Como as coisas funcionam

O Sistema de saúde alemão 4 – Programa de Bônus

Uma coisa interessante dos seguros de saúde (públicos) daqui são os programas de bônus. Acho que todos os seguros públicos oferecem algo do tipo. A idéia é encorajar as pessoas a fazerem determinadas atividades que fazem bem para a saúde e consequentemente ajudam a evitar doenças. Cada atividade te dá uma pontuação, e atingindo determinada quantidade de pontos você recebe dinheiro de volta. Não é assim, noooossa, que fortuna (30€), mas 30 euros + saúde é melhor do que 0 euros + doença, então pronto.

Os programas de bônus dos diferentes seguros de saúde são um pouco diferentes – mas seguem basicamente a mesma idéia. Então eu vou explicar com mais detalhes o do meu seguro de saúde (Techniker Krankenkasse, TK).

Primeiro como funciona a pontuação. Você tem um ano pra completar atividades e somar pontos. Com 1000 pontos você recebe 30€. E aí a cada 100 pontos além desses 1000 pontos você recebe outros 2,50€. Mas claro, nada disso tem qualquer significado sem uma noção de quantos pontos dá pra conseguir. Então vamos às atividades:

Tem duas maneiras de conseguir pontos.

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A primeira são atividades específicas, pontuais. Cada atividade te dá uma pontuação variando entre 200 e 500 pontos. Ou seja, com duas dessas atividades de 500 pontos você já atinge os 1000 pontos necessários. As atividades são as seguintes:

  • Hautkrebs-Screening – Exame para prevenção de câncer de pele. Dá 200 pontos, mas conta no máximo 1x a cada dois anos.
  • Allgemeine Krebsvorsorge – Exame para prevenção de câncer no geral. Não sei se é um exame específico or what, mas te dá 200 pontos 1x por ano.
  • Zahnvorsorge – Consulta preventiva no dentista, basicamente ir ao dentista uma vez por ano sem ter nenhuma reclamação específica, pra ver se está tudo em ordem. Te dá 200 pontos.
  • Mutterschaftvorsorge – Exames pré-natais, conta uma vez por gravidez e dá 200 pontos.
  • Rückbildungsgymnastik – Ginástica pós-natal, 400 pontos.
  • Gesundheitskurs Bewegung – Curso de “movimentação saúdavel”, sei lá, não consegui pensar numa boa tradução, mas seriam basicamente cursos curtos pra te dar dicas de como ser mais ativo no seu dia-a-dia. Conta 400 pontos, 1x por ano.
  • Gesundheitskurs zur Ernährung oder Gewichtsreduktion – Curso de nutrição ou de perda de peso, conta uma vez por ano e dá 400 pontos.
  • Gesundheitskurs zur Stressbewältigung oder Entspannung – Curso para lidar com o stress ou curso de relaxamento. Conta 400 pontos uma vez por ano.
  • Gesundheitskurs gegen Suchtmittelkonsum – Curso contra vícios, conta uma vez por ano, 400 pontos.
  • Impfvorsorge – Vacinas preventivas, conta no máximo uma vacina por ano, 400 pontos.
  • Aktive Mitgliedschaft im Sportverein, Fitnessstudio – Associação a um clube de esportes ou a uma academia, 500 pontos.
  • Schwimm-/Sportabzeichen – Ok, isso é meio difícil de traduzir que é uma coisa bem particular daqui que eu nem sabia o que era até perguntar, agora mesmo, pro marido. É basicamente um certificado de êxito em teste de determinados esportes (basicamente os atléticos). Tem uma associação alemã, Deutsches Sportabzeichen, responsável por esses tais certificados. Para tirar um desses certificados, você tem que realizar uma atividade sob determinados critérios – por exemplo, correr 500m – coisas assim. A meta que você tem que atingir, distância de corrida, tempo, distância saltada, distância nadada, etc – varia de acordo com a sua idade e sexo. É um negócio até interessante, vou fazer um post só sobre isso depois. Mas enfim, se você tirar algum desses certificados você ganha 500 pontos.
  • Sportveranstaltungen – Certificado de participação em eventos esportivos (tipo torneio de vôlei, sei lá). Não precisa terminar em nenhuma posição específica, mas precisa terminar. Não conta maratona, não sei pq. Dá 500 pontos.

E a segunda maneira de acumular pontos é fazer o “Fitnessprogramm“. É um programa pra te manter ativo no dia-a-dia. A TK conta passos dados durante a semana. O esquema é: vc tem que em 10 de 12 semanas andar pelo menos 60.000 passos. Quando você começa a fazer o programa começam a contar as 12 semanas, e você pode ficar no máximo 2 dessas 12 sem andar os 60.000 passos. O programa você pode fazer duas vezes por ano, e a cada vez (se você conseguir andar os 60.000 passos por semana) conta 500 pontos. Então só com esse Fitnessprogramm já dá pra acumular os 1000 pontos. Pra contar os passos você usa algum aplicativo de celular. 60.000 passos é 8.571 passos por dia, pra quem trabalha em escritório e não anda muito pode ser bastante. Por sorte eu ando bastante no meu dia-a-dia, então os 60.000 tão fáceis.

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Semana passada andei 88.012 passos! 🙂

Então não é difícil chegar e passar dos 1000 pontos. Eu comecei esse programa no mês passado e já acumulei 900 pontos: 400 de uma vacina que eu tomei, contra catapora, e 500 porque eu vou na academia regularmente. Se eu conseguir os 1000 pontos do Fitnessprogramm, vou receber 52,50€ ano que vem! Não é uma grande fortuna, mas pô, 50€ só pra fazer coisas que eu já estava fazendo antes não tá nada mal! E isso que ainda dá pra acumular mais uns pontos de outras coisas até lá.

Seja como for, a idéia de encorajar as pessoas a fazerem atividades que fazem bem pra saúde é ótima. E acaba virando um joguinho, esse negócio dos passos. Eu completo os 60.000 com facilidade, mas meu marido têm que sair pra andar com mais freqüência pra chegar nos 60.000. Então ele começou a correr três vezes por semana. E volta e meia a gente sai a noite pra dar uma longa volta pelo bairro e somar uns passos. Então além do dinheiro, ainda ficamos mais ativos. Acho bom!


(Publicado em 11 de Setembro de 2017)

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Eleições 5 – Wahl-O-Mat

Continuando no tema eleições, esse post é sobre o Wahl-O-Mat um app/programinha de internet bem famoso aqui pra dar uma ideia de quais partidos mais se identificam com você.

Tem, claro, diferentes aplicativos com a mesma intenção. Mas o Wahl-O-Mat foi o primeiro e é o principal por ser o mais “oficial”. Desde 2002, A Bundeszentrale für politische Bildung (Central federal de educação política) – uma instituição parte do ministério do interior alemão e supervisionada por parlamentares dos diferentes partidos que constituem o Bundestag (parlamento alemão) – organiza a cada eleição as perguntas que vão constituir o Wahl-O-Mat. As perguntas são sugeridas por um grupo de jovens eleitores que estão votando pela primeira ou segunda vez, aconselhados por jornalistas e cientistas políticos, e de acordo com determinados critérios. São elaboradas 80 perguntas a que os partidos que vão participar das eleições respondem com “Concordo”, “Neutro” ou “Não concordo”. De acordo com as respostas, são selecionadas então 30 a 40 perguntas finais que vão para o app. São as perguntas que facilitam a distinção entre os partidos. Quer dizer, se todos os partidos responderam “concordo” a uma determinada pergunta, não faz sentido colocá-la para os eleitores.

Daí sai o app, que você pode também acessar pela web, aqui.

Este ano são 38 perguntas, e 32 dos 33 partidos participantes das eleições responderam ao questionário. Você vai respondendo a cada pergunta que aparece com “Concordo”, “Neutro” ou “Não concordo”, (da mesma maneira que os partidos fizeram) e ao final o app te mostra a lista de perguntas e você escolhe quais delas são prioritárias pra você, quer dizer, quais devem ter peso maior. A partir dessas duas informações: suas respotas e sua prioridade de temas, o app calcula em que porcentagem suas ideias se identificam com a de cada partido.

Aqui quatro exemplos de perguntas que aparecem no Wahl-O-Mat desse ano.

Acima à esquerda: “Os impostos sobre diesel como combustível devem ser maiores.”
Acima à direita: “O governo deve investir a longo prazo no desenvolvimento de energias renováveis”
Abaixo à esquerda: “Operadores de páginas na internet devem ser obrigados por lei a deletar notícias falsas postadas em suas páginas das quais venham a tomar conhecimento.”
Abaixo à direita: “A vacinação de crianças contra determinadas doenças deve ser obrigatória.”

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Após responder a cada pergunta, a lista de perguntas aparece, com as suas respostas, para você escolher quais assuntos são prioritários para você. Você pode clicar nas flechinhas do lado das perguntas para ver direitinho qual era a pergunta. Clicando na pergunta ela fica amarelinha e assim marcada como prioritária. No exemplo acima aparecem as quatro últimas perguntas da lista:

35 – Os pais devem ter direito legal a escola em período integral até o final da escola primária. – foi uma pergunta com a qual concordei e coloquei como prioritária.
36 – A menção a Deus na constituição deve permanecer – Discordei mas não coloquei como assunto prioritário
37 – Na Alemanha deve haver uma renda básica incondicional – coloquei como neutro
38 – O trabalho em conjunto com os outros países da união européia deve ser reforçado – outra pergunta com a qual concordei e coloquei como prioritária.

Para ver a sua identificação com os partidos, você tem que escolher quais partidos te interessa conhecer, até 8. Dá pra ver todos, é só voltar e escolher outros. Acho que o limite de 8 é só pra não ficar muito confuso com um resultado mostrando 32 partidos. À esquerda, a tela em que você escolhe os partidos, os quatro de cima são os que estão atualmente no parlamento. Daí a próxima tela mostra a porcentagem de respostas que batem com cada partido que você escolheu. Clicando nos partidos aparece um textinho resumindo quais os ideias daquele partido, e um link para você ler mais sobre o mesmo.

Depois de ver seus resultados, você pode ainda olhar as respostas e justificativas de cada partido para cada pergunta. É provavelmente a parte mais importante do aplicativo, pq a justificativa da resposta pode te fazer repensar a sua própria opinião a respeito.

É importante frisar que esse aplicativo não é suficiente pra definir em quem você deve ou não deve votar. Ele é só um instrumento para te dar mais informações sobre como pensa cada partido. Na discussão política é sempre importante estar aberto para ouvir as diferentes opiniões antes de sair definindo a sua sem nenhuma informação, só baseado num feeling qualquer que você tem a respeito do assunto. Então apps como esse devem ser utilizados com certo cuidado. Mas é um instrumento legal para deixar as pessoas mais interessadas em discutir os assuntos políticos importantes do momento. Além disso, como as votação não é obrigatória aqui, é sempre uma discussão importante a questão: como encorajar o maior número de eleitores possível a comparecer às urnas. E esse aplicativo ajuda um pouco com isso. Como ele é divertidinho de usar, interface simpática, esquema simples de entender, dá vontade de ir respondendo às perguntas e ver o resultado (Aposto que todo mundo que tá lendo esse post – mesmo quem nem tem nenhuma noção de política na Alemanha – já foi correndo baixar pra brincar também, hehe!). E aí ver que tem partidos que concordam com você em determinados assuntos pode ajudar a encorajar às pessoas mais desinteressadas em política ou mais frustradas com a política a irem votar.

Pra quem está lendo e foi correndo ir ver o seu resultado, lembre-se de não levar isso muito a sério – a maior parte das perguntas, pra você ter alguma noção real dos vários fatores involvidos, você precisa estar morando na Alemanha há vários anos e estar super por dentro da política daqui. Sem isso metade das perguntas não vai nem fazer sentido. Mas que seria legal um aplicativozinho assim pras eleições no Brasil, bem que seria! Ou será que só ia dar treta?

Pra escrever esse post eu li sobre o funcionamento e organização desse aplicativo no artigo “The Impact of Voting Indicators: the case of the German Wahl-O-Mat” de Stefan Marschall e Christian K. Schmidt, disponível aqui.


(Publicado em 10 de Setembro de 2017)

Eleições 4 – Votação por correio

As eleições para o parlamento alemão se aproximam, e cada vez mais se ouve falar nos partidos e nas discussões que os dividem.

Há quatro anos atrás, nas últimas eleições, eu escrevi um post mais completo explicando como funciona o sistema político da Alemanha (parlamentarismo) e quais são os principais partidos e suas propostas. Talvez valha a pena esse ano fazer uma atualização desse post, com as atuais propostas dos atuais principais partidos, mas vai depender da minha inspiração, heheh. Em outros anos com outras eleições eu escrevi também sobre como se vota (em cédulas de papel gigantescas), e como funciona o segundo turno.

Em alguns desses posts eu mencionei uma característica importante das eleições alemãs, que é bem diferente das brasileiras: aqui é possível votar por correio.

Isso mesmo, por correio. Você recebe a cédula por correio, vota em casa e manda para o tribunal eleitoral por correio. Em vários países isso é possível e – como tudo que envolve eleições democráticas – é uma decisão que tem que pesar dois lados. Por um lado, uma votação por correio é bem menos segura. Vc pode muito facilmente comprar/vender votos, pq é a coisa mais fácil do mundo vc saber se a pessoa pra quem você pagou para votar em você votou, mesmo, em você. Se a votação for só numa cabine onde ninguém mais pode entrar com você e ver em quem você está votando, não tem nunca como você saber em quem determinadas pessoas votaram. Também abre espaço para abusos de poder dentro de famílias. Digamos um pai de família abusivo que força todo mundo da família a pedir a cédula por correio para ele mesmo votar, ou se certificar que todos estão votando em quem ele acha que tem que ser eleito. Tem umas possibilidades bem complicadas aí.

Por outro lado, se você possibilita a votação por correio, você facilita para muitas pessoas que querem votar mas não conseguiriam ir ao local de votação no dia da mesma. Em uma democracia é importante não só que as pessoas tenham o direito de votar, mas também que o processo seja o mais fácil possível, para se certificar que o maior número de pessoas possível vai ter a chance de dar a sua opinião nas urnas. Se você for viajar e não vai estar presente no dia da votação, vota por correio. Se você tem dificuldades de se deslocar até o local de votação por algum motivo, vota por correio. Facilitando você aumenta o número de eleitores que votam.

Então a maneira como funcionam as eleições, em qualquer país democrático, é sempre uma tentativa de achar a melhor combinação de segurança e facilidade. Não tem uma solução única que é A solução correta.

Então seja como for, a questão é que aqui dá pra votar por correio. E esse ano estaremos viajando no dia das eleições, então o meu marido pediu a cédula dele por correio. (Eu não posso votar para as eleições federais, tem que ser cidadão alemão). E eu aproveitei a chance pra ver como funciona e escrever um post sobre o assunto!

Então é assim. Quando as eleições se aproximam, você recebe uma carta te “convidando” pra ir votar. Basicamente é uma carta que te diz a data das eleições, que eleição que é, onde que você vota, essas coisas. Quando você vai votar você leva essa carta com você no local de votação. E junto com essa carta vem um formulário para você preencher caso você queira receber a cédula por correio. Você pode também pedir pela internet. Basicamente você preenche os seus dados de eleitor (os que vêm na tal carta que você recebeu). E alguns dias depois você recebe a cédula por correio, mais ou menos um mês antes das eleições.

Sobre a cédula eu já falei em algum dos posts anteriores sobre as eleições, mas elas são assim:

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É uma cédula bem comprida. Não vou explicar como funciona a eleição em si porque isso eu já fiz nesse primeiro post, então lê lá. Você preenche a sua cédula bonitinho em casa sem ninguém ver e coloca num envelope azul que você recebeu junto. Assim:

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Esse envelope azul não tem nenhuma informação sobre você nem sobre a sua região de votação nem nada disso. Então esse envelope azul com a cédula dentro é o que as pessoas que fazem a abertura e contagem do voto vão receber. Mas não é esse envelope azul que você coloca na caixa de correio, não. O azul vai dentro de um envelope rosa, esse daqui:

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Essa parte branca você destaca e coloca dentro do envelope, e é onde tem o seu nome, número de eleitor, essas coisas todas pra identificar quem é que está votando. Importante, lógico, pra saber que você que votou e você votou. Pra ninguém votar duas vezes. Esse envelope é o que você coloca na caixa de correio. A sua carta tem que chegar até no máximo às 18h do dia da eleição. Então tem que tomar o cuidado de enviar com atencedência para chegar a tempo. Você pode também entregar a carta no seu local de votação no dia da eleição. Não sei que diferença faz você ir lá votar ou votar em casa e ir levar sua cédula lá, mas enfim, dá.

Você pode também – se te interessar – ir lá no local da sua região em que se faz a abertura dos envelopes e contagem do votos e assistir a mesma pra ver se tá tudo sendo feito direitinho.

Uma coisa interessante sobre a votação por correio é que se você enviar a sua cédula por correio e aí morrer depois disso mas antes do dia da eleição, o seu voto conta. E, embora você esteja votando antes, se alguma coisa acontecer que faça você mudar de idéia em relação ao voto que você já enviou – antes das eleições – já era, não tem como mudar seu voto. Quer dizer, uma vez colocada a carta na caixa de correio, o voto está dado.

É isso! Antes das eleições eu ainda vou fazer um post sobre o Wahl-O-Mat (um app pra ver com quais partidos você se identifica) e no dia das eleições, claro, um post com os resultados – e se eu tiver tempo com uma explicação atualizada de cada partido.


(Publicado em 9 de Setembro de 2017)

Sobre coisas proibidas

Acho surpreendente que, mesmo depois de 5 anos morando aqui, volta e meia eu ainda descubro coisas que não sabia.

Hoje foi um desses dias. Eu percebi muito cedo que as pessoas aqui não se xingam no trânsito. Na verdade, eu nunca presenciei alguém xingando outra pessoa, na Alemanha. Curiosa, já até perguntei pro marido alemão o que as pessoas falam umas pra outras em brigas no trânsito ou outras brigas. A resposta, depois de alguns minutos pensando, foi alguma coisa qualquer über-educada que eu não imagino jamais alguém dizendo durante uma briga no trânsito. E não é por falta de oportunidades, não, que stress é uma coisa que eu nunca vi faltar num alemão.

Eis que hoje descubro, finalmente, o motivo. Na Alemanha é proibido por lei xingar outras pessoas, mostrar o dedo do meio ou outros gestos ou palavras obcenas ou ofensivas. O negócio é sério, pode dar multas altíssimas e até um ano de prisão! Ok, realmente ser preso é pouco provável, mas ser multado pode realmente ocorrer. E para algumas ofensas – como mostrar o dedo do meio – a multa é bem salgada: 4.000 euros!! OU SEJA, bora aprender a manter a calma no trânsito antes de vir pra Alemanha! (no trânsito e no geral, mas brigas de trânsito é a situação mais comum de ocorrer)

Tem até – claro, Alemanha, claro – uma listinha básica dos preços da multa para diferentes ofensas. Vou copiar aqui e fazer uma tradução livre porque algumas são bem engraçadas. Em azul a tradução, em verde alguns comentários meus:

Beschreibung Descrição Strafe Multa
Die Zunge herausstrecken
Mostrar a língua
150 €
“Du Mädchen!” (zu einem Polizisten)
“Menininha!” (para um policial)
200 €
“Bekloppter”
“Louco”
250 €
“Dumme Kuh”
“Vaca burra”
300 €
“Leck mich doch!”
“Me lambe!” 
300 €
“Du blödes Schwein”
“Seu porco estúpido”
475 €
“Hast du blödes Weib nichts Besseres zu tun?!”
“Você não tem nada melhor pra fazer, sua fêmea estúpida?”
500 €
“Was willst du, du Vogel?!”
“Qual é a sua, seu pássaro?!”
Ok, essa é estranha, mas aparentemente chamar alguém de pássaro é dizer que ele não tem nada na cabeça. ¯\_(ツ)_/¯ 
500 €
“Asozialer”
“Asocial”
Pra esse fazer sentido você tem que saber um pouquinho de história: asocial era como os nazistas denominavam determinados grupos de pessoas (desempregados, deficientes, prostitutas, entre outros) que, segundo eles, não adicionavam nada à sociedade e portanto tinham que ser eliminados. 
550 €
“Dir hat wohl die Sonne das Gehirn verbrannt!”
“O sol queimou seu cérebro!”
600 €
Einen Polizisten duzen
Tratar um policial por “Du” (a forma informal de “você”) em vez de “Sie” (senhor/a)
Espero que eles façam uma exceçãozinha aqui pra estrangeiros, que eu volta e meia trato alguém por du que deveria tratar por Sie sem querer!
600 €
“Du Holzkopf!”
“Seu cabeça de pau!”
750 €
Einen Vogel zeigen
Mostrar um pássaro
Ok, esse não tem como não traduzir literalmente e a tradução literal não faz o menor sentido, mas, basicamente, “Einen Vogel zeigen” é o gesto que os alemães fazem que significa “você não tem nada na cabeça?” ou “você é burro?”. O gesto é dar uns toquinhos na própria cabeça com o dedo indicador, meio como se faz para checar se algo é oco.
750 €
“Bei dir piept’s wohl!”
Esse também é relacionado com essa coisa do pássaro. Não dá pra traduzir muito bem, mas é basicamente uma forma indireta de dizer que alguém é um pássaro – e, consequentemente, não tem nada da cabeça.
750 €
Scheibenwischer-Geste
Gesto de limpador de parabrisa seria a tradução literal, mas basicamente é mais um gesto típico dos alemães: balançar a mão aberta na frente do rosto. Significa, também, que a pessoa é burra. 
1000 €
Stinkefinger zeigen
Mostrar o dedo do meio
4000 €
Deixa esse dedinho aí bem guardadinho que meudeusquatromileuros!
“Du Wichser”
“Seu punheteiro”
1000 €
“Idiot”
“Idiota”
1500 €
“Am liebsten würde ich jetzt Arschloch zu dir sagen!”
“Eu bem que gostaria de te chamar de imbecil!”
Ahá, não adianta tentar ser sagaz e dizer que você não vai dizer o que você queria dizer mas já está dizendo, que também conta!
1600 €
“Schlampe”
“Vadia”
1900 €
“Fieses Miststück”
“Cadela nojenta”
2500 €
“Alte Sau”
“Porco velho”
2500 €

É, aparentemente não é por acaso que eu nem conhecia a maioria desses xingamentos! Essa lista é uma referência, só, mas as multas são decidida caso a caso. Ou seja, um xingamento que não esteja na lista também pode resultar em multa.

Essa lei é válida também para xingamentos na internet, claro. Tanto em e-mails quanto mensagens ou o que for. Aliás, esses são muito mais fáceis de dar em algo porque estão registradinhos bonitinhos. Xingar alguém na rua, se não tiver nenhuma testemunha, no fim vai ser a palavra de um contra a do outro. Então ainda tem uma boa chance de não dar em nada, dependendo da situação.

Mas na dúvida, melhor ser educado. Aliás, né, com ou sem multa é sempre melhor ser educado e não xingar as pessoas e talz.

Por sorte eu nunca desavisadamente quebrei essa lei por aqui, porque eu jamais imaginaria que mostrar o dedo do meio pra alguém pudesse dar uma multa tão absurdamente alta! E quando comentei com o marido que tinha descoberto isso, hoje, a resposta foi um “uuuhhh, isso não pode, não!!!” num tom sério com os olhos arregalados como se eu tivesse comentado que acabei de descobrir que não pode sair por aí com uma suástica no braço.

ALIÁS. Já que estamos falando de coisas que são proibidas, por que não:

Símbolos nazistas são super mega proibidos na Alemanha. Não é só a suástica, mas fazer aquele gesto da saudação nazista é expressamente proibido, assim como dizer coisas como “Heil Hitler” ou “Sieg Heil” ou outros cumprimentos nazistas. Isso é uma proibição levada beeeem a sério, você pode de fato ser preso. Esses dias andou rolando por aí no facebook a notícia de um turista americano que foi agredido com um soco por algum passante depois de repetir diversas vezes o gesto da saudação nazista. O fulano estava bêbado, e agora está sendo processado pela polícia por infrigir a lei que bane os símbolos nazistas. Também recentemente dois turistas chineses foram levados para uma delegacia ao serem flagrados tirando fotos na frente do Reichstag (o edifício do parlamento alemão) fazendo o gesto de saudação nazista. Os dois receberam uma multa de 500€ cada, e ainda terão que responder a processo pela violação da lei. Certamente não tinham a menor ideia de que era proibido e acharam engraçado tirar fotos fazendo gestos nazistas na frente do Reichstag… péssima ideia!


(Publicado em 15 de Agosto de 2017)

TeilAuto – Carros compartilhados

A relação dos alemães com seus carros é um tema interessante. Eles também amam seus carros e gostam muito de dirigir, mas em comparação com as pessoas no Brasil, são bem menos dependentes do carro. Por um lado, a boa qualidade das calçadas, a vasta presença de ciclovias e a qualidade e oferta de transporte público facilitam as viagens a pé, de bicicleta, ou de ônibus e trem. E por outro lado, ou talvez até mais importante (até porque às vezes causa e consequência são intermutáveis), os alemães são acostumados a levar uma vida muito mais ativa que o comum no Brasil. Praticam esportes com maior frequência, aproveitam qualquer oportunidade para atividades ao ar livre, e tentam manter-se ativos em todas as idades.

E se você mora num centro urbano, a necessidade de carro é realmente mínima. Embora cada vez mais seja difícil encontrar alguém no meu círculo de conhecidos que não tenha carro (isso não porque o número está aumentando, mas pela idade, mesmo. Eu tenho cada vez menos conhecidos que são estudantes, hoje a maioria tem família, casa e emprego fixos, e tal), muitos usam com pouquíssima frequência e só para ocasiões não cotidianas – como uma viagem de fim de semana, um passeio para algum lugar mais longe, etc. Às vezes, quando queremos fazer alguma coisa que exige um carro (por exemplo ir no IKEA ou na loja de materiais de construção comprar algo que é grande demais pra carregar no tram, ou ir no supermercado comprar um estoque de 6 meses de pedrinha de gato), ficamos nos perguntando se não deveríamos ter um. Mas no final a conclusão é sempre a mesma: pra essa necessidade que aparece uma vez a cada dois, três meses realmente não vale a pena o custo.

Aí, há uns dois meses atrás, nos tocamos de uma opção alternativa que sempre esteve disponível mas que por algum motivo nunca nos chamou a atenção: os esquemas de carros compartilhados.

É um esquema diferente de aluguel de carro que é bem comum pela europa: basicamente a empresa locatora espalha carros pela cidade todas, na rua, mesmo, e você, se afiliando à empresa, pode alugar qualquer dos carros disponíveis em qualquer lugar e qualquer momento. É meio que nem esses esquemas de aluguel de bicicletas, que já tem em São Paulo e algumas outras cidades brasileiras, com algumas estações espalhadas pela cidade. A diferença entre esse sistema de carros compartilhados e um aluguel de carro normal é, principalmente, que você pode alugar por períodos curtos de tempo: meia hora, uma hora, duas. E você se cadastra uma vez só e pode pegar qualquer carro em qualquer momento sem precisar a cada aluguel assinar um novo formulário, buscar a chave em uma das sedes e no horário de funcionamento da locadora, etc. Então para situações em que você precisa de um carro rapidinho, para ir comprar não sei o que não sei aonde, para que não faria sentido alugar um carro, essa alternativa vem a calhar.

E como funciona? Vou explicar o esquema da TeilAuto, a empresa que tem aqui em Dresden e em que nos cadastramos. Para se cadastrar você paga 25 euros + um caução de 80. Tem três alternativas de planos de acordo com a frequência que você for usar os carros. Se você vai precisar deles com muita frequência, vale a pena algum dos planos em que você paga um valor mensal e cada aluguel sai mais barato. Se você vai usar pouco, vale mais a pena o plano em que você não paga nada por mês mas o valor de cada aluguel sai um pouco mais caro. Uma comparação básica que eles mostram no site: Para um passeio de 2 horas e meia e 15km com um carro pequeno, no plano básico (sem valor mensal) custa 9,84€, no plano regular (que você paga 9€ por mês) custa 8,20€ e no plano de usuário frequente (25€ ao mês) sai 6,56€. Para uma viagenzinha de um fim de semana, 250km com um carro médio, a diferença no preço já é bem considerável: 120,52€ para a tarifa básica, 100,43€ para a tarifa regular e 80,34€ para a tarifa de usuário frequente. O site ainda tem uma calculadora para você verificar qual tarifa vale mais a pena pra você de acordo com as viagens que você planeja fazer.

Uma vez cadastrado online, você vai em uma das lojas físicas levar sua carteira de motorista, pagar o caução e assinar o contrato. De lá você sai com o cartão de chip que serve para retirar e devolver os carros. Os carros estão espalhados realmente pela cidade inteira. Ou melhor, pelo país inteiro, em quase todas as cidades de porte médio a grande. O mapa dos carros disponíveis em Dresden, só para dar uma noção:

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O número nos símbolos é, claro, a quantidade de carros disponíveis naquela estação. O que eu estou chamando de estações são, na verdade, vagas diversas espalhadas pela cidade exclusivas para aqueles carros.

Eis aqui um exemplo:

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A desvantagem do TeilAuto, em relação a algumas outras empresas de carros compartilhados, é que você tem que devolver o carro na mesma estação onde o retirou. Então não dá pra usar o carro em trechos só de ida. Por exemplo, digamos que você foi em algum lugar a noite e saiu as 3 da manhã e não quer ficar esperando o transporte público que vai demorar 1 hora pra chegar. Se você não precisasse devolver o carro na mesma estação de onde o retirou, daria para pegar um carro só para voltar tarde da noite (se você não consumiu álcool, claro) e deixar ele em algum lugar perto de casa. Mas como vc tem que devolver na mesma estação, ou você se planeja antes pra já ir com o carro – lembrando que você vai ter que pagar pelas horas que deixou o carro estacionado entre a ida e a volta – ou não funciona.

Algumas empresas tem um sistema diferente em que você pode deixar o carro em qualquer vaga gratuita de rua num raio de x km do centro da cidade. Bem mais prático, mas só funciona em cidades onde tenha uma oferta suficiente de vagas gratuitas na rua. E também faz mais sentido para cidades maiores. Aqui em Dresden não tem outras empresas além da TeilAuto, mas em algumas outras cidades há outras opções de empresas com esse sistema, como a Drive Now.

Seja como for, os carros compartilhados podem ser úteis em diversas situações. Desde que nos inscrevemos, utilizamos duas vezes: na semana passada, por exemplo, pegamos o carro pequeno da foto acima para ir comprar umas plantas e vasos na loja de materiais de construção. Foi bem prático e saiu uns 8 euros para alugar por 2 horas e andar +- 15km. Ainda não sei exatamente quanto saiu porque a conta chega no final do mês. Mas o aluguel do carro em si foi 5 euros, e aí em cima disso ainda vem adicionado o preço por km da gasolina.

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Ah é, esse é um outro ponto vantajoso desses carros compartilhados em relação a locadoras de carros comuns: você não precisa reabastecer. O preço do combustível utilizado é calculado baseado em quantos km você percorreu. Você só precisa reabastecer antes de devolver o carro se o tanque estiver com menos de 1/4 do combustível. Nesse caso você pode parar em qualquer posto de gasolina de determinadas redes, e com um cartão que fica guardado dentro no porta-luvas e um código que você recebe no celular quando retira o carro você reabastece sem ter que pagar do próprio bolso.

A retirada e devolução do carro também é toda automatizada: você usa seu cartão de membro, com chip, num leitor que fica num cantinho do vidro da frente para destrancar o carro. A chave fica guardada no porta-luvas, e para devolver o carro você usa de novo o cartão para trancar o carro com a chave dentro. A chave tem um chaveiro com chip que tem que ser encaixado num cantinho específico do porta-luvas, e só quando a chave está encaixada lá que você consegue trancar o carro com o cartão. E se você esquecer o cartão, também dá pra trancar ou destrancar o carro pelo app.

O app, aliás, é meio ruinzinho. Sei lá, ás vezes não funciona direito. Mas dá pro gasto. Pelo app ou pela internet você pode reservar um carro para um dia e horário específico, ver os carros disponíveis e todas as informações sobre suas reservas e carros alugados. Tem diferentes tipos e tamanhos de carros: dos minis, como o das fotos acima, a carros maiores e até vãs para transporte ou mini vans para 10 passageiros, etc. Tem todo tipo de opção.

E finalmente, outro ponto importante: O motorista do carro não precisa necessariamente ser a pessoa que está registrada. Desde que a pessoa registrada esteja presente no carro, qualquer um com uma carteira de motorista válida pode dirigir. Isso no plano básico. Nos planos regular e de usuário frequente você pode registrar até quatro motoristas, que podem então retirar carros no mesmo contrato de membro, sem pagar mais ao mês. Só a taxa de registro de 25 euros é paga por motorista separadamente.

Pra quem não tem carro e não vê sentido em ter para usar pouco, a opção dos carros compartilhados é uma boa alternativa pra ter um carro disponível nas poucas situações em que eles são realmente necessários. Por enquanto ainda estamos testando, para ver se a tarifa que escolhemos e o sistema no geral faz sentido pra gente, mas nas ocasiões que usamos foi super prático e funcionou muito bem!


(Publicado em 11 de Agosto de 2017)

Atravessando a rua na frente das crianças

Talvez você já tenha ouvido falar que os alemães esperam pacientemente o sinal de pedestres ficar verde antes de atravessar uma rua, mesmo que não tenha absolutamente nenhum carro na rua. Isso realmente acontece, mas nem sempre. Depende um pouco da cidade (em cidades maiores as pessoas são menos pacientes) e das pessoas que estão esperando para atravessar (pessoas mais novas são mais impacientes).

Mas uma coisa é regra absoluta. Se tem criança esperando pra atravessar, ninguém atravessa antes de dar verde pros pedestres. Tanto faz se a criança está sozinha ou acompanhada, parece que há uma regra silenciosa de que não se dá mal exemplo para crianças no quesito atravessar a rua.

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Até aí tudo bem, má ideia não é, tá certo. Só que como de costume, os alemães levam essa regra a sério demais. Dois exemplos recentes ilustram bem isso:

Uma vez, não muito tempo atrás, eu estava andando com o meu marido de casa até o ponto de tram, que fica a menos de 100m de casa, virando a esquina. Quando chegamos na esquina, vi que o tram já estava na estação, então saí correndo pra conseguir pegar o mesmo a tempo. Atravessei a rua, que estava totalmente vazia, mas no vermelho, e ele veio atrás de mim. Quando entramos no tram, “Mas você foi atravessando assim correndo, e na frente das crianças??”, e eu, ué, que crianças? Eis que tinha um grupo de umas 3 crianças de uns 11 anos na outra esquina, conversando na frente de uma copiadora. As tais crianças não estavam nem esperando pra atravessar, nem olhando pra rua, e nem mesmo do lado da rua onde eu estava atravessando, elas estavam na oooutra esquina.

A segunda situação foi ainda mais curiosa: saí para almoçar com duas colegas do trabalho, e o nosso caminho inclui atravessar uma rua onde só passa ônibus. Embora não tenham tantos ônibus que passam por ali, o farol de pedestre tem o mesmo tempo que numa rua normal, então frequentemente a gente fica lá esperando pra dar verde sabendo que nenhum dos carros vai entrar lá pq não pode, e nenhum ônibus por perto. Então num determinado dia lá estávamos nós, nenhum ônibus à vista, decidindo de atravessávamos no vermelho ou não. Do outro lado da rua, mas de costas para a gente, andando pra frente, um pai com uma criança. Vou repetir, eles estavam de costas para a gente. As duas colegas resolveram atravessar a rua no vermelho, meio inseguras, e quando estávamos no meio da rua, não é que a criancinha do outro lado resolve olhar pra trás? Minha colega comenta, sinceramente preocupada, “Ixi, agora a criança vai ver a gente atravessando no vermelho!”

Gente, tudo bem, a idéia é boa e tal. Mas noção sabe. Ficar preocupado achando que a criança 20m lá na frente, nos dois segundos que olhou para trás enquanto você estava atravessando no vermelho vai não apenas ver que estava vermelho, e que você estava atravessando, como também imediatamente aprender com o mau-exemplo, atravessar a próxima rua no vermelho e morrer atropelada? Já é um certo exagero… fica parecendo que as crianças vivem num mundo mágico de fantasia onde nenhum adulto jamais faz nada nem ligeiramente fora das regras, e no momento em que ela vir, assim de longe, num relance, uma pessoa – PASME! – atravessando no vermelho, seu mundo vai cair, tudo o que ela aprendeu sobre certo e errado era uma mentira! Pra quê fazer lição de casa? Pra quê jogar lixo no lixo? Pra quê escovar os dentes antes de dormir, se quando você olha pra trás os adultos estão todos atravessando no vermelho!?? Rsrsrs!

Ok, ok, a gente ri, mas é verdade que é uma coisa legal que a sociedade como um grupo se preocupe de não dar mau-exemplo para as crianças.

Aliás, já que o assunto é atravessar a rua, podemos aproveitar para falar mais sobre as regras de atravessar ruas alemãs. Você talvez tenha ouvido dizer que na Europa os motoristas sempre param na faixa de pedestres quando não tem semáforo e tem gente esperando para atravessar. Bom, sim, isso aqui é verdade. O que você não sabe é que, PLOT TWIST, quase não tem faixa de pedestre aqui!!!

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É que é o seguinte: tem duas maneiras diferentes de demarcar o espaço dos pedestres nos cruzamentos ou nos lugares onde pedestres atravessam. Uma é a faixa de pedestre normal como a gente conhece. A outra, é marcar o espaço com duas linhas tracejadas, uma de cada lado.

Assim:

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Essa travessia com as linhas tracejadas é que é a mais comum, amplamente mais comum. Faixas de pedestre, as clássicas, são tão raras que eu fiquei uma meia hora procurando no google maps nas fotos aéreas da cidade até encontrar alguma. Só encontrei depois que lembrei de uma em particular por onde eu passei algumas vezes durante as aulas práticas pra tirar a carta de motorista.

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A regra para atravessar a rua é assim: se tiver semáforo, claro, atravessa-se quando está verde para o pedestre (e sempre que tem farol para carro, tem para pedestre também). Quando não tem semáforo, o que também é bem comum, a preferência é do carro quando ele está seguindo em frente, e do pedestre quando o carro está fazendo uma conversão. Então, se você está esperando para atravessar uma rua sem farol, vc tem que esperar os carros que já estão naquela rua que vc quer atravessar passarem, mas atravessa antes dos carros que estejam virando ou esperando para virar naquela rua. Isso é assim inclusive quando tem farol, o verde do pedestre é no mesmo tempo que o verde da rua que está na mesma direção, e os carros que estão entrando na rua perpendicular têm que primeiro esperar pedestres ou bicicletas que estejam indo em frente passarem. Assim:

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Isso vale sempre, seja com ou sem essas linhas tracejadas. Elas estão lá mais para delimitar o espaço que para definir qualquer regra.

Então pra que serve a faixa de pedestre? A faixa de pedestre é justamente a exceção à regra. Quando ela aparece, é para fazer os carros que estão seguindo em frente pararem em qualquer momento em que haja pedestres querendo atravessar.

É tão uma exceção que quando aparece uma faixa de pedestre tem um monte de placa em volta pra certificar que até o motorista mais desatento vai perceber a faixa lá e parar para eventuais pedestres.

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Então quando que tem faixa de pedestre? Normalmente são em locais onde tem um fluxo grande de pessoas atravessando e um tráfego razoável de carros seguindo em frente. Normalmente nem são cruzamentos, pq cruzamentos você resolveria com um semáforo. É meio no meio da quadra, mesmo, o exemplo mais típico é logo na frente da saída de uma escola, como é o caso da faixa na foto acima.

Então nas raras ocasiões em que aparece uma faixa de pedestre, a preferência é sempre 100% do pedestre. Aí os carros param, sim. E os carros que estão virando numa rua também sempre param para os pedestres que estejam atravessando, até pq é uma regra bem clara e definida. Bom, tá, às vezes eles vêem que você está chegando pra atravessar e viram rapidinho pra não ter que parar, mas nunca de uma maneira realmente arriscada.

Acho que isso é tudo o que tem a ser dito sobre atravessar ruas alemãs!


(Publicado em 06 de Julho de 2017)

Casamento Igualitário na Alemanha!

Hoje é um dia histórico para a Alemanha! Às 9 da manhã o parlamento aprovou, com 63% dos votos, o casamento igualitário no país!

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Ontem eu escrevi um post contando um pouco sobre como essa história se desenrolou e como que essa votação entrou em pauta. Nesse post eu vou falar sobre como foi o debate no parlamento, e a votação, um pouco mais sobre como tudo se desenrolou e o que acontece em seguida. Dá uma lida no outro post antes de ler esse, que tem coisas que eu expliquei lá que serão importantes pra entender esse post.

Bom, como vimos nos últimos capítulos, a votação de hoje era quase certamente ganha: os três partidos que há anos defendem a legalização do casamento entre pessoas de mesmo sexo são, juntos, maioria no parlamento. Além do que esperava-se que parte dos parlamentares da CDU/CSU também votasse a favor, apesar do partido ser contra. Foi isso mesmo o que aconteceu. Dos 630 assentos no Bundestag, apenas 7 parlamentares não compareceram à sessão de hoje. Dos 623 que votaram, 393 (63%) votou a favor, 226 (36%) votou contra, e 4 se abstiveram. Dos partidos SPD, Die Grünen e Die Linke, todos os parlamentares votaram a favor. Da CDU/CSU, que tem 309 assentos, votaram a favor (25%), 225 votaram contra (73%), 4 se abstiveram e 5 não compareceram (pra entender quem é quem no parlamento alemão, dá uma lida nesse post aqui).

Antes da votação, 12 parlamentares fizeram curtos discursos para debater o assunto. Eles abordaram diversas questões para argumentar contra e a favor. Resumindo o assunto todo, dá pra dizer que basicamente os que eram contra falaram que um casamento entre pessoas do mesmo sexo não forma família, e por isso não pode ser chamado de casamento (!) e os que falaram a favor, além de contra-argumentar esse ponto, falaram principalmente sobre como a discriminação de gays e lésbicas não tem lugar na sociedade alemã moderna, e como a mudança da lei já está mais que atrasada. Outro ponto importante da discussão dos dois lados foi argumentar se essa mudança na lei exige ou não uma mudança na constituição alemã.

Essa parte é a mais incompreensível para mim. Porque o curioso é que a constituição alemã não diz nada sobre o casamento ser entre um homem e uma mulher. A frase referente ao casamento, que é o parágrafo 1 do artigo 6, diz “Ehe und Familie stehen unter dem besonderen Schutze der staatlichen Ordnung.”, ou: “O matrimônio ea família gozam da proteção especial do Estado.”. Só. Não diz nada sobre gênero nem sexo de ninguém. Mas por algum motivo que é muito misterioso pra mim (provavelmente pq é o único jeito pelo que os que são contra acham que têm alguma chance de impedir a lei de se tornar realidade), alguns argumentam que isso obviamente significava entre matrimônio entre homem e mulher e que se for pra incluir casais homossexuais, a constituição tem que dizer isso especificamente. Bom, pelo que li, parece que a maioria dos experts na constituição discordam da necessidade de qualquer mudança. Mas se algum partido fizer uma reclamação para a corte constituicional dizendo que a lei é anti-constituicional, e supondo que a corte concordasse, então 2/3 do parlamento teria que votar a favor da mudança na constituição, pra possibilitar o casamento igualitário. E, como vimos, foram 63% dos parlamentares que votaram a favor, então não seria suficiente. Mas mesmo que algum partido leve isso para a corte constituicional, parece – pelo que li – pouco provável que a corte ache mesmo que a lei é anti-constitucional.

Como esse é um assunto muito importante para mim, fiz uma coisa que eu nunca tinha feito: assisti o debate inteiro do Bundestag! (Fiquei particularmente orgulhosa de ter entendido tudo, também, rsrsrs!) E vou aproveitar então para dar uma resumida no que falou cada parlamentar. Se você não se interessar nesses pormenores, tudo bem, porque você não é obrigado a ler! Ufa! Vou deixar essa parte numa cor diferente pra caso você queria pular pro final do post. Também vou linkar pra vídeo oficial de cada discurso, caso interesse a alguém ouvir por conta própria.

Thomas Oppermann | SPD
O primeiro discurso do dia. Oppermann abordou essa questão da mudança na constituição, dizendo que a seu ver não é necessário, e apontou que não é coerente dizer que essa votação foi muito repentina e não houve tempo suficiente para a discussão do assunto, porque o assunto já vem sendo discutido no parlamento desde 2005. Além disso, Oppermann apontou que talvez a decisão de votar a pauta e o resultado que estava por vir possivelmente não seriam bons para a coalizão entre SPD e CDU, mas são bons para o povo. Ele também reforçou que é importante respeitar aqueles que pensam diferente, mas que é também importante que esses tenham em mente que com a aprovação do casamento igualitário ninguém vai perder nada, mas muitas pessoas vão ganhar algo.

Dietmar Bartsch | Die Linke
Bartsch focou o seu curto discurso em apontar que, se a votação de hoje for uma vitória, isso não significa que a discriminação contra pessoas homossexuais tenha sido erradicada, e que a luta contra o preconceito na sociedade e no dia-a-dia tem que continuar.

Volker Kauder | CDU
Kauder foi o primeiro a vir à tribuna falar contra o casamento igualitário. Mas, curiosamente, não deu absolutamente nenhum argumento para isso. Basicamente o discurso se limitou a dizer que para ele assinar embaixo de qualquer coisa defendendo o casamento igualitário não seria possível de acordo com a sua consciência, mas que ele aceitava que era possível pensar diferente, mesmo como cristão. Ele acentuou que quem hoje votaria contra não o estava fazendo porque estavam escolhendo discriminar casais homossexuais, e que essa discriminação já tinha sido claramente negada (com a possibilidade de união civil entre casais do mesmo sexo, e todos os direitos que eles foram ganhando nos últimos anos).

Katrin Göring-Eckardt | Die Grüne
Göring-Eckardt começou seu discurso dizendo que hoje seria um dia para a história. Ela reforçou o argumento de que essa decisão não tira nenhum direito de ninguém, apenas concede os mesmos direitos àqueles que ainda não os tem, e fez uma breve recapitulação histórica da luta por reconhecimento e direitos da comunidade LGBT, e cada avanço conseguido nos últimos anos, mencionando alguns nomes de pessoas que tiveram parte importante nessa luta, incluindo um colega parlamentar, Volker Beck (que mais tarde fez seu próprio discurso).

Eva Högl | SPD
A parlamentar Högl comemorou a oportunidade de, finalmente, votar esse tema. Ela apontou que seu partido vem lutando por isso há muitos anos. Ela apontou que a convivência entre duas pessoas têm hoje diversos formatos, há pessoas que vivem com ou sem filhos, etc. Ela lembrou ainda que, a última pesquisa de opinião apontou que 82% da população alemã é a favor do casamento igualitário, e que isso não pode ser ignorado.  Ela reforçou que é, sim, discriminação não reconhecer a relação entre duas pessoas apenas devido ao seu gênero. E por fim, disse que não é uma questão de consciência ou sentimento, é uma questão de dignidade humana.

Harald Petzold | Die Linke
Petzold lembrou àqueles que são contra, que o resultado positivo em nada mudará a vida de quem é contra o casamento igualitário, e que para eles amanhã o mundo vai girar exatamente como hoje, mas com algumas pessoas muito mais felizes, sem que ninguém tenha perdido nada pra isso.

Erika Steinbach | Sem partido
Steinbach, a única parlamentar que não faz parte de nenhum partido, curiosamente pareceu ser a única realmente incomodada de como a decisão pela votação ocorreu. Ela argumentou que não houve nenhum tempo para discutir o assunto, e que isso era uma vergonha sem tamanho, mas que não era culpa da SPD mas da chanceler, por ter aberto essa porta e possibilitado essa votação.

Jan-Marco Luczak | CDU
Luczak foi o único parlamentar da CDU a fazer um discurso a favor da lei pelo casamento igualitário. Ele começou dizendo que nem todo mundo que iria votar contra era homofóbico e que respeitava quem pensava diferente dele, e que esse tópico precisa de um tempo para ser aceito. Ele lembrou que na Espanha e na França, quando o casamento entre pessoas de mesmo sexo foi legalizado, houveram grandes manifestações a favor, o que certamente não será o caso na Alemanha (dado que 82% da população apoia), e que é a hora para essa mudança. Ele colocou que, para ele, o casamento é o reconhecimento do amor entre duas pessoas, em bons e maus momentos, o compromisso dessas duas pessoas de responsabilizar pelo bem estar uma da outra, e que esses valores são fundamentalmente conservadores, e que ele não vê porque eles não se aplicariam a um casal só por causa de seu gênero. Ele declarou que era a favor do casamento igualitário não apesar de ser cristão e conservador, mas porque é cristão e conservador. Ele também abordou a questão da constituição, defendendo que não tem porque mudar a mesma, e que se originalmente o casamento mencionado na constituição foi imaginado como sendo entre homem e mulher, ele também tinha muitas outras diferenças no passado de como a sociedade o vê atualmente. Católicos não podiam casar com protestantes, homens podiam decidir se suas esposas eram autorizadas a trabalhar fora ou não, e todas essas coisas são ideias que não são mais aceitas na sociedade alemã moderna. E que a existência de casais homossexuais é uma realidade da sociedade alemã, que a Lebenspartnerschaft (a união civil permitida aos casais homossexuais) não é vista na sociedade como algo diferente do casamento, e que está na hora da política e do governo atualizarem as leis para respeitar a realidade e o desejo da sociedade moderna.

Volker Beck | Die Grüne
Volker Beck é um dos principais defensores do casamento igualitário na política, tendo lutado pelo mesmo há muitos anos. O discurso dele foi curto e direto ao assunto, reforçando que não aceitar o casamento entre casais homossexuais não é nada além de discriminação pura e simples, e que a época da aceitação e da tolerância tem que começar hoje.

Johannes Kahrs | SPD
Kahrs fez o discurso mais polêmico do dia. Após agradecer àqueles que nas últimas décadas lutaram pelos direitos da comunidade LGBT, Kahrs criticou fortemente a CDU por ter repetidamente barrado essa discussão e impedido que essa votação acontecesse antes. Ele criticou direta e pessoalmente a chanceler Angela Merkel, dizendo que por anos ela barrou esse tema e assim apoiou a discriminação contra gays e lésbicas, e que as declarações da segunda feira foram puramente estratégicas. Ele terminou o seu discurso dizendo, bravo, “Frau Merkel, vielen Dank für nichts!“, “Sra. Merkel, muito obrigado por nada!”.

Gerda Hasselfeldt | CDU
Hasselfeldt defendeu que o relacionamento entre gays e lésbicas deve sim ser protegido e reconhecido, mas que isso já é feito com a união civil, que, segundo ela, não é nem melhor nem pior que um casamento, mas não é idêntica. Na visão dela, o casamento é a base da família, e a união a partir da qual crianças nascem, e que por isso é diferente de uma união homossexual.

Karl-Heinz Brunner | SPD
O último parlamentar a discursar sobre o assunto, Brunner iniciou citando a música “What a wonderful day”. Que belo dia, que bom esse sentimento de que uma discussão que durou tantos anos finalmente tenha um final feliz, que respeite a dignidade das pessoas. Ninguém perderá nenhum direito, frisou ele, mas nós todos enriqueceremos (em diversidade, tolerância, etc). Hoje é um dia feliz para a democracia, disse Brunner, e aconselhou seus colegas a votarem pelo fim da discriminação contra gays e lésbicas na Alemanha.

É isso! O que eu achei legal desses discursos, é que as pessoas que falaram contra não foram lá falar que homossexuais são doentes, ou sei lá o quê. Todos os que argumentaram contra disseram que não queriam discriminar, apenas achavam que era diferente um casamento entre um casal heterossexual de uma união entre um casal homossexual. Não duvido que muitos fulanos que votaram contra pensem essas coisas, mas o fato de ninguém sentir que tais ofensas têm espaço no parlamento alemão é uma coisa extramemente positiva.

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Eu achei engraçado que o único argumento efetivo que foi apresentado contra o casamento igualitário foi o fato de casais homossexuais não poderem ter filhos. Achei muito curioso porque afinal, o único direito que os casais homossexuais não tinham ainda era justamente o de adotar crianças. Quer dizer, é como dizer “vocês não podem ser uma família porque não podem ter filhos, e como vcs não são uma família, então não podem ter filhos.”? Ahm? Você impede o casal de adotar e aí diz que eles não podem se casar porque não podem ter filhos? (Isso pq não vou nem perder tempo mencionando o óbvio de que muitos casais heterossexuais também não podem ter, ou escolher não ter filhos).

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É talvez importante explicar que a decisão de hoje foi positiva pra todo mundo, politicamente. Eis a história (e pra entender isso você precisa, de verdade, ler antes o post anterior e o post sobre os diferentes partidos): nas últimas semanas, a SPD, o Die Grüne, o Die Linke, e a FDP tinham todos declarado que o casamento igualitário seria um ponto essencial para qualquer acordo de coalizão. A CDU, que se opunha, não vai sozinha conseguir maioria no parlamento nas eleições de setembro e sabe que vai ter que fazer coalizão com algum desses partidos para governar. Com a tendência geral dos países ocidentais de reconhecerem a união homossexual e a esmagadora maioria da população alemã ser a favor, tava óbvio que era só uma questão de tempo até esse avanço acontecer aqui também, e a CDU bem sabe disso. Só que no momento, mudar a posição do partido e aceitar o casamento igualitário seria muito arriscado, já que a CDU já vem perdendo votos. E se a CDU perder votos conservadores, quem ganha é a AfD (o partido de extrema-direita que cresceu de maneira preocupante nos últimos anos) e isso ninguém exceto a própria AfD quer. A CDU perder votos conservadores não é do interesse de partido nenhum, porque ninguém quer a AfD no parlamento. E por outro lado, é claro que a CDU também não quer perder votos dos eleitores que são economicamente conservadores mas socialmente liberais. A maneira como essa votação de desenrolou nos últimos dias foi muito estratégica pra todo mundo. A Angela Merkel abre uma porta alternativa pra SPD poder puxar essa votação sem antes ter que entrar em acordo com a CDU, sabendo que tem maioria pra ganhar, e a CDU sai da história positivamente pros dois tipos dos seus eleitores: os que são contra continuam seguros que o partido como um todo é contra, os que são a favor felizes que foi a Merkel quem possibilitou a votação e que nem todo mundo na CDU é contra. Tudo isso aconteceu nessa semana não foi por acaso: hoje foi a última sessão do parlamento antes do recesso, e na volta a discussão já serão as eleições de setembro. Então era o momento certo pra SPD forçar essa votação sem acordo com a CDU, porque a essa altura uma ruptura da coalizão não faria sentido nem diferença nenhuma, já que o mandato está quase no final. Sagaz, sagaz.

Pra terminar esse post quase infinito, algumas informações finais importantes. Pra começar, a partir de quando os casais de mesmo sexo poderão se casar na Alemanha? Primeiro o presidente tem que assinar a lei, e depois os cartórios têm 3 meses para se atualizar. Prevê-se que o mais cedo que um casamento entre pessoas de mesmo sexo poderá ser firmado é em 1˚ de Novembro de 2017.

E os casais que estão em Lebenspartnerschaft (União Civil) serão automaticamente casados? Pra entender o sentido dessa pergunta eu tenho que antes explicar que a Lebenspartnerschaft não é exatamente equivalente à União Civil no Brasil. No Brasil, União Civil é um meio termo entre ser casado e não ser, é meio que um casamento light. Aqui não tem isso, a Lebenspartnerschaft é só um formato de casamento com menos direitos específico para casais homossexuais. Então como casal heterossexual vc só tem a opção de casamento, mesmo. Daí a pergunta, agora que os casais homossexuais terão os mesmos direitos, aqueles que já firmaram uma Lebenspartnerschaft serão oficialmente casados? A resposta é não. Eles terão que comparecer ao Standesamt pessoalmente para requisitar a “conversão”. O que significa que quando a lei passar a valer, os cartórios terão bastaaaaaante trabalho!

É isso! Acho que falei realmente tudo que tinha pra ser dito! Vou deixar ainda uns links para algumas matérias que eu usei de fonte pras informações desse post, e que podem ser interessantes pra quem fala alemão e quer saber mais sobre o assunto.


Die ganz große Koalition für das Ja – resumo do assunto da ARD, incluindo algumas explicações e opiniões de especialistas sobre determinados pontos.

Frank Bräutigam, über verfassungsrechtliche Konsequenzen – O especialista Frank Bräutigam discute a questão da possibilidade de mudança da Constituição

Ehe für Alle: Was sich rechtlich jetzt ändert – O que muda com a decisão de hoje

Namentlichen Abstimmung – A lista com os nomes dos parlamentares que votaram a favor e contra o casamento igualitário

Lesbische Eltern – Familien zweiter Klasse? Um curto documentário sobre a dificuldade de casais de lésbicas em serem aceitas pelo Estado como duas mães de um filho.


(Publicado em 30 de Junho de 2017)