Educação e Trabalho

Sie/Du – Formas de Tratamentoo

A inspiração para esse post veio de uma conversa durante o almoço com colegas do trabalho. Por algum motivo qualquer alguém comentou sobre tratar alguém por Sie ou por Du, e seguiu-se uma longa discussão sobre as preferências pessoais de cada presente – quando eles preferem ser tratados por Sie, quando eles preferem ser tratados por Du, quando eles preferem tratar alguém por Sie ou quando acham estranho, e o mesmo para Du.

O que você terá aprendido na sua aula de alemão, provavelmente na primeira ou segunda aula do Básico 1 do curso de alemão é: amigos e família você trata por Du, pessoas no ambiente de trabalho e pessoas desconhecidas, você trata por Sie.

Mas a realidade é bem mais complexa que isso. E além disso esse blog não é sobre língua alemã, mas sobre cultura alemã. Então eu não vou falar de regrinhas que aparecem no seu livro Deutsche Sprache A1 ou no Duolingo, mas do que eu ouço os alemães falarem sobre quando eles se sentem confortáveis ou desconfortáveis com o uso do Sie ou do Du.

A conversa no almoço do trabalho começou com uma discussão sobre como usamos Sie e Du dentro do escritório. Em cada local de trabalho é diferente. No nosso escritório usamos sempre Sie com o chefe e Du com os colegas. E o chefe sempre usa Sie com todos. O normal é, quando você usa Sie você também usar o sobrenome da pessoa, e com Du vai o primeiro nome. Então, por exemplo, se algum colega me pedisse para imprimir uma planta qualquer, ele diria da seguinte forma (todos os nomes dos exemplos são fictícios, exceto meu primeiro nome):

Laís, kannst du mir den Plan so und so ausdrucken?

E meu chefe, pedindo o mesmo, diria:

Frau Ribeiro, können Sie mir den Plan so und so bitte ausdrucken?

Mas a grande questão – que é o que estávamos discutindo no almoço – é: que nome usar quando você está conversando com o chefe sobre outro colega? Por exemplo, se uma colega minha fosse falar para o chefe que eu imprimi a planta, ela poderia dizer ou:

Herr Steinmeier, Frau Ribeiro hat schon den Plan ausgedruckt. ou…

Herr Steinmeier, die Laís hat schon den Plan ausgedruckt.

Obviamente o “correto” seria usar o sobrenome nesse caso. Mas aí é que entra a complexidade do negócio: tem vários níveis de distância que você pode manter de uma pessoa de acordo com a maneira que você conversa com ela. Como você escolhe usar Sie, Du, nomes e sobrenomes é uma dessas maneiras. Então no meu escritório foi definido que o chefe usa sempre Sie e a gente usa sempre Sie com o chefe. Mas o nível de intimidade que ele tem com os seus empregados pode variar e aparecer de outras maneiras, incluindo essa. Então alguns colegas se sentem na liberdade de se referir aos outros colegas para o chefe com o primeiro nome. E o chefe dependendo da situação ou da pessoa a quem ele está se referindo, usa o primeiro nome ou o sobrenome. Alguém que começou a trabalhar no escritório a pouco tempo é sempre “Herr” ou “Frau” Fulano. Alguém que já trabalha lá a mais tempo, embora ele trate por Sie e pelo sobrenome, ele às vezes se refere àquela pessoa para outras pelo primeiro nome. Outra maneira de mostrar uma intimidade maior ou de manter uma distância maior é na escolha de suprimir ou não ou “Herr” ou “Frau” antes do sobrenome quando você fala diretamente com a pessoa. Se minha colega do exemplo acima se sente bem de boas com o chefe, ela poderia dizer simplesmente:

Steinmeier, die Laís hat schon den Plan ausgedruckt.

Mas essa é uma escolha arriscada. Falar só o sobrenome de alguém sem Herr ou Frau na frente costuma soar bem grosseiro e mal-educado.

Essas dinâmicas funcionam diferente em cada lugar. Tem escritórios em que todo mundo se trata sempre por Sie e pelo sobrenome, mesmo entre colegas que almoçam juntos todos os dias. Mas em outros lugares, por exemplo o escritório onde meu marido trabalha, todo mundo se trata por Du, incluindo os chefes.

Mas uma coisa é certa: outras pessoas no ambiente profissional, que não trabalham diretamente com você (digamos pessoas de outra empresa com quem você está fazendo algum trabalho, clientes, terceiros, firmas contratadas para algum serviço, etc) você certamente sempre trata por Sie e sobrenome. Tem pessoas com quem eu trabalho em conjunto há mais de um ano (digamos o mestre de obra responsável pela obra de algum projeto meu, ou a pessoa da prefeitura responsável pelo projeto que estamos fazendo) de quem eu nem sei o primeiro nome. Só sei a inicial do primeiro nome porque é parte do endereço de email da pessoa.

Mas regras sociais à parte, é sempre muito interessante prestar atenção nas preferências pessoais de cada um e no significado que fica atribuído a cada escolha de linguagem. Na conversa do almoço do outro dia, os colegas presentes todos concordaram veementemente que é ótimo que na nossa empresa tratamos o chefe por Sie e vice-versa, e que eles acham ótimo que seja mantida essa distância entre chefe e empregados pelo emprego do Sie. Depois de dois anos e meio na empresa eu já acostumei com isso e acharia estranhíssimo tratar o chefe por Du. E o mais curioso é que meu entendimento sobre respeito e pessoalidade também mudou um pouco no seguinte sentido: no início eu achava negativo vc, como chefe, manter distância dos seus empregados, porque na minha visão isso facilitaria pro chefe por exemplo mandar as pessoas embora em qualquer oportunidade, sem pensar no impacto pessoal que vai ter na vida daquela pessoa perder o emprego. Mas agora trabalhando lá há um tempo eu vejo que o contrário é verdade. Meu chefe respeita pra caramba os empregados do escritório. As pessoas que trabalham lá são todos contratados fixo desde o início, recebem salários decentes, trabalham lá há muito tempo. Tirar férias é tranquilíssimo, ninguém trabalha de fim de semana nunca, raramente depois das 18, ninguém jamais entra em contato com vc durante suas férias… como é correto. E se eu vejo o que os meus amigos do Brasil contam, ou uma ou outra experiência que tive lá, onde as pessoas são extremamente próximas num nível pessoal, as pessoas frequentemente trabalham sem serem contratados fixo, não conseguem tirar férias, trabalham uma quantidade de horas extras absurda… e tudo isso enquanto o chefe tá sendo super fofo contigo e te tratando como bff. Quer dizer. Talvez a distância que é mantida quando vc trata alguém por Sie e não por Du não sirva pra vc esquecer que seu empregado é um ser humano com vida pessoal mas pra vc não esquecer que vc tem que ter um respeito profissional por ele. E não achar que ele tá lá trabalhando pra vc pq ele é seu parça que tá te dando um help e que vc pode pedir pra ele trabalhar até às duas da manhã do domingo por um salário lixo porque é pra isso que servem os amigos.

Mas saindo um pouco do ambiente de trabalho, vale a pena discutir também o uso do Sie/Du em outras situações.

Por exemplo lojas. Na maioria dos lugares em que você for, como cliente você será tratado por Sie. Tem alguns lugares, lojas ou empresas que querem parecer jovens e inovadoras, onde você talvez seja tratado por Du. Parece que não cai muito bem, exceto com outras pessoas muito jovens.

E uma coisa que eu acho curiosa é a forma de tratamento em ambientes familiares. No Brasil é bem normal tratar todo mundo por você. A principal exceção são pessoas idosas, que costuma tratar-se por senhor ou senhora. Mesmo que a pessoa seja próxima, é bem comum chamar os próprios avós de senhor e senhora. Já os alemães são diferentes nesse sentido. Dentro de ambientes familiares, mesmo a avó e o avô são tratados por Du. Mas e se for a família do seu namorado ou namorada, ou amigos? O mais comum é logo tratar por Du, mas nesse caso lembre-se de respeitar a hierarquia antes de sair chamando o seu sogro de Carlão. Deixe que as pessoa mais velhas definam que o Du pode ser usado..

O que nos leva ao próximo ponto: quem pode decidir quando trocar de Sie pra Du? Se você assiste muitos filmes e séries americanos, talvez acha que funcione como lá: as pessoas mais velhas te tratam pelo primeiro nome e você os trata por Sr. Sobrenome até que eles lhe digam “pode me chamar de Fulano”. Não. Aqui não é uma decisão unilateral. O que acontece é que, em situações em que ambas as alternativas seriam possíveis, a pessoa mais velha ou que está acima na hierarquia é quem por perguntar se vocês podem se tratar por Du. Mas atenção: a diferença aqui é que é realmente uma pergunta, você poderia responder ‘não, preferia continuar usando Sie se você não se incomodar’.

Mas a maior parte das situações do dia-a-dia é meio pré-definido. Em situações de trabalho sempre Sie, na universidade todo mundo se trata por Du, exceto os professores, que te tratam e devem ser tratados por Sie, em situações familiares usa-se Du, etc… a melhor dica que se pode dar: presta atenção em como a outra pessoa te trata e segue a mesma linha. Se alguém está te tratando por Sie, nunca mude pra Du sem antes esclarecer com a pessoa se tudo bem. Se alguém está te tratando por Du, significa que vc pode usar Du também, mesmo que seja numa situação em que vc sentiria um certo receio em tratar a pessoa pelo primeiro nome, porque é o chefe ou uma pessoa muito mais velha, sei lá. Se a pessoa está usando Du com vc (e vc for adulto) você pode usar Du com ela. O que não tem por aqui é uma relação entre dois adultos em que um usa Sie com o outro e o outro usa Du com o primeiro. Ou os dois usam Sie e sobrenome ou os dois usam Du e primeiro nome.

Resumindo: é tudo um tanto mais complicado que as regras que você aprende no curso de alemão, rsrsrs. Na dúvida, evite formular frases com “você” até ter certeza qual dos dois é pra usar. Por exemplo, em vez de “você já imprimiu os documentos?”, use “os documentos já estão impressos?”. (Sind die Unterlagen schon ausgedruckt worden?) Ou em vez de “aqui no escritório vocês fazem de tal jeito?, você pode falar “aqui no escritório faz-se de tal jeito?” (Wird das hier im Büro so gemacht?) Ou então, é, vez de “Você precisa de alguma ajuda?” você pode dizer “Posso ajudar com alguma coisa?” (Kann ich helfen? – o correto seria dizer kann ich Ihnen helfen? ou kann ich dir helfen?, mas na dúvida vc deixa o Ihnen ou dir conveniente de fora assim não corre riscos.) Sempre tem um jeito ou outro de evitar colocar a segunda pessoa numa frase, e em vez disso reestruturar a frase para a primeira pessoa ou de uma maneira genérica.

E talvez você esteja se perguntando, mas e se eu sem querer usar Du com uma pessoa que era pra usar Sie? É muito ruim? Fica muito feio?

Olha, ficar fica. Mas se vc é estrangeiro, as pessoas podem levar isso em consideração e te dar um desconto pq vc não conhece as regras. Se você errar e perceber: corrija. De preferência peça desculpas e repita a frase com Sie no lugar de Du.

Por exemplo:

Die Unterlage habe ich dir heute früh geschickt. Entschuldigung, ich habe sie Ihnen heute früh geschickt.

Se vc erra às vezes sem perceber, quando perceber peça desculpas já pelas vezes passadas e futuras, tipo:

Ach, entschuldigen Sie mich wenn ich Sie manchmal duze, es ist nur weil es in meiner Sprache nur eine Form von Anrede gibt und ich das deswegen manchmal verwechsle.
(Ah, eu já peço desculpas se eu te tratar por Du às vezes, é que na minha língua só tem uma forma de tratamento, e por isso eu às vezes troco.)

E muito importante também é não se referir pelo primeiro nome a uma pessoa com a qual você não deveria ter nenhuma intimidade. Por exemplo: como no meu escritório todo mundo trata o chefe pelo sobrenome, se eu num almoço entre colegas falasse do chefe pelo primeiro nome, todo mundo ia achar MUITO estranho, talvez suspeitar que a gente tá tendo um caso ou coisa do tipo. Ia cair muito mal. Uma vez numa reunião sobre um projeto, uma colega minha do escritório, conversando com uma pessoa da prefeitura, estava tratando ela por Du e primeiro nome, e vice-versa. Depois da reunião, a colega fez questão de me explicar que estudou junto com aquela pessoa e que elas portanto são super amigas e se conhecem muito bem. Eu já tinha imaginado que fosse algo assim, mas achei interessante que ela fizesse questão de justificar pra mim, pra que eu não achasse estranho. E mesmo assim, ela não se referiu pra mim àquela pessoa pelo primeiro nome. Tipo, ela não disse “Ah, eu conheço a Angela da faculdade, a gente estudou juntas e somos amigas”, ela disse “Ah, é que eu conheço bem a Sra. Merkel da faculdade, a gente estudou juntas e somos amigas”. Numa situação de trabalho, se você trata alguém por Du que não é colega da mesma empresa, espera-se uma justificativa de da onde você conhece aquela pessoa no nível pessoal. Porque só de trabalhar em conjunto, mesmo que por muitos anos, você nunca trocaria de Sie para Du.

Espero que esse post não tenha ficado muito confuso… mas o assunto é confuso, mesmo! Mas não se preocupe, no início você estranha, mas depois de um tempo você acostuma com essas regras sociais e o contrário começa a te parecer estranho!


(Publicado em 29 de Abril de 2018)

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Pequena regrinha em reuniões

Recentemente descobri, meio por acaso, uma regra social não muito discutida mas frequentemente adotada. Eu estava lendo um livro sobre linguística que aborda diversos aspectos da linguagem, etc, e um exemplo que o autor mencionou sobre normas linguísticas de boas maneiras era não usar pronomes para se referir em terceira pessoa a alguém que está presente.

Quando li isso nem entendi direito o que ele estava querendo dizer. Como assim, não pode se referir a uma pessoa que está presente na conversa por “ele” ou “ela”? Tive que ir pesquisar. Embora o autor seja britânico e estivesse se referindo a uma regra britânica, quando entendi do que ele estava falando realmente ficou claro que tem uma diferença. E aí pensando sobre o assunto me toquei que de fato me parecia que aqui essa regra também é válida. Perguntei para alemães de plantão que confirmaram que em situações formais, realmente isso existe.

Mas péra, do que eu estou falando, afinal?

Imagina a seguinte situação. Você está numa reunião de trabalho, com algumas pessoas, digamos um grupinho de 4 pessoas. Digamos, você, o Sr. Einsenmann, a Sra. Müller e a Profa. Seidel. A Sra. Müller expões alguma ideia, da qual o Sr. Einsenmann discorda e você percebe que ele discordou porque não entendeu exatamente a idéia. Você quer explicar melhor o que a Sra. Müller quis dizer, pra isso você precisa se referir à Sra. Müller em terceira pessoa: “O que ela quis dizer foi…”, “a idéia dela, na verdade…”. Aí é que usar um pronome, como eu fiz nos dois exemplos (ela e dela) é que é mal-educado. A opção educada e mais formal de se referir à Sra. Müller seria “O que a Sra. Müller quis dizer foi…” ou “a idéia da Sra. Müller, na verdade…”

Quer dizer, não chega a ser mal-educado, mas é mais informal e menos atencioso. Com certeza soa bem mais polido se referir à pessoa pelo nome, nessas situações. E como aqui na Alemanha títulos também são muito importantes, você também pode se referir à pessoa pelo seu título. Por exemplo, se a idéia fosse não da Sra. Müller mas da Professora Seidel, você poderia dizer “O que a professora quis dizer foi…”

Essa é uma daquelas coisas que você nunca perceberia conscientemente mas talvez depois de um tempo comece a adotar sem se tocar. E acho que também é uma daquelas regras que ninguém discute mas todo mundo inconscientemente adota em quase qualquer língua. Eu teria que prestar atenção em situações formais no Brasil, mas não é difícil imaginar que isso também seja automaticamente adotado. Mas como no Brasil as pessoas costumam ser bem mais informais, esses detalhes não são nunca tão importantes.

Em todo o caso, fica a dica: preste atenção de tratar as pessoas presentes pelo nome e passe uma boa impressão entre os alemães!


(Publicado em 11 de Novembro de 2017)

Ausbildung – cursos técnicos

Algo que eu acho interessante na Alemanha é que para muitos empregos que não exigem qualificação superior acadêmica, você ainda precisa de um diploma de um curso técnico para poder exercer aquela profissão.

Na verdade, são pouquíssimas as profissões que você pode exercer de maneira fixa sem nenhum tipo de curso profissionalizante, se é que tem alguma.

Para falar disso, primeiro tenho que explicar como funciona o sistema educacional na Alemanha. Mas eu já fiz isso, nesse post aqui. Resumindo a história, você tem alguns caminhos possíveis: ou você faz o Gymnasium e o Abitur, que seria o equivalente a fazer o ensino médio até o final e ter o ENEM como um diploma final de ensino médio, ou você faz ou a Realschule ou a Hauptschule, que são menos anos de escola e com o diploma dessas escolas você pode fazer cursos profissionalizantes ou técnicos, mas não ingressar na universidade. Para entrar numa universidade você precisa do tal Abitur, algo similar ao ENEM.

Existem também algumas combinações possíveis, por exemplo colégios técnicos, onde você pode fazer um curso técnico e o Abitur ao mesmo tempo.

Terminado a escola você tem então dois caminhos possíveis: ou você entra numa universidade (Universität) ou numa escola superior (Fachhochschule), ou você faz uma Ausbildung, que é um curso técnico profissionalizante de, normalmente, 3 anos.

A diferença importante entre uma Ausbildung e um curso universitário (além da diferença óbvia de um ser acadêmico e o outro técnico) é uma Ausbildung é sempre diretamente conectada com uma bolsa, até porque é uma mistura de trabalho e estudo, você aprende aquela profissão enquanto a exerce, e é portanto pago por isso. A Ausbildung é por isso uma boa alternativa pra quem quer já receber um salário diretamente depois de sair do ensino médio, e também para quem não tem muita afinidade com a academia, já que é um curso mais prático.

Mas alguns desses cursos podem ser beeeem concorridos. Principalmente aqueles que dão acessos a profissões mais procuradas, claro. Você pode fazer Ausbildung pra ser padeiro/a, vendedor/a, carpinteiro/a, para trabalhar numa piscina pública, costureiro/a ou até profissões que precisam de uma qualificação mais específica como fonoaudiólogo/a, parteiro/a, entre outros. Praticamente qualquer emprego que não exige uma qualificação universitária exige uma Ausbildung.

Alguns exemplos:

A minha cunhada fez o Gymnasium + Abitur, então poderia se inscrever numa universidade. Mas como ela não se dava muito bem com a área acadêmica, preferiu seguir uma carreira mais prática, onde ela pudesse aprender a profissão enquanto trabalhava. Ela primeiro conseguiu um emprego numa loja de móveis de couro. O emprego era ligado a uma Ausbildung que era parte na universidade – com aulas teóricas sobre marketing, business, etc – e parte na própria loja aprendendo a profissão. Com o diploma dessa Ausbildung, depois que ela resolveu sair dessa loja, ela conseguiu um emprego trabalhando para uma rede de supermercados como responsável por encomendar os produtos que o supermercado vende: ela tem que saber otimizar as quantidades a serem encomendadas para evitar que os produtos esgotem ou sejam disperdiçados, ela tem que saber quando encomendar cada tipo de produto de acordo com as vendas, etcetc.

Uma amiga minha brasileira que mora aqui resolveu, depois de vir pra cá, seguir uma carreira diferente. Ela tinha curso superior em biologia, mas estava se interessando por obstetrícia e resolveu tentar uma Ausbildung para ser parteira. Ela conseguiu uma vaga bem concorrida para a Ausbildung do hospital universitário local, que tem duração de 3 anos. Nos dois primeiros anos, o curso alterna entre 5 semanas de teoria, com aulas normais e provas, e 5 semanas de prática no hospital. O último ano é inteiro no hospital, exceto por 5 semanas de aula preparatória para o exame final que dá a certificação para exercer a profissão. Fazer a Ausbildung significa que ela é contratada pelo hospital como um emprego normal, recebe um salário suficiente, além de todos os benefícios obrigatórios de contratação como férias, seguro de saúde, previdência, etc. Completando a Ausbildung no hospital ela ainda tem boas chances de ser contratada pelo próprio hospital para exercer sua profissão lá.

Não é incomum que algumas pessoas façam uma Ausbildung para começar uma profissão e alguns anos depois acabem se inscrevendo em cursos universitários também relacionados. Um exemplo é um colega que trabalha junto com meu namorado, que primeiro fez uma Ausbildung de desenho técnico e depois, já trabalhando, resolvou ir estudar arquitetura na universidade.

A maioria desses cursos têm 3 anos de duração, mas há alguns com 2 ou 4 anos de duração. As bolsas variam entre aproximadamente 500 a 950 euros no primeiro ano e 750 a 1400 euros no último ano (Em todos os cursos a bolsa aumenta ao longo do curso). Alguns valores mais específicos:
Um aprendiz de padeiro recebe no primeiro ano 458 euros, no segundo 620 euros, e no terceiro, 750. (valores mensais, claro).
Um aprendiz de construtor de ruas recebe no primeiro ano 755 euros, no segundo 1.115 euros, e no terceiro, 1400 euros.
Um aprendiz de sapateiro recebe no primeiro ano 710 euros, no segundo 740, e no terceiro 830 euros.
Aqui tem uma lista com as diferentes profissões e o salário médio da Ausbildung para cada ano de curso.

A maior diferença que eu percebi entre a Alemanha e o Brasil nesse sentido de cursos ténicos e profissões que não exigem curso superior é que essas profissões não são desvalorizadas como no Brasil. No Brasil, quem não faz curso superior ou exerce uma profissão que não exige qualificação acadêmica de nível superior é sempre visto como alguém inferior, menos capaz. Tem uma separação muito grande entre as profissões e como elas e as pessoas que as exercem são vistas. Aqui alguém que exerce profissões menos acadêmica não é visto como uma pessoa menos capaz ou inferior em nenhum sentido. E o fato de todas as profissões exigirem algum diploma para serem exercidas – seja um diploma universitário ou de curso profissionalizante – também faz com que as profissões mais práticas também sejam valorizadas, e poucas profissões sejam vistas como “algo que qualquer um pode fazer”. Até porque não é assim, nenhuma profissão pode ser feita por qualquer leigo, todas exigem experiência, habilidade e prática.

Empregos que não exigem nenhum tipo de qualificação costumam ser empregos temporários, bicos, e são exercidos mais por estudantes universitários aproveitando as férias ou o tempo livre pra ganhar um dinheiro extra pra bancar os estudos. E por aqui, qualquer profissão que você escolha exercer vai quase com certeza te dar acesso a uma vida bem normal de classe média.

Edit: Eu tenho recebido muitas perguntas genéricas via esse post referente a Ausbildung, como “Pra fazer Ausbildung precisa disso ou daquilo?”, ou “Como que se inscreve?”, etc. Nenhuma dessas perguntas eu tenho como responder porque Ausbildung não é UMA coisa, é um modelo de curso profissionalizante. É como se me perguntassem “Quero fazer faculdade, como se inscreve?”. Ué, como que eu vou saber, pra cada curso, pra cada faculdade vai ser uma resposta diferente. Ausbildung é um tipo de curso, não é um curso único que vale pra tudo. Então se você quiser saber mais informações sobre alguma Ausbildung, você tem que: saber que curso vc quer fazer; descobrir que instuituições/organizações/empresas oferecem esse curso; e então procurar informações sobre inscrições no site dessa instituição, organização ou empresa! Boa sorte!


(Publicado em 12 de Fevereiro de 2017)

Arquitetura da Paisagem na Alemanha

Estou completando um ano no escritório onde trabalho como arquiteta paisagista, e achei que era uma boa hora de fazer um post sobre o assunto. Eu sou formada em arquitetura e urbanismo e trabalhei um pouco com paisagismo no Brasil. Como é minha área preferida da arquitetura, resolvi me focar nisso por aqui.

E após um ano de experiência na área na Alemanha, já dá pra fazer um post sobre as diferenças – que são muitas – dessa área aqui e no Brasil. Vou dividir o post em quatro partes pra organizar melhor. Alguns pontos valem não só para paisagismo, mas também para arquitetura.

1. Incumbências e responsabilidades do arquiteto paisagista na Alemanha

A primeira grande diferença é que aqui arquitetura da paisagem – Landschaftsarchitektur – é uma área separada da arquitetura. O curso universitário de paisagismo é de 5 anos, como o de arquitetura, e só pessoas formadas nisso é que fazem projetos para espaços livres. Arquitetos nunca projetam espaços livres.

Uma outra diferença importante são os tipos de projetos mais comuns. No Brasil eu fiz muitos jardins, jardim de casas ou mesmo de sacadas. Eram projetos pequenos para pessoas que podiam pagar um arquiteto. Ou ainda jardins de edifícios comerciais. Fizemos também alguns projetos públicos, alguns parques e praças. Mas aqui os projetos de paisagismo são quase todos para espaços públicos. É que basicamente aqui para qualquer espaço livre se contrata um paisagista. Mesmo que seja uma área pequena, mesmo que nem dê para fazer muita coisa ali, sempre se contrata um arquiteto paisagista, porque é ele o responsável por projetar espaços livres e ninguém mais. E os tipos de projeto são bem variados: a gente faz muitas escolas (todas as escolas tem um projeto de paisagismo), áreas livres de edifícios de apartamentos (que são áreas semi-públicas, já que são sempre abertas) e praças. Um tipo de projeto interessante que é responsabilidade de paisagistas são áreas esportivas, quaisquer que sejam. No escritório eu já participei de projetos de campos de futebol, um percurso de BMX e um percurso de Biathlon (ski + tiro ao alvo). Projetos de jardins particulares são raríssimos. Isso certamente porque os alemães gostam de jardinagem e gostam de ter um jardim. Poucos pensariam em contratar um paisagista para fazer o jardim de casa porque preferem fazer isso eles mesmos.

E uma coisa particular do escritório em que eu trabalho é que a gente também faz vários projetos de planejamento da paisagem, que são projetos em escala maior. A maior parte dos escritórios de paisagismo trabalham só com projetos de lugares (Objektplanung) mas alguns fazem também planejamento da paisagem. São por exemplo a parte ambiental de projetos de zoneamento (Bebauungsplan, ou B-Plan), onde se decide coisas como a porcentagem de cobertura arbórea de uma rua ou de uma área verde em planejamento, localização de parquinhos, ou áreas esportivas, ou ainda bacias de retenção de águas pluvias, entre outras infraestruturas urbanas.

2. Burocracias

Essa é a parte boa. A parte ruim desse trabalho aqui é que ele é muuuuuuuito mais burocrático que no Brasil. Isso eu já falei no post sobre Arquitetura na Alemanha (porque vale pra arquitetura e paisagismo), aqui pra cada coisa que você faz tem mil burocracias que vão junto: formulário x, lista y, texto não sei qual, etcetc. Tem uma coisa que aqui se faz para cada projeto chamava Leistungsverzeichnis, abreviado LV. É uma descrição nos mí-ni-mos-de-ta-lhes de tudo que vai no projeto. Tudo. Nos mínimos detalhes. Quando eu digo mínimos detalhes, vc tá pensando “ah, ok, detalhes, tal, tudo bem”. Mas é muito pior do que você está imaginando. Por exemplo, digamos uma parede. Só isso, uma parede. O texto do LV seria algo desse tipo:

“Parede de tijolos, DIN EN 1996, parede externa, 15m²

Largura da parede 24cm
Tijolos de arenito calcário, DIN EN 771-2 em conexão com DIN V 20000-402 ou DIN V 106, KS L-R, classe de resistência 12, Densidade 1,6,
Argamassa MG II a DIN V 18580 ou DIN V 20000-412 em conexão com DIN EN 998-2.”

(os códigos loucos são as normas que especificam detalhes do material da parede, resistência, coisas assim)

Daí se na parede tem por exemplo um vão para uma janela ou uma porta, isso é um texto a parte. O revestimento da parede é um texto a parte. Etcetc. O negócio é todo descrito nos mínimos mí.ni.mos detalhes. É uma coisa meio insana. Isso é o texto que você manda para a construtora para eles calcularem o preço do serviço. Por isso que tem que estar tudo nos mínimos detalhes, porque se não cada coisinha que você não especificar – ainda que seja óbvio e que seja feito sempre assim e que não dê pra fazer de outra forma – a construtora vai aproveitar pra te cobrar extra depois porque eles tiveram que fazer “extra”, já que não estava no seu texto descritivo dos serviços.

Você está se perguntando: mas meu Deus, COMO é que eu vou saber todos esses detalhes???

Basicamente você sempre copia. Ou de outro projeto similar (mudando só as quantidades, claro), ou então tem sites onde você encontra textos modelos para cada tipo de coisa (precisa ter uma conta paga), e assim vai. Quando é alguma coisa mais diferente, que você mesmo projetou assim (por exemplo um banco, uma pérgola, sei lá, algo que você projetou daquela maneira específica), aí você tem que projetar tudo nos mínimos detalhes, mesmo. A descrição acaba sendo fácil quando você pensou tudo até cada parafuso.

Isso é uma coisa que assusta no início, mas você vai aprendendo aos poucos. Os alemães também não se formam sabendo fazer isso não. É uma coisa de aprender na prática.

Outra coisa interessante são as fases do projeto (Leistungsphasen, abreviado LPH). Aqui o projeto é bem precisamente separado em 9 fases, e o tempo todo se faz referência a essas fases. São elas:
1 – Grundlagenermittlung – Avaliação básica: é o levantamento, basicamente. Isso quem faz não é o arquiteto mas um escritório de levantamentos (Vermessungsbüro) que vai no local da obra e mede tudo nos mínimos detalhes.
2 – Vorplanung mit Kostenschätzung – Pré-projeto com estimativa de custo: São os primeiros desenhos do projeto, não muito detalhados, com uma estimativa de custo (seguindo um padrão específico, claro, por motivos de Alemanha).
3 – Entwurf mit Kostenberechnung – Projeto preliminar com cálculo de custos: o projeto um pouco mais detalhado, com um cálculo de custos um pouco mais detalhado.
4 – Genehmigungsplan – Projeto da prefeitura (o projeto para aprovação na prefeitura, ou nos órgãos de licenciamento que forem necessários).
5 – Ausführungsplan – Projeto executivo, com todo o detalhamento necessário.
6 – Vorbereitung der Vergabe – Preparação das orçamentos. Aqui é que vem o LV, que é o documento enviado para as diferentes empresas com quem se quer fazer um orçamento para a construção. Eles colocam o preço para cada item e te entregam então a oferta final.
7 – Mitwirkung der Vergabe – Comparação dos orçamentos. Tendo recebido orçamentos de diferentes empresas de construção, o arquiteto compara e escolhe a empresa que será contratada para a execução do projeto (normalmente a que ofereceu o serviço pelo preço mais baixo, claro).
8 – Objektüberwachung – Acompanhamento da obra
9 – Objektbetreung – Gestão da obra, ou tudo o que precisa ser feito depois que a obra fica pronta: checar as faturas das firmas que foram contratadas para a construção, verificar se tudo foi feito direitinho, contatar as firmas pra corrigirem eventuais erros ou coisinhas que ficaram faltando, etc…

 Dessas 9 fases você ouve falar o tempo todo, todo mundo sabe qual é qual, em qual delas o projeto está, etc. E isso vale não só pra projetos de paisagismo, claro, mas para qualquer projeto de construção. Raramente um escritório de arquitetura faz só o projeto sem a obra, por exemplo. Normalmente o mesmo escritório faz a obra inteira em todas as suas 9 fases.

3. Detalhamento e execução

Mas toda essa precisão e detalhamento tem seu lado postivo. As coisas aqui são Executadas! De Acordo! Com O Projeto! Direitinho! Bonito! Bem Feitinho!
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Não quero ser aquela pessoa que fica “ui, porque olha que lindo aqui na Alemanha, imagina no Brasil…”, mas gente. Olha que lindo isso, sabe! Imagina no Brasil? As fotos acima são uns detalhes de um espaço livre de uma escola pública, sabe. Nem tudo é lindo na Alemanha, mas a execução perfeita dos projetos de arquitetura é sim!
Outra coisa um tanto invejável é o mobiliário urbano usado por aqui. Os bancos são bonitos, bem acabamos, com materiais bons. Seria impensável colocar numa praça pública aqui aquele banco horroroso de concreto comum em pracinhas em cidades pequenas do Brasil.
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Mobiliário urbano em uma praça

E antes que digam “ah, mas eles têm dinheiro pra gastar com isso”, é importante notar que esses detalhes bem feitos nem sempre é uma questão de dinheiro. É claro que um banco mais bonito custa mais caro que um bloco de concreto tosco no formato de banco. Mas aqui também se procura manter o preço da execução o mais baixo possível, especialmente quando se trata de um espaço público. Não é diferente. A diferença é o que é o “mínimo aceitável”. É muito mais uma questão de prioridades do que de preço. Não tô dizendo que no Brasil rolaria fazer os projetos tão bonitos e bem executados que aqui pelo mesmo preço que a gente paga normalmente pela reforma de um espaço público lá, mas que se a estética do espaço público não fosse vista como algo de pouca importância, não seria tão difícil para arquitetos executarem projetos melhores. Porque a estética do espaço público é extremamente importante, um espaço livre bem projetado e bem executado – mesmo que simples – faz muita diferença na qualidade de vida das pessoas que passam por ali diariamente.

4. Plantas

Mas porque nem tudo são flores – literalmente – ainda resta um assunto para discutir quando se fala de arquitetura da paisagem: as plantas.
Talvez a parte mais frustrante de ser arquiteto paisagista aqui – em relação ao Brasil – são as plantas. As plantas, mesmo, árvores, arbustos, forrações, flores, etc.
Árvores até vai, tem bastante árvores bonitas, aqui, e uma diferença legal é que no outono elas ficam todas amarelas e laranjas e algumas vermelhas e isso é maravilhoso.
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Na primevera algumas árvores ficam todas floridas, como as cerejeiras, e isso também é bem bonito:
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Mas não tem árvores que ficam totalmente amarelas ou roxas de flores como nossos ipês, ou totalmente vermelhas como nossas eritrinas entre várias outras. E o legal do Brasil é que as nossas árvores florescem o ano todo – quer dizer, em todas as épocas do ano sempre tem alguma espécie de árvore que está florescendo. Aqui é só na primavera que elas florescem, no verão está tudo verde, no outono fica tudo amarelo e marrom, e no inverno, tudo seco e sem folhas. Sinto falta dessas árvores:

Mas o que decepciona mesmo são os arbustos e forrações muito sem graça. O que mais me chateia é a ausência de plantas com folhas grandonas, bonitas e bem verdes. Aqui os arbustos tem meio cara de coisa seca, de mato, sei lá. Fiquei aqui procurando uma foto de algum exemplo e nem achei pq acho que nunca nem me deu vontade de fotografar. Até dá pra fazer umas coisas bonitas, mas nem se compara às nossas plantas tropicais:

Essas plantas tropicais com folhas gigantes e maravilhosas você só encontra aqui em vaso dentro de casa (e alemão adora ter planta em casa, aliás). Inclusive várias espécies que a gente tem em jardim aqui eles têm em vasos. Porque ao inverno lá fora só planta feia sobrevive.

Acho que é isso o que tem para ser dito sobre arquitetura da paisagem na Alemanha. Agora estou de férias para o Natal, mas quando voltar ao trabalho pego alguma foto de uns arbustos sem graça pra colocar aqui de comparação, rsrsrs.

Esse mês quase não postei nada, mas vamos ver se as breves férias ajudam. Para amanhã tenho planejado um post bem legal sobre espírito de Natal!


(Publicado em 23 de Dezembro de 2016)

Reuniões de trabalho

Reuniões de trabalho são um ótimo resumo de algumas características típicas alemãs. E se você ainda não está muito a par das particularidades das relações pessoais e profissionais na Alemanha, algumas dicas vêm bem a calhar para não passar uma má impressão.

A primeira coisa que você precisa ter em mente é: como cumprimentar corretamente as pessoas. Se você chega em uma sala de reunião e algumas pessoas já estão sentadas na mesa esperando os outros chegarem para começar, cumprimente todos com um aperto de mão. Mesmo que tenham várias pessoas, cumprimente um por um com um aperto de mão. Cuidado para não esquecer ninguém (já me aconteceu duas vezes de esquecer alguém e perceber assim que sentei e ter a impressão de que a pessoa ficou um tanto ofendida!). Se você ainda não conhece a pessoa que está cumprimentando, diga seu sobrenome ao apertar a mão da pessoa, mas não espere de maneira alguma que a pessoa lembre seu nome 5 minutos depois: os alemães ao se cumprimentar trocam nome mas não prestam a menor atenção no que foi dito, e perguntam de novo depois quando for necessário saber. Se as outras pessoas da reunião são seus colegas de trabalho que você vê todo dia obviamente não precisa cumprimentar com aperto de mão.

E, aliás, não chegue atrasado. Nem 2 minutos atrasado. Chegue no horário. Quando a gente conversa sobre a pontualidade das pessoas – dos brasileiros, alemães, ingleses, ou seja quem for – a gente normalmente não observa que a pontualidade é diferente para diferentes ocasiões. No Brasil é perfeitamente normal chegar meia ou uma hora atrasado prum encontro com amigos, mas no trabalho tenta-se manter uma pontualidade respeitável. Com os alemães não é diferente: a importância de ser pontual varia com a situação. E reuniões de trabalhos são casos extremos! Nessa ocasião da reunião há duas semanas atrás, eu e meu colega chegamos uns 5 minutos atrasados (foi culpa dele!). Nesses cinco minutos, o pessoal da empresa onde era a reunião já tinha ligado pro meu chefe perguntando se a gente vinha ou não vinha, o meu chefe (que não estava no escritório) já tinha ligado pro escritório pra saber onde a gente tava e ligado de volta pra reunião pra dizer que estávamos a caminho… Tá, meu chefe também achou isso um exagero, mas é bom ter em mente que isso pode ocorrer com os mínimos atrasos!

Convém saber, caso você tenha que fazer alguma apresentação na reunião, que os alemães nunca fazem cara de aprovação durante uma apresentação. Ontem percebi isso com muita clareza, enquanto meu chefe apresentava o nosso projeto numa reunião, todos assistindo faziam a maior cara de desaprovação. Achei que eles estavam detestando, mas depois fizeram comentários positivos e já estavam quase nos contratando para o projeto (outros arquitetos tinham apresentado outros projetos no mesmo dia e eles tinham que decidir por um, mas não assim imediatamente). Isso me deixou um tanto mais tranquila em relação a uma reunião em que eu tinha ido duas semanas antes e apresentado um projeto e achado que as caras de desaprovação era pelo meu alemão bizarro com erros e consequente incapacidade de apresentar o projeto como eu gostaria… (bom, pode ser que fosse, mas agora pelo menos eu posso fingir que não era, rsrsrs). Eu acho que isso tem muito a ver com uma característica alemã, que é um pessimismo generalizado, rsrsrs. Ainda vou escrever um post sobre isso.

Traje também pode ser uma questão interessante pra discutir. Como no Brasil, o traje esperado de um profissional varia bastante de acordo com a profissão. Advogados, claro, estão sempre de terno, muito bem vestidos e penteados. Arquitetos estão sempre bem de boas vestidos a la fim de semana. Em reuniões isso também é relativamente flexível dependendo da sua profissão – mas lógico, tenha a boa noção de não ir de, sei lá, camiseta de banda e jeans rasgado no joelho. A não ser, claro, que você seja de uma banda e esteja indo em uma reunião fechar um contrato para a produção do seu novo álbum. Resumindo, vista-se como as pessoas da sua profissão normalmente se vestem e pronto, os alemães são relativamente sussas em relação a roupas.

Sobre o andamento da reunião em si, algumas dicas são óbvias mas sempre necessárias. Olhe sempre nos olhos das pessoas, os alemães adoram olhar nos olhos alemães adoram olhar nos olhos uns dos outros. Interromper quem está falando, durante a reunião, é bem mal-educado e algo que nunca vi acontecer nas reuniões de que participei. Por outro lado, se você quiser falar alguma coisa tem que ser bem incisivo, se você não falar nada logo esquecem que você está presente!

reuniao-trabalho

E sempre lembre de usas a forma de tratamento Sie (Senhor/Senhora) em relações profissionais! Isso é bem importante, especialmente se são pessoas que você não conhece fica bem chato se você usar Du por engano.

E pra terminar, sendo na Alemanha não podia faltar uma burocraciazinha básica: quase com certeza depois da reunião um protocolo da mesma precisará ser escrito e enviado para as pessoas que estavam presentes assinarem, explicitando os pontos discutidos e decisões encontradas durante a reunião.

É isso!


(Publicado em 15 de Outubro de 2016)

Arquitetando na Alemanha

Como eu já comentei em outros posts, eu sou arquiteta e atualmente trabalho em um escritório de arquitetura e planejamento da paisagem aqui.

No último post sobre escritórios alemães, eu falei um pouco sobre as diferenças entre trabalhar na Alemanha e no Brasil, mas tentei me limitar a questões mais genéricas, não relacionadas a escritórios de arquitetura especificamente. Nesse post eu vou falar mais precisamente sobre as diferenças (algumas mais básicas) e similaridades de se trabalhar como arquiteto aqui e no Brasil.

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A primeira diferença que eu notei (e eu já mencionei isso no outro post também como uma coisa geral) é a quantidade de burocracia. No Brasil, trabalhando em escritório de arquitetura, eu basicamente só desenhava. Foram pouquíssimas as vezes que eu tive que fazer algum texto, tabela, preencher formulário, sei lá. Claro que tinham burocracias relacionadas ao projeto também, mas isso quem fazia eram principalmente os chefes, mesmo. Aqui TUDO vem com um papel extra: um formulário pra preencher, um protocolo pra escrever, uma lista detalhada de tudo o que tá no desenho, etc… Os alemães adoram umas listas e formulários. E isso, claro, acaba sendo uma dificuldade extra pra quem é de fora. Se alemão já é difícil, alemão formal, lei em alemão, etc, nem se fala… Aí vai da sorte de encontrar um escritório onde os chefes ou colegas entendam que isso é uma dificuldade extra pra você e ou não se incomodem de fazer essa parte enquanto você nos foca nos desenhos, ou de te dar um tempinho extra pra se entender com a língua.

De uma maneira ou de outra, cedo ou tarde (provavelmente mais cedo que tarde) você vai ter que fazer essas coisas, de maneira que se sua intenção é trabalhar aqui, se esforça muito pra aprender bem alemão o mais rápido possível, que vai ser importante.

Isso também tá bem relacionado ao próximo ponto: responsabilidades. A minha impressão até agora é que trabalhando como arquiteto num escritório aqui você tem bem mais responsabilidades que fazendo o mesmo tipo de trabalho no Brasil. Por exemplo, ir em reunião com o cliente, ir em obra, etc. Nos escritórios que eu trabalhei no Brasil, quem fazia isso eram os chefes, só em algumas ocasiões eu fui, e sempre acompanhando os chefes. Aqui espera-se que você vá em reuniões inclusive sozinho. O trabalho no geral é bem mais independente do chefe que a minha experiência no Brasil.

Por isso também uma outra diferença: no Brasil os escritórios (não todos, mas vários) sempre têm muitos estagiários, não raramente mais estagiários que arquitetos formados. Aqui – a não ser que seja um escritório muito grande – tem, quando muito, um estagiário. E sempre tem uns arquitetos que trabalham naquele escritório há 10, 15 anos. Me parece que a média de idade dos arquitetos que trabalham em escritórios é bem mais alta que no Brasil, onde a maioria são jovens.

Tem duas maneiras de trabalhar como arquiteto aqui: ou você é contratado pelo escritório num esquema equivalente a CLT (Festanstellung) que pode ser tanto sem tempo definido quanto um contrato com tempo específico, de maneira que você tem todos os direitos trabalhistas, ou você pode ser autônomo (Selbstständig) prestando serviços para o escritório meio estilo freelancer (Freie Mitarbeiter). Nesse caso você não está preso a um único escritório, mas pode fazer projetos para diferentes escritórios, fazer sua própria hora, e tal. Mas, claro, tem que cuidar do seu próprio seguro de saúde, seguro desemprego, etc. É lógico que oficialmente se você está trabalhando em período integral num único escritório por um tempo mais longo, o escritório é obrigado a te dar o contrato fixo, a Festanstellung. Se você ficar nesse esquema de Freie Mitarbeiter por muito tempo (um ano +-) trabalhando só para um único escritório, o escritório vai ter problemas com a receita federal por não ter te contratado oficialmente. O que acontece muito em arquitetura é que você começa como Freie Mitarbeiter, mas trabalhando lá em período integral, mesmo, e depois de um tempo eles te dão um contrato fixo. Mesmo como Freie Mitarbeiter o escritório te dá um contrato, você emite uma nota, declara tudo direitinho.

Uma pergunta certamente bem importante é como validar o diploma de arquiteto na Alemanha. A princípio você pode trabalhar em escritório de arquitetura sem validar o diploma, mas sem poder assinar projeto. Para se registrar no equivalente ao CAU, daqui, a Câmara dos Arquitetos (Architektenkammer) você precisa ter dois ou três anos de experiência trabalhando em escritório e, em alguns estados (as regras específicas variam de estado pra estado), algumas horas de cursos extras. Aí a câmara vai analisar seu currículo (da sua faculdade) pra ver se é equivalente ao currículo alemão, e decidir se você pode então receber o título de arquiteto daqui. Aí sim você pode assinar projetos, ter seu próprio escritório, participar de concursos e licitações, e tal. Essas regras, inclusive, são as mesmas para os próprios alemães. Mesmo se formando aqui eles também precisam desses 2, 3 anos de experiências e horas de cursos extra curriculares, e tal.

Mas esse post tá ficando muito chato com toda essa parte burocrática, vamos voltar ao dia-a-dia do escritório.

Outra coisa diferente aqui tb é em relação aos programas que eles usam. No Brasil quase todo mundo usa AutoCAD, pelo menos enquanto eu trabalhava lá eram raríssimos os escritórios que trabalhavam com outro programa que não CAD. Aqui isso varia bastante. Como tem muito escritório que usa Mac e não Windows, vários trabalham com Vector Works, ArchiCAD, entre outros. E outra coisa é que todos os escritórios trabalham sempre com versões oficiais de todos os programas. Nada de programa pirata por aqui. Isso acaba resultando em algo às vezes irritante: versões muito antigas de programas… eu fiz um trabalho num escritório ano passado onde eles estavam usando CAD 2008… era uma tortura. Mas nem sempre é assim, vários escritórios estão sempre com as versões mais atuais dos programas, ainda bem. Eu atualmente trabalho no CAD 2016, o que é ótimo, mas com o Adobe CS2 para Photoshop e Indesign.

E quanto ao tipo de trabalho, uma questão importante daqui é que paisagismo, arquitetura e urbanismo são coisas bem separadas. Paisagismo é uma faculdade diferente, separada, e quem se forma arquiteto não faz paisagismo e quem se forma paisagista não faz arquitetura. Urbanismo é algo extra na faculdade de arquitetura que pra fazer profissionalmente você tem que fazer algumas eletivas e fazer seu TFG nisso (acho que talvez tenham algumas faculdades só de urbanismo também, mas não tenho certeza).

Volta e meia me perguntam se é difícil conseguir emprego como arquiteto por aqui. Eu diria, bem sinceramente, que sim. Ainda é no geral bem mais difícil conseguir emprego sendo estrangeiro por aqui do que sendo alemão, e arquitetura é uma área onde tem bastante gente se formando. Mas, lógico, isso não significa que seja impossível ou que é pra desanimar. Uma coisa que ajuda muito (me parece) é ter uma formação aqui, então se você está pensando em tentar trabalhar por aqui, pense na possibilidade de fazer um mestrado ou algo assim, antes, acho que dá uma boa vantagem extra. Aprender alemão é suuuuuuper mega importante, não se iluda achando que vai dar pra se virar trabalhando aqui só falando inglês. Talvez até tenham alguns escritórios internacionais que trabalham em inglês, mas não são muitos e esses certamente serão os mais concorridos. Também vale a pena lembrar que tem diferença entre Alemanha oriental e ocidental. Na parte Oeste eles já estão mais acostumados com estrangeiros e não tem tanto medo e preconceito, então eu suponho que por lá seja mais fácil que por aqui, na parte leste. Aqui, qualquer escritório em que você trabalhar você vai ser o único estrangeiro… o que coloca uma pressão muito maior, né.

Não falei tanto do trabalho em si, ou de diferenças de como se faz arquitetura por aqui… mas esse é um tema que também já dá uns 3 outros posts, que certamente serão escritos no futuro!


 

(Publicado em 8 de Fevereiro de 2016)

Escritórios alemães – Parte 1

O tópico de como é trabalhar na Alemanha é um sobre o qual eu ainda não falei muito no blog. Esse post já faz um tempo que eu tô pra escrever, mas sempre que eu tento acabo desistindo porque nunca sei se as coisas que eu acho diferentes aqui são mesmo gerais ou particulares do escritório em que eu trabalho.

Então, se você também trabalha na Alemanha e tiver uma experiência totalmente diferente da descrita nesse post, compartilha nos comentários pra gente saber que nem todos os alemães são estranhos! =)

Minha experiência é com escritórios de arquitetura, que são normalmente escritórios pequenos, de no máximo 10 pessoas. Certamente tem muitas coisas muito diferentes em empresas grandes. Eu conheço aqui quatro escritórios, dois para os quais eu fiz alguns trabalhos temporários, o no que eu estou trabalhando há alguns meses, e o no qual meu namorado trabalha. Vou tentar falar de coisas mais genéricas, e não específicas de escritórios de arquitetura, até porque eu quero também fazer um post sobre a prática de arquitetura na Alemanha em breve.

A primeira coisa que eu notei por aqui foi que as pessoas não trabalham ouvindo música. Nos escritórios em que trabalhei no Brasil, sempre ficava o rádio ligado com música de fundo, ou então se não tivesse música de fundo, todo mundo ficava ouvindo a própria música no fone de ouvido. Música no trabalho dá pra viver sem, mas certamente faz bastante falta. A princípio, até dá pra levar seu fone e ficar ouvindo música, mas dado que ninguém faz isso e volta e meia seu chefe ou algum colega vem falar com você sobre qualquer coisa do trabalho, fica meio chato.

Acho que um dos motivos pra isso é que toda hora toca o telefone. Direto. No Brasil, normalmente tinha só o telefone geral do escritório, e normalmente quem ligasse falava com o chefe (lembrando, novamente, que estou falando de escritórios pequenos, de 5 a 10 pessoas). Aqui, mesmo em escritórios pequenos, é comum cada pessoa ter seu próprio ramal e falar diretamente com os clientes, fornecedores, etc, relacionados aos projetos em que está trabalhando.

A diferença que pra mim é mais estranha é ser chamada pelo sobrenome. No meu escritório, o chefe chama todo mundo pelo sobrenome e pela forma formal de tratamento Sie, mesmo quem trabalha com ele há mais de 10 anos. Já os colegas se tratam pelo primeiro nome e por du, entre si. Ficar trocando entre Sie (Senhor/a) e du (você) ainda gera uma certa confusão pra mim, principalmente pra conjugar os verbos de acordo. Mas isso também varia de escritório pra escritório. No do meu namorado, todo mundo se trata por du, mesmo com os chefes. Acho assim mais fácil, até porque eu ainda acho muito estranho ser chamada pelo sobrenome. E com outros profissionais que trabalham com você só que não no mesmo escritório, como os fornecedores, clientes, etc, todo mundo sempre se trata pelo sobrenome e Sr. ou Sra. Sempre sempre.

Outra diferença importante aqui é a quantidade insana de burocracia. Pra tudo, tudo, tudo, tem um papel, um documento, um contrato, um formulário, um comprovante. Em qualquer escritório – e isso eu tenho certeza que é geral em 100% das empresas alemãs – tem uma quantidade infinita de pastas exatamente assim:

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Juro, exatamente assim. Se você me disser que encontrou um escritório na Alemanha que não tem PELO MENOS umas 20 dessas pastas exatamente assim, eu te direi que você ou cruzou a fronteira pra algum país vizinho e não percebeu, ou não viu todos os cômodos do escritório – talvez as pastas estejam no porão. Mas em algum lugar elas estão.

Já falei sobre isso nesse post aqui, os Alemães são muuuuito noiados com papel, eles guardam TU-DO. No escritório do meu namorado, até pouco tempo atrás eles chegavam ao exagero de imprimir TODOS os emails que o escritório recebia para guardar nessas pastas!!!!!

E esse exagero acho que se expressa bem em desperdício de papel. Talvez eu que seja noiada com isso, mas eu sempre guardo qualquer pedaço de folha em branco pra usar pra alguma coisa, e folhas usadas só de um lado eu sempre uso de rascunho. Rascunho eles até usam, mas o que é desperdiçado de papel com a plotter, por exemplo, pra mim é dolorido de ver.

E no tema computadores, tem umas diferenças grandes também. Aqui é bem comum usar mac. Claro, várias empresas, provavelmente ainda a maioria, usa windows, mesmo. Mas em muuuuuuitas se usa mac. Principalmente em escritórios de arquitetura têm vários que usam Apple. O que no Brasil é raríssimo, na minha experiência.

E a questão da internet é outra coisa: alguns escritórios bloqueiam a internet TOTALMENTE. Ok, isso talvez seja raro, mas num dos escritórios em que eu trabalhei, e no escritório em que um amigo meu trabalha, simplesmente não tem internet nos computadores. Não é que o facebook ou o gmail são bloqueados: simplesmente não. Tem. Internet. Quer dizer, o programa de email com o email do escritório tem, mas o browser é totalmente bloqueado. Nesse escritório que eu fiquei temporariamente, tinha um computador no escritório todo com internet pra caso você precisasse pesquisar alguma coisa específica. Isso eu acho totalmente inviável hoje em dia. Não sei de outras profissões, mas como arquiteta eu preciso da internet direto – olhar coisas no google maps, pesquisar esse ou aquele detalhe construtivo, pesquisar materiais, fornecedores… não tem como trabalhar direito sem internet.

Fora que para um escritório tão pequeno – aquele tinha umas 6 pessoas além dos dois chefes – é uma mega falta de confiança por parte dos chefes bloquear a internet. Sabe, pra quê? Isso acaba criando um clima ruim na empresa em que em vez de trabalhar junto, você tem a impressão de que o chefe está contra você. Isso acabava naquele escritório se traduzindo de outras maneiras também: ninguém conversava absolutamente nada durante o trabalho, ficava todo mundo trabalhando em silêncio como zumbis nos seus computadores sem internet. Credo.

E falando sobre trabalhar junto e colegas: aqui as pessoas não fazem happy hour com os colegas da empresa! Pelo menos nos escritórios que eu conheço realmente não tem isso. A confraternização entre os colegas acontece de outras formas: por exemplo sempre que tem aniversário de alguém, aí ou o aniversariante traz um bolo pra todo mundo, ou rola um almoço com os colegas, etc…

Outra coisa que não é rara é um almoço “comunitário” onde um cozinha para todos. No escritório do meu namorado, às sextas, sempre um cozinha macarrão para todos, cada semana um dos colegas que cozinha. No escritório de um amigo, que é num lugar meio afastado sem restaurantes por perto, todo dia alguém cozinha pra todo mundo. Pra quem não se adapta bem à comida duvidosa alemã, como eu, algo assim seria um pesadelo!

Ok, ainda dá pra escrever várias outras coisas, mas o post já está muito grande, então o resto ficará para uma parte 2.


(Publicado em 4 de fevereiro de 2016)