Como as coisas funcionam

Tradições daqui, tradições de lá

Um efeito curioso de morar em outro país é adotar tradições que você até então não conhecia e passar a segui-las como se fossem suas.

Curiosamente é uma coisa que acontece mais com quem nunca deu muita atenção para tradições do seu próprio país. Quem sempre deu muito valor para as tradições de sua própria cultura têm mais dificuldade em esquecer algumas e adotar outras.

Não estou dizendo de maneira alguma que abrir mão de características da sua cultura e adotar as da cultura do novo país é o certo, de jeito nenhum. Não tenho dúvidas de que os imigrantes mais felizes são aqueles que encontram um bom meio-termo: adotam algumas das tradições locais enquanto mantém outras do país de origem.

No Brasil eu nunca dei muita atenção para tradições. Claro que tem várias que são tão generalizadas que só uma pessoa muito chata e do-contra se recusaria a seguir, como digamos comemorar o Natal e o Ano Novo. Outras são tão fortemente ligadas a algum significado específico que não seguir acaba sendo uma forma de protesto pessoal contra aquela norma social (por exemplo a mulher adotar o sobrenome do marido ao casar). Mas a maioria das tradições que não se encaixam nem no primeiro nem no segundo caso eu nunca dei muita atenção e sempre achei meio bobinho (como, digamos, usar branco no reveillon). Mas na verdade são essas que são as mais interessantes. Usar branco no reveillon é bobinho, mas justamente por ser tão difundida apesar de bobinha é que ela é uma tradição bonitinha. Esses dias mesmo eu comentei com as colegas do trabalho que no Brasil as pessoas usam branco pro ano novo – meio com vergonha, por ser uma coisa boba – e eles acharam super legal.

Então resolvi escrever um post sobre algumas tradições brasileiras que não existem na Alemanha e algumas tradições alemãs que não existem no Brasil.

Tradições do Brasil que não existem na Alemanha

Usar branco no ano novo
Ok, já comentei na introdução mas pronto: na Alemanha pode usar qualquer cor no ano novo. Aliás nem daria mto pra restringir porque é inverno então se você sair pra ver fogos você vai estar usando o seu um casaco de inverno.

Aliança de compromisso
Bom, isso no Brasil é mais pra adolescente namorando, acho… mas aqui muita gente não usa aliança nem depois que casa, quem dirá antes. E acho que se você sugerisse para sua namorada ou namorado alemão usar aliança de compromisso lhe seria tão estranho quanto definir que roupas ela/e pode ou não pode usar.

Furar a orelha de nenê menina
Melhor você nem comentar com os alemães que isso é comum no Brasil, eles vão achar o maior absurdo!

Dar flor (ou qualquer outra coisa) pras mulheres no dia da mulher
Uma tradição recente que pega mal com muita mulher, mas felizmente não existe por aqui. Dê flores no aniversário, isso é comum e apreciado.

Ovo de páscoa de chocolate
Ok, isso eu acho errado, mas eis que na Alemanha não tem ovo de páscoa de chocolate! “Ovo de páscoa” (Ostereier) aqui é um ovo normal com a casca pintada… ganha-se normalmente um coelho de chocolate, mas pequeno e insignificante perto dos nossos gigantes maravilhosos (e muito caros) ovos de chocolate.
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Dar presente de dia das mães/pais/namorados/crianças/etc…
Até existe dia das mães, dia dos namorados, e tal, mas ninguém troca presente. No máximo um buquê de flores pra mãe pq mãe é um caso a parte. Mas fora isso não conheço ninguém aqui para quem esses “dias dos…” tenha qualquer importância. No início do namoro com meu alemão eu fiquei meio chateada que ele não queria trocar presente de dia dos namorados, mas irc, ainda bem! Agora que desacostumei dessas coisas não tenho a menor vontade de trocar presente nesses dias bobos. Difícil é lembrar de ligar pros pais nos dias das mães e dos pais porque como ninguém fala disso aqui fica muito fácil esquecer!

Festa Junina
Não que eu fosse uma super entusiasta de arraiais, mas dá uma saudadinha de festa junina, às vezes! Eis uma tradição que só envolve coisa legal: comida, danças e músicas engraçadas, decorações e roupas propositalmente bregas, fogueira, balão, joguinhos divertidos. Maior saudade de festa junina! Na verdade a comunidade brasileira daqui organiza todo ano uma festa junina em Dresden, mas eu nunca fui. Esse ano vou sem falta.
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Soltar fogos de artifício no Natal
Causaria um enorme estranhamento para qualquer alemão passando Natal no Brasil, os fogos de artifício à meia noite. É uma coisa meio recente no Brasil, também, não tinha isso quando eu era criança, mas foi ficando mais comum.

Tradições da Alemanha que não existem no Brasil

Comemorar os adventos
Uma das minhas preferidas tradições alemãs: comemorar os 4 domingos de advento antes do Natal. Aqui um post só sobre isso pra quem não sabe do que eu estou falando. Claro, não é assim nooossa, que comemoração. Mas sei lá, arrumar a mesa do café da manhã com decorações natalinas e velas de advento: gosto.
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Nikolaus
Outra tradição supimpa também da época de Natal: Dia de São Nicolau (6 de Dezembro). As crianças têm que limpar suas botas e deixar na frente da porta de casa para o São Nicolau passar e deixar uns presentinhos (chocolates, basicamente).
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Nome de família
Como no Brasil, aqui é comum que a mulher adote o sobrenome do marido ao casar, e que os filhos recebam o sobrenome do pai. Essa tradição patriarcal eu já não gostava no Brasil, mas aqui é sinceramente bem pior. É muuuuito muuuuito raro os noivos manterem seus nomes de nascimento ao casar, muito mesmo. Quase sempre se adota um para ser o sobrenome da família, e lógico que 99% das vezes é o do homem. Além disso, a diferença do Brasil é que aqui existe isso de nome de família. Mesmo que você mantenha seu nome de nascimento ao casar, se o casal tiver filhos um dos sobrenomes vai ter que ser escolhido para ser o sobrenome de família. Todos os filhos terão que receber esse mesmo sobrenome. E aqui só pode ter um sobrenome, então também não tem isso de ter um sobrenome da mãe e um do pai, as crianças recebem realmente só o sobrenome do pai. E as mulheres que mudam de nome não adicionam o nome do marido mas trocam o sobrenome pro do marido, já que não dá pra ter dois. Uma outra alternativa é adicionar o nome do outro só que com hífen, por exemplo Fulana Oliveira-Silva. Silva sendo o do marido e Oliveira o de nascimento. Mas os filhos pegam só o sobrenome de família, o Silva. Não o hifenado. E mesmo essa alternativa é pouquííííssimo utilizada, a grande maioria esmagadora dos casais fica com um nome só que na grande maioria esmagadora das vezes é o do marido. Quando eu falava pras pessoas daqui que ia casar, quase todos perguntavam se eu ia mudar de nome e ficavam muuuuito surpresas quando eu dizia que ambos íamos manter nossos nomes de nascimento sem mudar nada. É uma coisa quase inconcebível para os alemães. Esse assunto me deixa com muita raiva. Eis aqui, aqui e aqui diversos posts que eu já escrevi sobre esse tema.

Cortar um tronco ao casar
Uma tradição bobinha que eu certamente não segui no meu casamento, mas que é bastante comum por aqui: Após casar-se o casal corta, juntos, um tronco de árvore com uma serra de dois “lados”. Assim:tron o

Pra simbolizar o vencimento de dificuldade a dois etcetc.

Árvore de Maio
Uma tradição fofa comum em algumas partes da Alemanha é a árvore de Maio. Na noite do dia 30 de Abril pro dia 1˚ de Maio, moços colocam na janela de suas amadas uma bétula decorada com fitas coloridas. Assim:

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Spring

Fizemos uma aquarela de uma árvore de Maio para o nosso convite de casamento! 🙂

Escrevi um post sobre as árvores de maio aqui. É uma tradição bem simpática!

Zuckertüte
E pra terminar, a melhor tradição alemã de todas! Os cones de doces que as crianças ganham quando entram na primeira série! No fim de semana antes do primeiro dia de aula do ano letivo, há uma cerimônia nas escolas para dar boas-vindas aos novos alunos: os que estão ingressando na primeira série. Nessa cerimônia bem importante, com os pais e até avós das crianças, cada criança ganha um cone enorme cheio de doces e presentinhos (como digamos lápis coloridos, réguas, algumas coisas relacionadas à escola e outras não).

Eis uma tradição que podia existir em todos os lugares!


(Publicado em 13 de Janeiro de 2018)

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Desmontando o Natal

Dia 6 de Janeiro é uma data importante na comemoração natalina. Religiosamente é a data (conhecida como a 12a noite após o Natal) que os 3 reis magos chegaram para visitar Jesus e também o dia em que Jesus foi batizado.

Muito que bem. Por essas e outras o dia 6 tem certo significado na cultura ocidental e é comemorado em alguns países de diferentes maneiras. Aqui na Alemanha, por exemplo, é o dia em que os Sternsinger aparecem na sua porta. São três crianças vestidas de reis magos (eram pra ser três, mas às vezes são 4, 5, 6…) cantando musiquinhas em troca de uns trocados e doces. Leia o post linkado acima para saber mais sobre os Sternsinger.

Mas o dia 6 também é marcado por outra coisa importante: é o dia de desmontar as decorações de Natal. Quem andou lendo outros posts recentes do blog talvez tenha visto o post sobre árvores de Natal. Naquele post eu falei sobre as árvores de Natal serem árvores de verdade aqui, que as pessoas frequentemente escolhem e cortam elas mesmas num viveiro de árvores de Natal.

O que eu não falei nesse post – e é um pequeno detalhe que nem passou pela minha cabeça até ser confrontada com o problema – foi: o que fazer com a árvore de Natal depois do Natal? Tem que jogar fora, claro. Duas semanas depois do natal as árvores já estão secando e perdendo as agulhas (as folhinhas). Mas onde jogar fora a árvore de Natal?

Não é uma questão tão simples quanto possa parecer. São 30 milhões de árvores de Natal descartadas no início de cada ano na Alemanha! (30 milhões dá 1 árvore pra cada 2.7 habitantes do país!) Várias dessas grandes demais para o lixo orgânico doméstico.

Há algumas opções de como descartar a sua árvore de Natal:

Você pode cortá-la em vários pedaços para colocar no lixo orgânico da sua casa, mas dá um certo trabalho, principalmente se sua árvore for maior. Algumas cidades recolhem árvores de Natal até certo tamanho (normalmente as pequenas) se você deixá-la ao lado do lixo orgânico nos dias de coleta do mesmo. E na maioria das cidades tem pontos de coleta espalhados pela cidade, para onde você pode levar sua árvore até certa data (normalmente no meio de Janeiro).

Esses pontos de coleta podem ser caçambas, containers, ou simplesmente uma área livre (por exemplo algum canto de algum parque) com uma plaquinha de ponto de coleta. Claro que tem um mapa com todos os pontos no site da prefeitura para você encontrar aquele mais próximo da sua casa. Esse é o mapa de Dresden com os pontos de coleta de árvore de Natal desse ano:

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São vários. Ontem levamos a nossa árvore de Natal para o ponto mais próximo de casa, menos de 200m de distância. Carregar não é um grande problema – as árvores são bem leves, ainda mais quando já estão secas. Mas o problema é que secas basta qualquer balançadinha pra já forrar o chão com as agulhas. Então você tem que enrolar a árvore em algum lençol para não ir deixando um rastro de folhinhas pelo caminho.

Muita gente já se desfaz da árvore logo depois do Natal, mas a maioria das árvores é jogada fora no dia 6 ou no fim de semana mais próximo. Então ontem a pilha de árvores no ponto de coleta estava bem notável:

Uma outra alternativa para se desfazer da sua árvore é fazer uma fogueira numa noite fria. Esse tipo de árvore queima bem e ainda solta um cheiro agradável ao queimar, então acaba sendo um eventinho – se você tem um quintal grande e uma “tijela de fogueira”. Sei lá se tem um nome pra isso em português, mas é tipo uma grande tijela de metal para fazer fogueira no quintal, assim:

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Mas e o que a prefeitura faz com as árvores de Natal recolhidas? Bom, tem algumas opções. Grande parte vai pra compostagem junto com outros lixos orgânicos e vira adubo. Outra parte é queimada e usada para gerar bioenergia.

Mas uma alternativa interessante e inusitada é: algumas árvores viram comida de elefante! Eis que pinheiros de Natal são uma iguaria fina e super gourmet para elefantes. Então depois do Natal os elefantes dos zoológicos pelo país têm seu próprio banquete com árvore de natal no cardápio! Mas as árvores que viram comida de elefante são as que não foram compradas e são descartadas diretamente pelo fornecedor. As que a prefeitura coleta das casas das pessoas vêm muitas vezes com resto de parafina de vela ou com algum lixo qualquer dos enfeites que estavam na árvore, e que obviamente não são muito deliciosos para os elefantes.

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“Nossa, que delícia!” SEAN GALLUP/GETTY IMAGES

E assim termina o Natal!


(Publicado em 8 de Janeiro de 2018)

Mais sobre adventos

Continuando a série de posts natalinos do ano, esse post vai ser sobre adventos e calendários de advento, uma das tradições natalinas alemãs que eu mais gosto. Na verdade eu já escrevi um post sobre calendários de adventos há quatro anos atrás. Mas na época calendários de advento eram uma coisa nova pra mim, e eu mesma nunca tinha feito ou tido um.

Esse ano eu finalmente fiz um calendário de advento, algo que eu vinha planejando fazer há cinco anos.

No Brasil não se fala muito de advento, é uma coisa que fica mais nas igrejas, mesmo. Aqui os adventos são bem importantes e comemorados. São os quatro domingos que precedem o Natal. Esse ano o primeiro advento caiu no dia 3 de dezembro, o segundo no dia 10, o terceiro vai cair no dia 17 e o quarto no dia 24. O período entre o primeiro advento e o Natal é chamado de ‘Adventszeit‘, ou período de advento. Na verdade é meio como uma contagem regressiva para o Natal, mesmo. Não é uma comemoração por assim dizer, mas uma preparação para o Natal.

Aquelas coisas que se faz nas semanas anteriores: comprar presentes, montar a árvore de Natal, decorar a casa, preparar as comidas da ceia, todas essas coisas são o que caracterizam o período de advento. E pra marcar essa contagem regressiva, o advento do Natal, são dois os itens típicos encontrados em grandes quantidades na Alemanha: A Coroa de Advento e o Calendário de Advento.

A Coroa de Advento é basicamente uma guirlanda de colocar na mesa, com quatro velas, as quais são acesas aos domingos. No primeiro domingo acende-se a primeira vela, no segundo domingo a primeira e a segunda, no terceiro, as duas e a terceira, e no quarto, todas.

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É uma decoração de Natal presente em todas as casas alemãs, nessa época do ano se acha super fácil para vender em qualquer lugar. Nas igrejas, as velas dos adventos ficam acesas o tempo todo até o Natal (são umas velas gigantes).

Ontem eu fui a um concerto de Natal de um coral, e eles cantaram uma música tradicional de Natal sobre o advento que ilustra muito bem esses preparativos típicos e o significado do Advento. Vou colocar a letra aqui com tradução e uma explicação de cada estrofe. São quatro estrofes, e cada uma representa um advento e as atividades típicas dele.

Vorfreude, schönste Freude. Freude im Advent. 
Tannengrün zum Kranz gewunden, 
rote Bänder dran gebunden, 
und das erste Lichtlein brennt. 
Erstes Leuchten im Advent, Freude im Advent. 

Antecipação, a melhor alegria. Alegria no Advento.
Os ramos de pinheiro trançados numa coroa,
fitas vermelhas amarradas,
e a primeira luzinha brilha
A primeira luz do advento, alegria no advento.
A primeira estrofe ilustra justamente a coroa de advento, feita de ramos de pinheiro trançados e decorados. A primeira vela é acesa.

Vorfreude, schönste Freude. Freude im Advent. 
Heimlichkeit im frühen Dämmern, 
Basteln, kleben, sägen, hämmern, 
und das zweite Lichtlein brennt. 
Heimlichkeiten im Advent, Freude im Advent.

Antecipação, a melhor alegria. Alegria no advento.
Aconchego no amanhecer,
montar, colar, serrar, martelar
e a segunda luzinha brilha.
Aconchego no Advento, alegria no advento.
A segunda estrofe fala sobre as decorações de Natal sendo preparadas: montar, colar (decorações diversas), serrar (a árvore), e a segunda vela é acesa.

Vorfreude, schönste Freude. Freude im Advent. 
Was tut Mutti, könnt ihrs raten? 
Kuchen backen, Äpfel braten, 
und das dritte Lichtlein brennt. 
Süße Düfte im Advent, Freude im Advent. 

Antecipação, a melhor alegria. Alegria no advento.
O que está fazendo a mamãe, adivinha?
Assando bolo, fritando maçãs,
e a terceira luzinha brilha.
Aromas doces no advento, alegria no advento.
A terceira estrofe é sobre os doces, bolos e tortas que caracterizam a época de Natal. Torta de maçã é uma torta típica do inverno, quando as maçãs são uma das poucas frutas que se encontra frescas no mercado. A terceira vela é acesa.

Vorfreude, schönste Freude. Freude im Advent. 
Kinderstimmen leise, leise, 
üben manche frohe Weise, 
und das vierte Lichtlein brennt. 
Lieder klingen im Advent, Freude im Advent.

Antecipação, a melhor alegria. Alegria no advento.
As vozes de crianças suaves, suaves,
praticando sons felizes,
e a quarta luzinha brilha.
As canções tocam no advento, alegria no advento.
E finalmente a quarta estrofe é sobre as crianças praticando as músicas de Natal para cantar de porta em porta na noite e no dia de Natal. A quarta vela é acesa.

Eu gostei dessa música porque ela transmite muito bem o feeling dessa época por aqui.

E o segundo item tradicional é o Calendário de Advento. É o seguinte: o calendário de advento é basicamente um calendário de contagem regressiva para o Natal. Ele começa no dia 1° de Dezembro e termina dia 24. Só que ele não é um calendário como qualquer outro, mas especial: cada dia guarda uma surpresinha! Normalmente é um chocolatinho, mas existem várias formas e variações de calendários de advento e você pode fazer o seu própio e decidir o que colocar nele!

Calendários de advento são super comuns aqui. Você pode comprá-los prontos (normalmente de alguma marca de chocolate, é basicamente uma caixa com uma imagem natalina e janelinhas pra destacar e abrir. Atrás de cada, um chocolate) ou fazer o seu próprio, que é o mais legal, já que os prontos são meio feios.

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Um calendário de advento de comprar pronto, da Lindt.

E como fazer o seu própio calendário? O formato fica para a sua criatividade definir, o mais legal dos calendários de adventos feitos à mão é que cada um inventa um jeito diferente de fazer e acaba saindo as variações mais diversas! O importante é que tenham 24 caixinhas, ou sacolinhas, ou potinhos ou o que for, Um para cada dia de Dezembro que precede o Natal. Legal também é quando dá pra ver quais caixinhas já foram abertas. Como os domingos são os dias de adventos, dias mais importantes, você pode também fazer uma caixinha maior para cada domingo e colocar por exemplo um presentinho em cada um, em vez de chocolate.

Você pode fazer um calendário para dar de presente para alguém (mas tem que dar antes do dia primeiro de dezembro, senão não tem graça!), para as crianças abrirem, ou para as pessoas da sua família, etc. Eu e meu marido fizemos o calendário para nós dois, alternando. Então ele colocou chocolates em metade das caixinhas, nos números pares, e eu nas caixinhas de números ímpares. Aí eu abro as caixinhas que ele preparou e vice-versa. Nos domingos, colocamos presentinhos (ingressos pro cinema no dia, uns enfeitinhos de natal… coisinhas assim).

Esse ano o primeiro advento caiu no dia 3 de Dezembro. Mas ás vezes o primeiro advento cai já no final de Novembro. O calendário de advento começa mesmo assim só no dia primeiro, então nos anos em que o primeiro advento cai antes, ficam só três domingos de advento no calendário. Mas tudo bem.

Assim ficou o calendário de advento que fizemos esse ano:

Eu fiz as caixinhas de origami, e o marido montou essa rede de cordão para pendurar. Aliás, uma observação importante: os dias no calendário de advento nunca ficam organizadinhos de 1 a 24, mas misturados aleatoriamente, pra você ter sempre que ficar procurando a janelinha daquele dia.

Aqui alguns outros exemplos de calendários de advento:

Agora já está meio tarde pra fazer um calendário de advento para esse ano, mas você já pode ir planejando o seu do ano que vem. Eis o nosso calendário no momento:

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Muitos chocolates foram comidos!

É isso!


(Publicado em 20 de Dezembro de 2017)

Cortando árvores de Natal

Nessa época do ano eu invariavelmente escrevo vários posts sobre Natal e temas relacionados. O Natal é uma comemoração tão importante na cultura dos países cristãos que não tem como você não falar sobre o Natal e pensar em Natal nessa época. E curiosamente todo ano aparece alguma coisa nova sobre o Natal que dá um post.

Esse ano pela primeira vez temos uma árvore de Natal em casa. A gente sempre passa o Natal com meus sogros, então nunca nos preocupamos de montar uma árvore de Natal pra ficar aqui sozinha enquanto a gente vai passar o Natal em Colônia.

Mas esse ano foi diferente.

Aqui na Alemanha as árvores de Natal são sempre árvores de verdade. Ninguém tem árvore de plástico aqui, pelo menos nenhuma família. Talvez se você for numa república de alguns estudantes você encontre lá uma arvorinha brega de plástico, pode ser. Mas numa casa de alguma família, onde as pessoas passam de fato o Natal, pode ter certeza que vai ter uma árvore de verdade. Os alemães ficariam horrorizados de se deparar com uma árvore de plástico. Mas claro, faz sentido, aqui as árvores de Natal já eram queridas antes de serem de Natal.

Aliás, uma observação importante. Árvores de Natal não são pinheiros. Pinheiro de Natal é na verdade um erro de tradução. As árvores da família dos pinheiros (são várias espécies diferentes) tem galhos parecidos com esse:

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A árvore de Natal “oficial” é uma Tannenbaum, em português se chama Abeto. Pois é, ninguém conhece esse nome, provavelmente por isso que traduzem pra pinheiro. Mas as árvores da família dos Abetos têm galhos parecidos com esse aqui:

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É bem diferente, também na aparência da árvore como um todo. Mas tanto o Pinheiro quanto o Abeto são coníferas, árvores que permanecem verde o ano inteiro, e por isso sua ligação com o inverno e o Natal – porque são os únicos tipos de árvores que não perdem as folhas para o inverno. As coníferas tem uma grande importância na cultura de países frios. E o Natal não é no solstício de inverno por acaso, já muito antes do cristianismo o solstício de inverno era comemorado em diferentes culturas.

Mas voltemos às árvores de Natal. Então aqui todo mundo tem uma árvore de verdade, certo. E onde se arranja uma árvore?

Tem diferentes opções. Você pode roubar uma árvore da floresta mais próxima, não recomendo porque é roubo, mesmo. Mas tem quem faça isso. Mas a maioria das pessoas simplesmente compra uma árvore de algum produtor próximo. Tem vários lugares nas cidades onde os produtores trazem as árvores de Natal já cortadas para vender, mas você também pode ir direito no viveiro e escolher e cortar sua própria árvore de Natal.

No escritório em que trabalho, todo ano no início de dezembro os colegas e o chefe vão juntos buscar uma árvore de Natal em um viveiro de um amigo do chefe. Quem quer árvore de Natal em casa pega a sua, e juntos escolhemos uma árvore bem bonita para o escritório. Esse ano eu fui pela primeira vez junto – ano passado não pude ir e no ano anterior o evento acabou não rolando. A gente não tinha planos de comprar uma árvore de Natal já que não passamos o Natal aqui, mas já que estávamos lá resolvemos levar uma pequena. E o processo todo de ir escolher, cortar, embalar e levar a árvore foi tão divertido e novo para mim que não tive outra opção se não vir correndo escrever um post a respeito!

O tal viveiro de árvores de Natal fica em algum lugar há uns 40 minutos de carro de Dresden. Os alemães só colocam as decorações de Natal em dezembro, ou a partir do primeiro advento (o quarto domingo antes do Natal, que às vezes cai nos últimos dias de Novembro). Então o viveiro só abre para venda a partir do fim de semana do primeiro advento. Ou seja. Abriu hoje. Não por acaso, estava super cheio, muitas pessoas vão lá buscar suas árvores de Natal, e vários saem inclusive com várias árvores!

 

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Parte do viveiro de árvores de Natal

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Tem árvores de todos os tipos, tamanhos e formatos. Os preços variam bastante de acordo com o tipo de árvore e o tamanho (a etiqueta no topo da árvore indica o preço). Tem algumas espécies diferentes, inclusive com cores ligeiramente diferentes. Na foto de cima, do lado direito dá para ver algumas árvores mais azuladas por exemplo. A árvore que escolhemos, uma bem pequena (em comparação com a maioria das outras árvores disponíveis, mas ficou grande o suficiente na nossa sala!), custaria só 9,99€. Mas alguns dos meus colegas que tem mais espaço em suas salas levaram maravilhosas árvores enormes, que teriam custado uns 60€ cada. Estou falando que teriam custado porque as nossas foram de graça – o chefe que pagou todas!

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A árvore que escolhemos é a da direita, verde clara. Bem pequena na média.

Bom, o primeiro passo é escolher a árvore. Daí o passo seguinte é cortar a árvore. Você pode pegar uma serra emprestada na entrada, claro.

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Meu marido cortando a nossa árvore

Quando eu digo “cortar a árvore”, você já deve estar imaginando um lenhador com uma serra gigante gritando “Madeeeeeiraaaa!” à la Picapau. Na verdade é bem mais simples que isso, já que essas árvores são bem pequenas (mesmo as grandes) em relação a árvores que se cortaria numa floresta para usar a madeira. A serra é super simplesinha e o tronco ainda é bem fininho. Difícil mesmo é se tiver tudo coberto de neve. Aí fica complicado encontrar o tronco, rsrsrs. Mas num dia como hoje, é bem tranquilo cortar a árvore.

Ok, árvore cortada, o próximo passo é embalar. Não tem como levar a árvore assim tão arvoresca pra casa. Então você fica aqui numa fila de pessoas com árvores esperando para embalá-las:

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E aí vem a parte mais engraçada: os funcionários do viveiro colocam a árvore numa máquina de embalar árvore, que puxa a árvore para dentro de uma rede. Assim:

Tchans! E assim ficam as árvores embaladas:

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Eu e a minha árvore (à direita) e a árvore do escritório (à esquerda).

Bem mais fácil de transportar.

Tá, aí você leva a sua árvore pra casa, mas como deixar uma árvore cortada de pé? Precisa de uma base, claro. E você precisa ter uma base especificamente para árvores de Natal. Lógico que é super fácil de achar pra vender em Dezembro. Tem vários tipos diferentes, nós compramos essa assim:

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Não dá pra ver direito, mas ela tem um buraco no meio e quatro “dentes” que prendem o tronco da árvore. É uma base super pesada – tem que ser, se não a árvore tomba – e dá para colocar água dentro como se fosse um vaso.

Um detalhe importante é que os alemães costumam decorar a árvore só no dia 24! Frequentemente a árvore já está bonitinha em casa e com luzinhas desde o início de dezembro mas os enfeites mesmo só no dia 24. A gente vai enfeitar a nossa agora, mesmo, já que não estaremos aqui no dia 24. Já colocamos umas bolas iluminadas que é uma decoração bem comum por aqui.

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Aí pronto!

No começo (da minha vida na Alemanha) eu achei estranho que todo mundo tivesse árvores de verdade, me parecia ruim “matar” uma árvore só para ter ela decorada na sua sala e não sei o quê. Mas na verdade isso é uma ideia bem boba. A árvore foi plantada especificamente pra isso, num campo, tudo seguindo todas as leis ambientais e seja lá o que for. A gente meio que aprende que “cortar árvore” é uma coisa ruim, mas não é tão simples assim. Ruim é destruir o meio ambiente, não cortar uma árvore. Não tem problema nenhum cortar uma árvore (para usar a madeira, por exemplo), se aquela árvore veio ou de uma plantação para corte ou de uma floresta natural gerida de acordo com as regras ambientais de maneira que a quantidade de árvores cortadas não seja além do que a floresta naturalmente produz, etc. Na verdade essas coisas eu só aprendi depois que fiz um mestrado em ciências florestais. E plantar árvores de natal para vendê-las depois de um ano não tem nenhum impacto ambiental que justifique qualquer indignação ou estranhamento. É que a gente não está acostumado com a idéia mesmo.

Mas foi super divertida a experiência de hoje, e com certeza é muito mais legal ter uma árvore de verdade no Natal que uma árvore de plástico! (Só que tem que varrer as folhinhas do chão toda hora!)


Publicado em 2 de Dezembro de 2017

Diferenças entre a Alemanha e a América do Norte

O blog anda meio parado, mas é por um bom motivo: passei as últimas três semanas de férias. Aproveitamos o tempo para viajar para os Estados Unidos e Canadá, e fazia já um tempo que eu não viajava para fora da Europa (2 anos e meio desde minha última visita ao Brasil). Essa viagem foi interessante para eu perceber como várias coisas que são diferentes aqui eu já me acostumei tanto que até esqueci que são diferentes em outros lugares. Nesse sentido é interessante também notar o quanto os países do continente americano têm muitas semelhanças entre si. Diferenças também, claro. Mas muitas coisas que eu notei serem diferentes nos EUA daqui são no Brasil assim também.

Então resolvi fazer um post listando as principais diferenças que notamos entre a América do Norte e a Alemanha/Europa.

Restaurantes/Comida
A primeira coisa que notamos – e que nos incomodou muito – foi que nos EUA em fast foods e cafés você sempre seeeempre recebe talheres e pratos e copos descartáveis. Não importa se você especificar que vai comer no local, em qualquer restaurante ou café onde você tem que pedir a comida no balcão vem tudo, sempre, em pratos e copos de papelão ou plástico. Não dá pra acreditar a quantidade desnecessária de lixo gerado. Cada cafézinho num copo descartável, que desespero! Na Alemanha as coisas realmente só vem em copos descartáveis quando você especifica que quer não vai comer no local. Mas isso também é uma diferença que notamos: na América do Norte as pessoas frequentemente tomam café e comem andando na rua, indo de um lugar pro outro. Principalmente em cafés eram poucos os que sentavam para tomar o café no local. Aqui sentar num café pra tomar uma xícara de café com calma e comer um bolinho é um costume bem típico.

Aliás comida foi outra coisa, embora não seja nenhuma surpresa: nossa, como foi difícil achar comida decente nos EUA! Tudo fast food, tudo cheio de açucar, cheio de óleo… eu não sou nenhuma fã de comida alemã, mas pelo menos em qualquer supermercado você encontra várias coisas saudáveis e não se costuma colocar tanto açucar em tudo.

E finalmente, em relação a restaurantes, outra diferença grande é como se dá a caixinha. Na Alemanha você recebe a conta e na hora de pagar diz quanto quer que o garçom cobre, adicionando normalmente algo entre 5 e 10% de caixinha. Normalmente as pessoas arredondam o valor da conta em algo próximo a 10%. Por exemplo, se a conta deu algo entre 22 e 23,5 euros, você falaria para cobrar 25. Se você estiver pagando com cartão ou com diheiro a mais. Se você está pagando com 25 euros, digamos, uma conta de 22, aí vc diz “está certo assim”. Nos EUA a caixinha varia entre 15% e 20%, ou até 25% se o cliente for bem generoso. Mas nunca se dá a caixinha direto pro garçom, você sempre deixa na mesa depois de pagar a conta. No Canadá a caixinha era sempre 15%, e na hora de passar o cartão a maquininha pergunta se você quer deixar uma caixinha e você digita a porcentagem que quer deixar de caixinha.

Pessoas
O que eu mais gostei durante essa viagem foi da simpatia das pessoas. As pessoas na América do Norte (e isso vale 100% pro continente americano inteiro) são muuuuuuuito mais simpáticas e amigáveis que os alemães meudeusnemsecompara. Os alemães (pelo menos – ou principalmente – os saxões) são com bastante frequencia super grossos sem a menor necessidade. As palavras trocadas com desconhecidos são sempre limitadas ao mínimo necessário, e sorrisos parece que custam dinheiro. Nos EUA era tão fácil falar com as pessoas em qualquer situação… No Canadá nem tanto porque estávamos na parte francesa e alguns realmente não queriam falar inglês. Mas fora esses, os outros eram bem simpáticos também.

Outra coisa é que nesses dois países a sociedade é tão diversa e misturada (mais que no Brasil) que ninguém se sente peixe fora d’água. Você pode ter qualquer cara e se encaixar bem por  lá (numa cidade grande, claro, não numa vilazinha no meio do nada onde todo mundo vota Trump, né). Aqui se você é um pouquinho diferente em aparência, todo mundo te olha o tempo todo. É bizarro. Eu tenho a sorte de passar um tanto despercebida por aqui em termos de aparência, mas vejo isso com clareza quando estou com amigos mais obviamente estrangeiros que eu. Não quero nem imaginar como uma pessoa negra ou árabe se sente o tempo todo aqui. Um amigo meu brasileiro que parece um pouco árabe nos poucos dias que passou aqui me visitando para o meu casamento relatou todo tipo de olhar feio e falta de educação que ele passou. No tram as pessoas evitando sentar perto dele, ignorando totalmente quando ele tentava parar alguém pra pedir informações de como chegar em algum lugar… se foi assim em poucos dias, imagina morar aqui…

Aliás, uma coisa que notei é que nos EUA e Canadá as pessoas SEMPRE perguntam de onde você é. Sempre mesmo, as pessoas têm essa curiosidade, e eu acho que é na maior parte das vezes só curiosidade mesmo, não uma necessidade de categorização. Aqui um desconhecido nuuuuunca te perguntaria de onde você é, nunca mesmo. E as pessoas conhecidas esperam um tanto pra perguntar. Eu acho que as pessoas acham que é um pouco mal-educado perguntar, talvez pq pareça que elas queiram te julgar de acordo, se perguntarem? Não sei, mas o fato é que não se pergunta nunca.

Carro
Uma diferença gritante é em relação ao uso de carro. Aqui na Alemanha as pessoas adoram carro, claro, no país da VW, Porsche, Audi, Mercedes, BMW e tantas outras marcas de carro não tinha como ser diferente. Mas nossa, nem se compara às américas. Nos EUA e Canadá – e no Brasil também é assim – as cidades são feitas pra carros. É comum morar em subúrbios onde se faz tudo de carro, todo mundo tem carro e todo mundo usa carro diariamente. Aqui é comum deixar o carro em casa em várias situações, muita gente vai pro trabalho de bicicleta ou transporte público e o mais comum é ter só um carro por família, e não um pra cada membro maior de 18 anos. E a gasolina nos EUA é absuuuurdamente barata, chegamos a pagar uns 2,80$ por galão, que são 3,7L. Ou seja, 0,75$ por litro. Na Alemanha custa por volta de 1,30€ (1,57$) por L, o dobro do preço!

Pagamentos
E finalmente, um ponto bem diferente é como as pessoas pagam por coisas. Aqui na Alemanha é comum pagar as coisas do dia a dia (comida, restaurante, supermercado, coisas do dia-a-dia) com dinheiro. Vários lugares nem aceitam cartão de crédito, só o cartão de débito europeu. Alguns não aceitam cartão nenhum. Então tem que sempre ter dinheiro na carteira. Nos EUA, Canadá, e no Brasil também, qualquer lugar aceita cartão. Não sei exatamente como é no Brasil atualmente, mas nos EUA você pode pagar qualquer quantia com cartão de crédito, até uma garrafinha de água. E quase todo mundo paga tudo sempre com cartão. Bem mais prático, mas perigoso de gastar muito dinheiro sem perceber. Já escrevi um post falando sobre esse costume alemão e suas origens aqui.

É isso! Bom, não, tem várias outras diferenças, claro, mas isso foi o que a gente notou com mais clareza e imediatamente.

O Sistema de saúde alemão 4 – Programa de Bônus

Uma coisa interessante dos seguros de saúde (públicos) daqui são os programas de bônus. Acho que todos os seguros públicos oferecem algo do tipo. A idéia é encorajar as pessoas a fazerem determinadas atividades que fazem bem para a saúde e consequentemente ajudam a evitar doenças. Cada atividade te dá uma pontuação, e atingindo determinada quantidade de pontos você recebe dinheiro de volta. Não é assim, noooossa, que fortuna (30€), mas 30 euros + saúde é melhor do que 0 euros + doença, então pronto.

Os programas de bônus dos diferentes seguros de saúde são um pouco diferentes – mas seguem basicamente a mesma idéia. Então eu vou explicar com mais detalhes o do meu seguro de saúde (Techniker Krankenkasse, TK).

Primeiro como funciona a pontuação. Você tem um ano pra completar atividades e somar pontos. Com 1000 pontos você recebe 30€. E aí a cada 100 pontos além desses 1000 pontos você recebe outros 2,50€. Mas claro, nada disso tem qualquer significado sem uma noção de quantos pontos dá pra conseguir. Então vamos às atividades:

Tem duas maneiras de conseguir pontos.

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A primeira são atividades específicas, pontuais. Cada atividade te dá uma pontuação variando entre 200 e 500 pontos. Ou seja, com duas dessas atividades de 500 pontos você já atinge os 1000 pontos necessários. As atividades são as seguintes:

  • Hautkrebs-Screening – Exame para prevenção de câncer de pele. Dá 200 pontos, mas conta no máximo 1x a cada dois anos.
  • Allgemeine Krebsvorsorge – Exame para prevenção de câncer no geral. Não sei se é um exame específico or what, mas te dá 200 pontos 1x por ano.
  • Zahnvorsorge – Consulta preventiva no dentista, basicamente ir ao dentista uma vez por ano sem ter nenhuma reclamação específica, pra ver se está tudo em ordem. Te dá 200 pontos.
  • Mutterschaftvorsorge – Exames pré-natais, conta uma vez por gravidez e dá 200 pontos.
  • Rückbildungsgymnastik – Ginástica pós-natal, 400 pontos.
  • Gesundheitskurs Bewegung – Curso de “movimentação saúdavel”, sei lá, não consegui pensar numa boa tradução, mas seriam basicamente cursos curtos pra te dar dicas de como ser mais ativo no seu dia-a-dia. Conta 400 pontos, 1x por ano.
  • Gesundheitskurs zur Ernährung oder Gewichtsreduktion – Curso de nutrição ou de perda de peso, conta uma vez por ano e dá 400 pontos.
  • Gesundheitskurs zur Stressbewältigung oder Entspannung – Curso para lidar com o stress ou curso de relaxamento. Conta 400 pontos uma vez por ano.
  • Gesundheitskurs gegen Suchtmittelkonsum – Curso contra vícios, conta uma vez por ano, 400 pontos.
  • Impfvorsorge – Vacinas preventivas, conta no máximo uma vacina por ano, 400 pontos.
  • Aktive Mitgliedschaft im Sportverein, Fitnessstudio – Associação a um clube de esportes ou a uma academia, 500 pontos.
  • Schwimm-/Sportabzeichen – Ok, isso é meio difícil de traduzir que é uma coisa bem particular daqui que eu nem sabia o que era até perguntar, agora mesmo, pro marido. É basicamente um certificado de êxito em teste de determinados esportes (basicamente os atléticos). Tem uma associação alemã, Deutsches Sportabzeichen, responsável por esses tais certificados. Para tirar um desses certificados, você tem que realizar uma atividade sob determinados critérios – por exemplo, correr 500m – coisas assim. A meta que você tem que atingir, distância de corrida, tempo, distância saltada, distância nadada, etc – varia de acordo com a sua idade e sexo. É um negócio até interessante, vou fazer um post só sobre isso depois. Mas enfim, se você tirar algum desses certificados você ganha 500 pontos.
  • Sportveranstaltungen – Certificado de participação em eventos esportivos (tipo torneio de vôlei, sei lá). Não precisa terminar em nenhuma posição específica, mas precisa terminar. Não conta maratona, não sei pq. Dá 500 pontos.

E a segunda maneira de acumular pontos é fazer o “Fitnessprogramm“. É um programa pra te manter ativo no dia-a-dia. A TK conta passos dados durante a semana. O esquema é: vc tem que em 10 de 12 semanas andar pelo menos 60.000 passos. Quando você começa a fazer o programa começam a contar as 12 semanas, e você pode ficar no máximo 2 dessas 12 sem andar os 60.000 passos. O programa você pode fazer duas vezes por ano, e a cada vez (se você conseguir andar os 60.000 passos por semana) conta 500 pontos. Então só com esse Fitnessprogramm já dá pra acumular os 1000 pontos. Pra contar os passos você usa algum aplicativo de celular. 60.000 passos é 8.571 passos por dia, pra quem trabalha em escritório e não anda muito pode ser bastante. Por sorte eu ando bastante no meu dia-a-dia, então os 60.000 tão fáceis.

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Semana passada andei 88.012 passos! 🙂

Então não é difícil chegar e passar dos 1000 pontos. Eu comecei esse programa no mês passado e já acumulei 900 pontos: 400 de uma vacina que eu tomei, contra catapora, e 500 porque eu vou na academia regularmente. Se eu conseguir os 1000 pontos do Fitnessprogramm, vou receber 52,50€ ano que vem! Não é uma grande fortuna, mas pô, 50€ só pra fazer coisas que eu já estava fazendo antes não tá nada mal! E isso que ainda dá pra acumular mais uns pontos de outras coisas até lá.

Seja como for, a idéia de encorajar as pessoas a fazerem atividades que fazem bem pra saúde é ótima. E acaba virando um joguinho, esse negócio dos passos. Eu completo os 60.000 com facilidade, mas meu marido têm que sair pra andar com mais freqüência pra chegar nos 60.000. Então ele começou a correr três vezes por semana. E volta e meia a gente sai a noite pra dar uma longa volta pelo bairro e somar uns passos. Então além do dinheiro, ainda ficamos mais ativos. Acho bom!


(Publicado em 11 de Setembro de 2017)

Eleições 5 – Wahl-O-Mat

Continuando no tema eleições, esse post é sobre o Wahl-O-Mat um app/programinha de internet bem famoso aqui pra dar uma ideia de quais partidos mais se identificam com você.

Tem, claro, diferentes aplicativos com a mesma intenção. Mas o Wahl-O-Mat foi o primeiro e é o principal por ser o mais “oficial”. Desde 2002, A Bundeszentrale für politische Bildung (Central federal de educação política) – uma instituição parte do ministério do interior alemão e supervisionada por parlamentares dos diferentes partidos que constituem o Bundestag (parlamento alemão) – organiza a cada eleição as perguntas que vão constituir o Wahl-O-Mat. As perguntas são sugeridas por um grupo de jovens eleitores que estão votando pela primeira ou segunda vez, aconselhados por jornalistas e cientistas políticos, e de acordo com determinados critérios. São elaboradas 80 perguntas a que os partidos que vão participar das eleições respondem com “Concordo”, “Neutro” ou “Não concordo”. De acordo com as respostas, são selecionadas então 30 a 40 perguntas finais que vão para o app. São as perguntas que facilitam a distinção entre os partidos. Quer dizer, se todos os partidos responderam “concordo” a uma determinada pergunta, não faz sentido colocá-la para os eleitores.

Daí sai o app, que você pode também acessar pela web, aqui.

Este ano são 38 perguntas, e 32 dos 33 partidos participantes das eleições responderam ao questionário. Você vai respondendo a cada pergunta que aparece com “Concordo”, “Neutro” ou “Não concordo”, (da mesma maneira que os partidos fizeram) e ao final o app te mostra a lista de perguntas e você escolhe quais delas são prioritárias pra você, quer dizer, quais devem ter peso maior. A partir dessas duas informações: suas respotas e sua prioridade de temas, o app calcula em que porcentagem suas ideias se identificam com a de cada partido.

Aqui quatro exemplos de perguntas que aparecem no Wahl-O-Mat desse ano.

Acima à esquerda: “Os impostos sobre diesel como combustível devem ser maiores.”
Acima à direita: “O governo deve investir a longo prazo no desenvolvimento de energias renováveis”
Abaixo à esquerda: “Operadores de páginas na internet devem ser obrigados por lei a deletar notícias falsas postadas em suas páginas das quais venham a tomar conhecimento.”
Abaixo à direita: “A vacinação de crianças contra determinadas doenças deve ser obrigatória.”

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Após responder a cada pergunta, a lista de perguntas aparece, com as suas respostas, para você escolher quais assuntos são prioritários para você. Você pode clicar nas flechinhas do lado das perguntas para ver direitinho qual era a pergunta. Clicando na pergunta ela fica amarelinha e assim marcada como prioritária. No exemplo acima aparecem as quatro últimas perguntas da lista:

35 – Os pais devem ter direito legal a escola em período integral até o final da escola primária. – foi uma pergunta com a qual concordei e coloquei como prioritária.
36 – A menção a Deus na constituição deve permanecer – Discordei mas não coloquei como assunto prioritário
37 – Na Alemanha deve haver uma renda básica incondicional – coloquei como neutro
38 – O trabalho em conjunto com os outros países da união européia deve ser reforçado – outra pergunta com a qual concordei e coloquei como prioritária.

Para ver a sua identificação com os partidos, você tem que escolher quais partidos te interessa conhecer, até 8. Dá pra ver todos, é só voltar e escolher outros. Acho que o limite de 8 é só pra não ficar muito confuso com um resultado mostrando 32 partidos. À esquerda, a tela em que você escolhe os partidos, os quatro de cima são os que estão atualmente no parlamento. Daí a próxima tela mostra a porcentagem de respostas que batem com cada partido que você escolheu. Clicando nos partidos aparece um textinho resumindo quais os ideias daquele partido, e um link para você ler mais sobre o mesmo.

Depois de ver seus resultados, você pode ainda olhar as respostas e justificativas de cada partido para cada pergunta. É provavelmente a parte mais importante do aplicativo, pq a justificativa da resposta pode te fazer repensar a sua própria opinião a respeito.

É importante frisar que esse aplicativo não é suficiente pra definir em quem você deve ou não deve votar. Ele é só um instrumento para te dar mais informações sobre como pensa cada partido. Na discussão política é sempre importante estar aberto para ouvir as diferentes opiniões antes de sair definindo a sua sem nenhuma informação, só baseado num feeling qualquer que você tem a respeito do assunto. Então apps como esse devem ser utilizados com certo cuidado. Mas é um instrumento legal para deixar as pessoas mais interessadas em discutir os assuntos políticos importantes do momento. Além disso, como as votação não é obrigatória aqui, é sempre uma discussão importante a questão: como encorajar o maior número de eleitores possível a comparecer às urnas. E esse aplicativo ajuda um pouco com isso. Como ele é divertidinho de usar, interface simpática, esquema simples de entender, dá vontade de ir respondendo às perguntas e ver o resultado (Aposto que todo mundo que tá lendo esse post – mesmo quem nem tem nenhuma noção de política na Alemanha – já foi correndo baixar pra brincar também, hehe!). E aí ver que tem partidos que concordam com você em determinados assuntos pode ajudar a encorajar às pessoas mais desinteressadas em política ou mais frustradas com a política a irem votar.

Pra quem está lendo e foi correndo ir ver o seu resultado, lembre-se de não levar isso muito a sério – a maior parte das perguntas, pra você ter alguma noção real dos vários fatores involvidos, você precisa estar morando na Alemanha há vários anos e estar super por dentro da política daqui. Sem isso metade das perguntas não vai nem fazer sentido. Mas que seria legal um aplicativozinho assim pras eleições no Brasil, bem que seria! Ou será que só ia dar treta?

Pra escrever esse post eu li sobre o funcionamento e organização desse aplicativo no artigo “The Impact of Voting Indicators: the case of the German Wahl-O-Mat” de Stefan Marschall e Christian K. Schmidt, disponível aqui.


(Publicado em 10 de Setembro de 2017)