Autor: Lais

Pequena regrinha em reuniões

Recentemente descobri, meio por acaso, uma regra social não muito discutida mas frequentemente adotada. Eu estava lendo um livro sobre linguística que aborda diversos aspectos da linguagem, etc, e um exemplo que o autor mencionou sobre normas linguísticas de boas maneiras era não usar pronomes para se referir em terceira pessoa a alguém que está presente.

Quando li isso nem entendi direito o que ele estava querendo dizer. Como assim, não pode se referir a uma pessoa que está presente na conversa por “ele” ou “ela”? Tive que ir pesquisar. Embora o autor seja britânico e estivesse se referindo a uma regra britânica, quando entendi do que ele estava falando realmente ficou claro que tem uma diferença. E aí pensando sobre o assunto me toquei que de fato me parecia que aqui essa regra também é válida. Perguntei para alemães de plantão que confirmaram que em situações formais, realmente isso existe.

Mas péra, do que eu estou falando, afinal?

Imagina a seguinte situação. Você está numa reunião de trabalho, com algumas pessoas, digamos um grupinho de 4 pessoas. Digamos, você, o Sr. Einsenmann, a Sra. Müller e a Profa. Seidel. A Sra. Müller expões alguma ideia, da qual o Sr. Einsenmann discorda e você percebe que ele discordou porque não entendeu exatamente a idéia. Você quer explicar melhor o que a Sra. Müller quis dizer, pra isso você precisa se referir à Sra. Müller em terceira pessoa: “O que ela quis dizer foi…”, “a idéia dela, na verdade…”. Aí é que usar um pronome, como eu fiz nos dois exemplos (ela e dela) é que é mal-educado. A opção educada e mais formal de se referir à Sra. Müller seria “O que a Sra. Müller quis dizer foi…” ou “a idéia da Sra. Müller, na verdade…”

Quer dizer, não chega a ser mal-educado, mas é mais informal e menos atencioso. Com certeza soa bem mais polido se referir à pessoa pelo nome, nessas situações. E como aqui na Alemanha títulos também são muito importantes, você também pode se referir à pessoa pelo seu título. Por exemplo, se a idéia fosse não da Sra. Müller mas da Professora Seidel, você poderia dizer “O que a professora quis dizer foi…”

Essa é uma daquelas coisas que você nunca perceberia conscientemente mas talvez depois de um tempo comece a adotar sem se tocar. E acho que também é uma daquelas regras que ninguém discute mas todo mundo inconscientemente adota em quase qualquer língua. Eu teria que prestar atenção em situações formais no Brasil, mas não é difícil imaginar que isso também seja automaticamente adotado. Mas como no Brasil as pessoas costumam ser bem mais informais, esses detalhes não são nunca tão importantes.

Em todo o caso, fica a dica: preste atenção de tratar as pessoas presentes pelo nome e passe uma boa impressão entre os alemães!


(Publicado em 11 de Novembro de 2017)

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Diferenças entre a Alemanha e a América do Norte

O blog anda meio parado, mas é por um bom motivo: passei as últimas três semanas de férias. Aproveitamos o tempo para viajar para os Estados Unidos e Canadá, e fazia já um tempo que eu não viajava para fora da Europa (2 anos e meio desde minha última visita ao Brasil). Essa viagem foi interessante para eu perceber como várias coisas que são diferentes aqui eu já me acostumei tanto que até esqueci que são diferentes em outros lugares. Nesse sentido é interessante também notar o quanto os países do continente americano têm muitas semelhanças entre si. Diferenças também, claro. Mas muitas coisas que eu notei serem diferentes nos EUA daqui são no Brasil assim também.

Então resolvi fazer um post listando as principais diferenças que notamos entre a América do Norte e a Alemanha/Europa.

Restaurantes/Comida
A primeira coisa que notamos – e que nos incomodou muito – foi que nos EUA em fast foods e cafés você sempre seeeempre recebe talheres e pratos e copos descartáveis. Não importa se você especificar que vai comer no local, em qualquer restaurante ou café onde você tem que pedir a comida no balcão vem tudo, sempre, em pratos e copos de papelão ou plástico. Não dá pra acreditar a quantidade desnecessária de lixo gerado. Cada cafézinho num copo descartável, que desespero! Na Alemanha as coisas realmente só vem em copos descartáveis quando você especifica que quer não vai comer no local. Mas isso também é uma diferença que notamos: na América do Norte as pessoas frequentemente tomam café e comem andando na rua, indo de um lugar pro outro. Principalmente em cafés eram poucos os que sentavam para tomar o café no local. Aqui sentar num café pra tomar uma xícara de café com calma e comer um bolinho é um costume bem típico.

Aliás comida foi outra coisa, embora não seja nenhuma surpresa: nossa, como foi difícil achar comida decente nos EUA! Tudo fast food, tudo cheio de açucar, cheio de óleo… eu não sou nenhuma fã de comida alemã, mas pelo menos em qualquer supermercado você encontra várias coisas saudáveis e não se costuma colocar tanto açucar em tudo.

E finalmente, em relação a restaurantes, outra diferença grande é como se dá a caixinha. Na Alemanha você recebe a conta e na hora de pagar diz quanto quer que o garçom cobre, adicionando normalmente algo entre 5 e 10% de caixinha. Normalmente as pessoas arredondam o valor da conta em algo próximo a 10%. Por exemplo, se a conta deu algo entre 22 e 23,5 euros, você falaria para cobrar 25. Se você estiver pagando com cartão ou com diheiro a mais. Se você está pagando com 25 euros, digamos, uma conta de 22, aí vc diz “está certo assim”. Nos EUA a caixinha varia entre 15% e 20%, ou até 25% se o cliente for bem generoso. Mas nunca se dá a caixinha direto pro garçom, você sempre deixa na mesa depois de pagar a conta. No Canadá a caixinha era sempre 15%, e na hora de passar o cartão a maquininha pergunta se você quer deixar uma caixinha e você digita a porcentagem que quer deixar de caixinha.

Pessoas
O que eu mais gostei durante essa viagem foi da simpatia das pessoas. As pessoas na América do Norte (e isso vale 100% pro continente americano inteiro) são muuuuuuuito mais simpáticas e amigáveis que os alemães meudeusnemsecompara. Os alemães (pelo menos – ou principalmente – os saxões) são com bastante frequencia super grossos sem a menor necessidade. As palavras trocadas com desconhecidos são sempre limitadas ao mínimo necessário, e sorrisos parece que custam dinheiro. Nos EUA era tão fácil falar com as pessoas em qualquer situação… No Canadá nem tanto porque estávamos na parte francesa e alguns realmente não queriam falar inglês. Mas fora esses, os outros eram bem simpáticos também.

Outra coisa é que nesses dois países a sociedade é tão diversa e misturada (mais que no Brasil) que ninguém se sente peixe fora d’água. Você pode ter qualquer cara e se encaixar bem por  lá (numa cidade grande, claro, não numa vilazinha no meio do nada onde todo mundo vota Trump, né). Aqui se você é um pouquinho diferente em aparência, todo mundo te olha o tempo todo. É bizarro. Eu tenho a sorte de passar um tanto despercebida por aqui em termos de aparência, mas vejo isso com clareza quando estou com amigos mais obviamente estrangeiros que eu. Não quero nem imaginar como uma pessoa negra ou árabe se sente o tempo todo aqui. Um amigo meu brasileiro que parece um pouco árabe nos poucos dias que passou aqui me visitando para o meu casamento relatou todo tipo de olhar feio e falta de educação que ele passou. No tram as pessoas evitando sentar perto dele, ignorando totalmente quando ele tentava parar alguém pra pedir informações de como chegar em algum lugar… se foi assim em poucos dias, imagina morar aqui…

Aliás, uma coisa que notei é que nos EUA e Canadá as pessoas SEMPRE perguntam de onde você é. Sempre mesmo, as pessoas têm essa curiosidade, e eu acho que é na maior parte das vezes só curiosidade mesmo, não uma necessidade de categorização. Aqui um desconhecido nuuuuunca te perguntaria de onde você é, nunca mesmo. E as pessoas conhecidas esperam um tanto pra perguntar. Eu acho que as pessoas acham que é um pouco mal-educado perguntar, talvez pq pareça que elas queiram te julgar de acordo, se perguntarem? Não sei, mas o fato é que não se pergunta nunca.

Carro
Uma diferença gritante é em relação ao uso de carro. Aqui na Alemanha as pessoas adoram carro, claro, no país da VW, Porsche, Audi, Mercedes, BMW e tantas outras marcas de carro não tinha como ser diferente. Mas nossa, nem se compara às américas. Nos EUA e Canadá – e no Brasil também é assim – as cidades são feitas pra carros. É comum morar em subúrbios onde se faz tudo de carro, todo mundo tem carro e todo mundo usa carro diariamente. Aqui é comum deixar o carro em casa em várias situações, muita gente vai pro trabalho de bicicleta ou transporte público e o mais comum é ter só um carro por família, e não um pra cada membro maior de 18 anos. E a gasolina nos EUA é absuuuurdamente barata, chegamos a pagar uns 2,80$ por galão, que são 3,7L. Ou seja, 0,75$ por litro. Na Alemanha custa por volta de 1,30€ (1,57$) por L, o dobro do preço!

Pagamentos
E finalmente, um ponto bem diferente é como as pessoas pagam por coisas. Aqui na Alemanha é comum pagar as coisas do dia a dia (comida, restaurante, supermercado, coisas do dia-a-dia) com dinheiro. Vários lugares nem aceitam cartão de crédito, só o cartão de débito europeu. Alguns não aceitam cartão nenhum. Então tem que sempre ter dinheiro na carteira. Nos EUA, Canadá, e no Brasil também, qualquer lugar aceita cartão. Não sei exatamente como é no Brasil atualmente, mas nos EUA você pode pagar qualquer quantia com cartão de crédito, até uma garrafinha de água. E quase todo mundo paga tudo sempre com cartão. Bem mais prático, mas perigoso de gastar muito dinheiro sem perceber. Já escrevi um post falando sobre esse costume alemão e suas origens aqui.

É isso! Bom, não, tem várias outras diferenças, claro, mas isso foi o que a gente notou com mais clareza e imediatamente.

O Sistema de saúde alemão 4 – Programa de Bônus

Uma coisa interessante dos seguros de saúde (públicos) daqui são os programas de bônus. Acho que todos os seguros públicos oferecem algo do tipo. A idéia é encorajar as pessoas a fazerem determinadas atividades que fazem bem para a saúde e consequentemente ajudam a evitar doenças. Cada atividade te dá uma pontuação, e atingindo determinada quantidade de pontos você recebe dinheiro de volta. Não é assim, noooossa, que fortuna (30€), mas 30 euros + saúde é melhor do que 0 euros + doença, então pronto.

Os programas de bônus dos diferentes seguros de saúde são um pouco diferentes – mas seguem basicamente a mesma idéia. Então eu vou explicar com mais detalhes o do meu seguro de saúde (Techniker Krankenkasse, TK).

Primeiro como funciona a pontuação. Você tem um ano pra completar atividades e somar pontos. Com 1000 pontos você recebe 30€. E aí a cada 100 pontos além desses 1000 pontos você recebe outros 2,50€. Mas claro, nada disso tem qualquer significado sem uma noção de quantos pontos dá pra conseguir. Então vamos às atividades:

Tem duas maneiras de conseguir pontos.

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A primeira são atividades específicas, pontuais. Cada atividade te dá uma pontuação variando entre 200 e 500 pontos. Ou seja, com duas dessas atividades de 500 pontos você já atinge os 1000 pontos necessários. As atividades são as seguintes:

  • Hautkrebs-Screening – Exame para prevenção de câncer de pele. Dá 200 pontos, mas conta no máximo 1x a cada dois anos.
  • Allgemeine Krebsvorsorge – Exame para prevenção de câncer no geral. Não sei se é um exame específico or what, mas te dá 200 pontos 1x por ano.
  • Zahnvorsorge – Consulta preventiva no dentista, basicamente ir ao dentista uma vez por ano sem ter nenhuma reclamação específica, pra ver se está tudo em ordem. Te dá 200 pontos.
  • Mutterschaftvorsorge – Exames pré-natais, conta uma vez por gravidez e dá 200 pontos.
  • Rückbildungsgymnastik – Ginástica pós-natal, 400 pontos.
  • Gesundheitskurs Bewegung – Curso de “movimentação saúdavel”, sei lá, não consegui pensar numa boa tradução, mas seriam basicamente cursos curtos pra te dar dicas de como ser mais ativo no seu dia-a-dia. Conta 400 pontos, 1x por ano.
  • Gesundheitskurs zur Ernährung oder Gewichtsreduktion – Curso de nutrição ou de perda de peso, conta uma vez por ano e dá 400 pontos.
  • Gesundheitskurs zur Stressbewältigung oder Entspannung – Curso para lidar com o stress ou curso de relaxamento. Conta 400 pontos uma vez por ano.
  • Gesundheitskurs gegen Suchtmittelkonsum – Curso contra vícios, conta uma vez por ano, 400 pontos.
  • Impfvorsorge – Vacinas preventivas, conta no máximo uma vacina por ano, 400 pontos.
  • Aktive Mitgliedschaft im Sportverein, Fitnessstudio – Associação a um clube de esportes ou a uma academia, 500 pontos.
  • Schwimm-/Sportabzeichen – Ok, isso é meio difícil de traduzir que é uma coisa bem particular daqui que eu nem sabia o que era até perguntar, agora mesmo, pro marido. É basicamente um certificado de êxito em teste de determinados esportes (basicamente os atléticos). Tem uma associação alemã, Deutsches Sportabzeichen, responsável por esses tais certificados. Para tirar um desses certificados, você tem que realizar uma atividade sob determinados critérios – por exemplo, correr 500m – coisas assim. A meta que você tem que atingir, distância de corrida, tempo, distância saltada, distância nadada, etc – varia de acordo com a sua idade e sexo. É um negócio até interessante, vou fazer um post só sobre isso depois. Mas enfim, se você tirar algum desses certificados você ganha 500 pontos.
  • Sportveranstaltungen – Certificado de participação em eventos esportivos (tipo torneio de vôlei, sei lá). Não precisa terminar em nenhuma posição específica, mas precisa terminar. Não conta maratona, não sei pq. Dá 500 pontos.

E a segunda maneira de acumular pontos é fazer o “Fitnessprogramm“. É um programa pra te manter ativo no dia-a-dia. A TK conta passos dados durante a semana. O esquema é: vc tem que em 10 de 12 semanas andar pelo menos 60.000 passos. Quando você começa a fazer o programa começam a contar as 12 semanas, e você pode ficar no máximo 2 dessas 12 sem andar os 60.000 passos. O programa você pode fazer duas vezes por ano, e a cada vez (se você conseguir andar os 60.000 passos por semana) conta 500 pontos. Então só com esse Fitnessprogramm já dá pra acumular os 1000 pontos. Pra contar os passos você usa algum aplicativo de celular. 60.000 passos é 8.571 passos por dia, pra quem trabalha em escritório e não anda muito pode ser bastante. Por sorte eu ando bastante no meu dia-a-dia, então os 60.000 tão fáceis.

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Semana passada andei 88.012 passos! 🙂

Então não é difícil chegar e passar dos 1000 pontos. Eu comecei esse programa no mês passado e já acumulei 900 pontos: 400 de uma vacina que eu tomei, contra catapora, e 500 porque eu vou na academia regularmente. Se eu conseguir os 1000 pontos do Fitnessprogramm, vou receber 52,50€ ano que vem! Não é uma grande fortuna, mas pô, 50€ só pra fazer coisas que eu já estava fazendo antes não tá nada mal! E isso que ainda dá pra acumular mais uns pontos de outras coisas até lá.

Seja como for, a idéia de encorajar as pessoas a fazerem atividades que fazem bem pra saúde é ótima. E acaba virando um joguinho, esse negócio dos passos. Eu completo os 60.000 com facilidade, mas meu marido têm que sair pra andar com mais freqüência pra chegar nos 60.000. Então ele começou a correr três vezes por semana. E volta e meia a gente sai a noite pra dar uma longa volta pelo bairro e somar uns passos. Então além do dinheiro, ainda ficamos mais ativos. Acho bom!


(Publicado em 11 de Setembro de 2017)

Eleições 5 – Wahl-O-Mat

Continuando no tema eleições, esse post é sobre o Wahl-O-Mat um app/programinha de internet bem famoso aqui pra dar uma ideia de quais partidos mais se identificam com você.

Tem, claro, diferentes aplicativos com a mesma intenção. Mas o Wahl-O-Mat foi o primeiro e é o principal por ser o mais “oficial”. Desde 2002, A Bundeszentrale für politische Bildung (Central federal de educação política) – uma instituição parte do ministério do interior alemão e supervisionada por parlamentares dos diferentes partidos que constituem o Bundestag (parlamento alemão) – organiza a cada eleição as perguntas que vão constituir o Wahl-O-Mat. As perguntas são sugeridas por um grupo de jovens eleitores que estão votando pela primeira ou segunda vez, aconselhados por jornalistas e cientistas políticos, e de acordo com determinados critérios. São elaboradas 80 perguntas a que os partidos que vão participar das eleições respondem com “Concordo”, “Neutro” ou “Não concordo”. De acordo com as respostas, são selecionadas então 30 a 40 perguntas finais que vão para o app. São as perguntas que facilitam a distinção entre os partidos. Quer dizer, se todos os partidos responderam “concordo” a uma determinada pergunta, não faz sentido colocá-la para os eleitores.

Daí sai o app, que você pode também acessar pela web, aqui.

Este ano são 38 perguntas, e 32 dos 33 partidos participantes das eleições responderam ao questionário. Você vai respondendo a cada pergunta que aparece com “Concordo”, “Neutro” ou “Não concordo”, (da mesma maneira que os partidos fizeram) e ao final o app te mostra a lista de perguntas e você escolhe quais delas são prioritárias pra você, quer dizer, quais devem ter peso maior. A partir dessas duas informações: suas respotas e sua prioridade de temas, o app calcula em que porcentagem suas ideias se identificam com a de cada partido.

Aqui quatro exemplos de perguntas que aparecem no Wahl-O-Mat desse ano.

Acima à esquerda: “Os impostos sobre diesel como combustível devem ser maiores.”
Acima à direita: “O governo deve investir a longo prazo no desenvolvimento de energias renováveis”
Abaixo à esquerda: “Operadores de páginas na internet devem ser obrigados por lei a deletar notícias falsas postadas em suas páginas das quais venham a tomar conhecimento.”
Abaixo à direita: “A vacinação de crianças contra determinadas doenças deve ser obrigatória.”

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Após responder a cada pergunta, a lista de perguntas aparece, com as suas respostas, para você escolher quais assuntos são prioritários para você. Você pode clicar nas flechinhas do lado das perguntas para ver direitinho qual era a pergunta. Clicando na pergunta ela fica amarelinha e assim marcada como prioritária. No exemplo acima aparecem as quatro últimas perguntas da lista:

35 – Os pais devem ter direito legal a escola em período integral até o final da escola primária. – foi uma pergunta com a qual concordei e coloquei como prioritária.
36 – A menção a Deus na constituição deve permanecer – Discordei mas não coloquei como assunto prioritário
37 – Na Alemanha deve haver uma renda básica incondicional – coloquei como neutro
38 – O trabalho em conjunto com os outros países da união européia deve ser reforçado – outra pergunta com a qual concordei e coloquei como prioritária.

Para ver a sua identificação com os partidos, você tem que escolher quais partidos te interessa conhecer, até 8. Dá pra ver todos, é só voltar e escolher outros. Acho que o limite de 8 é só pra não ficar muito confuso com um resultado mostrando 32 partidos. À esquerda, a tela em que você escolhe os partidos, os quatro de cima são os que estão atualmente no parlamento. Daí a próxima tela mostra a porcentagem de respostas que batem com cada partido que você escolheu. Clicando nos partidos aparece um textinho resumindo quais os ideias daquele partido, e um link para você ler mais sobre o mesmo.

Depois de ver seus resultados, você pode ainda olhar as respostas e justificativas de cada partido para cada pergunta. É provavelmente a parte mais importante do aplicativo, pq a justificativa da resposta pode te fazer repensar a sua própria opinião a respeito.

É importante frisar que esse aplicativo não é suficiente pra definir em quem você deve ou não deve votar. Ele é só um instrumento para te dar mais informações sobre como pensa cada partido. Na discussão política é sempre importante estar aberto para ouvir as diferentes opiniões antes de sair definindo a sua sem nenhuma informação, só baseado num feeling qualquer que você tem a respeito do assunto. Então apps como esse devem ser utilizados com certo cuidado. Mas é um instrumento legal para deixar as pessoas mais interessadas em discutir os assuntos políticos importantes do momento. Além disso, como as votação não é obrigatória aqui, é sempre uma discussão importante a questão: como encorajar o maior número de eleitores possível a comparecer às urnas. E esse aplicativo ajuda um pouco com isso. Como ele é divertidinho de usar, interface simpática, esquema simples de entender, dá vontade de ir respondendo às perguntas e ver o resultado (Aposto que todo mundo que tá lendo esse post – mesmo quem nem tem nenhuma noção de política na Alemanha – já foi correndo baixar pra brincar também, hehe!). E aí ver que tem partidos que concordam com você em determinados assuntos pode ajudar a encorajar às pessoas mais desinteressadas em política ou mais frustradas com a política a irem votar.

Pra quem está lendo e foi correndo ir ver o seu resultado, lembre-se de não levar isso muito a sério – a maior parte das perguntas, pra você ter alguma noção real dos vários fatores involvidos, você precisa estar morando na Alemanha há vários anos e estar super por dentro da política daqui. Sem isso metade das perguntas não vai nem fazer sentido. Mas que seria legal um aplicativozinho assim pras eleições no Brasil, bem que seria! Ou será que só ia dar treta?

Pra escrever esse post eu li sobre o funcionamento e organização desse aplicativo no artigo “The Impact of Voting Indicators: the case of the German Wahl-O-Mat” de Stefan Marschall e Christian K. Schmidt, disponível aqui.


(Publicado em 10 de Setembro de 2017)

Eleições 4 – Votação por correio

As eleições para o parlamento alemão se aproximam, e cada vez mais se ouve falar nos partidos e nas discussões que os dividem.

Há quatro anos atrás, nas últimas eleições, eu escrevi um post mais completo explicando como funciona o sistema político da Alemanha (parlamentarismo) e quais são os principais partidos e suas propostas. Talvez valha a pena esse ano fazer uma atualização desse post, com as atuais propostas dos atuais principais partidos, mas vai depender da minha inspiração, heheh. Em outros anos com outras eleições eu escrevi também sobre como se vota (em cédulas de papel gigantescas), e como funciona o segundo turno.

Em alguns desses posts eu mencionei uma característica importante das eleições alemãs, que é bem diferente das brasileiras: aqui é possível votar por correio.

Isso mesmo, por correio. Você recebe a cédula por correio, vota em casa e manda para o tribunal eleitoral por correio. Em vários países isso é possível e – como tudo que envolve eleições democráticas – é uma decisão que tem que pesar dois lados. Por um lado, uma votação por correio é bem menos segura. Vc pode muito facilmente comprar/vender votos, pq é a coisa mais fácil do mundo vc saber se a pessoa pra quem você pagou para votar em você votou, mesmo, em você. Se a votação for só numa cabine onde ninguém mais pode entrar com você e ver em quem você está votando, não tem nunca como você saber em quem determinadas pessoas votaram. Também abre espaço para abusos de poder dentro de famílias. Digamos um pai de família abusivo que força todo mundo da família a pedir a cédula por correio para ele mesmo votar, ou se certificar que todos estão votando em quem ele acha que tem que ser eleito. Tem umas possibilidades bem complicadas aí.

Por outro lado, se você possibilita a votação por correio, você facilita para muitas pessoas que querem votar mas não conseguiriam ir ao local de votação no dia da mesma. Em uma democracia é importante não só que as pessoas tenham o direito de votar, mas também que o processo seja o mais fácil possível, para se certificar que o maior número de pessoas possível vai ter a chance de dar a sua opinião nas urnas. Se você for viajar e não vai estar presente no dia da votação, vota por correio. Se você tem dificuldades de se deslocar até o local de votação por algum motivo, vota por correio. Facilitando você aumenta o número de eleitores que votam.

Então a maneira como funcionam as eleições, em qualquer país democrático, é sempre uma tentativa de achar a melhor combinação de segurança e facilidade. Não tem uma solução única que é A solução correta.

Então seja como for, a questão é que aqui dá pra votar por correio. E esse ano estaremos viajando no dia das eleições, então o meu marido pediu a cédula dele por correio. (Eu não posso votar para as eleições federais, tem que ser cidadão alemão). E eu aproveitei a chance pra ver como funciona e escrever um post sobre o assunto!

Então é assim. Quando as eleições se aproximam, você recebe uma carta te “convidando” pra ir votar. Basicamente é uma carta que te diz a data das eleições, que eleição que é, onde que você vota, essas coisas. Quando você vai votar você leva essa carta com você no local de votação. E junto com essa carta vem um formulário para você preencher caso você queira receber a cédula por correio. Você pode também pedir pela internet. Basicamente você preenche os seus dados de eleitor (os que vêm na tal carta que você recebeu). E alguns dias depois você recebe a cédula por correio, mais ou menos um mês antes das eleições.

Sobre a cédula eu já falei em algum dos posts anteriores sobre as eleições, mas elas são assim:

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É uma cédula bem comprida. Não vou explicar como funciona a eleição em si porque isso eu já fiz nesse primeiro post, então lê lá. Você preenche a sua cédula bonitinho em casa sem ninguém ver e coloca num envelope azul que você recebeu junto. Assim:

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Esse envelope azul não tem nenhuma informação sobre você nem sobre a sua região de votação nem nada disso. Então esse envelope azul com a cédula dentro é o que as pessoas que fazem a abertura e contagem do voto vão receber. Mas não é esse envelope azul que você coloca na caixa de correio, não. O azul vai dentro de um envelope rosa, esse daqui:

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Essa parte branca você destaca e coloca dentro do envelope, e é onde tem o seu nome, número de eleitor, essas coisas todas pra identificar quem é que está votando. Importante, lógico, pra saber que você que votou e você votou. Pra ninguém votar duas vezes. Esse envelope é o que você coloca na caixa de correio. A sua carta tem que chegar até no máximo às 18h do dia da eleição. Então tem que tomar o cuidado de enviar com atencedência para chegar a tempo. Você pode também entregar a carta no seu local de votação no dia da eleição. Não sei que diferença faz você ir lá votar ou votar em casa e ir levar sua cédula lá, mas enfim, dá.

Você pode também – se te interessar – ir lá no local da sua região em que se faz a abertura dos envelopes e contagem do votos e assistir a mesma pra ver se tá tudo sendo feito direitinho.

Uma coisa interessante sobre a votação por correio é que se você enviar a sua cédula por correio e aí morrer depois disso mas antes do dia da eleição, o seu voto conta. E, embora você esteja votando antes, se alguma coisa acontecer que faça você mudar de idéia em relação ao voto que você já enviou – antes das eleições – já era, não tem como mudar seu voto. Quer dizer, uma vez colocada a carta na caixa de correio, o voto está dado.

É isso! Antes das eleições eu ainda vou fazer um post sobre o Wahl-O-Mat (um app pra ver com quais partidos você se identifica) e no dia das eleições, claro, um post com os resultados – e se eu tiver tempo com uma explicação atualizada de cada partido.


(Publicado em 9 de Setembro de 2017)

Pequenas denúncias

Esse post de título um tanto enigmático me deu na telha de escrever na semana passada, ao comprar uma água. E é sobre pequenas coisas, pequenos detalhes, que te denunciam como estrangeiro na Alemanha. Não coisas grandes como erros gramaticais ou pronúncia da língua. Coisinhas pequenas, não necessariamente erradas, discretas, porém que nenhum alemão jamais faria ou expressaria dessa maneira.

Quem já viu o filme Bastardos Inglórios vai lembrar bem da cena em que o espião americano infiltrado entre os nazistas é descoberto ao pedir duas cervejas num bar, mostrando o dedo indicador e o do meio. Os alemães contam nos dedos começando com o dedão, então “dois”, na linguagem dedística alemã, seria levantar o dedão e o indicador. Se você, como a pessoa normal que é, levantar o dedo indicador e o do meio para indicar dois: ! Estrangeiro!

Então aqui vão outras coisinhas que poderiam resultar na sua execução imediata se você fosse um espião estrangeiro infiltrado entre os nazistas em 1940.

1. Volume de bebida
A história da água foi que eu pedi ontem uma garrafa de água no subway, e quando a pessoa do caixa me perguntou qual tamanho, eu distraidamente respondi “A pequena, de 500”. 500 mL, claro. Na Brasil a gente fala de tamanho das bebidas em mL. 300, 500, 700. Só a partir de 1L qua a gente passa pra litros. Mas aqui  na Alemanha é tudo sempre em Litros. 0,3, 0,5, 0,7. A resposta certa no caso da água teria sido “null komma fünf“, “zero vírgula cinco” (ou só “komma fünf“). Todo mundo entende se você fala em mL, claro, mas nenhum alemão jamais responderia àquela pergunta com “fünfhundert“. Jamé.

2. Emails
Duas pequenezas em emails eu descobri outro dia que eram diferentes. São pequenezas tão discretas que eu nunca teria notado. Mas provavelmente os alemães que receberam emails escritos por mim notaram. Quando você escreve um email (ou carta) em português, é algo assim:

“Caro Sr. Fulano de Tal,

Como conversamos por telefone, envio em anexo o documento xyz, etc.

Atenciosamente,
Eu Mesmo da Silva”

Se a gente seguisse a mesma regra que os alemães, essa mesma carta seria assim:

Caro Sr. Fulano de Tal,

como conversamos por telefone, envio em anexo o documento xyz, etc.

Atenciosamente
Eu Mesmo da Silva

Sacou a diferença? São duas. A mais importante e mais denunciativa é a primeira: aqui você sempre começa o email com letra minúscula (depois do “Caro fulano”, que aliás em alemão seria “Sehr geehrte(r) xyz). O motivo faz sentido: A frase começou com “Caro fulano, xxx”, não tem porquê colocar maiúscula depois da vírgula. Mas por algum motivo misterioso em português e em inglês se faz assim em emails e cartas. A segunda diferença não é tão determinante. Entre o “Atenciosamente” (em alemão você escreveria “Mit Freundlichen Grüßen“) e o seu nome, os alemães não costumam colocar vírgula. Mas não é uma regra tão definitiva: às vezes eles também colocam uma vírgula.

3. Futebol
Duas grandes pequenas diferenças existem entre nós e os alemães ao falar de futebol. A primeira é a contagem do tempo. No Brasil a gente conta em duas vezes de quarenta e cinco minutos. Então se alguém chega e te pergunta “E o jogo? Tá onde?”, você responderia algo como “30 minutos do segundo tempo”. Na Alemanha, a resposta seria “75 minutos”. O jogo é contado em 90 minutos, não duas vezes de 45. Então se você fala em algum minuto do 0 ao 45, você com certeza está se referindo ao primeiro tempo. A expressão “aos quarenta e cinco do segundo tempo” não faria sentido aqui.
Outra diferença (embora essa seja mais algo que denunciaria um alemão no Brasil que o contrário) é a contagem dos gols. No Brasil a gente sempre coloca quem tem mais gols primeiro. Por exemplo: “O jogo ficou sete a um pra Alemanha”. Na Alemanha você fala os gols do time da casa primeiro. “O jogo ficou um a sete.” é certamente algo que você nunca disse em português.

Talvez agora você esteja prestes a escrever um comentário perguntando a mesma coisa que eu perguntei pro marido alemão quando conversamos sobre esse assunto: como faz quando não tem time da casa? E se for, digamos, Marrocos x Japão jogando no Uruguai? A resposta foi: ¯\_(ツ)_/¯. Bom, tem sempre uma regra pra qual time é o time da casa mesmo nesses campeonatos internacionais, no sentido de qual time tem que trocar de roupa se os uniformes forem da mesma cor, né. Mas sei lá se tem toda essa preocupação em ser específico. Acho que colocar o número maior na frente e dizer quem ganhou (ou está ganhando) faz mais sentido e os alemães podiam pensar em adotar essa regra simples, ficadica.

4. Casaco
Dois compartamentos referentes a casacos te denunciariam imediatamente como estrangeiro (de país onde não faz frio) na Alemanha.

A primeira é andar por aí no frio com o casaco aberto. Algo que não faz nenhum sentido lógico: o casaco serve pra isolar seu corpo do frio, pra ele não perder calor. Não funciona se o casaco estiver aberto. Mas no Brasil, como quase não faz frio, a gente praticamente nem têm casacos que isolam, então efetivamente tanto faz se o casaco está aberto ou fechado. Daí a gente chega bobo no país frio durante o inverno e demora uns tempos pra descobrir que casaco de inverno só funciona quando fecha o zíper.

A outra coisa sobre casacos é que, como os interiores dos edifícios são aquecidos, as pessoas tiram o casaco ao entrar em qualquer lugar. É meio que a reação direta e automática a entrar num local: tirar o casaco. Só que no Brasil a gente usa o casaco o dia inteiro, dentro de casa e do escritório e do restaurante e de todos os lugares, já que costuma estar a mesma temperatura dentro e fora. Então a gente não tem esse costume de imediatamente tirar o casaco ao entrar num local, e às vezes fica lá distraído de boas no seu casaco. Os alemães acham isso meeeeega estranho, a ponto de chamar a atenção que alguém esteja usando casaco sem estar lá fora.

5. Meio Pãozinho
Digamos que eu te dê um pãozinho, um pãozinho normal, pão francês, e te peça pra cortar ao meio e me dar metade e comer a outra metade. Em que eixo do pãozinho você vai cortá-lo? Provavelmente você vai cortá-lo assim:

paozinho

Dê o pãozinho a um alemão e peça para ele cortá-lo ao meio para comer só metade e em 100% dos casos o pãozinho será cortado neste eixo:

paozinho

No Brasil, a gente só corta o pãozinho no lado maior quando a gente vai fazer um sanduíche, e comer as duas metades ao mesmo tempo, fechadas. Se for pra comer só metade e dar a outra metade pra outra pessoa ou devolver pro saquinho de pão, o pãozinho será cortado no eixo menor. Aqui, se um alemão concordar em dividir um pãozinho com você e você cortar o mesmo no lado menor pode ter certeza que o alemão vai te olhar como se você tivesse feito a coisa mais estranha e inesperada que ele já presenciou em sua vida!

Aliás já que estamos falando de pãozinho, uma dica pra você não cometer um erro que eu cometo regularmente, inclusive hoje mesmo na hora do almoço: Se você disser para um alemão te trazer uns pãezinhos da padaria, lembre-se de especificar que você quer pãezinhos brancos, aqui conhecidos como “Kleinbrötchen” (entre outros nomes possíveis). Se você quiser o pãozinho da imagem acima, tem que ser específico. Se você disser simplesmente “traz um pãozinho”, vai vir qualquer coisa menos pão branco. Se forem vários vai ser uma variação de pães diversos em que uns 10% a 20% serão pãezinhos brancos. Então se você quiser só pãezinhos brancos, seja específico. Se você for passar a noite na casa de alguém e a pessoa combinar um horário pra tomar café na manhã seguinte (sim, eles vão combinar um horário específico pra se “encontrar” pro café da manhã) e a pessoa te perguntar se você tem alguma preferência pro café, quantos pãezinhos você come, e tal: lembre-se de especificar que você só come pãezinhos brancos (se for o caso), se não é capaz de não ter um único pãozinho francês na seleção de 20 pãezinhos que seu anfitrião colocar na mesa do café no dia seguinte.

É isso! Daria pra escrever sobre mil outras coisinhas, mas deu pra dar uma ideia…


(Publicado em 22 de Agosto de 2017)

Sobre coisas proibidas

Acho surpreendente que, mesmo depois de 5 anos morando aqui, volta e meia eu ainda descubro coisas que não sabia.

Hoje foi um desses dias. Eu percebi muito cedo que as pessoas aqui não se xingam no trânsito. Na verdade, eu nunca presenciei alguém xingando outra pessoa, na Alemanha. Curiosa, já até perguntei pro marido alemão o que as pessoas falam umas pra outras em brigas no trânsito ou outras brigas. A resposta, depois de alguns minutos pensando, foi alguma coisa qualquer über-educada que eu não imagino jamais alguém dizendo durante uma briga no trânsito. E não é por falta de oportunidades, não, que stress é uma coisa que eu nunca vi faltar num alemão.

Eis que hoje descubro, finalmente, o motivo. Na Alemanha é proibido por lei xingar outras pessoas, mostrar o dedo do meio ou outros gestos ou palavras obcenas ou ofensivas. O negócio é sério, pode dar multas altíssimas e até um ano de prisão! Ok, realmente ser preso é pouco provável, mas ser multado pode realmente ocorrer. E para algumas ofensas – como mostrar o dedo do meio – a multa é bem salgada: 4.000 euros!! OU SEJA, bora aprender a manter a calma no trânsito antes de vir pra Alemanha! (no trânsito e no geral, mas brigas de trânsito é a situação mais comum de ocorrer)

Tem até – claro, Alemanha, claro – uma listinha básica dos preços da multa para diferentes ofensas. Vou copiar aqui e fazer uma tradução livre porque algumas são bem engraçadas. Em azul a tradução, em verde alguns comentários meus:

Beschreibung Descrição Strafe Multa
Die Zunge herausstrecken
Mostrar a língua
150 €
“Du Mädchen!” (zu einem Polizisten)
“Menininha!” (para um policial)
200 €
“Bekloppter”
“Louco”
250 €
“Dumme Kuh”
“Vaca burra”
300 €
“Leck mich doch!”
“Me lambe!” 
300 €
“Du blödes Schwein”
“Seu porco estúpido”
475 €
“Hast du blödes Weib nichts Besseres zu tun?!”
“Você não tem nada melhor pra fazer, sua fêmea estúpida?”
500 €
“Was willst du, du Vogel?!”
“Qual é a sua, seu pássaro?!”
Ok, essa é estranha, mas aparentemente chamar alguém de pássaro é dizer que ele não tem nada na cabeça. ¯\_(ツ)_/¯ 
500 €
“Asozialer”
“Asocial”
Pra esse fazer sentido você tem que saber um pouquinho de história: asocial era como os nazistas denominavam determinados grupos de pessoas (desempregados, deficientes, prostitutas, entre outros) que, segundo eles, não adicionavam nada à sociedade e portanto tinham que ser eliminados. 
550 €
“Dir hat wohl die Sonne das Gehirn verbrannt!”
“O sol queimou seu cérebro!”
600 €
Einen Polizisten duzen
Tratar um policial por “Du” (a forma informal de “você”) em vez de “Sie” (senhor/a)
Espero que eles façam uma exceçãozinha aqui pra estrangeiros, que eu volta e meia trato alguém por du que deveria tratar por Sie sem querer!
600 €
“Du Holzkopf!”
“Seu cabeça de pau!”
750 €
Einen Vogel zeigen
Mostrar um pássaro
Ok, esse não tem como não traduzir literalmente e a tradução literal não faz o menor sentido, mas, basicamente, “Einen Vogel zeigen” é o gesto que os alemães fazem que significa “você não tem nada na cabeça?” ou “você é burro?”. O gesto é dar uns toquinhos na própria cabeça com o dedo indicador, meio como se faz para checar se algo é oco.
750 €
“Bei dir piept’s wohl!”
Esse também é relacionado com essa coisa do pássaro. Não dá pra traduzir muito bem, mas é basicamente uma forma indireta de dizer que alguém é um pássaro – e, consequentemente, não tem nada da cabeça.
750 €
Scheibenwischer-Geste
Gesto de limpador de parabrisa seria a tradução literal, mas basicamente é mais um gesto típico dos alemães: balançar a mão aberta na frente do rosto. Significa, também, que a pessoa é burra. 
1000 €
Stinkefinger zeigen
Mostrar o dedo do meio
4000 €
Deixa esse dedinho aí bem guardadinho que meudeusquatromileuros!
“Du Wichser”
“Seu punheteiro”
1000 €
“Idiot”
“Idiota”
1500 €
“Am liebsten würde ich jetzt Arschloch zu dir sagen!”
“Eu bem que gostaria de te chamar de imbecil!”
Ahá, não adianta tentar ser sagaz e dizer que você não vai dizer o que você queria dizer mas já está dizendo, que também conta!
1600 €
“Schlampe”
“Vadia”
1900 €
“Fieses Miststück”
“Cadela nojenta”
2500 €
“Alte Sau”
“Porco velho”
2500 €

É, aparentemente não é por acaso que eu nem conhecia a maioria desses xingamentos! Essa lista é uma referência, só, mas as multas são decidida caso a caso. Ou seja, um xingamento que não esteja na lista também pode resultar em multa.

Essa lei é válida também para xingamentos na internet, claro. Tanto em e-mails quanto mensagens ou o que for. Aliás, esses são muito mais fáceis de dar em algo porque estão registradinhos bonitinhos. Xingar alguém na rua, se não tiver nenhuma testemunha, no fim vai ser a palavra de um contra a do outro. Então ainda tem uma boa chance de não dar em nada, dependendo da situação.

Mas na dúvida, melhor ser educado. Aliás, né, com ou sem multa é sempre melhor ser educado e não xingar as pessoas e talz.

Por sorte eu nunca desavisadamente quebrei essa lei por aqui, porque eu jamais imaginaria que mostrar o dedo do meio pra alguém pudesse dar uma multa tão absurdamente alta! E quando comentei com o marido que tinha descoberto isso, hoje, a resposta foi um “uuuhhh, isso não pode, não!!!” num tom sério com os olhos arregalados como se eu tivesse comentado que acabei de descobrir que não pode sair por aí com uma suástica no braço.

ALIÁS. Já que estamos falando de coisas que são proibidas, por que não:

Símbolos nazistas são super mega proibidos na Alemanha. Não é só a suástica, mas fazer aquele gesto da saudação nazista é expressamente proibido, assim como dizer coisas como “Heil Hitler” ou “Sieg Heil” ou outros cumprimentos nazistas. Isso é uma proibição levada beeeem a sério, você pode de fato ser preso. Esses dias andou rolando por aí no facebook a notícia de um turista americano que foi agredido com um soco por algum passante depois de repetir diversas vezes o gesto da saudação nazista. O fulano estava bêbado, e agora está sendo processado pela polícia por infrigir a lei que bane os símbolos nazistas. Também recentemente dois turistas chineses foram levados para uma delegacia ao serem flagrados tirando fotos na frente do Reichstag (o edifício do parlamento alemão) fazendo o gesto de saudação nazista. Os dois receberam uma multa de 500€ cada, e ainda terão que responder a processo pela violação da lei. Certamente não tinham a menor ideia de que era proibido e acharam engraçado tirar fotos fazendo gestos nazistas na frente do Reichstag… péssima ideia!


(Publicado em 15 de Agosto de 2017)