Evacuações e bombas

Ontem uma área de Hannover, onde moram aproximadamente 50.000 pessoas, foi completamente evacuada. O motivo: encontraram três bombas da segunda guerra mundial durante excavações de construção civil.

O interessante disso, na verdade, é que é algo que acontece com relativa freqüência. Mesmo. Volta e meia você vê notícias de alguma área (normalmente não tão grande quanto a área de hoje em Hannover) que tem que ser temporariamente evacuada por causa de alguma bomba antiga que ressurgiu em algum canteiro de obras.

Estima-se que 10% das bombas derrubadas pelos aliados na Alemanha durante a segunda guerra mundial não tenham explodido. Mais de 1.800 toneladas POR ANO em bombas e munição não explodida são descobertas na Alemanha. E não é só na Alemanha que isso ocorre, claro. Em outros países fortemente bombardeados durante a guerra também são encontradas bombas antigas volta e meia.

Quando uma bomba é encontrada, a área ao redor é evacuada ou imediatamente ou alguns dias depois. As pessoas têm que sair de suas casas por algumas horas até os ténicos em bombas irem lá e neutralizarem a bomba em questão. Nesse caso de ontem de Hannover – olha que curioso – eles planejaram e prepararam a evacuação por duas semanas! Quer dizer, a bomba foi encontrada e ficou lá duas semanas esperando o planejamento da evacuação (marcada, propositalmente, para um domingo). Como essas bombas da segunda guerra estão espalhadas pelo país há 70 anos, algumas (de determinados tipos) não representam um risco imediato. É mais no momento de remoção da mesma que ela pode explodir. Elas têm que ser neutralizadas e removidas com todo o cuidado, e durante esse processo que a área ao redor é evacuada. A evacuação é sempre mais complicada do que a gente imagina, porque tem pessoas com dificuldades motoras como idosos e deficientes a serem considerados, além de possíveis hospitais ou clínicas presentes na área de evacuação, de onde pacientes internados também têm que ser movidos, claro. Então ter um tempinho pra planejar convém!

E não é frescura. É raro que essas bombas de fato explodam, mas em Janeiro de 2014, por exemplo, uma bomba explodiu em uma obra em Euskirchen ao ser atingida por uma escavadeira. Um pedreiro morreu e dois ficaram gravemente feridos. Felizmente, quase sempre as bombas são identificadas com antecedência e removidas com os cuidados necessários. Desde o ano 2000, 11 técnicos de neutralização de bombas morreram na Alemanha durante o trabalho de neutralização. Três desses morreram numa única explosão de uma bomba que estavam tentando neutralizar em Göttigen, em 2010.

Um tipo de bomba particularmente perigoso dessa época são as bombas “químicas”, ou sei lá que nome bonito elas tinham. Essas bombas foram projetadas com o propósito específico de que explodissem dias depois de serem derrubadas num determinado local. Funcionavam da seguinte maneira: As bombas eram mantidas com o nariz pra cima, mas quando as bombas eram derrubadas dos aviões, elas caíam com o nariz pra baixo, claro. Quando o nariz virava para baixo, um dispositivo no “rabo” da bomba entrava em funcionamento e quebrava uma cápsula de vidro contendo acetona corrosiva. Ao atingir o chão, com o nariz pra baixo, a acetona escorria e começava a corroer, aos poucos, o corpo da bomba. Esse processo demorava horas ou até dias, e quando a última camada que protegia o explosivo fosse corroída, a bomba finalmente explodia, inesperadamente, dias após o bombardeamento. Se apesar da minha incapacidade de explicar o funcionamento de bombas pela minha falta de vocabulário bombístico você entendeu o processo, veja só o problema: várias dessas bombas atingiram o chão em locais onde o solo era muito mole, de maneira que elas infiltraram o solo e viraram de cabeça pra cima (já que elas caem de cabeça pra baixo) dentro da terra. Então a acetona não corroeu as camadas de proteção do explosivo. Mas, em 70 anos, essas camadas vão sendo corroídas ou vão se desintegrando com o tempo e a qualquer momento essas bombas podem explodir, desavisadas. Fiz um desenhinho pra ilustrar:

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Uma cidade particularmente afetada é Oranienburg, onde muitas dessas bombas ainda continuam escondidas debaixo da terra. Entre 1996 e 2007, o governo do estado de Brandenburgo gastou 45 milhões de euros para localizar e neutralizar essas bombas em Oranienburg, mais que em qualquer outra cidade alemã.

Mas voltando ao caso de ontem em Hannover, felizmente, as três bombas foram neutralizadas e removidas com sucesso, e no final do dia as pessoas já puderam voltar para suas casas.

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Bomba encontrada em Koblenz em 2011. Foto de Holger Weinandt – Wikipedia, CC BY-SA 3.0

Aqui tem um artigo muito completo e explicativo do Smithsonian sobre as bombas não explodidas da segunda guerra mundial. Foi desse artigo que eu tirei os dados do post que não linkam para outros artigos.

Então, se você vier à Alemanha, lembre-se de tomar cuidado com bombas de 70 anos de idade!


(Publicado em 8 de Maio de 2017)

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