Pessoas

Sobrenome dos filhos na Alemanha

Leis e costumes referentes a nomes e sobrenomes é um assunto que sempre me interessou bastante. Já escrevi vários posts diversos sobre esse assunto: um com algumas regras referentes a nomes e sobrenomes na Alemanha, outro sobre mudar de nome ao casar, e outro sobre nomes não-alemães na Alemanha.

Mas um tema relacionado que eu abordei pouco é como funciona o sobrenome dos filhos. No caso de casamento, de filhos de pais não casados, de segundo casamento ou de divórcio, em todas essas situações tem regras referentes ao nome ou à mudança de nome dos filhos.

Pensei nesse tema de novo porque recentemente comentaram comigo que a partir dos 5 anos a criança tem direito de escolher se seu sobrenome muda ou fica o mesmo no caso do sobrenome do pai responsável mudar. Então fui pesquisar a respeito e ler as regras todas que envolvem os sobrenomes dos filhos na Alemanha. Que eu vou explicar em breve a seguir.

Mas antes, uma pequena recapitulação pra quem não leu os posts que eu linkei ali em cima. Aqui na Alemanha não se fala em “nome de casado” ou “nome de solteiro”, mas em “nome de nascimento” ou “nome de família”. Aqui você não pode acumular sobrenomes, como no Brasil. Só pode ter um. Então quando um casal se casa, eles podem escolher um nome de família – ou seja, um sobrenome pra ser o sobrenome da família formada a partir daquele casamento. Você não precisa necessariamente mudar de nome ao casar, mas se você tiver filhos, um dos dois sobrenomes vai ter que ser escolhido para a criança (já que não pode ter dois), e esse sobrenome é que é então o nome de família. Se vierem outras crianças, elas automaticamente receberão o mesmo sobrenome. Se você ao casar adotar o nome do seu cônjuge, esse será o nome de família, e as crianças vão automaticamente receber esse sobrenome ao nascerem. Ok. Vamos aos casos especiais, então.

Quando a criança nasce, filha de pais casados
Se os pais compartilharem um nome, a criança recebe automaticamente esse nome, como já discutimos. Mas se os dois ao casarem mantiveram seus respectivos nomes de nascimento, um dos dois sobrenomes – o do pai ou o da mãe – terá que ser escolhido para a criança. Os pais têm um mês após o nascimento para decidir qual sobrenome a criança vai levar. Se eles não entrarem em acordo, a justiça decide qual dos dois vai escolher o sobrenome.

Quando a criança nasce, filha de pais não casados
Se os pais de uma criança não são casados no momento do nascimento da mesma, automaticamente quem tem a custódia da criança é a mãe. E portanto a criança recebe o nome da mãe. Se os pais quiserem compartilhar a custódia eles podem entregar uma declaração de custódia (Sorgerechtserklärung). Se isso tiver sido feito antes do nascimento da criança, aí os dois podem escolher qual dos dois sobrenomes a criança vai receber. De novo eles têm um mês após o nascimento da criança para decidir. Se a tal declaração for entregue após o nascimento da criança, a criança recebe o nome da mãe.

A criança que recebeu o sobrenome da mãe automaticamente pode ter seu sobrenome mudado para o do pai nas seguintes circunstâncias:
a. Se ambos os pais estiverem de acordo. Se a criança tiver 5 anos de idade ou mais, a criança também tem que estar de acordo com a mudança de sobrenome.
b. Se após o nascimento os pais entregarem a tal declaração de custódia compartilhada. Nesse caso, eles têm até três meses para decidir se a criança fica com o nome da mãe ou muda para o nome do pai. Novamente a criança também tem que concordar com a mudança de nome se tiver 5 anos de idade ou mais.
c. Se os pais se casarem e escolherem um nome de Família, esse nome vai ser automaticamente o nome da criança. Mas se a criança tiver 5 anos ou mais, ela tem que concordar. Se ambos os pais casarem e mantiverem seus nomes de casamento, eles têm então até 3 meses para decidir se a criança fica com o nome da mãe ou muda para o do pai.

Troca de sobrenome da criança em caso de divórcio dos pais
Uma situação recorrente é que o casal com mesmo sobrenome se divorcia, e a criança fica sob custódia da mãe. Muitas vezes a mãe decide voltar a usar seu sobrenome de nascimento e aparece a questão de mudar o sobrenome da criança para o sobrenome de nascimento da mãe. Se ambos os pais estão de acordo com a mudança de sobrenome da criança, não há problema. Novamente a criança de 5 anos ou mais também toma parte na decisão. Mas se o pai (na maioria dos casos) da criança não estiver de acordo, e quiser que a criança mantenha seu sobrenome, daí a mudança só é possível em casos excepcionais em que se prove que é a melhor alternativa para o bem estar da criança.
Estou usando aqui “mãe” e “pai” da maneira como essas ocasiões são mais recorrentes. Mas pode ser ao contrário também: pode ser que o nome de família do casal era o sobrenome da mãe, e aí ao se divorciar a criança ficou sob custódia do pai e ele quer trocar o sobrenome da criança para o dele. E aí só é possível se a mãe estiver de acordo. Mas convenhamos que esse é um caso raro. E também, claro, o mesmo é válido para se a criança tiver dois pais ou duas mães em vez de um pai e uma mãe.

Troca de sobrenome da criança no caso de novo casamento de um dos pais
Se o responsável pela custódia da criança – seja o pai ou a mãe – casar de novo e adotar o nome do novo parceiro como nome de família, é possível mudar o nome da criança para o novo nome de família. Mas novamente, só se a parte que não ficou como principal responsável pela criança também estiver de acordo. E a criança, se tiver 5 anos ou mais, também tem que concordar. Uma particularidade aqui é que existe ainda a opção de a criança adotar um nome hifenado. Se você leu os outros posts sobre nome você sabe que na Alemanha existem os sobrenomes hifenados, que é uma combinação de dois sobrenomes. É uma alternativa pra quem quer adotar um nome de família ao casar, mas não quer abrir mão de seu sobrenome de nascimento. Aí você pode ter um sobrenome que é a combinação dos dois com um hífen. A criança nesse caso recebe só o nome de família. Mas no caso de novo casamento da mãe (por exemplo, ou pai), e mudança de nome para o nome do novo marido, a criança pode também adotar um sobrenome hifenado: o seu de nascimento mais o novo nome de família da mãe. Nesse caso é mais fácil conseguir que a justiça autorize a mudança de nome mesmo se o pai da criança não estiver de acordo.

CONFUSO TUDO ISSO?

Então pra facilitar vou dar uns exemplos práticos.

Como de costume, vou usar aqui uns nomes bem genéricos de exemplo, digamos assim um rapaz de nome Brad Pitt e uma moça de nome, sei lá, Angelina Jolie.

Digamos que o Brad e a Angelina resolvam se casar e adotem Jolie como nome de família. O Brad Pitt passa a se chamar Brad Jolie. Brad e Angelina Jolie resolvem ter um filho, e batizar o mesmo com um nome bem genérico e comum, digamos por exemplo Knox. O sobrenome da criança vai ser automaticamente o nome de família, Jolie. Knox Jolie.

Alguns anos depois Brad e Angelina resolvem que o casamento não tá dando certo e é hora de partir pra outra, e decidem se divorciar. Brad fica com a custódia de Knox e volta a se chamar Brad Pitt. Como Knox mora com o pai e é ele quem cuida do filho e a Angelina só aparece pra visitar de vez em quando num domingo por mês ou coisa assim, Brad acha bem justo mudar o nome de Knox para Knox Pitt. Se a Angelina tiver de acordo, tá sussa. Se ela disser não, nada feito.

Nesse meio tempo Brad reecontra uma ex-namorada de muito tempo atrás, eles voltam a se ver e resolvem se casar. Uma moça com um nome qualquer, por exemplo Jennifer Anniston.  Brad e Jennifer se casam e Brad resolve adotar o nome da nova esposa, e passa a se chamar Brad Anniston.

A nova família formada por Brad, Jennifer e Knox querem compartilhar o mesmo sobrenome, e portanto mudar o sobrenome de Knox para Knox Anniston. Se a Angelina disser que tudo bem, tá feito. Se ela disser que não, fica mais difícil. Mas aí eles podem considerar chamar Knox de Knox Jolie-Anniston, e aí fica mais fácil conseguir autorização para mudar o nome de Knox mesmo a Angelina achando ruim.

E em todos esses casos, se o Knox já tiver completado 5 anos, ele também dá pitaco no assunto e tem que concordar com qualquer mudança no seu sobrenome.

É isso!

Aqui as fontes das informações todas pra quem quiser:

http://www.familien-wegweiser.de/wegweiser/stichwortverzeichnis,did=158646.html

http://www.gesetze-im-internet.de/nam_ndg/NamÄndG.pdf

https://www.finanztip.de/namensrecht-kind/


(Publicado em 15 de Março de 2018)

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Pequenas denúncias

Esse post de título um tanto enigmático me deu na telha de escrever na semana passada, ao comprar uma água. E é sobre pequenas coisas, pequenos detalhes, que te denunciam como estrangeiro na Alemanha. Não coisas grandes como erros gramaticais ou pronúncia da língua. Coisinhas pequenas, não necessariamente erradas, discretas, porém que nenhum alemão jamais faria ou expressaria dessa maneira.

Quem já viu o filme Bastardos Inglórios vai lembrar bem da cena em que o espião americano infiltrado entre os nazistas é descoberto ao pedir duas cervejas num bar, mostrando o dedo indicador e o do meio. Os alemães contam nos dedos começando com o dedão, então “dois”, na linguagem dedística alemã, seria levantar o dedão e o indicador. Se você, como a pessoa normal que é, levantar o dedo indicador e o do meio para indicar dois: ! Estrangeiro!

Então aqui vão outras coisinhas que poderiam resultar na sua execução imediata se você fosse um espião estrangeiro infiltrado entre os nazistas em 1940.

1. Volume de bebida
A história da água foi que eu pedi ontem uma garrafa de água no subway, e quando a pessoa do caixa me perguntou qual tamanho, eu distraidamente respondi “A pequena, de 500”. 500 mL, claro. Na Brasil a gente fala de tamanho das bebidas em mL. 300, 500, 700. Só a partir de 1L qua a gente passa pra litros. Mas aqui  na Alemanha é tudo sempre em Litros. 0,3, 0,5, 0,7. A resposta certa no caso da água teria sido “null komma fünf“, “zero vírgula cinco” (ou só “komma fünf“). Todo mundo entende se você fala em mL, claro, mas nenhum alemão jamais responderia àquela pergunta com “fünfhundert“. Jamé.

2. Emails
Duas pequenezas em emails eu descobri outro dia que eram diferentes. São pequenezas tão discretas que eu nunca teria notado. Mas provavelmente os alemães que receberam emails escritos por mim notaram. Quando você escreve um email (ou carta) em português, é algo assim:

“Caro Sr. Fulano de Tal,

Como conversamos por telefone, envio em anexo o documento xyz, etc.

Atenciosamente,
Eu Mesmo da Silva”

Se a gente seguisse a mesma regra que os alemães, essa mesma carta seria assim:

Caro Sr. Fulano de Tal,

como conversamos por telefone, envio em anexo o documento xyz, etc.

Atenciosamente
Eu Mesmo da Silva

Sacou a diferença? São duas. A mais importante e mais denunciativa é a primeira: aqui você sempre começa o email com letra minúscula (depois do “Caro fulano”, que aliás em alemão seria “Sehr geehrte(r) xyz). O motivo faz sentido: A frase começou com “Caro fulano, xxx”, não tem porquê colocar maiúscula depois da vírgula. Mas por algum motivo misterioso em português e em inglês se faz assim em emails e cartas. A segunda diferença não é tão determinante. Entre o “Atenciosamente” (em alemão você escreveria “Mit Freundlichen Grüßen“) e o seu nome, os alemães não costumam colocar vírgula. Mas não é uma regra tão definitiva: às vezes eles também colocam uma vírgula.

3. Futebol
Duas grandes pequenas diferenças existem entre nós e os alemães ao falar de futebol. A primeira é a contagem do tempo. No Brasil a gente conta em duas vezes de quarenta e cinco minutos. Então se alguém chega e te pergunta “E o jogo? Tá onde?”, você responderia algo como “30 minutos do segundo tempo”. Na Alemanha, a resposta seria “75 minutos”. O jogo é contado em 90 minutos, não duas vezes de 45. Então se você fala em algum minuto do 0 ao 45, você com certeza está se referindo ao primeiro tempo. A expressão “aos quarenta e cinco do segundo tempo” não faria sentido aqui.
Outra diferença (embora essa seja mais algo que denunciaria um alemão no Brasil que o contrário) é a contagem dos gols. No Brasil a gente sempre coloca quem tem mais gols primeiro. Por exemplo: “O jogo ficou sete a um pra Alemanha”. Na Alemanha você fala os gols do time da casa primeiro. “O jogo ficou um a sete.” é certamente algo que você nunca disse em português.

Talvez agora você esteja prestes a escrever um comentário perguntando a mesma coisa que eu perguntei pro marido alemão quando conversamos sobre esse assunto: como faz quando não tem time da casa? E se for, digamos, Marrocos x Japão jogando no Uruguai? A resposta foi: ¯\_(ツ)_/¯. Bom, tem sempre uma regra pra qual time é o time da casa mesmo nesses campeonatos internacionais, no sentido de qual time tem que trocar de roupa se os uniformes forem da mesma cor, né. Mas sei lá se tem toda essa preocupação em ser específico. Acho que colocar o número maior na frente e dizer quem ganhou (ou está ganhando) faz mais sentido e os alemães podiam pensar em adotar essa regra simples, ficadica.

4. Casaco
Dois compartamentos referentes a casacos te denunciariam imediatamente como estrangeiro (de país onde não faz frio) na Alemanha.

A primeira é andar por aí no frio com o casaco aberto. Algo que não faz nenhum sentido lógico: o casaco serve pra isolar seu corpo do frio, pra ele não perder calor. Não funciona se o casaco estiver aberto. Mas no Brasil, como quase não faz frio, a gente praticamente nem têm casacos que isolam, então efetivamente tanto faz se o casaco está aberto ou fechado. Daí a gente chega bobo no país frio durante o inverno e demora uns tempos pra descobrir que casaco de inverno só funciona quando fecha o zíper.

A outra coisa sobre casacos é que, como os interiores dos edifícios são aquecidos, as pessoas tiram o casaco ao entrar em qualquer lugar. É meio que a reação direta e automática a entrar num local: tirar o casaco. Só que no Brasil a gente usa o casaco o dia inteiro, dentro de casa e do escritório e do restaurante e de todos os lugares, já que costuma estar a mesma temperatura dentro e fora. Então a gente não tem esse costume de imediatamente tirar o casaco ao entrar num local, e às vezes fica lá distraído de boas no seu casaco. Os alemães acham isso meeeeega estranho, a ponto de chamar a atenção que alguém esteja usando casaco sem estar lá fora.

5. Meio Pãozinho
Digamos que eu te dê um pãozinho, um pãozinho normal, pão francês, e te peça pra cortar ao meio e me dar metade e comer a outra metade. Em que eixo do pãozinho você vai cortá-lo? Provavelmente você vai cortá-lo assim:

paozinho

Dê o pãozinho a um alemão e peça para ele cortá-lo ao meio para comer só metade e em 100% dos casos o pãozinho será cortado neste eixo:

paozinho

No Brasil, a gente só corta o pãozinho no lado maior quando a gente vai fazer um sanduíche, e comer as duas metades ao mesmo tempo, fechadas. Se for pra comer só metade e dar a outra metade pra outra pessoa ou devolver pro saquinho de pão, o pãozinho será cortado no eixo menor. Aqui, se um alemão concordar em dividir um pãozinho com você e você cortar o mesmo no lado menor pode ter certeza que o alemão vai te olhar como se você tivesse feito a coisa mais estranha e inesperada que ele já presenciou em sua vida!

Aliás já que estamos falando de pãozinho, uma dica pra você não cometer um erro que eu cometo regularmente, inclusive hoje mesmo na hora do almoço: Se você disser para um alemão te trazer uns pãezinhos da padaria, lembre-se de especificar que você quer pãezinhos brancos, aqui conhecidos como “Kleinbrötchen” (entre outros nomes possíveis). Se você quiser o pãozinho da imagem acima, tem que ser específico. Se você disser simplesmente “traz um pãozinho”, vai vir qualquer coisa menos pão branco. Se forem vários vai ser uma variação de pães diversos em que uns 10% a 20% serão pãezinhos brancos. Então se você quiser só pãezinhos brancos, seja específico. Se você for passar a noite na casa de alguém e a pessoa combinar um horário pra tomar café na manhã seguinte (sim, eles vão combinar um horário específico pra se “encontrar” pro café da manhã) e a pessoa te perguntar se você tem alguma preferência pro café, quantos pãezinhos você come, e tal: lembre-se de especificar que você só come pãezinhos brancos (se for o caso), se não é capaz de não ter um único pãozinho francês na seleção de 20 pãezinhos que seu anfitrião colocar na mesa do café no dia seguinte.

É isso! Daria pra escrever sobre mil outras coisinhas, mas deu pra dar uma ideia…


(Publicado em 22 de Agosto de 2017)

Lembranças do Brasil para a Alemanha

Às vezes eu dou uma olhada nos termos de busca que trazem pessoas ao blog, para ter uma ideia de que temas interessam às pessoas. Um que volta e meia aparece, e que eu nunca abordei é esse: o que dar de presente para um alemão. Na verdade eu falei um pouco sobre isso, sim, nesse post. Mas foi uma coisa mais geral sobre presentes para alemães, e o que eu tenho percebido pelos termos de busca é que as pessoas querem saber, na verdade, o que dar de lembrança do Brasil para um alemão. Possivelmente pq virão para cá visitar alguém e querem saber o que trazer de presentinho, algo assim.

Daí esse post.

Minha primeira descoberta nesse sentido é de que é arriscado trazer vários doces brasileiros. A gente sempre pensa em dar doces, já que temos maravilhosos doces típicos no Brasil, mas quase sempre quando eu ou trago doces do Brasil ou faço algum doce típico brasileiro para os alemães, quase sempre eles acham muito doce. O último bolo de cenoura que eu fiz para os colegas do escritório eu coloquei um QUARTO da quantidade de açúcar indicada na receita, e mesmo assim eles acharam muito doce (porque a cobertura era com leite condensado). Eles disseram que gostaram, mas a verdade é que meu bolo durou bem mais do que o outro bolo que minha colega tinha feito para a mesma ocasião. Droga. No geral a reação é positiva mas sem entusiasmo. Um “Hmm, gostoso, gostei, sim!”, que não chega nem perto de um “NOSSA, QUE DELÍCIA!! Me ensina como faz, é bom demais!!!”.

Paçoquinha é um doce que parece funcionar. Eu ganhei recentemente 3 enormes caixas com 50 paçoquinhas cada. Deixei uma no escritório e outra dei pro meu marido levar pro escritório dele. As pessoas pareceram gostar das paçocas. Inicialmente olharam com hesitação, perguntaram se tinha que colocar em água ou como que comia… mas depois de experimentada, a caixa esvaziou bem rápido. Apesar de que dois dias depois uma colega saiu de férias e durante os dias em que ela não veio a caixa demorou bem mais para esvaziar. Então pode ser que ela que tenha comido todas as paçoquinhas e o resto dos colegas na verdade nem gostou tanto.

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Eu ainda acho que alguns doces, mesmo que eles não gostem muito, ainda vale a pena trazer de presentinho pq são bem típicos. Tipo um pote de um doce de leite bem legal, daqueles que você compra em Minas, sei lá. Acho que é um presente que seria apreciado mesmo que demore muito para ser totalmente comido.

No ano passado no meu aniversário eu fiz, também para os colegas do escritório, brigadeiros, cajuzinhos e beijinhos. Os brigadeiros eu levei quase metade de volta pra casa, os cajuzinhos sumiram rápido mas foi porque eu comi quase todos, mas os beijinhos pareceram apetecer ao gosto germânico com sucesso. Acho que foi a preferência unânime entre os colegas. Talvez o côco compense um pouco o excesso de açúcar? Não sei.

Mas é isso, doce é legal mas é arriscado.

Uma nota importante sobre importar comidas: há regras e proibição de importação de certos alimentos e produtos, especialmente produtos de origem animal. Eu não vou me aventurar a listar aqui as regras pq essas coisas mudam e se eu colocar alguma coisa aqui, certamente muitas pessoas vão usar essa informação como verdade absoluta sem checar as regras reais nas fontes confiáveis. Então fica apenas aqui o link para o site da alfândega alemã na página sobre regras referentes a importação de alimentos (em inglês). Veja lá se o que você está trazendo é permitido trazer, e se precisa ser declarado. E pelamordedeus nunca procure informações desse gênero em blogs pessoais, procure sempre na fonte original da informação, ou seja, no site da alfândega. 

Saindo um pouco das comidas, uma coisa que talvez seja legal seja umas canecas com motivos típicos. Por exemplo, eu ganhei esses dias de umas amigas brasileiras umas canecas com imagens de araras e tucanos. Super bonitinhas, acho que (além de terem sido um ótimo presente para mim) seriam também uma ótima lembrancinha do Brasil para alemães. Aqui eles tomam muito tanto café quanto chá e todos têm várias canecas diferentes em suas casas.

Uma outra idéia que pode funcionar bem é um espremedor de limão. A gente trouxe um para a minha sogra, da última vez que estivemos no Brasil, e ela gostou tanto que quando minha mãe veio visitar no mês passado, pediu para ela trazer mais dois, para ela dar de presente para outras pessoas! O que é curioso, pq eu já vi espremedor de limão aqui pra vender… mas são raros e a verdade é que quase ninguém conhece. Então sei lá, um espremedor de limão com alguns limões verdes e uma “receita” de caipirinha poderia ser uma boa idéia. E uma garrafa de cachaça.

Pode ser legal também, talvez, um CD com músicas brasileiras. Mas não um CD do Netinho, sei lá. Um CD com umas músicas MPB clássicas, ou músicas instrumentais bossa nova, uma coisa simpática pra colocar de fundo musical no jantar com a família, algo assim. Claro, se a pessoa que você for presentear for uma pessoa jovem, pode ser meio arriscado dar um CD, hoje em dia as pessoas nem tem mais aparelhos que tocam CD. Mas pessoas mais velhas (sei lá, 45 anos pra cima?) que não estão muito por dentro dos Spotifys e Youtubes e Apple Musics da vida ainda adoram dar CD. A gente ganhou 3 CDs de presente de casamento de amigos dos meus sogros que não foram convidados pro casamento mas queriam mandar uma lembrancinha. ¯\_(ツ)_/¯ E o meu sogro sempre bota CD na lista de presente de Natal dele… então pronto, acho que um CD com umas músicas simpáticas típicas pode cair bem com algum presenteado mais velho.

Ok, aqui termina a minha criatividade em presentes-genéricos-do-Brasil-para-pessoas alemãs-aleatórias. Se você que está lendo esse ilustre post tiver mais alguma ideia brilhante, ajude a completar essa lista nos comentários!


(Publicado em 27 de Junho de 2017)

Abrindo e fechando portas

As vezes são as pequenas coisas e pequenos costumes bobos que são os mais difíceis de mudar. Você pode passar anos num local onde todo mundo faz determinada coisa do jeito A, tentar fazer as coisas do jeito A, mas acabar sem querer fazendo do jeito B toda vez.

Uma coisa desse tipo, pra mim, é abrir e fechar portas. Eu sei, eu sei, “Ué, tem jeitos diferentes de abrir e fechar portas?”, você está se perguntando.

Mais ou menos.

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Uma diferença a respeito das portas, aqui, é que quando vc fecha a porta, ela tranca sozinha. A fechadura funciona de um jeito que você só conseque abrir por dentro. Por fora precisa sempre de chave. Nem todas as portas de entrada são assim, mas a grande maioria é.

O que significa que você só usa a chave pra trancar a porta quando você está saindo e deixando a casa vazia. Se tiver alguém dentro, você só fecha desse jeito. E você nunca tranca a porta por dentro, nunca nunca. Até porque o objetivo desse sistema é segurança: você poder sair correndo de casa no caso de uma emergência ou incêndio, não precisar ficar procurando chave pra poder abrir a porta e correr pra fora. Faz todo sentido.

Mas isso resulta num costume diferente em relação a abrir e fechar portas que é: quem fecha ou abre a porta quando duas ou mais pessoas entram juntas num local.
Veja só: quando o normal é trancar a porta por dentro depois de entrar num local, ou trancar por fora com chave ao sair, normalmente a pessoa que abre a porta é a mesma que fecha. Porque se ela abriu a porta, ela está com a chave na mão. Então o normal, no Brasil (e a gente nem percebe que é assim) é a pessoa que está com a chave abrir a porta, sair, esperar fora enquanto as outras pessoas saem, e então trancar a porta depois de todo mundo. A pessoa que abriu a porta é a pessoa que fecha a porta, essa é a regra.
Só que aqui, quando você está saindo de um local, você nem precisa pegar a chave. E quando vc está entrando, você só precisa da chave na hora de abrir a porta. Logo, o normal é que quem for o último a passar pela porta é que fecha a mesma. Porque que a primeira pessoa que passou pela porta ficaria esperando pra fechar a mesma, se pra fechar é só puxar?

Isso parece uma bobeirinha, mas é um costume estranhamente enraizado nos pés. Quase sempre quando eu passo por uma porta por último eu deixo ela aberta subconscientemente achando que a pessoa que abriu é que vai fechar! E os alemães – não sabendo do por quê disso – sempre acham muito estranho quando eu faço isso. O meu namorado desde o começo brinca que eu nasci num metrô. Demorou pra eu enteder o que ele queria dizer… mas é porque no metrô as portas fecham automaticamente… rsrsrs

E embora eu saiba, conscientemente, que se for a última a passar pela porta devo fechá-la, várias vezes eu, distraída, esqueço. Essa semana mesmo isso ocorreu com colegas do escritório quando saímos pra almoçar. Eu passei e deixei a porta aberta – distraidamente – e minha colega ficou confusa achando que estávamos esperando mais alguém e por isso que eu tinha deixado a porta aberta!

Na hora fatídica de passar pela porta eu sempre me pego pensando “opa! quem que fecha a porta, mesmo? a pessoa que abriu ou a pessoa que saiu por último?”. Eu acho incrível como a gente fica tão profundamente acostumado com uma coisinha tão pequena e boba!

Mas embora eu ainda faça isso “errado” aqui, certamente quando for ao Brasil de novo vou fazer errado lá também…

É isso, então lembre-se sempre de fechar as portas pelas quais você for o último a passar pros alemães não te acharem estranho!

Nesse post aqui eu falei sobre chaves e sistemas de fechaduras usados na Alemanha. Tem uns bem high-tech.


(Publicado em 12 de Maio de 2017)

Sobre mudar de nome ao casar

Os posts estão atrasados, eu sei! Fim de ano é sempre corrido não importa se você estuda, trabalha, cuida da casa e dos filhos, ou seja lá qual for a ocupação que você escolheu para passar o tempo entre refeições.

Mas hoje tive uma conversa sobre nomes engraçados com minha colega no trabalho, e fiquei com vontade de escrever (mais) um post sobre nomes. Eu escrevi já um post sobre como funcionam nomes e sobrenomes na Alemanha, e também um outro sobre nomes não alemães na Alemanha, e também no post sobre casar aqui eu falei sobre como funcionam as regras de mudança de nome.

Esse é sobre mudança de nome também, mas não sobre regras.

Eis que na conversa com a minha colega sobre nomes engraçados, ela contou que a filha dela casou e mudou de nome, para um nome bem constrangedor. Não vou mencionar o sobrenome em especial para não ofender ninguém com o mesmo sobrenome, mas basicamente é um sobrenome com um significado bem peculiar.

Isso que me inspirou a escrever esse post. Como eu já expliquei provavelmente nos três posts que eu linkei lá em cima, ninguém é obrigado a mudar de nome ao casar aqui, claro, e você pode ou trocar seu sobrenome pelo do/a marido/esposa, ou adicionar o dele/a extra ao seu com um hífen. A Joana, por exemplo, suponhamos que o nome de nascimento dela era Joana Belo. Aí casando com o (digamos) Lúcio Peixoto, ela poderia mudar o nome dela pra Joana Belo-Peixoto, ou Joana Peixoto-Belo, ou ainda Joana Peixoto, ou deixar o Joana Belo.

Eu vou me casar no ano que vem e nunca nem de longe passou pela cabeça cogitar mudar de nome. Eu entendo que ainda hoje algumas pessoas escolham mudar de nome ao casar, ainda tem uma certa romantização da família toda ter o mesmo nome, em círculos mais conservadores ainda é um tanto inesperado que a noiva mantenha seu nome de nascimento, e, claro, em muitos casos a pessoa nem gosta de seu nome de nascimento e aproveita a oportunidade para se livrar dele para sempre. Tudo bem. Eu gosto muito do meu sobrenome, acho ele bem bonito, ele é parte da minha identidade, nunca pensei em mudar.

Mas o que me surpreende é o quanto isso – a mulher manter o nome de nascimento depois de casar – ainda é totalmente estranho para os alemães! Você imaginaria que aqui as pessoas são menos conservadoras, menos ligadas a essas tradições. Mas to-das as mulheres com quem eu falei sobre o assunto – to-das – responderam com “Não vai mudar? Mas nossa, por quê?” como se não mudar de nome signficasse que eu não amo meu noivo o suficiente ou pretendo me divorciar, ou coisa assim. Fico até com uma pontinha de dúvida se as pessoas não ficam achando que se eu não vou mudar de nome é porque eu quero casar só pra tirar o visto de permanência aqui (o qual eu nem preciso ter) ou coisa assim.

É curioso como todas as mulheres alemãs da minha geração que eu conheço aqui e que são casadas mudaram o sobrenome pro do marido. As únicas mulheres que eu conheço aqui de idades próximas à minha que mantiveram o nome ao casar são brasileiras!

E a única alemã que eu conheço que tem seu nome de nascimento é a minha sogra, que mudou de nome ao casar (era obrigatório na época) e assim que a lei mudou e passou a permitir manter o nome de nascimento (no começo dos anos 90) ela foi correndo mudar o nome de volta para o nome original! O casal continua junto até hoje, a desmudança do nome nada tinha a ver com o marido ou com a relação, é uma questão de identidade, mesmo. Acho essa história o máximo!

Isso tudo é estranho também porque aqui, diferente do Brasil, sobrenomes são muito importantes. Em ambientes profissionais quase sempre você será tratado pelo seu sobrenome, só entre colegas da mesma empresa com quem você convive diariamente é que você usa o primeiro nome. Numa reunião, por exemplo, com pessoas de outras empresas, você jamais vai usar o primeiro nome.

Então num contexto desse onde você realmente acostuma a se identificar pelo seu sobrenome, e em 2016 num país onde as pessoas acham muito sinceramente que machismo é coisa do passado ou de outros lugares do mundo, me é muito estranho que as mulheres aceitem mudar de nome tão tranquilamente, sem questionar, e que ainda lhes pareça tão estranho que alguém escolha manter o nome original. Porque Pelo Amor De Deus. Se você tá deliberadamente mudando seu nome pra algo engraçado ou constrangedor, é porque tem alguma coisa errada aí.

Mesmo no cartório, quando fomos entregar os documentos para tirar a “autorização” para casar, senti uma ligeira pressão da funcionária no sentido de mudar de nome. Ela disse que não precisa, e informou direitinho as regras, mas repetiu muitas vezes que eu posso mudar de ideia e mesmo depois de casada mudar meu nome pro do meu marido, a qualquer momento eu poderia fazer isso, viu, pode ficar à vontade, se você quiser mudar a gente muda, você pode estar com 70 anos de idade que tudo bem, quiser mudar o nome pro do marido vem aí que a gente muda! Se eu ainda tivesse expressado alguma dúvida a respeito quando ela perguntou da primeira vez… mas nós fomos bem claros desde o início que não haveria mudança de nome e mesmo assim houve uma insistência muito grande em me assegurar que eu poderia mudar de ideia…

Eu quero só ver as pessoas depois que eu casar me tratando pelo sobrenome do meu marido. Vão ouvir um “ESSE NÃO É MEU NOME!” bem grosso…


(Publicado em 9 de Dezembro de 2016)

Se reunindo pra ver fotos de viagem

Hoje eu acordei com a seguinte mensagem no meu whatsapp, de uma amiga brasileira daqui:

Gente. Já aconteceu isso com vcs? Fui convidada por uma conhecida pra ir pra casa dela pra fazer uma festinha pra ela apresentar um PPT de como foram as férias dela. Tava sério, muito bege. Tava pensando que cilada eu vim parar! Já tava durando 1,5h e ainda não tinha acabado qdo fui embora!

S.I.M. Já aconteceu. MUITAS vezes.

Esse é um programa típico entre alemães que eu jamais compreenderei: convidar os migos em casa pra assistir o fulano mostrar as cinqueta e sete mil, novecentas e trinta e nove fotos da viagem de 5 semanas que ele fez nas Montanhas Tarvagatai na Mongólia.

Não é que eu não queira ver as fotos das montanhas Tarvagatai na Mongólia. Eu até quero. Eu acho bem bonitas as montanhas Tarvagatai na Mongólia. Mas eu gostaria de ver as fotos das montanhas Tarvagatai na Mongólia assim, de boa, na minha casa, no face, no meu ritmo, onde eu vou pulando as fotos que eu achei chatas, olho com mais cuidado uma ou outra aqui e ali, posso girar o olho pra selfie boba do fulano com o almoço mongolês dele, não necessariamente ficar meia hora olhando a foto embaçada bem de longe de algo que talvez possa ter sido um leopardo das neves, pular as fotos dele abraçando o guia mongolês que levou ele no tour das montanhas Tarvagatai na Mongólia, etc.

Mas assim, num powerpoint preparado com a pessoa me contando pra cada foto mil coisas que certamente são muito interessantes pra quem esteve lá mas totalmente x pra quem não esteve… “Aqui nesse pedaço de grama aqui tá vendo que tem uma manchinha meio escura? O guia falou pra gente que era uma pegada de lobo aqui!! Parece que os lobos aparecem aqui a noite às vezes, eu acho que talvez tenha ouvido um lobo a noite quando eu tava dormindo e sonhando com lobos, e…”

Não, gente!! Não!!

E isso quando eles preparam! Tem vezes que é tipo “ah, então, eu trouxe aqui as fotos da minha viagem pra te mostrar, eu não fiz uma seleção, ainda, mas….”

nãããããoooooooooo….. e lá se vão mais 3 horas da minha vida assistindo foto de viagem alheia!! Não mereço!!!

Quando a pessoa te convida pra ir na casa dela ver isso, beleza, vc ainda pode inventar uma desculpa, sair de finininho depois de meia hora… mas não é incomum que a pessoa chegue na sua casa convidada prum jantar entre amigos qualquer, trazendo o HD com as malditas fotos da viagem….

E aí quando finalmente terminam as fotos, o amigo fala “bom, essas foram as fotos dos primeiros três dias. Agora deixa eu entrar aqui na outra pasta com as fotos dos 3 dias seguintes…”

Nessas eu já tive que assistir até slideshow COM SLIDE DE VERDADE de fotos de uma viagem que a pessoa tinha feito em MIL NOVECENTOS E OITENTA E TRÊS. POR QUÊ? POR QUÊ?

Eu não agüento nem olhar as fotos das minhas próprias viagens desse jeito! Já tive várias briguinhas com o namorado que faz toda uma seleção de fotos da viagem e aí vai nos encontros de família e quer ficar mostrando uma por umaaaaaaaaaa nãããããooooooooo……

Sério, todo ano (pq isso acontece mto comigo no final do ano, quando encontramos a família e alguns amigos pro Natal) eu sofro com isso e tudo o que eu queria era levar algum migo brasileiro comigo pra ter com quem trocar uns olhares discretos e me sentir compreendida… porque os alemães, além de gostar de mostrar as fotos da viagem, também gostam de assistir as fotos das viagens alheias em slideshows de 2 horas… então no final não dá nem pra você comentar com o outro amigo que tb estava lá vendo as fotos “meu deus, o que foi isso!!!??”!

Então fique avisado. Se você vier pra cá. E fizer amigos alemães. Quando eles te convidarem pra ir na casa deles ver as fotos da viagem… é pra ir na casa deles ver um slideshow de três horas e meia com todas as doze mil oitocentas e quarenta e duas fotos que ele tirou na viagem de 5 semanas pras montanhas Tarvagatai na Mongólia. Boa sorte.


(Publicado em 6 de Novembro de 2016)

Dinheiro, empréstimos e aluguéis

Hoje por acaso me deparei com um artigo muito interessante sobre o porquê de os alemães quase sempre pagarem tudo com dinheiro. Vários aspectos da cultura alemã apontados no artigo são coisas que eu já tinha notado e estranhado logo de início, e por isso achei que seria uma boa escrever um post sobre o assunto, baseado nesse artigo e nas minhas experiências pessoais por aqui.

No Brasil paga-se quase tudo com cartão. Enquanto estava lá eu raramente carregava mais que 20 reais na carteira uma vez que QUALQUER lugar aceita cartão. Os motivos são vários: é muito mais prático não precisar lembrar de tirar dinheiro, as pessoas se sentem mais seguras carregando menos dinheiro – para o caso de serem assaltadas ou furtadas – e tem ainda o conforto de não “ver” o dinheiro sendo gasto: quando você tem o dinheiro na carteira e vê ele diminuindo, é bem mais difícil gastá-lo.

Mas na Alemanha o contrário é o normal: Aqui se paga muito mais com dinheiro que com cartão. Tem que lembrar de carregar dinheiro porque muitas lojas e restaurantes nem sempre aceitam cartão de crédito. A porcentagem de pagamentos realizados em dinheiro na Alemanha chega a 82%, bem maior se comparada, por exemplo, ao valor nos Estados Unidos: 46%. Eu não sei qual é essa porcentagem no Brasil, e imagino que seja difícil comparar países desenvolvidos com países em desenvolvimento nesse quesito. Mas imagino que pelo menos em São Paulo seja um valor parecido ao dos Estados Unidos.

O artigo sugeria alguns motivos para essa preferência forte por pagamentos em dinheiro aqui:

1. Ter uma noção dos gastos
Assim como a gente (ou eu, pessoalmente) prefere pagar com cartão pra não sentir tanto o dinheiro indo embora, para os alemães o contrário é o motivo: eles preferem ter uma noção dos seus gastos para ter um controle sobre os mesmos. Faz sentido, claro. (Ainda sou mais o cartão…)

2. Anonimidade
Como eu já mencionei em outros posts por aqui, especialmente nesse aqui sobre a internet, os alemães são suuuuper noiados com privacidade. Eles evitam colocar o nome completo em sites (incluindo o perfil do face), evitam colocar fotos de si e especialmente taguear essas fotos (pra evitar que esses programas de reconhecimento de rosto que as redes sociais (por exemplo) usam gravem seus rostos), evitam serviços de email e mensagens em que as mensagens não sejam criptografadas, ou em que o serviço mantenha o histórico gravado em seu sistema mesmo depois que as mensagens são apagadas (Face, WPP, Google, quem sabe o que eles fazem com as informações?), etc etc.

Pra gente no Brasil, que é extremamente apegada às dinâmicas sociais internéticas, esses cuidados parecem uma nóia insana, quase uma afronta à socialização. Como faz amizade com alguém que não tem nem Smartphone nem Facebook? (E não são poucos os alemães que se encaixam nessa descrição!) Tem que telefonar pra pessoa? Mandar um email e torcer pra pessoa sentar hoje a noite no computador pra ler seus emails?

Mas bom, se os alemães estão em um extremo em termos de nóia com privacidade online, a gente está no outro. Talvez um meio termo fosse ideal. Seja como for, esses cuidados acabam se refletindo nos costumes dos alemães em relação ao dinheiro: vários dizem que não gostam de pagar com cartão porque não querem que todas as suas compras e seus movimentos financeiros possam ser tão facilmente rastreados. É verdade que sua fatura do cartão de crédito já é o suficiente pra dizer muito sobre você: O que vc compra, onde, os lugares que você frequenta, os seus hobbies, etcetc. Mas, por outro lado, também não sei pq alguém se interessaria em saber tais coisas sobre mim, muito menos as pessoas que teriam acesso a essas informações, organizações governamentais, e tal. Mas bom, talvez o cuidado alemão com isso seja bem mais sensato do que nos parece.

3. Alemães evitam dívidas
Esse é o ponto mais interessante levantado pelo artigo, sobre o qual eu nunca tinha pensado muito a respeito, mas que se encaixa em várias das minhas observações alemanhísticas. Mas essa aversão a dívidas é de fato uma característica típica por aqui, e que se traduz em dois resultados bem interessantes: poucos alemães possuem cartões de crédito – especialmente os que são de fato de crédito por definição e; em relação a imóveis, os alemães têm uma clara preferência por alugel a compra por financiamento.

Sobre o cartão de crédito: Aqui existem dois tipos de cartão. Na verdade, três. O primeiro é o EC Card (Eletronic Cash Card), tb conhecido pelo nome de Girocard (não sei se tem diferença). É o cartão de débito alemão e que funciona como cartão de débito na europa inteira. Esse é bem amplamente aceito em lojas e restaurantes por aqui.

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Daí temos também os cartões de créditos, que podem ser de dois tipos: ou um normal onde vc faz as suas compras e paga a fatura no final do mês (embora o mais comum seja vc ter o cartão do banco onde tem conta e a fatura ser descontada automaticamente da sua conta no final do mês) ou um cartão de crédito pré pago (que portanto por definição não é de crédito, mas tudo bem) onde vc coloca crédito antes e vai gastando, meio como um cartão de débito.

O uso do cartão de crédito no esquema faça-suas-compras-de-boas-e-pague-tudo-no-final-do-mês é um conceito que vários alemães nem entendem! Eu tive várias discussões com meu namorado em que ele me dizia que não podia fazer tal compra com o cartão de crédito antes de transferir dinheiro pra conta do cartão e eu tendo que explicar que cartões de crédito, por definição, não exigem que vc tenha o dinheiro disponível na hora da compra, mas só no final do mês (ou seja lá quando for que vence a fatura). Demorou pra ele acreditar que ele podia comprar algo com o cartão de crédito sem ter o dinheiro disponível na conta no mesmo momento (e descobrir isso não o fez nem um pouco mais compelido a gastar dinheiro que não tem). Pode parecer estranho mas isso não deve ser raro por aqui: apenas 36% dos alemães possuem um cartão de crédito (comparando com 62% nos EUA). Parece que para os alemães a utilidade do cartão de crédito é basicamente para fazer compras ou tirar dinheiro no exterior, onde não se aceita o cartão de débito alemão. Eu mesma nunca usei o meu cartão de crédito alemão por aqui (embora tenha um). É raramente aceito, e para compras online pode sempre usar o tal cartão EC. Só uso o de crédito se compro alguma coisa num site estrangeiro.

Sobre alugar em vez de comprar: Isso é uma das coisas com que eu mais me identifico nos alemães e menos nos brasileiros. No Brasil as pessoas vêem alguel como uma perda de dinheiro. Pra quê pagar um aluguel se você pode pagar a mensalidade de um financiamento em vez disso, e ainda ficar com a casa depois (dos 60 anos de idade, ou algo assim)? Pra mim sempre foi bem curioso como no Brasil todo mundo está sempre desesperado pra comprar imóvel, colegas da minha idade (quase 30) preferem morar com os pais até os 35 pra poder juntar dinheiro pra dar entrada em um apartamento do que ir morar de aluguel com o namorado/a e experimentar um pouco da vida adulta e talz. Nesse sentido eu me encaixo bem por aqui. Os alemães preferem a independência de um aluguel: morar na sua própria casa tão cedo quando possível, não se prender a um local ou cidade ou a um emprego que você não pode correr o risco de perder porque precisa continuar pagando o financiamento do apartamento que comprou (o aluguel também precisa ser pago, claro, mas pode-se sempre procurar um mais barato se não tiver rolando). E evitam ao máximo um empréstimo que possa gerar dívidas no futuro: nunca se sabe o que o futuro guarda (e os alemães são sempre bem pessimistas).

Por essas e outras que a porcentagem de pessoas que têm casa própria na Alemanha, 40%, é bem abaixo da média de outros países desenvolvidos (por volta de 80% na Itália e Espanha, 70% na Inglaterra e EUA).

Outro ponto interessante nessa história toda é que por causa desse costume alemão de pagar com dinheiro que existe a nota de 500 euros. Aparentemente essa nota só existe por pressão da Alemanha, e na França é chamada de “nota alemã”. (Eu nunca vi e nem senti cheiro de uma, mas tudo bem!)

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Luis Javier Modino Martinez – Wikipedia

Acho que é isso! Aqui estão os artigos que serviram de fonte dos dados e alguns argumentos desse post:

Why Germans pay cash for almost everything

http://www.businessinsider.com/you-have-to-understand-germanys-long-standing-fear-of-debt-2012-7?IR=T

Most Germans don’t buy their homes, they rent. Here’s why


(Publicado em 26 de Setembro de 2016)