Casando na Alemanha parte 3 – A comemoração

Há poucos meses atrás escrevi dois posts sobre casar na Alemanha, um sobre as leis e direitos para pessoas casadas, e outro sobre os documentos necessários e o processo burocrático para poder casar aqui. Mas ficou faltando um post falando sobre a comemoração em si, que eu deixei para escrever depois do meu próprio casamento.

Casamos faz duas semanas, então é boa hora pra escrever esse post!

No geral, a comemoração de casamento na Alemanha é bem similar ao que conhecemos no Brasil, ou de filmes americanos. As tradições básicas são iguais: vestido branco, aliança, “sim”, bolo de três andares, presentes, etc. Mas nos pormenores as diferenças são várias. Algumas eu descobri só durante o meu casamento, com amigos brasileiros comentando “puxa, no Brasil não se faz assim!” (e eu nem sabia!).

Faz sentido começar com a despedida de solteiro. Aqui na Alemanha (mais especificamente aqui na Alemanha oriental, porque segundo meu (!) marido (!), que é do oeste, lá não tem isso) a despedida de solteiro é um tanto diferente. É similar para o noivo e a noiva. Um grupo de uns 5/6 amigos leva o noivo, vestido com alguma fantasia bem ridícula (banana, super-homem, noivA, tem de tudo), pela cidade pra beber cerveja por aí (e acho que pedir dinheiro pra cerveja, tb). A noiva se junta com um grupo de umas 5/6 amigas, e com um véu de noiva e talvez uma saia branca, ou alguma outra peça de roupa pra ficar bem óbvio que ela é a noiva, saem por aí vendendo bobeiras pela rua (qualquer coisinha que vc não precise mais tipo escova de cabelo, sei lá, pra vender por 50 centavos) também para usar o dinheiro para beber.  Os amigos do noivo e as amigas da noiva normalmente usam todos camisetas iguais personalizadas com alguma frase boba qualquer, talvez uma foto da noiva ou do noivo, um nome engraçado que o grupo deu pra si mesmo ou algo do gênero.

Você reconhece esses grupos de longe pela cidade, e nos fins de semanas de meses mais quentes tem dias que andando pela cidade você encontra pelo menos uns 5 grupinhos de despedida de solteiro/a.

Eu jamais teria escrito sobre essa tradição antes do meu casamento, pra não correr o risco das amigas brasileiras terem a péssima ideia de reproduzir a tradição alemã comigo…. rsrsrsrs. O meu marido também não fez nada do tipo, já que os amigos dele também são a maioria do oeste onde essa tradição não existe. Ufa!

A outra tradição mais diferentona que tem aqui em casamentos é a de serrar um tronco juntos. O noivo e a noiva, após a cerimônia, serram juntos o tronco de árvore com uma serra de dois cabos. Assim:

tron o

A ideia por trás é simbolizar que o casal consegue, trabalhando junto, lidar com tarefas difíceis ou qualquer bobeira do tipo.

Uma diferença talvez grande entre as comemorações de casamentos daqui e do Brasil, é que na Alemanha elas costumam ser um tanto menores. Os casamentos que fui no Brasil tinham 200 a 300 convidados. Aqui, os casamentos grandes costumam ter 60, 80 convidados. Festonas de 200 pessoas são raras. Nós tínhamos 60, e sempre que eu respondia esse número quando algum alemão me perguntava quantas pessoas teriam, a reação era “nossa, bastante!”. Não é raro casamentos em que os únicos convidados são a família, ou mesmo só a família direta (pais e irmãos) dos noivos. Por outro lado, aqui as comemorações são mais longas. Não é incomum o casamento ser um programa que ocupa quase o dia todo. Pra nós, por exemplo, foi assim: a cerimônia civil foi às 11h da manhã, depois da qual fomos andando até o jardim de casa, onde fizemos os votos e comemos o bolo. Os convidados foram indo embora a partir das 13h e lá pelas 15h30 foram os últimos. Então tivemos umas duas horinhas para dar uma descansada, e logo todos se encontraram novamente, às 18h, no restaurante onde foi o jantar de comemoração. Alguns foram embora logo após a sobremesa, lá pelas 22h30, e outros ficaram até cair de sono, lá pelas 2, 3 da manhã. Os dois outros casamentos em que eu fui aqui na Alemanha foram similares: a cerimônia seguida do bolo por volta da hora do almoço, e o jantar de comemoração a noite.

Algumas pequenas variações eu descobri no próprio casamento. Por exemplo, o bolo. Eu nunca tinha percebido ou não lembrava, mas parece que no Brasil os bolos de três andares são falsos, só o andar de cima é um bolo mesmo, para a foto, e o resto do bolo é distribuido já cortado entre os convidados. Aqui os bolos são, mesmo, de três andares. Eis uma foto do nosso bolo:

Outra diferença que é mais legal aqui é em relação aos presentes. No Brasil, normalmente se faz uma lista de presentes em umas duas ou três lojas grandes de artigos para a casa ou eletro-eletrônicos, e os convidados compram o presente online, que já é enviado diretamente por correio para os noivos. No próprio casamento não se recebe presentes. E ainda me contaram algo que eu não sabia – no Brasil em várias lojas a lista de presentes nem é “real”. Quer dizer, os convidados, ao comprarem os presentes da lista, não estão de fato dando aquele presente, mas sim o valor do mesmo em vale para os noivos usarem na loja.  Os noivos podem fazer uma lista com presentes de variados preços e no fim usar o dinheiro que os convidados gastaram com os presentes para comprar algo na loja que nenhum convidado sozinho teria dado, digamos uma televisão super cara, sei lá. Aqui os presentes são comprados pelos convidados e entregues por eles no próprio dia do casamento, sempre com um cartão com algo simpático escrito.

E legal também é que costuma ter algumas coisas “interativas”, como livro de visitas e coisas do tipo. No nosso, a minha cunhada pegou um daqueles jogos de jenga e colocou as peças numa mesa com uma plaquinha “assine uma peça” e aí todo mundo assinou uma peça, ou fez um desenhinho, e tal. Agora temos um jogo de jenga com as peças assinadas pelos nossos convidados!

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Uma coisa que é comum aqui, e que a gente conhece de filmes americanos mas não de casamentos no Brasil, são discursos dos convidados. Por aqui costuma ter um momento para que convidados façam discurso ou apresentem qualquer coisa que prepararam para os noivos. No casamento de uma tia do meu marido, por exemplo, a família preparou uma música pra todos cantarem juntos… foi um tanto bobo, mas bem típico, rsrsrs. No nosso, a família dele preparou um vídeo com vários dos nossos amigos e família respondendo perguntas sobre nós. Meu marido, que quase sempre em comemorações familiares toca algumas músicas no violão para o comemorado (aniversariante / casal recém-casado…) tocou algumas músicas para mim. Alguns amigos e familiares fizeram discursos curtos e bonitos.

A cerimônia em si – a civil – é bastante diferente. No Brasil, a sala do cartório onde se assina o papel é normalmente uma salinha sem graça num predinho sem graça típico de setor público. Às vezes o escrivão vem até o local da comemoração e faz a cerimônia com as assinaturas lá – não sei exatamente como funciona. Aqui não dá para pedir pro escrivão ou escrivã se deslocar para o seu local de comemoração, mas tem algumas opções de locais onde você pode realizar a cerimônia civil além da sede do cartório. Normalmente são locais bem bonitos como centros culturais, museus, coisas assim. Espaços públicos mas bem bonitos. E mesmo o prédio do cartório é super bonito, combina bem com casamentos. A cerimônia é curta, mas eles se esforçam para que seja bonita e possa substituir bem a religiosa para quem não quer a mesma. Então o escrivão ou escrivã fala algumas frases bonitas sobre casamento, etc, tem a opção de ter alguém tocando música em determinados momentos, a sala e a mesa são bem decoradas. Nós casamos num prédio que é uma espécie de centro cultural, onde tem dois salões onde acontecem concertos e coisas do gênero. Era uma sala super bonita, com um piano de cauda e espaço para 140 convidados. Contratamos uma amiga que é pianista profissional (e também minha professora de piano) para tocar para a gente durante a cerimônia, foi tudo bem bonito. Pra quem não quer fazer uma cerimônia religiosa, essas opções de locais para a civil dão ótimas alternativas para uma cerimônia memorável e também válida (porque tem sempre, claro, a opção de fazer no dia uma cerimônia só simbólica e assinar o papel no cartório noutro dia qualquer só entre vocês).

Você tem que pagar uma taxa extra se quiser escolher um desses locais que não são a sede do cartório, mas para vários deles o valor é bem baixo. No nosso caso, por exemplo, era apenas 50 euros. Os mais caros custam 500.

Os convidados brasileiros também acharam muito diferente não ter tido vários padrinhos e madrinhas. A gente chamou o melhor amigo dele e a minha melhor amiga para serem testemunhas no cartório e foram esses, por assim dizer, nossos padrinho e madrinha. No Brasil é comum ter vários padrinhos e madrinhas. Aqui, na verdade, pro cartório nem precisa de testemunha. Podem casar só os noivos completamente sozinhos. Ou então pode-se escolher dois amigos ou parentes para serem testemunhas, um para cada noivo. É mais uma coisa simbólica, já que não precisa, mas as testemunhas assinam o papel, também.

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Nosso padrinho assinando o papel

Uma coisa que eu acho curiosa é que, enquanto algumas tradições típicas são pouco importantes – te deixando com a impressão de que os alemães não são muito conservadores – outras parece quase impossível encontrar alguém que não siga – te deixando com a impressão contrária, de que os alemães são mais conservadores que nós. Por exemplo: vestido branco e aliança foram duas tradições bem típicas que a gente não quis seguir e quase ninguém na Alemanha achou estranho. O meu vestido era vermelho, e conheço aqui várias outras pessoas que casaram com alguma cor que não fosse o branco. Ninguém me questionou por não usar branco. Também preferimos não ter alianças, e embora depois do casamento alguns tenham perguntado sobre alianças, ninguém achou muito estranho não termos – e também conheço muitos casais casados aqui que não usam aliança. Esses dois pontos foram bem mais estranhos para os brasileiros. Por outro lado, os dois manterem seus nomes sem nenhuma mudança foi uma coisa quase impossível de explicar para os alemães, e totalmente normal para os brasileiros. Aqui é muuuuito raro a mulher não mudar de nome ao casar, até escrevi um post sobre isso. Toda vez que me perguntavam se eu ia mudar de nome, rolava todo um questionamento do porquê: “Mas é pq o nome dele é estranho?” “É que dá trabalho, né?”, “Sai caro, mudar todos os documentos, é por isso?”. Parece inconcebível, pros alemães, que uma mulher queira manter seu nome de nascimento simplesmente pq é seu nome e pronto. E quando é o homem que muda o nome, eles tratam como se fosse uma coisa suuuuper romântica, um enorme favor e sacrifício que ele está fazendo por ela… eu hein! Para os brasileiros, as duas coisas mais estranhas do nosso casamento foram o noivo ter visto o vestido antes do casamento (na verdade ele me ajudou a escolher, também), e nós termos entrado juntos para a cerimônia.

Acho que é isso! Agora que passou espero ter mais tempo para colocar o blog em dia!


(Publicado em 12 de Junho de 2017)

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3 comentários

  1. Parabéns pelo casamento! Muitas felicidades para vocês. 🙂

    Eu aqui no Brasil sou casada apenas no civil. Às vezes tenho vontade de pensar em uma cerimônia, algo para celebrar com pessoas queridas, já que não temos religião. Mas certas coisas me dão um cansaço só de pensar! Gostei de algumas coisas da forma como é aí. Ainda não descobri como gostaria que fosse a nossa cerimônia, mas sigo pensando. Quando achar um formato legal, acho que a gente celebra. 🙂
    Um beijo.

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