árvores até vai, tem bastante árvores bonitas, aqui, e uma diferença legal é que no outono elas ficam todas amarelas e laranjas e algumas vermelhas e isso é maravilhoso.
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Na primevera algumas árvores ficam todas floridas, como as cerejeiras, e isso também é bem bonito:
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Mas não tem árvores que ficam totalmente amarelas ou roxas de flores como nossos ipês, ou totalmente vermelhas como nossas eritrinas entre várias outras. E o legal do Brasil é que as nossas árvores florescem o ano todo – quer dizer, em todas as épocas do ano sempre tem alguma espécie de árvore que está florescendo. Aqui é só na primavera que elas florescem, no verão está tudo verde, no outono fica tudo amarelo e marrom, e no inverno, tudo seco e sem folhas. Sinto falta dessas árvores:

Mas o que decepciona mesmo são os arbustos e forrações muito sem graça. O que mais me chateia é a ausência de plantas com folhas grandonas, bonitas e bem verdes. Aqui os arbustos tem meio cara de coisa seca, de mato, sei lá. Fiquei aqui procurando uma foto de algum exemplo e nem achei pq acho que nunca nem me deu vontade de fotografar. Até dá pra fazer umas coisas bonitas, mas nem se compara às nossas plantas tropicais:

Essas plantas tropicais com folhas gigantes e maravilhosas você só encontra aqui em vaso dentro de casa (e alemão adora ter planta em casa, aliás). Inclusive várias espécies que a gente tem em jardim aqui eles têm em vasos. Porque ao inverno lá fora só planta feia sobrevive.

Acho que é isso o que tem para ser dito sobre arquitetura da paisagem na Alemanha. Agora estou de férias para o Natal, mas quando voltar ao trabalho pego alguma foto de uns arbustos sem graça pra colocar aqui de comparação, rsrsrs.

Esse mês quase não postei nada, mas vamos ver se as breves férias ajudam. Para amanhã tenho planejado um post bem legal sobre espírito de Natal!


(Publicado em 23 de Dezembro de 2016)

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Dinheiro, empréstimos e aluguéis

Hoje por acaso me deparei com um artigo muito interessante sobre o porquê de os alemães quase sempre pagarem tudo com dinheiro. Vários aspectos da cultura alemã apontados no artigo são coisas que eu já tinha notado e estranhado logo de início, e por isso achei que seria uma boa escrever um post sobre o assunto, baseado nesse artigo e nas minhas experiências pessoais por aqui.

No Brasil paga-se quase tudo com cartão. Enquanto estava lá eu raramente carregava mais que 20 reais na carteira uma vez que QUALQUER lugar aceita cartão. Os motivos são vários: é muito mais prático não precisar lembrar de tirar dinheiro, as pessoas se sentem mais seguras carregando menos dinheiro – para o caso de serem assaltadas ou furtadas – e tem ainda o conforto de não “ver” o dinheiro sendo gasto: quando você tem o dinheiro na carteira e vê ele diminuindo, é bem mais difícil gastá-lo.

Mas na Alemanha o contrário é o normal: Aqui se paga muito mais com dinheiro que com cartão. Tem que lembrar de carregar dinheiro porque muitas lojas e restaurantes nem sempre aceitam cartão de crédito. A porcentagem de pagamentos realizados em dinheiro na Alemanha chega a 82%, bem maior se comparada, por exemplo, ao valor nos Estados Unidos: 46%. Eu não sei qual é essa porcentagem no Brasil, e imagino que seja difícil comparar países desenvolvidos com países em desenvolvimento nesse quesito. Mas imagino que pelo menos em São Paulo seja um valor parecido ao dos Estados Unidos.

O artigo sugeria alguns motivos para essa preferência forte por pagamentos em dinheiro aqui:

1. Ter uma noção dos gastos
Assim como a gente (ou eu, pessoalmente) prefere pagar com cartão pra não sentir tanto o dinheiro indo embora, para os alemães o contrário é o motivo: eles preferem ter uma noção dos seus gastos para ter um controle sobre os mesmos. Faz sentido, claro. (Ainda sou mais o cartão…)

2. Anonimidade
Como eu já mencionei em outros posts por aqui, especialmente nesse aqui sobre a internet, os alemães são suuuuper noiados com privacidade. Eles evitam colocar o nome completo em sites (incluindo o perfil do face), evitam colocar fotos de si e especialmente taguear essas fotos (pra evitar que esses programas de reconhecimento de rosto que as redes sociais (por exemplo) usam gravem seus rostos), evitam serviços de email e mensagens em que as mensagens não sejam criptografadas, ou em que o serviço mantenha o histórico gravado em seu sistema mesmo depois que as mensagens são apagadas (Face, WPP, Google, quem sabe o que eles fazem com as informações?), etc etc.

Pra gente no Brasil, que é extremamente apegada às dinâmicas sociais internéticas, esses cuidados parecem uma nóia insana, quase uma afronta à socialização. Como faz amizade com alguém que não tem nem Smartphone nem Facebook? (E não são poucos os alemães que se encaixam nessa descrição!) Tem que telefonar pra pessoa? Mandar um email e torcer pra pessoa sentar hoje a noite no computador pra ler seus emails?

Mas bom, se os alemães estão em um extremo em termos de nóia com privacidade online, a gente está no outro. Talvez um meio termo fosse ideal. Seja como for, esses cuidados acabam se refletindo nos costumes dos alemães em relação ao dinheiro: vários dizem que não gostam de pagar com cartão porque não querem que todas as suas compras e seus movimentos financeiros possam ser tão facilmente rastreados. É verdade que sua fatura do cartão de crédito já é o suficiente pra dizer muito sobre você: O que vc compra, onde, os lugares que você frequenta, os seus hobbies, etcetc. Mas, por outro lado, também não sei pq alguém se interessaria em saber tais coisas sobre mim, muito menos as pessoas que teriam acesso a essas informações, organizações governamentais, e tal. Mas bom, talvez o cuidado alemão com isso seja bem mais sensato do que nos parece.

3. Alemães evitam dívidas
Esse é o ponto mais interessante levantado pelo artigo, sobre o qual eu nunca tinha pensado muito a respeito, mas que se encaixa em várias das minhas observações alemanhísticas. Mas essa aversão a dívidas é de fato uma característica típica por aqui, e que se traduz em dois resultados bem interessantes: poucos alemães possuem cartões de crédito – especialmente os que são de fato de crédito por definição e; em relação a imóveis, os alemães têm uma clara preferência por alugel a compra por financiamento.

Sobre o cartão de crédito: Aqui existem dois tipos de cartão. Na verdade, três. O primeiro é o EC Card (Eletronic Cash Card), tb conhecido pelo nome de Girocard (não sei se tem diferença). É o cartão de débito alemão e que funciona como cartão de débito na europa inteira. Esse é bem amplamente aceito em lojas e restaurantes por aqui.

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Daí temos também os cartões de créditos, que podem ser de dois tipos: ou um normal onde vc faz as suas compras e paga a fatura no final do mês (embora o mais comum seja vc ter o cartão do banco onde tem conta e a fatura ser descontada automaticamente da sua conta no final do mês) ou um cartão de crédito pré pago (que portanto por definição não é de crédito, mas tudo bem) onde vc coloca crédito antes e vai gastando, meio como um cartão de débito.

O uso do cartão de crédito no esquema faça-suas-compras-de-boas-e-pague-tudo-no-final-do-mês é um conceito que vários alemães nem entendem! Eu tive várias discussões com meu namorado em que ele me dizia que não podia fazer tal compra com o cartão de crédito antes de transferir dinheiro pra conta do cartão e eu tendo que explicar que cartões de crédito, por definição, não exigem que vc tenha o dinheiro disponível na hora da compra, mas só no final do mês (ou seja lá quando for que vence a fatura). Demorou pra ele acreditar que ele podia comprar algo com o cartão de crédito sem ter o dinheiro disponível na conta no mesmo momento (e descobrir isso não o fez nem um pouco mais compelido a gastar dinheiro que não tem). Pode parecer estranho mas isso não deve ser raro por aqui: apenas 36% dos alemães possuem um cartão de crédito (comparando com 62% nos EUA). Parece que para os alemães a utilidade do cartão de crédito é basicamente para fazer compras ou tirar dinheiro no exterior, onde não se aceita o cartão de débito alemão. Eu mesma nunca usei o meu cartão de crédito alemão por aqui (embora tenha um). É raramente aceito, e para compras online pode sempre usar o tal cartão EC. Só uso o de crédito se compro alguma coisa num site estrangeiro.

Sobre alugar em vez de comprar: Isso é uma das coisas com que eu mais me identifico nos alemães e menos nos brasileiros. No Brasil as pessoas vêem alguel como uma perda de dinheiro. Pra quê pagar um aluguel se você pode pagar a mensalidade de um financiamento em vez disso, e ainda ficar com a casa depois (dos 60 anos de idade, ou algo assim)? Pra mim sempre foi bem curioso como no Brasil todo mundo está sempre desesperado pra comprar imóvel, colegas da minha idade (quase 30) preferem morar com os pais até os 35 pra poder juntar dinheiro pra dar entrada em um apartamento do que ir morar de aluguel com o namorado/a e experimentar um pouco da vida adulta e talz. Nesse sentido eu me encaixo bem por aqui. Os alemães preferem a independência de um aluguel: morar na sua própria casa tão cedo quando possível, não se prender a um local ou cidade ou a um emprego que você não pode correr o risco de perder porque precisa continuar pagando o financiamento do apartamento que comprou (o aluguel também precisa ser pago, claro, mas pode-se sempre procurar um mais barato se não tiver rolando). E evitam ao máximo um empréstimo que possa gerar dívidas no futuro: nunca se sabe o que o futuro guarda (e os alemães são sempre bem pessimistas).

Por essas e outras que a porcentagem de pessoas que têm casa própria na Alemanha, 40%, é bem abaixo da média de outros países desenvolvidos (por volta de 80% na Itália e Espanha, 70% na Inglaterra e EUA).

Outro ponto interessante nessa história toda é que por causa desse costume alemão de pagar com dinheiro que existe a nota de 500 euros. Aparentemente essa nota só existe por pressão da Alemanha, e na França é chamada de “nota alemã”. (Eu nunca vi e nem senti cheiro de uma, mas tudo bem!)

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Luis Javier Modino Martinez – Wikipedia

Acho que é isso! Aqui estão os artigos que serviram de fonte dos dados e alguns argumentos desse post:

Why Germans pay cash for almost everything

http://www.businessinsider.com/you-have-to-understand-germanys-long-standing-fear-of-debt-2012-7?IR=T

Most Germans don’t buy their homes, they rent. Here’s why


(Publicado em 26 de Setembro de 2016)

O Meio-Ambiente em obras alemãs

Recentemente uma comissão do senado, no Brasil, pré-aprovou uma lei que basicamente torna o licenciamento ambiental para obras descenessário. Isso poucos dias depois do aniversário de 6 meses do desastre de Mariana, o maior desastre ambiental da história do país, resultado da negligência e descaso de grandes empresas com o meio ambiente.

Nesse triste contexto, achei que valia a pena fazer alguns posts sobre o assunto meio ambiente, e como a Alemanha lida com isso. Planejei três posts: um sobre como se lida com o impacto ambiental em obras aqui, o segundo sobre rios e o terceiro sobre árvores na cidade. São três assuntos com que, como arquiteta paisagista, eu lido diariamente, então acho que dá pra falar alguma coisa a respeito.

Esse primeiro post, então, é sobre como o meio-ambiente influencia o andamento de obras na Alemanha. Nele, vou contar quatro histórias. Eu tive a ideia desse post durante essa semana quando meu namorado – também arquiteto – me mandou umas fotos de um falcão. A história é essa:

Estava o humilde arquiteto tranquilamente em seu escritório projetando uns projetos quando recebeu uma ligação de uma pessoa do departamento de meio ambiente da prefeitura. O telefonema era a respeito de uma família de falcões da espécie Falco tinnunculus, uma espécie de falcão relativamente comum na Europa. Eis que a família de falcões em questão está alojada no telhado do prédio em que o dito arquiteto está pra começar uma obra de reforma do último andar e do térreo. Segundo a pessoa da prefeitura, a espécie é protegida (não ameaçada de extinção, somente protegida por ser uma ave silvestre) e portanto enquanto a família de falcões permanecer alojada no telhado a obra não pode ser continuada porque é contra a lei fazer qualquer coisa que atrapalhe o casal de falcão em seu trabalho de gerar e criar novos falcõezinhos. Para complementar o aviso, a prefeitura ainda enviou por email umas fotos do casal em questão:

Turmfalke +

Falco tinnunculus – fêmea

Turmfalke >

Falco tinnunculus – macho

A reação do arquiteto? Encaminhar imediatamente o email pra namorada (no caso eu) com o comentário “olha só o que encontraram no nosso prédio! É aquele falcão que estávamos procurando pra fotografar!! Vou levar a câmera lá amanhã e ver se consigo vê-los!”. (adoramos bichos e já faz um tempo que estamos passeando por parques quando o tempo está bom para “caçar” (com câmeras fotográficas) as diferentes espécies de aves locais)

Mas falando sério: a fauna silvestre é de fato bem protegida por aqui, e a simples presença de um ninho de alguma ave silvestre ou algum outro animal é o suficiente pra parar temporariamente uma obra ou impedir uma árvore de ser cortada. Por isso que com árvores, por exemplo, os responsáveis pelos projetos que envolvem algum corte de árvore têm que sempre calcular pra tirar as árvores durante o inverno, que se chegar na primavera sem cortar, a chance de algum bichinho se apropriar dos galhos e buracos no tronco pra se reproduzir e proteger os filhotes é bem alta. E aí não pode mais nem encostar na árvore. A proibição em relação à obra nesse prédio por causa dos falcões não é apenas uma norma que você recebe uma multinha boba se desobedecer, mas é considerado de fato um crime!

Como o departamento de meio ambiente da prefeitura sabe tão bem onde moram todas as famílias de falcões da cidade já é uma outra questão que eu não saberia responder. Imagino que os falcões em questão não tenham suficiente conhecimento das leis alemãs pra saber que poderiam chamar a polícia, então suponho que a prefeitura monitore bem de perto as populações de fauna silvestre na cidade.

Histórias de como a fauna pode influenciar obras diversas são várias. Em um outro projeto que o meu namorado conduziu recentemente, uma reforma de uma escola primária, o departamento de meio ambiente da cidade também esteve presente checando a presença de aves locais. Eles observaram as aves voando nas redondezas e se elas tinham habitats nos telhados da escola, se existiam vestígios de determinadas espécies (ossos, dejetos, etc) e até usaram um instrumento não sei qual para escutar sons de morcegos (se eles estiverem presentes). Nesse caso a presença das aves não inviabilizou ou atrasou a obra – uma vez que elas não estavam em período reprodutivo, que é o fator limitante – mas fez com que fosse necessário instalar, em algumas das paredes externas, caixas de reproduções adequadas para determinadas espécies de pássaros.

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Recentemente no escritório em que trabalho fizemos um projeto de análise de impacto ambiental de uma obra de turbinas eólicas. O vilarejo ao lado do qual as 24 turbinas seriam implantadas nos contratou para verificar se todos os requisitos em relação a meio ambiente tinham sido respeitados. Obviamente a empresa responsável pelo projeto também tem que fazer essa análise, mas não é incomum que grandes empresas tentem dar uma disfarçada aqui e ali pra passar um projeto lucrativo. E só porque a empresa é de turbinas eólicas, não significa que eles estejam tão super preocupados com o meio ambiente quanto dão a entender pros seus clientes. Verificamos vários fatores, não apenas ambientais, mas também sociais. Os principais argumentos que levantamos que podem realmente atrasar, parar, ou pelo menos forçar a empresa a alterar o projeto foram dois: o primeiro é que parte da área onde seriam construídas as turbinas está dentro de um raio de tantos metros de um castelo protegido como monumento histórico. De acordo com a lei, dentro desse raio não podem ser realizadas obras de determinado porte, de maneira que o projeto em questão não poderia avançar para dentro desse raio. O outro argumento importante era que a área em questão era uma conexão importante para populações de morcegos da região, além de algumas aves. Como esses animais podem ferir e prejudicar esses animais, o projeto talvez tenha que ser alterado ou movido para outro local.

Morcegos, aliás, também criaram problemas para a obra de uma ponte nova recentemente construída aqui em Dresden. Muitos não queriam que a ponte fosse construída, especialmente pelo impacto visual que ela geraria para a paisagem da cidade. O projeto e construção da ponte gerou várias polêmicas a serem decididas pela justiça. Uma das questões foram os tais morcegos da espécie Rhinolophus hipposideros. A obra não foi cancelada pela presença dos morcegos, mas foi alterada por eles: eles tiveram que colocar um determinado tipo especial de iluminação que não atrai insetos, para consequentemente atrair menos morcegos na ponte (que são predadores de insetos), e durante a noite entre abril e outubro a velocidade máxima para os carros que atravessam a ponte é de 30km/h  – para evitar colisões com os tais morcegos. E, finalmente, uma série de árvores e arbustos teve que ser plantada nas margens do rio próximos à ponte pra “redirecionar” os morcegos a atravessarem a ponte por baixo da mesma, em vez de por cima. E toda essa discussão sobre morcegos atrasou o início da obra em 6 meses. Já a questão do impacto visual para a cidade não foi limitante – e há conseqüências. A área das margens do rio Elba ao longo da cidade tinha o título de patrimônio mundial da humanidade pela UNESCO, título esse que foi perdido após a construção da ponte.

A questão aqui não é dizer se é certo ou errado construir essa ponte (ou qualquer um dos projetos mencionados anteriormente) nem se a cidade ficou mais feia ou mais bonita depois da construção, mas apontar que precisa realmente haver discussões nesse nível de detalhe em relação a meio ambiente quando uma obra de grande porte (ou mesmo pequeno porte) está pra ser iniciada. Os prós e contras de cada lado precisam ser balanceados antes que se construa projetos cujos impactos podem ser irreparáveis. As questões que dizem respeito ao meio ambiente precisam ser analisadas por especialistas e seus argumentos precisam ser ouvidos e valorizados pela justiça e pela sociedade.

Não é que no Brasil exemplos similares aos que eu citei não existam – certamente existem. Conheço engenheiros ambientais, biólogos e ecólogos que trabalham justamente fazendo esse tipo de análise e projetos no Brasil também. E é justamente isso que a PEC 65 – se aprovada – vai anular completamente. Não é questão de se deve ou não deve ser construída uma determinada ponte ou seja o que for – é questão de analisar TODOS os fatores e possíveis conseqüências de cada obra e o fator meio ambiente ser valorizado da maneira necessária. Pode parecer bobo e insignificante que uma determinada espécie de ave seja prejudicada por um projeto que traga outros benefícios pra sociedade, mas não é tão simples assim. Aquela espécie de ave que você acha insignificante é a mesma que se alimenta de insetos e consequentemente controla – por exemplo – as populações do Aedes aegypti, de maneira que prejudicar essas aves pode resultar em um aumento dos casos de dengue na cidade. Ou então pode ser uma espécie responsável pela polinização de uma determinada espécie de planta – que por acaso é a planta usada como ingrediente em determinados remédios. Tudo no meio ambiente é interligado, como num jogo de pega-varetas, onde é quase impossível mexer em uma vareta sem que as outras se movam também.

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No próximo post (já estou preparando a um tempo, mas é um post longo cheio de fotos bonitas, então dá trabalho) vou falar um pouco sobre os rios e sua situação urbana na Alemanha.


(Publicado em 27 de Maio de 2016)

A Xenofobia dos outros estrangeiros

Há um tempo atrás eu escrevi um post sobre xenofobia na Alemanha, onde falei um pouco sobre algumas situações onde eu ou amigos estrangeiros nos sentimos discriminados pelos alemães, ou sentiram em que havia uma diferença clara na maneira como éramos tratados pelos alemães. Você pode ler esse post aqui.

Mas um outro assunto relacionado à xenofobia vem me incomodando muito e também precisa ser tratado: a xenofobia de outros estrangeiros.

Nos grupos de facebook das comunidades internacionais na Alemanha – certamente no daqui de Dresden – volta e meia aparecem posts com relatos de pessoas que foram vítimas de racismo e xenofobia em alguma situção. No mais recente que li, um homem árabe, engenheiro que mudou com a família pra cá a trabalho, contou que num domingo à tarde sua família (ele, a esposa e dois filhos) foi verbalmente agredida e intimidada num trem por um grupo grande de torcedores bêbados do Dynamo – o time de Dresden. Assustado e indignado, o homem contou que nesse dia finalmente viu de perto o “outro lado” de Dresden, o lado racista, xenófobo e preconceituoso. A torcida do Dynamo é bem conhecida na Alemanha por ser racista, agressiva e violenta, nos jogos sempre dá briga, o ambiente é sempre meio pesado. E Dresden, berço do movimento xenófobo Pegida, é conhecida na Alemanha por ser uma das cidades menos receptivas a estrangeiros.

Mas dessa vez o que mais me chocou nesse relato foram os comentários dos outros estrangeiros do grupo. Poucos eram realmente comentários de apoio: “poxa, que horror…”, “Já passei por isso, foi péssimo”, “não quero nem imaginar como vc deve ter se sentido!”, “Se quiser sair pra conversar, podemos marcar um café.”. A maioria dos comentários tentava desesperadamente defender a Alemanha e os alemães de três principais maneiras: ou invalidando a experiência que aquela pessoa compartilhou, ou generalizando a sua própria experiência positiva, ou, pior de tudo, culpabilizando a vítima da agressão racista/xenófoba pela agressão que sofreu.

O primeiro tipo – o que invalida a experiência do outro – é aquele que lê essa história e comenta “não liga”, “ignora”, “esquece” ou “Mas isso poderia acontecer em qualquer lugar”, “idiotas existem no mundo inteiro, não é só aqui”, “sempre tem uns assim, aposto que no seu país também tem”. Tinham muuuitos comentários nessa linha. Não importa se isso acontece em outros lugares com outras pessoas também, aconteceu aqui com essa pessoa que está lá desabafando que teve que passar por isso. E COMO que alguém “esquece” ou “ignora” ou “não liga” pra uma situação dessas? Um grupo de homens bêbados querendo briga xingando e intimidando vc e suas crianças pequenas num trem, com ninguém em volta te defendendo ou te ajudando? Mas, né, poderia ter acontecido em outras cidades ou outros países também, então relaxa e aproveita a Alemanha e pare de reclamar que aqui é obviamente tudo lindo e perfeito.

Depois, vêm sempre aqueles fulanos que, quando alguém conta que passou por alguma agressão racista ou xenófoba, comenta que “eu sou assim, assim e assado e nunca me aconteceu nada, logo, não é verdade que existe racismo/xenofobia”. Amigo, você não é 100% das pessoas, só porque vc não passou por nada assim – sorte sua – não faz a experiência de outros que viveram tais situações menos válidas ou menos verdadeiras.

Lendo essas coisas a impressão é de que muitos estrangeiros gostam tanto daqui que se recusam a acreditar que possa existir qualquer tipo de ponto negativo, lado ruim ou coisas que poderiam ser melhores na Alemanha. Essa impressão é reforçada cada vez que eu vejo alguém fazer qualquer tipo de crítica – por menor que seja – à Alemanha por exemplo no grupo da comunidade brasileira daqui. SEMPRE, mas sempre sem exceção, metade das respostas é “MAS É MUITO PIOR NO BRASIL!!!” “MAS AQUI TEM ISSO ISSO E AQUILO QUE É MUITO MELHOR QUE NO BRASIL!!!”. Não é essa a questão. Não importa se a Alemanha é melhor ou pior que o Brasil. Nada disso invalida uma crítica a algo que não é legal. Eu fico me perguntando porque a pessoa acha tão importante acreditar que a Alemanha é PERFEITA SEM DEFEITOS pra poder ser feliz aqui? Eu gosto de morar aqui. Não quero voltar. Mas critico a Alemanha em vários pontos. Nem de longe diria que ela é “melhor” que o Brasil, acho que todos os países têm lados melhores e piores que os outros. A qualidade de vida é melhor aqui, mas a comida é melhor lá. Aqui vc se sente mais seguro, mas as pessoas são mais simpáticas lá. Tudo tem um lado bom e um lado ruim.

Mas o terceiro tipo é de longe o mais ofensivo. A pessoa contou esse caso e um dos comentários – de uma ucraniana branca, loira de olhos azuis – dizia que basta vc ficar na sua e não chamar a atenção que nada nunca vai acontecer com você – ela diz isso por experiência já que já morou 4 anos em Berlim e 4 em Dresden e nunca aconteceu nada com ela. Nossa, será que de repente é pq vc não é negra, nem tem cara de árabe, nem oriental, mas obviamente europeia e passa despercebida aqui? “Claro que não”, responde a ilustre pessoa, “não tem nada a ver com cor de pele, pare de se vitimizar! Em todos os casos que eu presenciei algum tipo de agressão era pq a pessoa vítima da agressão estava se comportando de maneira estranha, e quando vc vai morar num país vc tem que se comportar e fazer tudo exatamente como as pessoas daquele país. Ah, e quanto a crianças, gente, um aviso, fiquem de olho nas crianças, não deixem elas correrem ou falarem alto no trem, que afinal é um lugar público e isso pode incomodar as outras pessoas. E não encare esses torcedores de futebol, eles não gostam.” e partiu daí a explicar como algumas ucranianas também foram vítimas de agressão, mas foi culpa delas mesmas por terem saídos bêbadas sozinhas de uma festa à noite. Eu ainda cortei vários trechos dos comentários dela (eram uns 5 comentários bem compridos) pra não me estressar demais transcrevendo.

Isso abre uma outra discussão importante quando a gente fala de xenofobia. Esse mito de o bom imigrante X o mau imigrante. O bom imigrante seria aquele que veio estudar, ou que veio porque a empresa realocou ele pra cá, o bem qualificado, bem educado, que já sabe a língua, que não tem uma religião diferente nem uma cara diferente. Basicamente é o imigrante que não é tão diferente. O mau imigrante seria o refugiado, o imigrante que veio porque as coisas não estavam boas no seu lugar de origem, o que não tem qualificação, não tem educação, depende de assistência governamental, demora pra aprender a língua, segue uma religião diferente, se veste diferente, resumindo: o diferente demais. Que as pessoas locais separem os imigrantes nesses dois grupos (isso as pessoas que se dizem não-xenófobas, as abertamente preconceituosas detestam todo mundo igual) é meio óbvio e esperado – embora não menos triste ou preconceituoso. Mas o que me deixa triste mesmo é ver os próprios imigrantes (os do primeiro grupo, claro), fazendo essa distinção e a partir dela sendo xenófobos com os do segundo grupo. Crentes de que por fazer parte do primeiro grupo eles estão seguros e protegidos aqui e que ninguém vai mexer com eles. E tomando as “dores” dos xenófobos locais em relação ao imigrante “diferente demais”. Só que, como deixou clara a história do rapaz engenheiro, o grupo de torcedores racistas bêbados não vai antes te perguntar se vc é refugiado ou intercambista antes de te agredir quando não tiver ninguém por perto pra te ajudar. Ninguém vai te perguntar se você é advogado ou desempregado antes de te xingar na rua. O chefe da empresa pra qual você mandou seu currículo também vai estar bem menos preocupado com a sua qualificação do que você imagina antes de descartar o currículo do fulano de nome estranho e cara esquisita (você) em favor do alemão “normal” com nome “pronunciável”. Na rua, você só vai passar despercebido se tiver a sorte de ser branco o suficiente. Então quando você reproduz o discurso xenófobo, seguro de que ele não se aplica a você, pode ter certeza que o que você está usando pra atacar os outros imigrantes é um belo dum bumerangue.

É triste demais perceber quando a comunidade internacional, em vez de se ajudar e se apoiar nesses casos, tão freqüentemente reproduz os discursos dos piores mais racistas e mais xenófobos alemães que você poderia encontrar por aqui. Eis aqui um belo exemplo: Um post no grupo da comunidade de brasileiros avisando que teria uma manifestação neo-nazi (sim, tem dessas em Dresden.) e recomendando ficar longe do local onde ocorreria a manifestação. Esse nobre comentário foi o primeiro a aparecer no post:

???

Nem sei o que comentar a respeito.

Mas pra terminar o post com um tom positivo: Eu acredito que essas pessoas não sejam a maioria, felizmente. Pelo menos dos estrangeiros que eu conheço pessoalmente, não saberia mencionar nenhum que pense assim (Bom, provavelmente eles não gostam de fazer amizade com outros estrangeiros, né…). E é assim aqui em Dresden – e acredito que na maioria das outras cidades alemãs também – tem sempre um grupo de estrangeiros e alemães que se ajudam, se apoiam no que precisar, e tal. Certamente vale a pena entrar em alguns grupos da sua cidade no facebook até achar aquele onde estão as pessoas mais prestativas e amigáveis, certamente tem um. É importante fazer amizade com pessoas locais para facilitar sua integração, mas também é muito importante pro bem estar pessoal ter um grupo de amigos que estão “na mesma situação” que você, com quem você pode desabafar quando as coisas estiverem difíceis, quando der saudades de casa, quando você estiver mega irritado com alguma característica típica daqui, quando você precisar de alguém que saiba exatamente o que você está passando…

Então fica aqui meu pequeno-longo manifesto para todos os estrangeiros na Alemanha: bora se ajudar que tá todo mundo no mesmo barco!


(Publicado em 3 de Maio de 2016)

O tempo louco de Abril

Os alemães têm um ditado que diz: “April, April, der macht was er will.” Abril, Abril, ele faz o que quer. E eles vão sempre te dizer que em Abril, no que diz respeito ao clima, qualquer coisa pode acontecer.

Mas eu nunca tinha sentido tão claramente a verdade desse ditado até esse ano!

No comecinho de abril a temperatura subiu até quase 20°C, saiu o maior sol, deu pra andar até de camiseta e fazer churrasco no parque, parecia que a primavera ia finalmente engrenar de vez. Todo mundo guardou os apetrechos de inverno no fundo do armário certos de que não íamos precisar dessa chateação de luva e gorro até Novembro. Mas ao longo do mês a temperatura foi caindo, o tempo foi ficando pior, até que chegou a um extremo de frio fora de época no fim de semana passado (23, 24 de Abril), com a máxima em 8°C, e a mínima 0°C, com umas mudanças extremas no clima várias vezes durante o dia.

Pra dar uma ideia: ontem, no domingo, acordamos às 10:00. Estava chovendo. Quando meu namorado desceu para comprar pão às 11:00, estava sol. Quando ele voltou e sentamos para tomar café, começou a chover granizo. Meu namorado ia visitar um amigo às 13:00, então às 12:30 ele olhou o tempo para decidir se ia de bicicleta ou se pegava o tram. Estava sol. Ele foi de bicicleta. Lá pelas 14:30 pensei: “Puxa, acho que vou descer até o café na esquina e comer um bolo”. Estava nevando. Pensei: “Meh, deixa”. Tirei uma soneca. Acordei meia hora depois. Estava sol. Pensei: “Bolo”. Desci. Estava tudo seco lá fora. Comi o bolo e tomei um café, e quando saí do café às 16:00 estava sol de novo, mas o chão estava molhado. Voltei pra casa. Começou a garoar. Meu namorado voltou pra casa lá pelas 18:00. Estava sol. Resolvemos ir no cinema, o filme começava às 19:30. Ainda estava sol. Deixamos as bicicletas na rua na frente do cinema. Quando voltamos não estava chovendo, mas as bicicletas estavam beeem molhadas.

Hoje não foi diferente. Só até a hora do almoço já tinha nevado duas vezes (bem rapidinho) com o maior sol nas pausas. E um frio insano pra essa época do ano, de manhã estava 0˚C!

Frio em abril ninguém agüenta mais… em novembro e dezembro é legal, chegou o inverno, natal, neve, oba…. mas em abril… quando as árvores já estão verdes de novo, já está tudo florido, vc já guardou as luvas e gorros e o casaco de inverno, já tirou a bicicleta da garagem… em abril as pessoas querem saber é de sol! Mas eis que os alemães estão certos: Abril faz o que quer!


(Publicado em 25 de… Abril! de 2016)

Pressa, impaciência e pontualidade

Ontem eu fui numa reunião em que algumas coisas aconteceram que eu achei muito emblemáticas de certas características típicas dos alemães: pressa, impaciência, pontualidade. Ou, resumindo: nóia.

A reunião era na prefeitura de uma cidadezinha (vilarejo é a palavra mais apropriada) pra apresentar o projeto da pracinha da cidade que fizemos. Na verdade a ocasião em si era o encontro, sei lá, mensal ou semanal do conselho da cidade, aberto aos cidadãos para discutir as questões diversas que dizem respeito ao local: projetos, verbas, eventos, etc.

A reunião estava marcada para as 19:00, e nós chegamos às 18:05. Isso porque da última vez que tivemos uma reunião em outra cidade, nos atrasamos 15min porque tinha nevado muito na noite anterior. Então dessa vez o chefe resolveu sair com 1:30 de antecedência, embora só precisássemos de meia hora pra chegar lá. Só que quando chegamos, a prefeitura estava fechada, e ninguém lá dentro ou por perto pra abrir a porta pra gente. Então demos uma volta, olhamos o vilarejo, voltamos, ficamos conversando na porta da prefeitura, até que, às 18:50, começaram a chegar as pessoas que participariam da reunião. Entramos na sala onde a reunião ia acontecer e começamos a ligar o computador ao beamer, essas preparações básicas pré-apresentação. Só que o laptop que levamos não estava conectando ao beamer imediatamente. Mas assim. Não conectou imediatamente. Mas o computador estava reconhecendo o Beamer e eu precisava de tipo 10 minutos pra descobrir que botão precisava apertar pra conectar o negócio direito. Não era nada impossível de resolver, eu só precisava sentar no computador 10 minutos pra olhar com calma e descobrir o que estava faltando fazer pra conexão funcionar.

SÓ QUE:

Tenta fazer isso com uns 6 alemães atrás de você super noiados em começar a reunião pontualmente às sete e comentando coisas como “Não, aperta esse botão!” “Aperta aquele” “Tem que reiniciar o computador!” “Não, tem que reiniciar o beamer!” “Ai meu deus, será que não vai funcionar?” “Traz o outro laptop lá, fulano!!” “Não, pera, tenta com o meu, aqui!” “Mas o seu não tem o programa que a gente precisa!” “O fulano trouxe o dele também, ele instalou o programa, pega lá!”. Gente, que stress… eu só precisava de 5 minutos de silêncio e tranquilidade pra descobrir o negócio…

E isso tudo porque a reunião precisava a todo custo começar EXATAMENTE às 19:00. Às 19:00 estavam as pessoas do conselho sentadas na mesa e perguntando pra gente – que estava obviamente ainda tentando resolver o negócio – se podiam começar.

Às 19:01, após colocar o cabo em outro computador e o mesmo conectar-se ao beamer, a reunião começou. Com o presidente do conselho tocando um SININHO oficial de início da reunião do conselho, um sino, mesmo, de verdade. Uma coisa que se você fosse cego ficaria em dúvida se era a reunião do conselho da cidade que estava começando, ou o Papai Noel chegando no seu trenó para entregar os presentes de Natal.

Lembrando que essa situação toda não era uma reunião de uma prefeitura de uma grande cidade, num enorme auditório, com centenas de pessoas assistindo. Era uma prefeitura de um vilarejo, tinha ao todo umas 20 pessoas na sala onde a reunião ia acontecer, incluindo os 4 arquitetos do projeto…

Esse tipo de situação é bem típica. Os alemães são pontuais e extremamente paranóicos quando as coisas não estão andando como planejado e eles acham que estão DOIS MINUTOS E DEZESSETE SEGUNDOS ATRASADOS, MEUDEUSQUEVERGONHA! Nóia com pontualidade vai ser bem visível se vc fizer um curso de qualquer coisa aqui. Não apenas os professores começam a aula exatamente no horário marcado, mas eles fazem questão de terminar a aula EXATAMENTE no minuto marcado pra aula terminar. Semana passada mesmo minha professora de alemão se desculpou por terminar a aula TRÊS MINUTOS antes do horário. TRÊS MINUTOS. Era pra terminar às 20:45, e ela terminou às 20:42. “Bom, é isso, tá um pouco mais cedo, mas acho que tudo bem eu terminar agora, né?”. Gente… E era a mesma coisa na faculdade. Os professores chegavam, preparavam lá no powerpoint no computador, e ficavam de pé olhando pro relógio no computador esperando ele marcar exatamente o horário de início da aula, pra só então começar a falar. Mesmo que já tivesse todo mundo na sala sentado esperando. E se terminasse 2 minutos mais cedo, eles pediam desculpas… como se a gente fosse estar super noiado pensando “Não, mas e os meus últimos 2 minutos de aula, gente! Eu paguei por 3h de aula, não 2h58!!!!”

E a pressa característica também se traduz em outras atitudes um tanto irritantes. Como por exemplo quando você está andando na rua com um alemão. Uma coisa que os alemães super gostam de fazer é sair pra dar uma volta. Assim, uma volta sem nenhum objetivo específico, só pra andar um pouco, tomar um ar fresco, e tal. Até aí, legal. Só que eles não saem pra andar calmamente apreciando a paisagem. Eles andam como se tivessem atrasados pra chegar em algum lugar… mesmo que não tenha nenhum destino específico nem nenhuma pressão de horário. Já tô num relacionamento de 6 anos e até hoje eu ainda tenho que puxar meu namorado quando a gente tá andando na rua, porque além de CORRER, ele tem pernas tipo gigantes, então se deixar em 30 segundos ele já está 5 passos à frente e nem se toca…

E a impaciência vai ficar óbvia se você precisar pagar qualquer coisa e tiver que procurar dinheiro na carteira. Recomendo estar sempre com o dinheiro preparado e contado, que os alemães vão te fuzilar com olhar de laser se você ficar contando moedinha por moedinha com eles ali esperando você pagar.

Os alemães certamente têm vários outros hábitos que são bem legais e exemplares. Mas às vezes tudo o que eu queria era poder chacoalhar a Alemanha inteira gritando “MEEEEU, RELAAAAXAAAA!”…


(Publicado em 21 de Abril de 2016)

Finderlohn – Recompensa por um achado

Hoje eu descobri uma coisa muito curiosa sobre a Alemanha, algo que eu jamais teria imaginado. Eis que aqui a recompensa caso vc encontre algo de valor que alguém perdeu é algo “regulamentado”.

Vou começar a história do início: Na segunda feira a carteira do meu namorado foi furtada (sim, essas coisas acontecem aqui também). Lá se foram documentos, cartões, dinheiro, etcetc. Ele foi à polícia fazer o BO, cancelou os cartões, e dois dias depois recebeu uma mensagem no facebook de alguém que encontrou a carteira com os documentos próximo ao local onde foi roubada. Lógico que a boa alma que encontrou a carteira e se deu ao trabalho de procurar meu namorado no facebook não pediu nenhuma recompensa para devolver a carteira, mas a situação lembrou uma outra experiência do meu namorado com objetos achados: ele contou que uma vez seu pai encontrou numa floresta um cofre aberto. No cofre tinham alguns documentos, então ele levou o cofre e entregou para a polícia. Na delegacia, o policial que colheu as informações da situação perguntou ao meu sogro se ele queria pedir uma recompensa pelo achado.

E aí que veio o grande ponto de interrogação.

Como assim o policial perguntou se ele queria uma recompensa?

Fomos pesquisar e descobrimos que por lei você pode pedir uma recompensa sobre objetos achados, variando de acordo com o valor do objeto: Se o objeto tiver valor de até 500 euros, você pode pedir até 5%. Se for mais que 500 euros, vc pode pedir 5% dos 500 euros e 3% sobre o valor excedente. E se você encontrar um animal de estimação, vc pode pedir até 3% do “valor” do animal (sei lá como eles calculam o valor de um bicho, mas enfim).

Mas como assim? Como assim tem uma lei que oficializa pedir uma recompensa pra devolver algo que alguém encontrou por aí? Pra mim parece totalmente bizarro porque parece que a lei aprova e encoraja a atitude de ajudar o próximo apenas se você vai receber algo em retorno. Parece algo estranho pra se colocar em lei. Mas pensando melhor, chegamos à conclusão de que provavelmente a idéia é mesmo regulamentar algo que existe. Talvez pra encorajar alguém que encontra algo de muito valor a devolver, ou então para limitar o valor que alguém pode pedir para devolver algo encontrado.

Independente de recompensas, achado é roubado, sim: pela lei se você encontra algo que não te pertence você tem a obrigação de entregar para a polícia (isso é igual no Brasil, claro). E se a polícia te perguntar se vc encontrou algo e vc disser que não, e depois mudar de idéia e resolver devolver, você perde o direito à recompensa.

Fiquei ainda mais surpresa quando fui pesquisar um pouco mais a fundo para ver como isso funciona no Brasil. Eis que a lei brasileira também regulamenta recompensas por objetos encontrados! Só que pelo que eu li, é mais algo pensado para coisas de realmente muito valor, porque ela pode ser decidida de acordo com o esforço da pessoa que encontrou para encontrar o objeto, a probabilidade de que o dono conseguisse encontrar novamente o objeto por conta própria, e a situação econômica de ambos. Acho que a grande diferença que me surpreendeu (bom, eu não sabia da lei no Brasil ser assim, também fiquei surpresa de descobrir que é similar) é o policial perguntar para a pessoa que encontrou o objeto perdido se ela quer exigir uma recompensa, quer dizer, a coisa toda ser tão oficial e tão regulamentada que não é que vc pode ligar pra pessoa, dizer que achou o objeto perdido e pedir uma recompensa, mas o policial pra quem vc entregou o objeto vai te perguntar e anotar no papel oficial que você quer ou não quer a recompensa.

Que coisa!

Pra concluir, eis…
aqui as fontes das informações sobre o Finderlohn (recompensa pelo achado),

aqui a fonte sobre a lei no Brasil,

E aqui um post passado sobre o que os alemães fazem quando encontram objetos perdidos.


(Publicado em 13 de Abril de 2016)