Natureza

Cortando árvores de Natal

Nessa época do ano eu invariavelmente escrevo vários posts sobre Natal e temas relacionados. O Natal é uma comemoração tão importante na cultura dos países cristãos que não tem como você não falar sobre o Natal e pensar em Natal nessa época. E curiosamente todo ano aparece alguma coisa nova sobre o Natal que dá um post.

Esse ano pela primeira vez temos uma árvore de Natal em casa. A gente sempre passa o Natal com meus sogros, então nunca nos preocupamos de montar uma árvore de Natal pra ficar aqui sozinha enquanto a gente vai passar o Natal em Colônia.

Mas esse ano foi diferente.

Aqui na Alemanha as árvores de Natal são sempre árvores de verdade. Ninguém tem árvore de plástico aqui, pelo menos nenhuma família. Talvez se você for numa república de alguns estudantes você encontre lá uma arvorinha brega de plástico, pode ser. Mas numa casa de alguma família, onde as pessoas passam de fato o Natal, pode ter certeza que vai ter uma árvore de verdade. Os alemães ficariam horrorizados de se deparar com uma árvore de plástico. Mas claro, faz sentido, aqui as árvores de Natal já eram queridas antes de serem de Natal.

Aliás, uma observação importante. Árvores de Natal não são pinheiros. Pinheiro de Natal é na verdade um erro de tradução. As árvores da família dos pinheiros (são várias espécies diferentes) tem galhos parecidos com esse:

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A árvore de Natal “oficial” é uma Tannenbaum, em português se chama Abeto. Pois é, ninguém conhece esse nome, provavelmente por isso que traduzem pra pinheiro. Mas as árvores da família dos Abetos têm galhos parecidos com esse aqui:

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É bem diferente, também na aparência da árvore como um todo. Mas tanto o Pinheiro quanto o Abeto são coníferas, árvores que permanecem verde o ano inteiro, e por isso sua ligação com o inverno e o Natal – porque são os únicos tipos de árvores que não perdem as folhas para o inverno. As coníferas tem uma grande importância na cultura de países frios. E o Natal não é no solstício de inverno por acaso, já muito antes do cristianismo o solstício de inverno era comemorado em diferentes culturas.

Mas voltemos às árvores de Natal. Então aqui todo mundo tem uma árvore de verdade, certo. E onde se arranja uma árvore?

Tem diferentes opções. Você pode roubar uma árvore da floresta mais próxima, não recomendo porque é roubo, mesmo. Mas tem quem faça isso. Mas a maioria das pessoas simplesmente compra uma árvore de algum produtor próximo. Tem vários lugares nas cidades onde os produtores trazem as árvores de Natal já cortadas para vender, mas você também pode ir direito no viveiro e escolher e cortar sua própria árvore de Natal.

No escritório em que trabalho, todo ano no início de dezembro os colegas e o chefe vão juntos buscar uma árvore de Natal em um viveiro de um amigo do chefe. Quem quer árvore de Natal em casa pega a sua, e juntos escolhemos uma árvore bem bonita para o escritório. Esse ano eu fui pela primeira vez junto – ano passado não pude ir e no ano anterior o evento acabou não rolando. A gente não tinha planos de comprar uma árvore de Natal já que não passamos o Natal aqui, mas já que estávamos lá resolvemos levar uma pequena. E o processo todo de ir escolher, cortar, embalar e levar a árvore foi tão divertido e novo para mim que não tive outra opção se não vir correndo escrever um post a respeito!

O tal viveiro de árvores de Natal fica em algum lugar há uns 40 minutos de carro de Dresden. Os alemães só colocam as decorações de Natal em dezembro, ou a partir do primeiro advento (o quarto domingo antes do Natal, que às vezes cai nos últimos dias de Novembro). Então o viveiro só abre para venda a partir do fim de semana do primeiro advento. Ou seja. Abriu hoje. Não por acaso, estava super cheio, muitas pessoas vão lá buscar suas árvores de Natal, e vários saem inclusive com várias árvores!

 

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Parte do viveiro de árvores de Natal

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Tem árvores de todos os tipos, tamanhos e formatos. Os preços variam bastante de acordo com o tipo de árvore e o tamanho (a etiqueta no topo da árvore indica o preço). Tem algumas espécies diferentes, inclusive com cores ligeiramente diferentes. Na foto de cima, do lado direito dá para ver algumas árvores mais azuladas por exemplo. A árvore que escolhemos, uma bem pequena (em comparação com a maioria das outras árvores disponíveis, mas ficou grande o suficiente na nossa sala!), custaria só 9,99€. Mas alguns dos meus colegas que tem mais espaço em suas salas levaram maravilhosas árvores enormes, que teriam custado uns 60€ cada. Estou falando que teriam custado porque as nossas foram de graça – o chefe que pagou todas!

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A árvore que escolhemos é a da direita, verde clara. Bem pequena na média.

Bom, o primeiro passo é escolher a árvore. Daí o passo seguinte é cortar a árvore. Você pode pegar uma serra emprestada na entrada, claro.

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Meu marido cortando a nossa árvore

Quando eu digo “cortar a árvore”, você já deve estar imaginando um lenhador com uma serra gigante gritando “Madeeeeeiraaaa!” à la Picapau. Na verdade é bem mais simples que isso, já que essas árvores são bem pequenas (mesmo as grandes) em relação a árvores que se cortaria numa floresta para usar a madeira. A serra é super simplesinha e o tronco ainda é bem fininho. Difícil mesmo é se tiver tudo coberto de neve. Aí fica complicado encontrar o tronco, rsrsrs. Mas num dia como hoje, é bem tranquilo cortar a árvore.

Ok, árvore cortada, o próximo passo é embalar. Não tem como levar a árvore assim tão arvoresca pra casa. Então você fica aqui numa fila de pessoas com árvores esperando para embalá-las:

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E aí vem a parte mais engraçada: os funcionários do viveiro colocam a árvore numa máquina de embalar árvore, que puxa a árvore para dentro de uma rede. Assim:

Tchans! E assim ficam as árvores embaladas:

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Eu e a minha árvore (à direita) e a árvore do escritório (à esquerda).

Bem mais fácil de transportar.

Tá, aí você leva a sua árvore pra casa, mas como deixar uma árvore cortada de pé? Precisa de uma base, claro. E você precisa ter uma base especificamente para árvores de Natal. Lógico que é super fácil de achar pra vender em Dezembro. Tem vários tipos diferentes, nós compramos essa assim:

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Não dá pra ver direito, mas ela tem um buraco no meio e quatro “dentes” que prendem o tronco da árvore. É uma base super pesada – tem que ser, se não a árvore tomba – e dá para colocar água dentro como se fosse um vaso.

Um detalhe importante é que os alemães costumam decorar a árvore só no dia 24! Frequentemente a árvore já está bonitinha em casa e com luzinhas desde o início de dezembro mas os enfeites mesmo só no dia 24. A gente vai enfeitar a nossa agora, mesmo, já que não estaremos aqui no dia 24. Já colocamos umas bolas iluminadas que é uma decoração bem comum por aqui.

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Aí pronto!

No começo (da minha vida na Alemanha) eu achei estranho que todo mundo tivesse árvores de verdade, me parecia ruim “matar” uma árvore só para ter ela decorada na sua sala e não sei o quê. Mas na verdade isso é uma ideia bem boba. A árvore foi plantada especificamente pra isso, num campo, tudo seguindo todas as leis ambientais e seja lá o que for. A gente meio que aprende que “cortar árvore” é uma coisa ruim, mas não é tão simples assim. Ruim é destruir o meio ambiente, não cortar uma árvore. Não tem problema nenhum cortar uma árvore (para usar a madeira, por exemplo), se aquela árvore veio ou de uma plantação para corte ou de uma floresta natural gerida de acordo com as regras ambientais de maneira que a quantidade de árvores cortadas não seja além do que a floresta naturalmente produz, etc. Na verdade essas coisas eu só aprendi depois que fiz um mestrado em ciências florestais. E plantar árvores de natal para vendê-las depois de um ano não tem nenhum impacto ambiental que justifique qualquer indignação ou estranhamento. É que a gente não está acostumado com a idéia mesmo.

Mas foi super divertida a experiência de hoje, e com certeza é muito mais legal ter uma árvore de verdade no Natal que uma árvore de plástico! (Só que tem que varrer as folhinhas do chão toda hora!)


Publicado em 2 de Dezembro de 2017

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Flores do Início da Primavera

Eu já escrevi um post sobre a primavera (em uma série de posts sobre as estações do ano na Alemanha), mas sobre a primavera dava pra escrever um blog inteiro.

É uma coisa que não dá pra explicar, quando ela chega parece que todo mundo, mas TODO MUNDO fica de bom humor. Dá pra sentir no ar, as pessoas felizes. Basicamente começa a esquentar e fazer sol e sai todo mundo de casa, então você vai passeando pela cidade e em qualquer pedacinho de grama tem gente sentada tomando sol, fazendo picnic, fazendo churrasco, tomando uma cerveja, brincando com as crianças… Hoje, um sábado sem uma única nuvem no céu, com 23˚C lá fora, tava todo mundo, mas a cidade inteira mesmo, nas ruas, nos parques, nas praças, no rio. Parecia que não tinha uma pessoa dentro de casa.

Outra coisa particular da primavera são as flores. Tá, isso é meio óbvio. Mas no Brasil tem flor o ano todo. Em qualquer época do ano tem uma árvore ou outra que tá florecendo lindona a toda força, mesmo no meio do inverno. Aqui flor é uma coisa da primavera, mesmo. No verão também tem algumas, mas no outono ou inverno nem pensar.

Então eu resolvi escrever um post sobre flores da primavera. Na verdade, flores do início da primavera, que é agora final de março e começo de abril. Antes das folhas aparecerem nas árvores, quando começa a esquentar e o tempo começa a melhorar, algumas flores já aparecem pra te colocar no mood de primavera. E elas estão por todos os lados na cidade.

Vou falar de 6 espécies, três são florzinhas de forração, uma é uma flor de arbustos e três são flores de árvores. Possivelmente lá por maio eu faço um post de flores de fim de primavera.

1  Krokus – Crocus spp.

Essas florzinhas roxas são umas das primeiras que você vai ver no ano. Na verdade tem algumas espécies diferentes, tem com flor branca, também. Mas a mais comum, por aqui é essa roxinha. É uma forração, e quando ela começa a florescer ficam extensos tapetes roxos por aí, todo mundo fica maravilhado fotografando.

2 Osterglocken (Narciso) – Narcissus pseudonarcissus

Em diferentes cores variando entre amarelo, branco e laranja, essa florzinha engraçada você encontra pelos parques mas também para vender como buquê ou em vaso. O bulbo dela é muito parecido com uma cebola, e os alemães chamam essa e outras plantas com bulbos similares de cebolas.

3 Tulpen (Tulipas) – Tulipa spp.

As famosíssimas tulipas existem nas mais variadas cores e combinações de cores, e não é por acaso que estão entre as flores consideradas mais bonitas. Você encontra elas principalmente plantadas em canteiros bem cuidados em locais bem mantidos no centro, e se você prestar atenção no canteiro com certeza vai achar um ou outro cabinho cortado de uma tulipa roubada… Também se acha para vender como buquê em qualquer floricultura, elas são bem fáceis de encontrar.

Quando elas estão redondinhas dá vontade de morder.

4 Forsythia – Forsythia x intermedia

A Forsythia é um arbusto que quando floresce fica todo cheio de florzinhas de um amarelo bem vivo. É muito comum, nessa época do ano você vê várias explosões amarelas por aí. A florzinha sozinha não tem muita graça, mas o arbusto amarelão fica lindo no jardim anunciando a chegada da primavera!

5 Ahorn – Acer spp.

As árvores do gênero acer (Ahorn em alemão, acorn em inglês) são extremamente comuns no hemisfério norte, e muito presentes na cultura dos locais onde elas habitam. É, por exemplo, a árvore cuja folha aparece representada na bandeira do Canadá. Há diferentes espécies, a do Canadá é uma diferente das que são comuns por aqui, mas todas tem esse formato de folha. A flor dela é um verde claro bem vivo, e quando ela começa a florescer, no final de março e começo de abril, dá a impressão de que são as folhas que já estão saindo, já que a flor é verde. (Bom, na verdade normalmente as folhas já começam a aparecer junto com as flores, também, mas ainda bem pequenininhas). São praticamente as primeiras árvores que começam a dar algum sinal de vida depois do inverno.

Ali na foto de cima dá pra ver as folhinhas começando a aparecer, também.

E, para concluir…

6 Kirsche (Cerejeiras) – Prunus spp.

A famosa flor de cerejeira não é comum só no Japão. Aqui elas também decoram a paisagem no início de abril com tons de branco e rosa. Tem diferentes espécies, algumas nativas daqui, outras do Japão e China, e nem todas dão as deliciosas cerejas no verão – algumas são só ornamentais. As que dão cerejas também são comuns e no verão muita gente vende cereja que deu nas árvores do jardim de casa…

Não é a toa que fica todo mundo de bom humor na primavera!


(Publicado em 1˚ de Abril de 2017 (mas é tudo verdade!))

Rios na Alemanha

Esse post é o segundo post sobre meio ambiente na Alemanha (Na verdade tem outros e terão outros, mas esse é o segundo de uma série de três). O primeiro foi sobre o meio ambiente em obras alemãs e você pode lê-lo aqui.

Na Alemanha, rios são um elemento urbano bem importante. Quase toda cidade de um tamanho razoável é cruzada por um grande e importante rio. Algumas cidades inclusive têm o nome do rio como “sobrenome”, como é o caso de Frankfurt, cujo nome “completo” é Frankfurt am Main, ou Frankfurt sobre o Meno. Main, Meno em português é o nome do rio que cruza a cidade. O fato de as grandes cidades européias terem se desenvolvido sobre rios não é coincidência, claro. Historicamente os rios têm importâncias diversas pras cidades: a força da água corrente já têm sido utilizada para a transformação de energia desde anos antes de cristo com moinhos de água.

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Além de energia, os rios forneciam (e fornecem) ainda a água que é utilizada para beber, para lavar e para depositar os dejetos da cidade.

Hoje, com infraestruturas mais desenvolvidas, sistemas de tratamento e transporte de água, outras fontes de energia, a presença de um grande rio na cidade não é mais tão essencial para a economia urbana. Mas certamente ainda é um fator bem importante para a qualidade de vida.

E nesse sentido, a Alemanha de fato tem bastante a oferecer. Os rios e suas margens nas cidades daqui ganham vários usos urbanos que, embora “óbvios”, são quase totalmente inexistentes em rios nas cidades brasileiras.

Os rios em si, claro, são sempre utilizáveis. Os maiores, navegáveis, todos utilizáveis para remo e outros esportes similares, e alguns também para banho.

Barcos turísticos fazendo passeios simpáticos ao longo dos rios são extremamente comuns em praticamente todas as cidades, mas o uso da navegação para fins comerciais também é bem comum em rios maiores como o Reno, que cruza a Alemanha de norte a Sul no seu lado Oeste.

Pra gente parece quase inimaginável que alguém chegue com seu próprio barquinho e simplesmente comece a remar num rio no meio da cidade. Uma coisa que eu custei a internalizar é essa possibilidade do acesso livre aos corpos de água presentes, que eles não são só um objeto intocável – na maior parte das vezes indesejável e evitável – da paisagem. Não dá pra imaginar nem em chegar perto de um rio em São Paulo: eles são ou “invisíveis”, escondidos embaixo de grandes avenidas, ou simplesmente inacessíveis fisicamente por barreiras formadas, também, por grandes avenidas marginais. Eu já escrevi em um post passado sobre o sentimento estranho e diferente de se nadar em um lago na cidade – algo totalmente comum na Alemanha. Esse acesso aos corpos de água naturais, entrar em contato com água sem ser no banho, na chuva ou na piscina é uma coisa quase impensável pra quem mora em grandes cidades brasileiras.

Isso é um ponto extremamente positivo de se morar na Alemanha, esse acesso à água “natural” te coloca num contato muito próximo com a natureza. Não tem como não se importar com o meio ambiente quando ele tem uma participação tão importante no seu dia-a-dia.

E não é só a água em si, claro. São as margens também – um fator urbano completamente essencial numa cidade alemã. Não dá pra imaginar uma cidade alemã onde as margens dos rios não sejam acessíveis para pedestres, e onde essa acessibilidade não seja desejada ou não seja requerida.

(Nas fotos acima, da esquerda pra direta e de cima pra baixo: Dresden, Colônia, Nuremberg, Dresden, FrankfurtBerlim e Dresden.)

O tratamento e o uso urbano das margens nos rios varia um tanto de cidade pra cidade, mas é na grande maioria das vezes um espaço extremamente agradável.

Em Dresden, por exemplo, as margens do ao longo de praticamente toda a cidade são extremamente largas e totalmente verdes:

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Dos dois lados, um caminho pavimentado serve aos pedestres e ciclistas como uma importante conexão urbana: em várias situações vale mais a pena ir pelo caminho ao longo do rio (que é bem sinuoso) que pelo caminho mais curto – simplesmente pelo prazer de caminhar ou pedalar nessa área.

Dresden

Foto aérea de Dresden, com o rio Elba cruzando a cidade, e suas margens largas bem visíveis.

As generosas margens não são por acaso, claro. São elas que acolhem o rio em períodos de cheias.

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De cima pra baixo: Elba mini (Julho 2015), Elba regular (Fevereiro 2010) e Elba Maxi (Junho 2013).

Mas mesmo com essas margens infinitas, eventualmente ocorrem cheias tão extremas que o rio avança para a cidade causando grandes problemas. Em Dresden, cheias desse tipo aconteceram em duas datas recentes: 2002 e 2013. Em 2002, a água chegou a invadir partes do centro histórico, inundando ruas, casas, etc. O porão de alguns museus no centro foram inunandos, destruindo importantes obras de artes históricas.

Desde então, várias medidas foram tomadas pela cidade para evitar novas inundações. Em momentos de cheia você vai perceber várias paredes e muros que misteriosamente apareceram do nada em lugares onde antes não havia nem parede nem muro, mas uma rua. Diferentes tipos de paredes retráteis foram desenvolvidas e instaladas em diversos locais:

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Sem água, sem parede

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Com água, com parede

Mas mesmo com esses muros, paredes e diversas outras medidas criadas depois da inundação de 2002 para evitar outra cheia desastrosa, em 2013 o rio subiu mais uma vez acima do esperado. Dessa vez, o centro foi poupado, mas em alguns pontos mais afastados da cidade a água chegou a invadir casas e deslocar pessoas temporariamente. A cidade têm continuamente desenvolvido e executado planos para evitar novos desastres. No escritório em que trabalho recentemente fizemos um projeto para sugerir alternativas para usar áreas inundáveis com os jardins loteáveis típicos daqui (Clique no link pra entender o que eu quero dizer com jardins loteáveis, tem um post sobre isso).

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Não é incomum encontrar em diversos lugares pela cidade pequenas plaquinhas colocadas em paredes em alguns edifícios aqui e ali mostrando o nível que o rio atingiu em determinada cheia – às vezes bem acima do chão!

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Plaquinhas em uma parede no castelo de Pillnitz, em Dresden, marcando as cheias do Elba. A plaquinha mais alta se refere à cheia de 2002.

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Marcações em um dos pilares da Ponte Velha, em Heidelberg, marcando as cheias do rio Neckar.

Deixar as margens desocupadas e de preferência verdes é a maneira ideal de lidar com as enchentes. Embora não seja tão comum ter tanto espaço para o rio como em Dresden, outras cidades também aproveitam as margens dos rios para grandes calçadões ou outros tipos de espaços utilizáveis mas não construídos.

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Frankfurt

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Hamburg

Verdes ou pavimentadas, as margens livres em dias quentes ou de sol tornam-se gigantes parques lineares que cruzam a cidade. O clima bem variado da Alemanha é uma parte importante do estilo de vida das pessoas, e por causa dos invernos longos e frios, assim que sai um solzinho mixuruca em Abril as pessoas já correm para qualquer pedacinho de grama disponível.

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Berlim

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Berlim

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Dresden

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Frankfurt

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Em Dresden, as margens do Elba também são freqüentemente usadas para a decolagem de balões de vôos turísticos!

Nesse contexto, as margens-parques dos rios alemães têm uma importância urbana enorme para as pessoas daqui.

Outros usos típicos são Biergartens:

São uma espécie de bares ao ar livre, onde você pode tomar uma cerveja e comer um salsichão. Super típicos na Alemanha toda, os instalados ao longo dos rios são os mais adorados.

Mas não são todos os rios cujas margens são livres. Em algumas cidades com rios menores, onde enchentes são um problema menos presente, os rios por vezes cruzam por entre as casas e edifícios. Mesmo assim o espaço é de uma forma ou de outra utilizado de maneira urbanisticamente positiva. Um bom exemplo de cidade onde o rio tem esse tipo de estrutura urbana é Nuremberg, mais especificamente o centro histórico de Nuremberg, cruzado pelo rio Pegnitz. Passeando pelo centro, apenas em alguns poucos trechos é possível andar ao longo do rio. Mas o rio aparece, desaparece e reaparece em momentos diversos do seu percurso pelo centro, sob pontes ou mesmo edifícios.

Esses pequenos espaços criados pelo encontro do rio com a cidade têm uma enorme qualidade urbana e dão um imenso charme pra cidade – uma das mais simpáticas cidades alemãs na minha humilde opinião.

Rios e a maneira como eles são tratados são realmente uma das melhores partes de se viver na Alemanha.

Mas como pra tudo há uma exceção, fica aqui uma foto de Wuppertal:

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Jesus, que quê isso!?

Pra terminar o post, uma série de outras fotos bonitas de rios na Alemanha que eu não consegui incorporar no texto mas quero colocar mesmo assim:

(Da esquerda pra direita de cima pra baixo: Bautzen, Berlim, Berlim, Dresden, Dresden, Dresden, Dresden, Görlitz, Heidelberg, Passau, Würzburg e Tharandt.)

Ficou ainda faltando falar de pontes, outro elemento urbano também mega importante, mas esse post já está quilométrico e pontes dá um outro post igualmente longo, então fica pra outro post.

O próximo post e último da série meio ambiente na Alemanha será sobre árvores nas cidades alemãs.


(Publicado em 11 de Junho de 2016)

O Meio-Ambiente em obras alemãs

Recentemente uma comissão do senado, no Brasil, pré-aprovou uma lei que basicamente torna o licenciamento ambiental para obras descenessário. Isso poucos dias depois do aniversário de 6 meses do desastre de Mariana, o maior desastre ambiental da história do país, resultado da negligência e descaso de grandes empresas com o meio ambiente.

Nesse triste contexto, achei que valia a pena fazer alguns posts sobre o assunto meio ambiente, e como a Alemanha lida com isso. Planejei três posts: um sobre como se lida com o impacto ambiental em obras aqui, o segundo sobre rios e o terceiro sobre árvores na cidade. São três assuntos com que, como arquiteta paisagista, eu lido diariamente, então acho que dá pra falar alguma coisa a respeito.

Esse primeiro post, então, é sobre como o meio-ambiente influencia o andamento de obras na Alemanha. Nele, vou contar quatro histórias. Eu tive a ideia desse post durante essa semana quando meu namorado – também arquiteto – me mandou umas fotos de um falcão. A história é essa:

Estava o humilde arquiteto tranquilamente em seu escritório projetando uns projetos quando recebeu uma ligação de uma pessoa do departamento de meio ambiente da prefeitura. O telefonema era a respeito de uma família de falcões da espécie Falco tinnunculus, uma espécie de falcão relativamente comum na Europa. Eis que a família de falcões em questão está alojada no telhado do prédio em que o dito arquiteto está pra começar uma obra de reforma do último andar e do térreo. Segundo a pessoa da prefeitura, a espécie é protegida (não ameaçada de extinção, somente protegida por ser uma ave silvestre) e portanto enquanto a família de falcões permanecer alojada no telhado a obra não pode ser continuada porque é contra a lei fazer qualquer coisa que atrapalhe o casal de falcão em seu trabalho de gerar e criar novos falcõezinhos. Para complementar o aviso, a prefeitura ainda enviou por email umas fotos do casal em questão:

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Falco tinnunculus – fêmea

Turmfalke >

Falco tinnunculus – macho

A reação do arquiteto? Encaminhar imediatamente o email pra namorada (no caso eu) com o comentário “olha só o que encontraram no nosso prédio! É aquele falcão que estávamos procurando pra fotografar!! Vou levar a câmera lá amanhã e ver se consigo vê-los!”. (adoramos bichos e já faz um tempo que estamos passeando por parques quando o tempo está bom para “caçar” (com câmeras fotográficas) as diferentes espécies de aves locais)

Mas falando sério: a fauna silvestre é de fato bem protegida por aqui, e a simples presença de um ninho de alguma ave silvestre ou algum outro animal é o suficiente pra parar temporariamente uma obra ou impedir uma árvore de ser cortada. Por isso que com árvores, por exemplo, os responsáveis pelos projetos que envolvem algum corte de árvore têm que sempre calcular pra tirar as árvores durante o inverno, que se chegar na primavera sem cortar, a chance de algum bichinho se apropriar dos galhos e buracos no tronco pra se reproduzir e proteger os filhotes é bem alta. E aí não pode mais nem encostar na árvore. A proibição em relação à obra nesse prédio por causa dos falcões não é apenas uma norma que você recebe uma multinha boba se desobedecer, mas é considerado de fato um crime!

Como o departamento de meio ambiente da prefeitura sabe tão bem onde moram todas as famílias de falcões da cidade já é uma outra questão que eu não saberia responder. Imagino que os falcões em questão não tenham suficiente conhecimento das leis alemãs pra saber que poderiam chamar a polícia, então suponho que a prefeitura monitore bem de perto as populações de fauna silvestre na cidade.

Histórias de como a fauna pode influenciar obras diversas são várias. Em um outro projeto que o meu namorado conduziu recentemente, uma reforma de uma escola primária, o departamento de meio ambiente da cidade também esteve presente checando a presença de aves locais. Eles observaram as aves voando nas redondezas e se elas tinham habitats nos telhados da escola, se existiam vestígios de determinadas espécies (ossos, dejetos, etc) e até usaram um instrumento não sei qual para escutar sons de morcegos (se eles estiverem presentes). Nesse caso a presença das aves não inviabilizou ou atrasou a obra – uma vez que elas não estavam em período reprodutivo, que é o fator limitante – mas fez com que fosse necessário instalar, em algumas das paredes externas, caixas de reproduções adequadas para determinadas espécies de pássaros.

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Recentemente no escritório em que trabalho fizemos um projeto de análise de impacto ambiental de uma obra de turbinas eólicas. O vilarejo ao lado do qual as 24 turbinas seriam implantadas nos contratou para verificar se todos os requisitos em relação a meio ambiente tinham sido respeitados. Obviamente a empresa responsável pelo projeto também tem que fazer essa análise, mas não é incomum que grandes empresas tentem dar uma disfarçada aqui e ali pra passar um projeto lucrativo. E só porque a empresa é de turbinas eólicas, não significa que eles estejam tão super preocupados com o meio ambiente quanto dão a entender pros seus clientes. Verificamos vários fatores, não apenas ambientais, mas também sociais. Os principais argumentos que levantamos que podem realmente atrasar, parar, ou pelo menos forçar a empresa a alterar o projeto foram dois: o primeiro é que parte da área onde seriam construídas as turbinas está dentro de um raio de tantos metros de um castelo protegido como monumento histórico. De acordo com a lei, dentro desse raio não podem ser realizadas obras de determinado porte, de maneira que o projeto em questão não poderia avançar para dentro desse raio. O outro argumento importante era que a área em questão era uma conexão importante para populações de morcegos da região, além de algumas aves. Como esses animais podem ferir e prejudicar esses animais, o projeto talvez tenha que ser alterado ou movido para outro local.

Morcegos, aliás, também criaram problemas para a obra de uma ponte nova recentemente construída aqui em Dresden. Muitos não queriam que a ponte fosse construída, especialmente pelo impacto visual que ela geraria para a paisagem da cidade. O projeto e construção da ponte gerou várias polêmicas a serem decididas pela justiça. Uma das questões foram os tais morcegos da espécie Rhinolophus hipposideros. A obra não foi cancelada pela presença dos morcegos, mas foi alterada por eles: eles tiveram que colocar um determinado tipo especial de iluminação que não atrai insetos, para consequentemente atrair menos morcegos na ponte (que são predadores de insetos), e durante a noite entre abril e outubro a velocidade máxima para os carros que atravessam a ponte é de 30km/h  – para evitar colisões com os tais morcegos. E, finalmente, uma série de árvores e arbustos teve que ser plantada nas margens do rio próximos à ponte pra “redirecionar” os morcegos a atravessarem a ponte por baixo da mesma, em vez de por cima. E toda essa discussão sobre morcegos atrasou o início da obra em 6 meses. Já a questão do impacto visual para a cidade não foi limitante – e há conseqüências. A área das margens do rio Elba ao longo da cidade tinha o título de patrimônio mundial da humanidade pela UNESCO, título esse que foi perdido após a construção da ponte.

A questão aqui não é dizer se é certo ou errado construir essa ponte (ou qualquer um dos projetos mencionados anteriormente) nem se a cidade ficou mais feia ou mais bonita depois da construção, mas apontar que precisa realmente haver discussões nesse nível de detalhe em relação a meio ambiente quando uma obra de grande porte (ou mesmo pequeno porte) está pra ser iniciada. Os prós e contras de cada lado precisam ser balanceados antes que se construa projetos cujos impactos podem ser irreparáveis. As questões que dizem respeito ao meio ambiente precisam ser analisadas por especialistas e seus argumentos precisam ser ouvidos e valorizados pela justiça e pela sociedade.

Não é que no Brasil exemplos similares aos que eu citei não existam – certamente existem. Conheço engenheiros ambientais, biólogos e ecólogos que trabalham justamente fazendo esse tipo de análise e projetos no Brasil também. E é justamente isso que a PEC 65 – se aprovada – vai anular completamente. Não é questão de se deve ou não deve ser construída uma determinada ponte ou seja o que for – é questão de analisar TODOS os fatores e possíveis conseqüências de cada obra e o fator meio ambiente ser valorizado da maneira necessária. Pode parecer bobo e insignificante que uma determinada espécie de ave seja prejudicada por um projeto que traga outros benefícios pra sociedade, mas não é tão simples assim. Aquela espécie de ave que você acha insignificante é a mesma que se alimenta de insetos e consequentemente controla – por exemplo – as populações do Aedes aegypti, de maneira que prejudicar essas aves pode resultar em um aumento dos casos de dengue na cidade. Ou então pode ser uma espécie responsável pela polinização de uma determinada espécie de planta – que por acaso é a planta usada como ingrediente em determinados remédios. Tudo no meio ambiente é interligado, como num jogo de pega-varetas, onde é quase impossível mexer em uma vareta sem que as outras se movam também.

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No próximo post (já estou preparando a um tempo, mas é um post longo cheio de fotos bonitas, então dá trabalho) vou falar um pouco sobre os rios e sua situação urbana na Alemanha.


(Publicado em 27 de Maio de 2016)

Viscos

Se você tiver visitado a Alemanha durante o inverno, talvez tenha visto e se perguntado o que seriam umas misteriosas “bolas” de folhas em árvores. Assim:

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Chamam-se viscos, ou visgos. Você possivelmente nunca tenha ouvido falar esse nome porque é uma planta de climas temperados, mas talvez já tenha se deparado com o nome em inglês: Mistletoe (em alemão, Mistelzweig).

Visco é uma planta parasita que se desenvolve nos galhos de uma árvore hospedeira, “roubando” água e nutrientes da mesma. Elas são bem comuns por aqui então no inverno, quando as árvores perdem suas folhas, você vê viscos pelos galhos de algumas árvores por aí.

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Na maior parte das vezes o visco, embora parasita, não representa grande perigo para a árvore hospedeira, que sobrevive normalmente. Só em alguns casos quando a “infestação” de viscos for realmente muito severa, quando nem parece que a árvore está sem folhas de tantos viscos nos seus galhos, é que a árvore pode acabar morrendo. E o visco também tem sua própria importância ecológica, servindo no inverno de alimentação para algumas espécies de pássaros, etc.

E por serem vistos só no inverno (já que no verão eles ficam cobertos pelas folhas da árvore), eles acabaram culturalmente associados à essa época, sendo usado por exemplo como decoração de natal pendurada em portas. E é também bem conhecida a tradição de que sob uma decoração de visco, um casal deve se beijar. O que deve ser bem interessante quando se é pré-adolescente, ficar tentando criar situações diversas pra encontrar aquele amor platônico embaixo de uma decoração de visco na época do natal e ter então uma boa desculpa pra um primeiro beijo!


(Publicado em 8 de Novembro de 2015)

Fauna alemã

Já que estamos falando de bichos, porque não um post sobre a fauna alemã?

A Alemanha tem bem menos biodiversidade que o Brasil e outros países nas regiões tropicais. Mas lógico que têm vários bichos típicos daqui que não existem no Brasil. A maioria a gente já conhece de desenhos e filmes, já que vários desses são comuns também na América do Norte. Então vamos ver quais animais silvestres você talvez tenha a chance de ver por aqui.

Raposa (Vulpes vulpes)

"Vulpes vulpes laying in snow" por Shiretoko-Shari Tourist Association. Licenciado sob Attribution, via Wikimedia Commons

“Vulpes vulpes laying in snow” por Shiretoko-Shari Tourist Association. Licenciado sob Attribution, via Wikimedia Commons

Esse bicho fofo laranja certamente não é o mais fácil de avistar por aí. Mas, se você tiver sorte, às vezes elas podem ser vistas até em cidades. Eu já vi uma atravessando uma rua aqui em Dresden. Demorei um pouco para me tocar que era uma raposa, vi um bicho passando e comentei com o namorado “nossa, que laranja esse cachorro!” e ele respondeu “é porque era uma raposa!”. Mas foi muito rápido, nem se eu tivesse com uma câmera na mão teria conseguido fotografar. Também já vi uma raposa num campo, mas eu estava no trem. Foi fácil de ver porque tinha neve por todo o lado, então era um bicho laranja no meio do tapete branco de neve. E, outra ocasião, foi uma raposa num parque, que eu vi bem de perto, mas porque estava morta, tadinha. Prefiro ver de longe mas vivas. Em alemão, Fuchs.

Que som faz uma raposa?

E o que come uma raposa?

Coelho (Oryctolagus cuniculus)

Esses são fáceis de ver! Os coelhinhos fofuchos aparecem freqüentemente em parques e áreas verdes, mesmo em cidades grandes. Em alemão se diz Kaninchen (coelhinho!).

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Esquilos (Sciurus vulgaris)

Também comum em parques e áreas verdes urbanas são os esquilos, mais especificamente os esquilos-vermelhos, que são, pasmem, vermelhos. Em alemão, chamam-se Eichhörnchen. Eich significa carvalho, e Hörnchen significa chifrinho, e se refere a esses pêlos altos que eles têm nas orelhas, que lembram chifres.

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Bem fofos! Eles não são tão confiados quanto os esquilos que você encontra na América do Norte ou na Inglaterra, então pra vê-los você vai ter que sentar num parque e ficar prestando atenção nas árvores. Eles são mais assustadinhos mas estão lá, e logo aparecem. Esses aí de cima eu vi em Berlim. O aqui embaixo, fotografei num parque em Dresden. Ele não tem ainda os “chifres” porque é filhote.

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Fofo.

Cervo

Cervos são comuns em florestas, mas eu nunca vi um sem ser em cativeiro. Tem alguns pequenos zoológicos de animais locais, às vezes até em parques, onde tem alguns cervos. Tem mais de uma espécie comum por aqui, uma delas são as que têm esses pontinhos brancos, fofos, bem que nem o Bambi. Mas a espécie mais comum é o veado-vermelho, que na verdade é marrom. Já renas são norte-americanas, e não existem por aqui.

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É relativamente comum, aqui, caçar cervos. Eu tenho uma amiga cujo irmão é caçador, o que é uma coisa muito surreal para mim. Meio chapeuzinho vermelho. Ele uma vez nos deu carne de cervo para comer no ano novo. Hesitei bastante em comer a carne, mas de repente é melhor comer a carne de um cervo que viveu de boas na floresta até ser caçado do que a de uma vaca que foi criada pra isso e bem mal-tratada durante a vida até ir pro matadouro. Sei lá. Cervo em alemão, Reh.

Lince (Lynx lynx)

Os super maravilhosos linces existem por aqui, embora não sejam super comuns. Você certamente não vai encontrar um na sua viagem, exceto em algum zoológico. O da foto abaixo eu vi num zoológico de animais locais perto de Moritzburg. Uns fofos.

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Porco-espinho (Erinaceus europaeus)

"Erinaceus europaeus (Linnaeus, 1758)" by Michael Gäbler. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons

“Erinaceus europaeus (Linnaeus, 1758)” by Michael Gäbler. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons

Porcos-espinhos são híper mega fofinhos e desde que eu mudei pra Alemanha estou procurando um. Eles podem aparecer no seu jardim, e são relativamente comuns. Mas, na falta de um jardim, ainda não me deparei com um desses. Em alemão, Igel.

Toupeira (Talpa europaea)

Outro bichinho que pode aparecer no seu quintal é a toupeira, esse bicho aqui:

"Talpa europaea MHNT" by Didier Descouens - Own work. Licensed under CC BY-SA 4.0 via Wikimedia Commons

“Talpa europaea MHNT” by Didier Descouens – Own work. Licensed under CC BY-SA 4.0 via Wikimedia Commons

Tem mais ou menos o tamanho de um ratinho. Também nunca vi. Em alemão se chama Maulwurf.

Castor (Castor fiber)

"Beaver pho34" por Per Harald Olsen - User made.. Licenciado sob CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

“Beaver pho34” por Per Harald Olsen – User made.. Licenciado sob CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Esse castor não é a mesma espécie daquele encontrado na América do Norte, mas é, claro, bem parecido. Também constrói represas em córregos, como essa daqui:

"Beaver dam" by Juliux - Own work. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons

“Beaver dam” by Juliux – Own work. Licensed under CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons

Em alemão, Biber.

E, finalmente:

Lobo (Canis lupus)

Historicamente, o lobo era encontrado por toda a Alemanha (toda a europa, por sinal), mas foi gradualmente exterminado ao longo dos séculos XVIII e XIX, principalmente pelo perigo que ele representava para as pessoas. A Europa ocidental passou a ser totalmente livre dos lobos, que ficaram limitados à europa oriental e norte da Ásia. Mas, de 50 anos pra cá, pequenas populações de lobos estão gradualmente voltando ao seus locais de origem, e já podem ser encontrados (embora ainda bem raramente) em partes da Alemanha.

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(esse eu fotografei num zoológico, mesmo)

Acho que são esse os animais mais conhecidos e símbolos daqui. Tem, claro, centenas de espécies de aves, ainda, e muitos outros animais. Em breve escreverei também sobre a flora alemã, ou mais especificamente as árvores mais comuns por aqui!


(Publicado em 30 de Maio de 2015)

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Caminhando pela floresta

Uma diferença que eu percebo entre brasileiros e alemães são os hobbies e atividades de lazer típicas preferidas pelas pessoas. Pelo menos é a minha impressão como alguém que nasceu e cresceu numa metrópole. Em São Paulo, as atividades de lazer típica são ir ao shopping, comer fora, ir a bares e baladas, ir ao cinema, e, bem de vez em quando, a parques. A minha impressão é que a maior diferença é que os alemães preferem atividades ao ar livre. Talvez pelos invernos rigorosos, que os impedem de aproveitar o ar livre por vários meses, nenhuma oportunidade de realizar atividades fora de lugares fechados é desperdiçada.

Entre os hobbies mais comuns estão os churrascos em parques, atividades diversas nos parques das cidades, atividades esportivas como ciclismo, patinação, e, uma das atividades favoritas da maior parte da população alemã: caminhada. Na verdade é difícil achar o termo correto. Em inglês, “hiking” se refere a uma caminhada longa, na natureza, normalmente incluindo subidas e descidas. Já ouvi o termo, em português, “escalaminhada”, uma mistura de escalada com caminhada que talvez se aproxime mais de “hiking”. O Wikipédia traduz como “passeio”, que eu acho que não faz muito sentido.

Então vou usar o termo caminhada.

E os alemães adoram uma caminhada na floresta. Basicamente todos (ainda estou por encontrar uma exceção) os alemães têm tênis especiais de caminhada. Esses assim:

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O uniforme de caminhada inclui também uma boa capa de chuva. Alguns alemães mais entusiastas de caminhadas como esporte terão também aquelas “bengalas”, ou “walking sticks” e “trecking poles” em inglês, não consegui descobrir o termo específico em português.

Um fator que facilita a permanência da caminhada como importante hobbie dos alemães é a lei que determina que todas as florestas devem ser abertas a acesso público. Nenhuma floresta, nem mesmo as privadas, pode ser cercada ou de qualquer maneira fechada ao acesso público. Quer dizer, essa lei não é tanto a causa dos alemães dedicarem tanto tempo a certas atividades, mas consequência. Os alemães, mesmo os de cidades maiores, têm uma relação muito próxima com o uso da floresta para lazer. É tão comum passear pela floresta que eu já vi até uma senhora numa cadeira de rodas motorizada passeando com o cachorro sozinha! 

Essa relação já vem de longa data. Passeando pelas florestas alemãs você logo se lembra de contos de fadas e fábulas clássicas como Chapeuzinho Vermelho e João e Maria. E não por acaso – todas essas histórias famosas são contos tradicionais alemães, registrados de forma escrita pela primeira vez pelos irmãos Grimm no século XVIII. E passear por florestas alemães te lembra tais contos primeiro porque os animais descritos nessas histórias – lobos, veados, raposas, coelhos – são típicos dessa região e volta e meia você vê um desses por aí. E depois porque a simples ação de andar pela floresta já é uma coisa que só funciona em determinadas florestas. Numa floresta tropical, com plantas de todos os tipos nascendo de todos os lados e ocupando todo o espaço, é quase impossível andar tranquilamente sem existir uma trilha. E mesmo quando há, as temperaturas altas, alta umidade e grande presença de mosquitos faz com que o passeio não seja uma caminhada tranquila e confortável (sem querer dizer com isso que passear nas florestas brasileiras não é agradável, muito pelo contrário. Mas é uma experiência completamente diferente).

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Mas nas florestas alemãs há trilhas também. Na verdade, é bem difícil se perder passeando na floresta. As trilhas além de mantidas são marcadas (com símbolos nas árvores). A Alemanha é um país pequeno com uma população enorme, então nenhuma floresta é longe demais de algum lugar habitado, e portanto pelas trilhas você sempre encontra outras pessoas.

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Para descobrir interessantes percursos de caminhada, as seções de viagens de livrarias sempre têm uma variedade de livros e mapas com percursos possíveis para diversas regiões. Você pode escolher passeios que te levem a bonitos panoramas, belos castelos, pequenos vilarejos ou o que lhe interessar mais.

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E não se preocupe se for inverno, para os alemães não é obstáculo (e a floresta fica bem bonita sob neve).

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(Publicado em 26 de Novembro de 2014)