Pessoas

Pequenas denúncias

Esse post de título um tanto enigmático me deu na telha de escrever na semana passada, ao comprar uma água. E é sobre pequenas coisas, pequenos detalhes, que te denunciam como estrangeiro na Alemanha. Não coisas grandes como erros gramaticais ou pronúncia da língua. Coisinhas pequenas, não necessariamente erradas, discretas, porém que nenhum alemão jamais faria ou expressaria dessa maneira.

Quem já viu o filme Bastardos Inglórios vai lembrar bem da cena em que o espião americano infiltrado entre os nazistas é descoberto ao pedir duas cervejas num bar, mostrando o dedo indicador e o do meio. Os alemães contam nos dedos começando com o dedão, então “dois”, na linguagem dedística alemã, seria levantar o dedão e o indicador. Se você, como a pessoa normal que é, levantar o dedo indicador e o do meio para indicar dois: ! Estrangeiro!

Então aqui vão outras coisinhas que poderiam resultar na sua execução imediata se você fosse um espião estrangeiro infiltrado entre os nazistas em 1940.

1. Volume de bebida
A história da água foi que eu pedi ontem uma garrafa de água no subway, e quando a pessoa do caixa me perguntou qual tamanho, eu distraidamente respondi “A pequena, de 500”. 500 mL, claro. Na Brasil a gente fala de tamanho das bebidas em mL. 300, 500, 700. Só a partir de 1L qua a gente passa pra litros. Mas aqui  na Alemanha é tudo sempre em Litros. 0,3, 0,5, 0,7. A resposta certa no caso da água teria sido “null komma fünf“, “zero vírgula cinco” (ou só “komma fünf“). Todo mundo entende se você fala em mL, claro, mas nenhum alemão jamais responderia àquela pergunta com “fünfhundert“. Jamé.

2. Emails
Duas pequenezas em emails eu descobri outro dia que eram diferentes. São pequenezas tão discretas que eu nunca teria notado. Mas provavelmente os alemães que receberam emails escritos por mim notaram. Quando você escreve um email (ou carta) em português, é algo assim:

“Caro Sr. Fulano de Tal,

Como conversamos por telefone, envio em anexo o documento xyz, etc.

Atenciosamente,
Eu Mesmo da Silva”

Se a gente seguisse a mesma regra que os alemães, essa mesma carta seria assim:

Caro Sr. Fulano de Tal,

como conversamos por telefone, envio em anexo o documento xyz, etc.

Atenciosamente
Eu Mesmo da Silva

Sacou a diferença? São duas. A mais importante e mais denunciativa é a primeira: aqui você sempre começa o email com letra minúscula (depois do “Caro fulano”, que aliás em alemão seria “Sehr geehrte(r) xyz). O motivo faz sentido: A frase começou com “Caro fulano, xxx”, não tem porquê colocar maiúscula depois da vírgula. Mas por algum motivo misterioso em português e em inglês se faz assim em emails e cartas. A segunda diferença não é tão determinante. Entre o “Atenciosamente” (em alemão você escreveria “Mit Freundlichen Grüßen“) e o seu nome, os alemães não costumam colocar vírgula. Mas não é uma regra tão definitiva: às vezes eles também colocam uma vírgula.

3. Futebol
Duas grandes pequenas diferenças existem entre nós e os alemães ao falar de futebol. A primeira é a contagem do tempo. No Brasil a gente conta em duas vezes de quarenta e cinco minutos. Então se alguém chega e te pergunta “E o jogo? Tá onde?”, você responderia algo como “30 minutos do segundo tempo”. Na Alemanha, a resposta seria “75 minutos”. O jogo é contado em 90 minutos, não duas vezes de 45. Então se você fala em algum minuto do 0 ao 45, você com certeza está se referindo ao primeiro tempo. A expressão “aos quarenta e cinco do segundo tempo” não faria sentido aqui.
Outra diferença (embora essa seja mais algo que denunciaria um alemão no Brasil que o contrário) é a contagem dos gols. No Brasil a gente sempre coloca quem tem mais gols primeiro. Por exemplo: “O jogo ficou sete a um pra Alemanha”. Na Alemanha você fala os gols do time da casa primeiro. “O jogo ficou um a sete.” é certamente algo que você nunca disse em português.

Talvez agora você esteja prestes a escrever um comentário perguntando a mesma coisa que eu perguntei pro marido alemão quando conversamos sobre esse assunto: como faz quando não tem time da casa? E se for, digamos, Marrocos x Japão jogando no Uruguai? A resposta foi: ¯\_(ツ)_/¯. Bom, tem sempre uma regra pra qual time é o time da casa mesmo nesses campeonatos internacionais, no sentido de qual time tem que trocar de roupa se os uniformes forem da mesma cor, né. Mas sei lá se tem toda essa preocupação em ser específico. Acho que colocar o número maior na frente e dizer quem ganhou (ou está ganhando) faz mais sentido e os alemães podiam pensar em adotar essa regra simples, ficadica.

4. Casaco
Dois compartamentos referentes a casacos te denunciariam imediatamente como estrangeiro (de país onde não faz frio) na Alemanha.

A primeira é andar por aí no frio com o casaco aberto. Algo que não faz nenhum sentido lógico: o casaco serve pra isolar seu corpo do frio, pra ele não perder calor. Não funciona se o casaco estiver aberto. Mas no Brasil, como quase não faz frio, a gente praticamente nem têm casacos que isolam, então efetivamente tanto faz se o casaco está aberto ou fechado. Daí a gente chega bobo no país frio durante o inverno e demora uns tempos pra descobrir que casaco de inverno só funciona quando fecha o zíper.

A outra coisa sobre casacos é que, como os interiores dos edifícios são aquecidos, as pessoas tiram o casaco ao entrar em qualquer lugar. É meio que a reação direta e automática a entrar num local: tirar o casaco. Só que no Brasil a gente usa o casaco o dia inteiro, dentro de casa e do escritório e do restaurante e de todos os lugares, já que costuma estar a mesma temperatura dentro e fora. Então a gente não tem esse costume de imediatamente tirar o casaco ao entrar num local, e às vezes fica lá distraído de boas no seu casaco. Os alemães acham isso meeeeega estranho, a ponto de chamar a atenção que alguém esteja usando casaco sem estar lá fora.

5. Meio Pãozinho
Digamos que eu te dê um pãozinho, um pãozinho normal, pão francês, e te peça pra cortar ao meio e me dar metade e comer a outra metade. Em que eixo do pãozinho você vai cortá-lo? Provavelmente você vai cortá-lo assim:

paozinho

Dê o pãozinho a um alemão e peça para ele cortá-lo ao meio para comer só metade e em 100% dos casos o pãozinho será cortado neste eixo:

paozinho

No Brasil, a gente só corta o pãozinho no lado maior quando a gente vai fazer um sanduíche, e comer as duas metades ao mesmo tempo, fechadas. Se for pra comer só metade e dar a outra metade pra outra pessoa ou devolver pro saquinho de pão, o pãozinho será cortado no eixo menor. Aqui, se um alemão concordar em dividir um pãozinho com você e você cortar o mesmo no lado menor pode ter certeza que o alemão vai te olhar como se você tivesse feito a coisa mais estranha e inesperada que ele já presenciou em sua vida!

Aliás já que estamos falando de pãozinho, uma dica pra você não cometer um erro que eu cometo regularmente, inclusive hoje mesmo na hora do almoço: Se você disser para um alemão te trazer uns pãezinhos da padaria, lembre-se de especificar que você quer pãezinhos brancos, aqui conhecidos como “Kleinbrötchen” (entre outros nomes possíveis). Se você quiser o pãozinho da imagem acima, tem que ser específico. Se você disser simplesmente “traz um pãozinho”, vai vir qualquer coisa menos pão branco. Se forem vários vai ser uma variação de pães diversos em que uns 10% a 20% serão pãezinhos brancos. Então se você quiser só pãezinhos brancos, seja específico. Se você for passar a noite na casa de alguém e a pessoa combinar um horário pra tomar café na manhã seguinte (sim, eles vão combinar um horário específico pra se “encontrar” pro café da manhã) e a pessoa te perguntar se você tem alguma preferência pro café, quantos pãezinhos você come, e tal: lembre-se de especificar que você só come pãezinhos brancos (se for o caso), se não é capaz de não ter um único pãozinho francês na seleção de 20 pãezinhos que seu anfitrião colocar na mesa do café no dia seguinte.

É isso! Daria pra escrever sobre mil outras coisinhas, mas deu pra dar uma ideia…


(Publicado em 22 de Agosto de 2017)

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Lembranças do Brasil para a Alemanha

Às vezes eu dou uma olhada nos termos de busca que trazem pessoas ao blog, para ter uma ideia de que temas interessam às pessoas. Um que volta e meia aparece, e que eu nunca abordei é esse: o que dar de presente para um alemão. Na verdade eu falei um pouco sobre isso, sim, nesse post. Mas foi uma coisa mais geral sobre presentes para alemães, e o que eu tenho percebido pelos termos de busca é que as pessoas querem saber, na verdade, o que dar de lembrança do Brasil para um alemão. Possivelmente pq virão para cá visitar alguém e querem saber o que trazer de presentinho, algo assim.

Daí esse post.

Minha primeira descoberta nesse sentido é de que é arriscado trazer vários doces brasileiros. A gente sempre pensa em dar doces, já que temos maravilhosos doces típicos no Brasil, mas quase sempre quando eu ou trago doces do Brasil ou faço algum doce típico brasileiro para os alemães, quase sempre eles acham muito doce. O último bolo de cenoura que eu fiz para os colegas do escritório eu coloquei um QUARTO da quantidade de açúcar indicada na receita, e mesmo assim eles acharam muito doce (porque a cobertura era com leite condensado). Eles disseram que gostaram, mas a verdade é que meu bolo durou bem mais do que o outro bolo que minha colega tinha feito para a mesma ocasião. Droga. No geral a reação é positiva mas sem entusiasmo. Um “Hmm, gostoso, gostei, sim!”, que não chega nem perto de um “NOSSA, QUE DELÍCIA!! Me ensina como faz, é bom demais!!!”.

Paçoquinha é um doce que parece funcionar. Eu ganhei recentemente 3 enormes caixas com 50 paçoquinhas cada. Deixei uma no escritório e outra dei pro meu marido levar pro escritório dele. As pessoas pareceram gostar das paçocas. Inicialmente olharam com hesitação, perguntaram se tinha que colocar em água ou como que comia… mas depois de experimentada, a caixa esvaziou bem rápido. Apesar de que dois dias depois uma colega saiu de férias e durante os dias em que ela não veio a caixa demorou bem mais para esvaziar. Então pode ser que ela que tenha comido todas as paçoquinhas e o resto dos colegas na verdade nem gostou tanto.

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Eu ainda acho que alguns doces, mesmo que eles não gostem muito, ainda vale a pena trazer de presentinho pq são bem típicos. Tipo um pote de um doce de leite bem legal, daqueles que você compra em Minas, sei lá. Acho que é um presente que seria apreciado mesmo que demore muito para ser totalmente comido.

No ano passado no meu aniversário eu fiz, também para os colegas do escritório, brigadeiros, cajuzinhos e beijinhos. Os brigadeiros eu levei quase metade de volta pra casa, os cajuzinhos sumiram rápido mas foi porque eu comi quase todos, mas os beijinhos pareceram apetecer ao gosto germânico com sucesso. Acho que foi a preferência unânime entre os colegas. Talvez o côco compense um pouco o excesso de açúcar? Não sei.

Mas é isso, doce é legal mas é arriscado.

Uma nota importante sobre importar comidas: há regras e proibição de importação de certos alimentos e produtos, especialmente produtos de origem animal. Eu não vou me aventurar a listar aqui as regras pq essas coisas mudam e se eu colocar alguma coisa aqui, certamente muitas pessoas vão usar essa informação como verdade absoluta sem checar as regras reais nas fontes confiáveis. Então fica apenas aqui o link para o site da alfândega alemã na página sobre regras referentes a importação de alimentos (em inglês). Veja lá se o que você está trazendo é permitido trazer, e se precisa ser declarado. E pelamordedeus nunca procure informações desse gênero em blogs pessoais, procure sempre na fonte original da informação, ou seja, no site da alfândega. 

Saindo um pouco das comidas, uma coisa que talvez seja legal seja umas canecas com motivos típicos. Por exemplo, eu ganhei esses dias de umas amigas brasileiras umas canecas com imagens de araras e tucanos. Super bonitinhas, acho que (além de terem sido um ótimo presente para mim) seriam também uma ótima lembrancinha do Brasil para alemães. Aqui eles tomam muito tanto café quanto chá e todos têm várias canecas diferentes em suas casas.

Uma outra idéia que pode funcionar bem é um espremedor de limão. A gente trouxe um para a minha sogra, da última vez que estivemos no Brasil, e ela gostou tanto que quando minha mãe veio visitar no mês passado, pediu para ela trazer mais dois, para ela dar de presente para outras pessoas! O que é curioso, pq eu já vi espremedor de limão aqui pra vender… mas são raros e a verdade é que quase ninguém conhece. Então sei lá, um espremedor de limão com alguns limões verdes e uma “receita” de caipirinha poderia ser uma boa idéia. E uma garrafa de cachaça.

Pode ser legal também, talvez, um CD com músicas brasileiras. Mas não um CD do Netinho, sei lá. Um CD com umas músicas MPB clássicas, ou músicas instrumentais bossa nova, uma coisa simpática pra colocar de fundo musical no jantar com a família, algo assim. Claro, se a pessoa que você for presentear for uma pessoa jovem, pode ser meio arriscado dar um CD, hoje em dia as pessoas nem tem mais aparelhos que tocam CD. Mas pessoas mais velhas (sei lá, 45 anos pra cima?) que não estão muito por dentro dos Spotifys e Youtubes e Apple Musics da vida ainda adoram dar CD. A gente ganhou 3 CDs de presente de casamento de amigos dos meus sogros que não foram convidados pro casamento mas queriam mandar uma lembrancinha. ¯\_(ツ)_/¯ E o meu sogro sempre bota CD na lista de presente de Natal dele… então pronto, acho que um CD com umas músicas simpáticas típicas pode cair bem com algum presenteado mais velho.

Ok, aqui termina a minha criatividade em presentes-genéricos-do-Brasil-para-pessoas alemãs-aleatórias. Se você que está lendo esse ilustre post tiver mais alguma ideia brilhante, ajude a completar essa lista nos comentários!


(Publicado em 27 de Junho de 2017)

Abrindo e fechando portas

As vezes são as pequenas coisas e pequenos costumes bobos que são os mais difíceis de mudar. Você pode passar anos num local onde todo mundo faz determinada coisa do jeito A, tentar fazer as coisas do jeito A, mas acabar sem querer fazendo do jeito B toda vez.

Uma coisa desse tipo, pra mim, é abrir e fechar portas. Eu sei, eu sei, “Ué, tem jeitos diferentes de abrir e fechar portas?”, você está se perguntando.

Mais ou menos.

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Uma diferença a respeito das portas, aqui, é que quando vc fecha a porta, ela tranca sozinha. A fechadura funciona de um jeito que você só conseque abrir por dentro. Por fora precisa sempre de chave. Nem todas as portas de entrada são assim, mas a grande maioria é.

O que significa que você só usa a chave pra trancar a porta quando você está saindo e deixando a casa vazia. Se tiver alguém dentro, você só fecha desse jeito. E você nunca tranca a porta por dentro, nunca nunca. Até porque o objetivo desse sistema é segurança: você poder sair correndo de casa no caso de uma emergência ou incêndio, não precisar ficar procurando chave pra poder abrir a porta e correr pra fora. Faz todo sentido.

Mas isso resulta num costume diferente em relação a abrir e fechar portas que é: quem fecha ou abre a porta quando duas ou mais pessoas entram juntas num local.
Veja só: quando o normal é trancar a porta por dentro depois de entrar num local, ou trancar por fora com chave ao sair, normalmente a pessoa que abre a porta é a mesma que fecha. Porque se ela abriu a porta, ela está com a chave na mão. Então o normal, no Brasil (e a gente nem percebe que é assim) é a pessoa que está com a chave abrir a porta, sair, esperar fora enquanto as outras pessoas saem, e então trancar a porta depois de todo mundo. A pessoa que abriu a porta é a pessoa que fecha a porta, essa é a regra.
Só que aqui, quando você está saindo de um local, você nem precisa pegar a chave. E quando vc está entrando, você só precisa da chave na hora de abrir a porta. Logo, o normal é que quem for o último a passar pela porta é que fecha a mesma. Porque que a primeira pessoa que passou pela porta ficaria esperando pra fechar a mesma, se pra fechar é só puxar?

Isso parece uma bobeirinha, mas é um costume estranhamente enraizado nos pés. Quase sempre quando eu passo por uma porta por último eu deixo ela aberta subconscientemente achando que a pessoa que abriu é que vai fechar! E os alemães – não sabendo do por quê disso – sempre acham muito estranho quando eu faço isso. O meu namorado desde o começo brinca que eu nasci num metrô. Demorou pra eu enteder o que ele queria dizer… mas é porque no metrô as portas fecham automaticamente… rsrsrs

E embora eu saiba, conscientemente, que se for a última a passar pela porta devo fechá-la, várias vezes eu, distraída, esqueço. Essa semana mesmo isso ocorreu com colegas do escritório quando saímos pra almoçar. Eu passei e deixei a porta aberta – distraidamente – e minha colega ficou confusa achando que estávamos esperando mais alguém e por isso que eu tinha deixado a porta aberta!

Na hora fatídica de passar pela porta eu sempre me pego pensando “opa! quem que fecha a porta, mesmo? a pessoa que abriu ou a pessoa que saiu por último?”. Eu acho incrível como a gente fica tão profundamente acostumado com uma coisinha tão pequena e boba!

Mas embora eu ainda faça isso “errado” aqui, certamente quando for ao Brasil de novo vou fazer errado lá também…

É isso, então lembre-se sempre de fechar as portas pelas quais você for o último a passar pros alemães não te acharem estranho!

Nesse post aqui eu falei sobre chaves e sistemas de fechaduras usados na Alemanha. Tem uns bem high-tech.


(Publicado em 12 de Maio de 2017)

Sobre mudar de nome ao casar

Os posts estão atrasados, eu sei! Fim de ano é sempre corrido não importa se você estuda, trabalha, cuida da casa e dos filhos, ou seja lá qual for a ocupação que você escolheu para passar o tempo entre refeições.

Mas hoje tive uma conversa sobre nomes engraçados com minha colega no trabalho, e fiquei com vontade de escrever (mais) um post sobre nomes. Eu escrevi já um post sobre como funcionam nomes e sobrenomes na Alemanha, e também um outro sobre nomes não alemães na Alemanha, e também no post sobre casar aqui eu falei sobre como funcionam as regras de mudança de nome.

Esse é sobre mudança de nome também, mas não sobre regras.

Eis que na conversa com a minha colega sobre nomes engraçados, ela contou que a filha dela casou e mudou de nome, para um nome péssimo: Bratfisch.

Bratfisch significa, literalmente, peixe frito. Ela mudou o nome dela, que era algum nome bobo qualquer, voluntariamente, para Peixe. Frito. Joana Peixefrito (chutei um primeiro nome qualquer). Por quê, cara, por quê?

Isso que me inspirou a escrever esse post. Como eu já expliquei provavelmente nos três posts que eu linkei lá em cima, ninguém é obrigado a mudar de nome ao casar aqui, claro, e você pode ou trocar seu sobrenome pelo do/a marido/esposa, ou adicionar o dele/a extra ao seu com um hífen. A Joana, por exemplo, suponhamos que o nome de nascimento dela era Joana Belo. Aí casando com o (digamos) Lúcio Peixefrito, ela poderia mudar o nome dela pra Joana Belo-Peixefrito, ou Joana Peixefrito-Belo, ou ainda Joana Peixefrito, ou deixar o Joana Belo (altamente recomendado nesse caso).

Agora o que me deixa encucada é: se você chama Joana Belo e casa com alguém de nome Lúcio Peixefrito, porque RAIOS DE MOTIVO vc mudaria seu nome pra Joana Peixefrito? Os filhos vão chamar Peixefrito também, cara! Poupe a si mesma e aos seus filhos eterno constrangimento e mantenha o seu belo nome Belo.

Eu vou me casar no ano que vem e nunca nem de longe passou pela cabeça cogitar mudar de nome. Eu entendo que ainda hoje algumas pessoas escolham mudar de nome ao casar, ainda tem uma certa romantização da família toda ter o mesmo nome, em círculos mais conservadores ainda é um tanto inesperado que a noiva mantenha seu nome de nascimento, e, claro, em muitos casos a pessoa nem gosta de seu nome de nascimento e aproveita a oportunidade para se livrar dele para sempre. Tudo bem. Eu gosto muito do meu sobrenome, acho ele bem bonito, ele é parte da minha identidade, nunca pensei em mudar.

Mas o que me surpreende é o quanto isso – a mulher manter o nome de nascimento depois de casar – ainda é totalmente estranho para os alemães! Você imaginaria que aqui as pessoas são menos conservadoras, menos ligadas a essas tradições. Mas to-das as mulheres com quem eu falei sobre o assunto – to-das – responderam com “Não vai mudar? Mas nossa, por quê?” como se não mudar de nome signficasse que eu não amo meu noivo o suficiente ou pretendo me divorciar, ou coisa assim. Fico até com uma pontinha de dúvida se as pessoas não ficam achando que se eu não vou mudar de nome é porque eu quero casar só pra tirar o visto de permanência aqui (o qual eu nem preciso ter) ou coisa assim.

É curioso como todas as mulheres alemãs da minha geração que eu conheço aqui e que são casadas mudaram o sobrenome pro do marido. As únicas mulheres que eu conheço aqui de idades próximas à minha que mantiveram o nome ao casar são brasileiras!

E a única alemã que eu conheço que tem seu nome de nascimento é a minha sogra, que mudou de nome ao casar (era obrigatório na época) e assim que a lei mudou e passou a permitir manter o nome de nascimento (no começo dos anos 90) ela foi correndo mudar o nome de volta para o nome original! O casal continua junto até hoje, a desmudança do nome nada tinha a ver com o marido ou com a relação, é uma questão de identidade, mesmo. Acho essa história o máximo!

Isso tudo é estranho também porque aqui, diferente do Brasil, sobrenomes são muito importantes. Em ambientes profissionais quase sempre você será tratado pelo seu sobrenome, só entre colegas da mesma empresa com quem você convive diariamente é que você usa o primeiro nome. Numa reunião, por exemplo, com pessoas de outras empresas, você jamais vai usar o primeiro nome.

Então num contexto desse onde você realmente acostuma a se identificar pelo seu sobrenome, e em 2016 num país onde as pessoas acham muito sinceramente que machismo é coisa do passado ou de outros lugares do mundo, me é muito estranho que as mulheres aceitem mudar de nome tão tranquilamente, sem questionar, e que ainda lhes pareça tão estranho que alguém escolha manter o nome original. Porque Pelo Amor De Deus. Se você tá deliberadamente mudando seu nome pra PEIXEFRITO, é porque tem alguma coisa errada aí.

Mesmo no cartório, quando fomos entregar os documentos para tirar a “autorização” para casar, senti uma ligeira pressão da funcionária no sentido de mudar de nome. Ela disse que não precisa, e informou direitinho as regras, mas repetiu muitas vezes que eu posso mudar de ideia e mesmo depois de casada mudar meu nome pro do meu marido, a qualquer momento eu poderia fazer isso, viu, pode ficar à vontade, se você quiser mudar a gente muda, você pode estar com 70 anos de idade que tudo bem, quiser mudar o nome pro do marido vem aí que a gente muda! Se eu ainda tivesse expressado alguma dúvida a respeito quando ela perguntou da primeira vez… mas nós fomos bem claros desde o início que não haveria mudança de nome e mesmo assim houve uma insistência muito grande em me assegurar que eu poderia mudar de ideia…

Eu quero só ver as pessoas depois que eu casar me tratando pelo sobrenome do meu marido. Vão ouvir um “ESSE NÃO É MEU NOME!” bem grosso…


(Publicado em 9 de Dezembro de 2016)

Se reunindo pra ver fotos de viagem

Hoje eu acordei com a seguinte mensagem no meu whatsapp, de uma amiga brasileira daqui:

Gente. Já aconteceu isso com vcs? Fui convidada por uma conhecida pra ir pra casa dela pra fazer uma festinha pra ela apresentar um PPT de como foram as férias dela. Tava sério, muito bege. Tava pensando que cilada eu vim parar! Já tava durando 1,5h e ainda não tinha acabado qdo fui embora!

S.I.M. Já aconteceu. MUITAS vezes.

Esse é um programa típico entre alemães que eu jamais compreenderei: convidar os migos em casa pra assistir o fulano mostrar as cinqueta e sete mil, novecentas e trinta e nove fotos da viagem de 5 semanas que ele fez nas Montanhas Tarvagatai na Mongólia.

Não é que eu não queira ver as fotos das montanhas Tarvagatai na Mongólia. Eu até quero. Eu acho bem bonitas as montanhas Tarvagatai na Mongólia. Mas eu gostaria de ver as fotos das montanhas Tarvagatai na Mongólia assim, de boa, na minha casa, no face, no meu ritmo, onde eu vou pulando as fotos que eu achei chatas, olho com mais cuidado uma ou outra aqui e ali, posso girar o olho pra selfie boba do fulano com o almoço mongolês dele, não necessariamente ficar meia hora olhando a foto embaçada bem de longe de algo que talvez possa ter sido um leopardo das neves, pular as fotos dele abraçando o guia mongolês que levou ele no tour das montanhas Tarvagatai na Mongólia, etc.

Mas assim, num powerpoint preparado com a pessoa me contando pra cada foto mil coisas que certamente são muito interessantes pra quem esteve lá mas totalmente x pra quem não esteve… “Aqui nesse pedaço de grama aqui tá vendo que tem uma manchinha meio escura? O guia falou pra gente que era uma pegada de lobo aqui!! Parece que os lobos aparecem aqui a noite às vezes, eu acho que talvez tenha ouvido um lobo a noite quando eu tava dormindo e sonhando com lobos, e…”

Não, gente!! Não!!

E isso quando eles preparam! Tem vezes que é tipo “ah, então, eu trouxe aqui as fotos da minha viagem pra te mostrar, eu não fiz uma seleção, ainda, mas….”

nãããããoooooooooo….. e lá se vão mais 3 horas da minha vida assistindo foto de viagem alheia!! Não mereço!!!

Quando a pessoa te convida pra ir na casa dela ver isso, beleza, vc ainda pode inventar uma desculpa, sair de finininho depois de meia hora… mas não é incomum que a pessoa chegue na sua casa convidada prum jantar entre amigos qualquer, trazendo o HD com as malditas fotos da viagem….

E aí quando finalmente terminam as fotos, o amigo fala “bom, essas foram as fotos dos primeiros três dias. Agora deixa eu entrar aqui na outra pasta com as fotos dos 3 dias seguintes…”

Nessas eu já tive que assistir até slideshow COM SLIDE DE VERDADE de fotos de uma viagem que a pessoa tinha feito em MIL NOVECENTOS E OITENTA E TRÊS. POR QUÊ? POR QUÊ?

Eu não agüento nem olhar as fotos das minhas próprias viagens desse jeito! Já tive várias briguinhas com o namorado que faz toda uma seleção de fotos da viagem e aí vai nos encontros de família e quer ficar mostrando uma por umaaaaaaaaaa nãããããooooooooo……

Sério, todo ano (pq isso acontece mto comigo no final do ano, quando encontramos a família e alguns amigos pro Natal) eu sofro com isso e tudo o que eu queria era levar algum migo brasileiro comigo pra ter com quem trocar uns olhares discretos e me sentir compreendida… porque os alemães, além de gostar de mostrar as fotos da viagem, também gostam de assistir as fotos das viagens alheias em slideshows de 2 horas… então no final não dá nem pra você comentar com o outro amigo que tb estava lá vendo as fotos “meu deus, o que foi isso!!!??”!

Então fique avisado. Se você vier pra cá. E fizer amigos alemães. Quando eles te convidarem pra ir na casa deles ver as fotos da viagem… é pra ir na casa deles ver um slideshow de três horas e meia com todas as doze mil oitocentas e quarenta e duas fotos que ele tirou na viagem de 5 semanas pras montanhas Tarvagatai na Mongólia. Boa sorte.


(Publicado em 6 de Novembro de 2016)

Reuniões de trabalho

Reuniões de trabalho são um ótimo resumo de algumas características típicas alemãs. E se você ainda não está muito a par das particularidades das relações pessoais e profissionais na Alemanha, algumas dicas vêm bem a calhar para não passar uma má impressão.

A primeira coisa que você precisa ter em mente é: como cumprimentar corretamente as pessoas. Se você chega em uma sala de reunião e algumas pessoas já estão sentadas na mesa esperando os outros chegarem para começar, cumprimente todos com um aperto de mão. Mesmo que tenham várias pessoas, cumprimente um por um com um aperto de mão. Cuidado para não esquecer ninguém (já me aconteceu duas vezes de esquecer alguém e perceber assim que sentei e ter a impressão de que a pessoa ficou um tanto ofendida!). Se você ainda não conhece a pessoa que está cumprimentando, diga seu sobrenome ao apertar a mão da pessoa, mas não espere de maneira alguma que a pessoa lembre seu nome 5 minutos depois: os alemães ao se cumprimentar trocam nome mas não prestam a menor atenção no que foi dito, e perguntam de novo depois quando for necessário saber. Se as outras pessoas da reunião são seus colegas de trabalho que você vê todo dia obviamente não precisa cumprimentar com aperto de mão.

E, aliás, não chegue atrasado. Nem 2 minutos atrasado. Chegue no horário. Quando a gente conversa sobre a pontualidade das pessoas – dos brasileiros, alemães, ingleses, ou seja quem for – a gente normalmente não observa que a pontualidade é diferente para diferentes ocasiões. No Brasil é perfeitamente normal chegar meia ou uma hora atrasado prum encontro com amigos, mas no trabalho tenta-se manter uma pontualidade respeitável. Com os alemães não é diferente: a importância de ser pontual varia com a situação. E reuniões de trabalhos são casos extremos! Nessa ocasião da reunião há duas semanas atrás, eu e meu colega chegamos uns 5 minutos atrasados (foi culpa dele!). Nesses cinco minutos, o pessoal da empresa onde era a reunião já tinha ligado pro meu chefe perguntando se a gente vinha ou não vinha, o meu chefe (que não estava no escritório) já tinha ligado pro escritório pra saber onde a gente tava e ligado de volta pra reunião pra dizer que estávamos a caminho… Tá, meu chefe também achou isso um exagero, mas é bom ter em mente que isso pode ocorrer com os mínimos atrasos!

Convém saber, caso você tenha que fazer alguma apresentação na reunião, que os alemães nunca fazem cara de aprovação durante uma apresentação. Ontem percebi isso com muita clareza, enquanto meu chefe apresentava o nosso projeto numa reunião, todos assistindo faziam a maior cara de desaprovação. Achei que eles estavam detestando, mas depois fizeram comentários positivos e já estavam quase nos contratando para o projeto (outros arquitetos tinham apresentado outros projetos no mesmo dia e eles tinham que decidir por um, mas não assim imediatamente). Isso me deixou um tanto mais tranquila em relação a uma reunião em que eu tinha ido duas semanas antes e apresentado um projeto e achado que as caras de desaprovação era pelo meu alemão bizarro com erros e consequente incapacidade de apresentar o projeto como eu gostaria… (bom, pode ser que fosse, mas agora pelo menos eu posso fingir que não era, rsrsrs). Eu acho que isso tem muito a ver com uma característica alemã, que é um pessimismo generalizado, rsrsrs. Ainda vou escrever um post sobre isso.

Traje também pode ser uma questão interessante pra discutir. Como no Brasil, o traje esperado de um profissional varia bastante de acordo com a profissão. Advogados, claro, estão sempre de terno, muito bem vestidos e penteados. Arquitetos estão sempre bem de boas vestidos a la fim de semana. Em reuniões isso também é relativamente flexível dependendo da sua profissão – mas lógico, tenha a boa noção de não ir de, sei lá, camiseta de banda e jeans rasgado no joelho. A não ser, claro, que você seja de uma banda e esteja indo em uma reunião fechar um contrato para a produção do seu novo álbum. Resumindo, vista-se como as pessoas da sua profissão normalmente se vestem e pronto, os alemães são relativamente sussas em relação a roupas.

Sobre o andamento da reunião em si, algumas dicas são óbvias mas sempre necessárias. Olhe sempre nos olhos das pessoas, os alemães adoram olhar nos olhos alemães adoram olhar nos olhos uns dos outros. Interromper quem está falando, durante a reunião, é bem mal-educado e algo que nunca vi acontecer nas reuniões de que participei. Por outro lado, se você quiser falar alguma coisa tem que ser bem incisivo, se você não falar nada logo esquecem que você está presente!

reuniao-trabalho

E sempre lembre de usas a forma de tratamento Sie (Senhor/Senhora) em relações profissionais! Isso é bem importante, especialmente se são pessoas que você não conhece fica bem chato se você usar Du por engano.

E pra terminar, sendo na Alemanha não podia faltar uma burocraciazinha básica: quase com certeza depois da reunião um protocolo da mesma precisará ser escrito e enviado para as pessoas que estavam presentes assinarem, explicitando os pontos discutidos e decisões encontradas durante a reunião.

É isso!


(Publicado em 15 de Outubro de 2016)

Coisas que eu aprendi na Alemanha

Semana passada completei 4 anos de Alemanha. Acho que estou ficando velha, porque embora pareça que eu me mudei pra cá faz tempo, quando eu digo “4 anos” não parece muito tempo.

Mas com certeza esses 4 anos foram bem marcantes na minha vida em vários aspectos.

Coincidentemente, encontrei num canto um papel em que eu tinha escrito, há alguns meses atrás, uma lista de coisas q eu aprendi desde que mudei pra cá. Achei que caberia muito bem um post sobre isso bem nessa data importante.

Você provavelmente está achando que eu vou escrever sobre como eu, sei lá, aprendi a ficar do lado direito da escada rolante ou dar preferência pra pedestres ou sei lá o quê que as pessoas acham que se aprende quando se mora na Europa.

Mas não é nada disso. Acho que esse post poderia ser escrito por qualquer pessoa que se mudou pra outro país em que se fala outra língua. (Quase. Alguns itens são, mesmo, relacionados à Alemanha).

Vejamos, vejamos…

1. A responder “sim” ou “não” de acordo com o que a pessoa espera ouvir como resposta

Isso, lógico, da época que eu ainda não entendia alemão muito bem. Fiquei craque em reconhecer se uma pessoa desconhecida me perguntando alguma coisa espera ouvir “sim” ou “não” como resposta. Tive várias conversas com desconhecidos em que a pessoa me perguntou algo, eu respondi o que ele esperava ouvir, e ele foi embora satisfeito e eu fiquei pra sempre sem saber o que ele tinha perguntado.

Os exemplos são bem mais bobos do que você está provavelmente imaginando. São coisas como, vc encontra seu vizinho na escada e ele te pergunta alguma coisa. Pode ter sido algo como:

“Não foi você que esqueceu a porta aberta hoje de manhã, não, foi?”
“Não, não.”
“Ah, então tá. Que não pode deixar aberta, mas tem alguém que sempre esquece.”

ou então o mesmo vizinho talvez esteja saindo com o carro e te viu indo pegar sua bicicleta, pergunte:

“Você tá de saída, né?”
“Sim, sim!”
“Ah, vc fecha a porta pra mim, então, por favor?”
“Sim, sim!”
“Obrigado!”

Juro, tive vários diálogos desse gênero que eu até hoje não sei com o que eu concordei ou o que eu neguei. Mas as pessoas pareceram satisfeitas, e eu evitei a chateação embaraçosa de explicar que não entendi o que ele estava falando, e às vezes é só isso que importa.

2. A ler expressões faciais, coisas faladas nas entrelinhas e linguagem corporal.

Todo mundo gosta de acreditar que é muito bom nisso, de saber o que o outro está pensando. Não é verdade, a maioria das pessoas é bem ruim disso. Para não cometer o mesmo erro, não vou dizer que fiquei muito boa nisso, vou apenas dizer que eu era beeeem pior em ler sutilezas de expressões faciais, linguagem corporal e coisas assim e que melhorei pra caramba essa habilidade depois que vim pra cá. Eu não tinha idéia que eu era relativamente ruim em ler essas coisas até melhorar muito essa habilidade. O motivo, óbvio, era que por um bom tempo esses eram os únicos instrumentos que eu tinha pra me comunicar. Ou melhor, pra entender a outra pessoa.

Quando você não fala bem a língua e tem que se expressar e compreender pessoas se expressando nela constantemente, é inevitável que você melhore muito sua habilidade e compreender outros aspectos da comunicação além das palavras que estão sendo ditas. Isso, lógico, se relaciona super com o item anterior, o de saber o que a pessoa espera como resposta mesmo sem ter ideia de qual foi a pergunta. O fato é que, quando vc entende as palavras, vc acaba ignorando muitos outros aspectos da comunicação pq o significado das palavras têm prioridade no seu entendimento do que está sendo dito. Quando vc perde esse aspecto, vc tem que melhorar nos outros. É que nem aquilo de cegos serem muito bons de reconhecer sons e cheiros. Quando vc perde o sentido principal, os outros ganham uma importância tremendamente maior.

De novo, não quero cometer o erro de dizer que sou muito boa nisso – já que quase todo mundo acha que é. Não sei o quão boa eu sou nisso, só sei que sou muito melhor que antes de vir pra cá.

3. Respeitar pessoas diferentes

Isso com certeza não foram os alemães que me ensinaram, vale observar. Mas desde que eu vim pra cá eu passei a ter muito mais contato com pessoas de culturas e origens muito diferentes da minha. Fiz amigos muçulmanos, hindus, budistas. Não é que eu fiquei necessariamente mais tolerante que antes – eu sempre tentei ser tolerante. Mas a convivência diária realmente é o que te mostra que as pessoas no final das contas são todas muito parecidas, e o que muda é só o contexto e o passado delas, e ninguém simplesmente nasce mau ou bom. A convivência diária também faz com que você trate fatores que antes eram coisas inimagináveis e impensáveis pra você como normais e sem importância. Por exemplo, os hijabs, aquele pano que as mulheres muçulmanas usam para cobrir os cabelo. É uma coisa que antes de vir pra cá – por mais que eu me esforçasse em não julgar – eu via como necessariamente uma imposição, uma opressão, uma coisa que certamente qualquer moça independente dona de si imediatamente desistiria de usar na primeira oportunidade. Depois de fazer amizade com uma palestina muito querida, e conviver diariamente com alguém que em muitos sentidos é parecida comigo mas vem apenas de uma cultura diferente, o fato de ela usar ou não um pano na cabeça me parece a coisa mais sem importância possível. Porque isso me incomodava tanto, antes? Se a menina quer usar um pano na cabeça, usa, ué. Ela tava morando sozinha na Alemanha, fazendo um mestrado, a família na Palestina, quase nenhum muçulmano por perto, se ela continuou usando o hijab é porque ela quer, ué. Achar que a mulher não tem capacidade de crítica e de decisão também é machismo, ora.

Enfim. Essas coisas que quando estão totalmente fora da sua realidade parecem totalmente sem sentido, mas quando estão lá na sua cara de repente viram uma coisa boba.

Pra ser justa, acho que eu teria aprendido isso se tivesse ficado no Brasil também, uma vez que a quantidade de imigrantes lá – pelo menos em São Paulo da última vez q estive lá – aumentou pra caramba nos últimos anos! (Acho isso ótimo.)

4. Quem no Brasil realmente se importa comigo – e com quem no Brasil eu realmente me importo

Essa é clássica pra quem vai morar fora, mesmo que por um tempo relativamente curto. Eu já tinha percebido quando passei um ano na Itália fazendo intercâmbio. Quando você está fora, todo e qualquer contato com seus amigos só acontece se existe um esforço por trás. Lógico que dar um like ou outro no facebook não exige esforço. Mas contato, mesmo, contar da sua vida e querer saber da vida do outro e ele se interessar em saber da sua, isso exige um esforço extra. E o fato é que as pessoas só fazem esse esforço quando é com alguém que realmente importa.

Depois de 4 anos, eu sei exatamente quem no Brasil realmente se importa comigo – com sinceridade, porque gosta de mim, não porque está simplesmente curioso de saber como é viver na Alemanha ou, pior, que está curioso de saber como está a sua vida apenas porque está torcendo loucamente pra dar tudo errado, por inveja. (tem desses, também). E eu imagino que para os meus amigos de lá também (espero) tenha ficado bem claro o quanto eu me importo de fato, com sinceridade, com eles, e o quanto eu quero saber que eles estão bem e estão felizes. Depois de um tempo fora é inevitável, vc sabe exatamente quem são de fato seus amigos.

E mesmo a quantidade de comunicação com cada amigo é diferente. Tem uns que não são tão ligados nas internets quanto eu, e que portanto eu tenho menos contato. Mas não necessariamente isso significa que eles não se interessam ou não se importam, e mesmo com esses fica claro.

Priiiincipalmente quando você volta. Quando você vai viajar rapidinho e tem pouco tempo pra ver todo mundo. Aí fica óbvio pra TODO MUNDO (pra vc e pra eles) quem realmente importa pra quem, porque:
a) você não tem tempo pra ver todo mundo, então vc acaba limitando só aos realmente muito importantes, e sempre tem alguns que vc deixa pra trás que gostariam de ter sido lembrados

b) tem outros que você sugere encontrar e vc percebe que a pessoa fez zero esforço pra te ver naquelas semanas que vc passou lá, mesmo você tendo insistido.

(Lógico que eu estou falando aqui de amigos mais próximos. Tem vários amigos que são queridos, que eu gosto de saber que estão bem e estão felizes, mas não são necessariamente próximos o suficiente para eu marcar alguma coisa quando volto pro Brasil.)

5. Manter contato intercontinental

Bem relacionado ao item anterior. Mas uma coisa que você percebe quando está longe é que o contato físico é importante e que só emails e conversas no facebook não bastam para matar a saudade de alguém. O que isso significa é que receber cartas ou pacotes pelo correio têm um significado gigante quando você está fora. E embora seja pouco freqüente eu receber coisas pelo correio do Brasil, eu tento sempre enviar alguma coisa para os amigos mais próximos (às vezes alternando que o dinheiro não nasce em árvore, né). Principalmente no Natal eu tento sempre enviar alguma coisa. Às vezes você vê algo que te lembra muito alguém e aproveita pra mandar pro correio – sem nenhum motivo especial – e a pessoa fica profundamente contente de receber um presente inesperado seu vindo direto da Alemanha. Acho que essas coisinhas super ajudam a manter o contato com as pessoas de lá.

6. O preço de morar fora

Morar fora tem um preço que a gente não tem idéia de quão alto é até ter que pagar. Lógico que não estou falando de dinheiro. Tem coisas que não são segredo, que você sabe que vão ser assim e você sabe que vão ser difíceis. Mas essa dificuldade é muito vaga na sua cabeça antes de você passar por ela pra vc ter idéia dela de fato e ter noção de se o preço vale a pena. Isso você só descobre quando já está longe.

No final do ano passado minha avó materna faleceu, e estar longe naquele momento foi bem mais difícil do que eu imaginaria que fosse ser. Eu sabia que seria difícil perder uma avó querida, sabia que quando isso acontecesse eu provavelmente não teria como pular correndo num avião para chegar a tempo do enterro. Sabia dessa coisas. Mas não tinha ideia de como elas seriam difíceis de lidar. Minha avó se importava muito comigo e isso sempre ficou muito óbvio. Quando acontecia algum acidente em que a vítima era alguém da mesma idade e gênero de algum dos netos dela, ela imediatamente ficava toda preocupada que pudesse ser o neto em questão. Caiu um avião na Alemanha – “Ai, meu Deus, a Laís não estava nesse avião, não, né? Melhor ligar pra ter certeza!”. Na última vez que eu visitei ela, ela disse que se ela morresse (ela já estava bem mal) ela viria pra Alemanha me visitar. “Mas como você vai saber onde eu moro, vó?” “Ah, espírito sempre acha!”.

Quando ela faleceu eu não estava lá para me despedir, nem dela viva nem na hora do enterro. E o pior, todas as pessoas que estavam passando pelo mesmo que eu, que também estavam sofrendo com a morte dela, todas estavam longe. Eu percebi como o enterro/velório é mais que uma oportunidade pra se despedir da pessoa, mas é também uma oportunidade pra você encontrar e abraçar as pessoas que estão sofrendo com essa perda como você. Não ter tido essa oportunidade é algo que eu nunca teria imaginado que me chatearia tanto. É um dos preços a pagar por escolher morar longe.

Nessa semana nasceu minha primeira sobrinha, filha do meu irmão, e eu já estou planejando de ir visitá-los em Janeiro, mas é super decepcionante não poder ir lá no hospital logo depois do nascimento. E principalmente de saber que você não vai poder assistir a criança crescer e ter a oportunidade criar um vínculo forte com ela que você como tia gostaria de ter, de ir passear com a sobrinha uma vez por mês ou coisa do tipo, estar em todos os aniversários e momentos importantes, etc.

(Mas em minha defesa, se eu tivesse ficado no Brasil seria igual uma vez que meu irmão também mora fora)

7. A parar de achar que tudo aqui é melhor

É lógico que tem muitas coisas aqui que são bem melhores. Mas é uma ingenuidade imensa achar que TUDO aqui é MUITO melhor que no Brasil. Tem coisas melhores e coisas piores. Tudo depende do que é mais importante pra você. E a questão é que as coisas piores você só vai descobrir que são piores quando você estiver morando aqui de fato.

8. A não discutir problemas do Brasil com europeus

Outra coisa que eu parei completamente é de criticar o Brasil para europeus. Sério, se tem uma coisa que eles não precisam é mais motivo pra se acharem melhores que o resto do mundo. Eu deixo as críticas para discutir entre outras pessoas que também são de fora.

9. A ser direta, a me comunicar, a dizer o que eu quero.

Isso sim é uma coisa bem relacionada à Alemanha. Como já discuti em outros posts, os alemães são bem diretos, não fazem grandes cerimônias para responderem “sim” ou “não” de acordo com o que querem ou não querem. Isso é algo que eu incorporei e acho muito mais prático do que o nosso
“Você quer alguma coisa pra comer?”
“Não, não, tô bem, obrigada!” *morrendo de fome*
“Mas tem certeza?”
“Magina, não precisa se incomodar!” *morrendo de fome*
“Mas magina, não é incômodo nenhum, pega aqui um pedaço dessa torta que eu fiz ontem!”
“Não, magina, deixa aí pra vc comer mais tarde!” *morrendo de fome*
“Quê isso, eu não vou agüentar essa torta inteira, pega um pedaço!”
“Ah, mesmo, mas você não vai querer, depois?” *morrendo de fome*
“Não, pega, ó, vou cortar aqui um pedaço pra você!”
“Ah, tá, brigada então!”

10. A procurar amigos

Eu nunca tive nenhuma dificuldade super gigante em fazer amizades, mas também nunca fui mega sociável daquelas pessoas que conversa com qualquer um com a maior facilidade. Eu já escrevi um post sobre como fazer amizade com alemães no qual eu expliquei já na primeira linha que eu não sei como se faz amizade com alemães. Embora o post eu tenha escrito há dois anos atrás, a resposta para essa pergunta continua em aberto. Se alguém souber me avisa.

A verdade é que os alemães são bem diferentes nesse quesito, e o processo de fazer uma nova amizade aqui é uma coisa diametralmente oposta ao que a gente está acostumado no Brasil.

Nesses 4 anos o que eu percebi é que de longe o mais fácil é fazer amizade com americanos (do continente inteiro, não só dos Estados Unidos. Mas também dos Estados Unidos) ou com alemães que já moraram no continente americano. Na verdade foi bem surpreendente pra mim perceber o quão parecido a gente é com os americanos (agora falando dos dos Estados Unidos, mesmo) em vários sentidos e o quanto isso ajuda pra caramba a fazer amizade com eles. No momento meus amigos principais são ou americanos (EUA) ou sul-americanos, e uns poucos alemães americanizados (no continente, não necessariamente nos EUA).

Mas na verdade não era disso que eu queria falar, mas sim sobre como fazer amizades aqui. Ou melhor, como eu descobri como procurar amigos aqui.

Pra mim a solução apareceu só no ano passado. Existe um grupo de facebook especificamente para mulheres internacionais em Dresden, e foi lá que eu finalmente comecei a fazer umas amizades mais efetivas. Até então eu tinha alguns amigos, mas ninguém que fosse de fato muito próximo. Através desse grupo eu comecei a participar de coisas como clube de leitura, trabalho voluntário com refugiados, e outros eventinhos onde conheci pessoas muito legais e muito fáceis de conversar. Isso faz um ano. Ou seja, demorou 3 anos para eu realmente começar a fazer amizades aqui de fato, de pessoas q eu tenho certeza que mesmo que se eu voltasse pro Brasil ou elas para seus países, continuaríamos em contato.

Mas isso é completamente diferente dependendo das circunstâncias. Acho que a maioria dos brasileiros é bem mais sociável que eu e faz amizades com mais facilidade que eu. E quem vem pra cá estudar tb tem essa facilidade extra de fazer amizade com os colegas de classe. (Eu fiz um mestrado aqui mas era um grupo bem pequeno e acabou não rolando nenhuma amizade forte no grupo).

Outra coisa que ajudou PRA CARAMBA fazer amizade aqui: ir atrás de pessoas que pudessem cuidar dos meus gatos quando a gente viaja. A minha melhor amiga daqui é uma americana que eu conheci quando ela postou naquele grupo de mulheres internacionais perguntando se alguém podia cuidar do gato dela ou dos dois cachorros por um fim de semana. Aí nós montamos um grupinho de donos de bichos pra ter quem pedir ajuda pra cuidar dos bichos durante viagens, e através desse grupinho conheci mais um monte de gente legal.

 

É isso! Eis aqui uns posts relacionados:

10 costumes alemães que eu incorporei
10 costumes alemães que eu não incorporei
5 coisas do Brasil e da Alemanha que eu sinto/sentiria falta


(Publicado em 30 de Julho de 2016)