Hospitais alemães

Não faz nem dois meses que eu escrevi três posts sobre o sistema de saúde alemão, ao final dos quais eu disse que não podia falar muito sobre hospitais uma vez que nunca tinha ficado em um por aqui. Não imaginaria que em dois meses teria esse desprazer…

Eis que no domingo de manhã me deu uma dor repentina muito louca e fora do normal, que, permanecendo contínua e intensa por mais de 20 minutos, resolvemos que era melhor ir para um pronto-socorro ver o que era.

Chegamos no pronto-socorro do Diakonissenkrankenhaus, um hospital mantido pela igreja protestante, perto de casa. O pronto-socorro foi o pronto-socorro mais vazio que eu já vi, era domingo de manhã e tinham duas outras pessoas lá esperando ser atendidas. Há vantagens em se morar em cidades pequenas…

Depois de vários exames e ultrassons diversos, não conseguiram descobrir exatamente o que era, mas o que eles suspeitavam que fosse exigia uma cirurgia de emergência. A médica ligou para a cirurgiã, que marcou a cirurgia para dali a uma hora, e logo me mandaram para um quarto do hospital com um enorme questionário para responder. Dali a pouco já estavam me levando para a sala de operação e dando a anestesia…

Eu fiz uma vez uma cirurgia no Brasil, para uma hérnia de umbigo, quando eu tinha 8 anos. Eu não lembro muitos detalhes então fica difícil comparar. Mas o que chamou minha atenção positivamente no hospital alemão foi que eles me explicaram direitinho porque queriam fazer a cirurgia mesmo sem ter certeza se era necessária, e como a cirurgia seria feita, além dos riscos mais e menos prováveis, como seria o pós-operatório, e tudo. Mas foi sorte eu falar alemão, porque a médica não falava inglês… certamente se meu alemão não fosse o suficiente a situação toda teria sido bem mais assustadora e bizarra!

Outra coisa que eu não imaginaria que teria sido assim é que assim que a médica decidiu que a melhor alternativa era a cirurgia, ela me explicou tudo e me pediu para decidir e assinar o papel ali na hora – sem que eu antes pudesse pedir a opinião do meu namorado que estava esperando na sala de espera. Acho que se eu tivesse pedido para antes falar com ele eles teriam deixado, mas depois fiquei pensando que foi bem razoável que eles insistissem que a decisão fosse minha sem influências. Depois quando ela foi comigo procurá-lo para falar que eu ia passar para a cirurgia, ela mesma deu a notícia de maneira bem definitiva. Por outro lado eu fiquei com medo que por nós ainda não sermos casados, eles não deixassem ele ficar comigo depois da cirurgia ou coisa assim. Mas isso não foi problema, a única coisa que eles perguntaram foi o nome dele.

A cirurgia durou pouco menos de uma hora, e quando eu comecei a acordar da anestesia, ainda na sala de operação, experienciei a sensação mais estranha da minha vida: as pessoas à minha volta estavam falando só alemão, claro, e por causa disso eu comecei a pensar em alemão também. E não conseguia mudar a língua na cabeça para inglês ou português! Meu cérebro estava mais acordado que meu corpo, que eu quase não conseguia mexer, e eu estava sentindo uma necessidade muito forte de dizer que eu estava lá e acordada mas morrendo de sono. Estava preocupada de falar isso pro meu namorado quando chegasse no quarto, e fiquei pensando, “bom, pelo menos meu namorado fala alemão, então ele vai entender se eu falar com ele em alemão”, mas achando muito esquisito não conseguir mudar a língua. Quando cheguei no quarto, consegui falar – com mto esforço – que estava cansada (em alemão) e ele respondeu em inglês, e a língua no cérebro imediatamente mudou pra inglês e voltou tudo ao normal. Foi uma experiência bem inesperada, você fica achando que nessas situações vc só vai conseguir falar na própria língua… nem acreditei que consegui fazer tudo isso em alemão sem nenhum grande problema. Achei engraçado que a primeira frase que eu ouvi ao acordar da anestexia foi a anestesista dizendo “ela já está acordando.”. Rsrsrs, ainda bem que elas estavam prestando atenção!

O quarto em que fiquei tinha três leitos, mas deu sorte de os outros dois não estarem ocupados. Uma coisa que eu achei bem diferente (não sei se só nesse hospital é assim ou se é meio regra em hospitais alemães) é que não tinha horário pra visita, meu namorado podia ir e vir no horário que quisesse e ficar quanto tempo quisesse. Só dormir que ele não podia, lá, porque não tinha onde. Mas não tinha um horário que ele tivesse que ir embora, e isso eu achei muito conveniente.

Normalmente o seguro público cobre apenas um quarto compartilhado entre dois ou três pacientes, e você pode pagar extra para ficar num quarto privativo. Os seguros privados, dependendo de qual você tiver, às vezes cobrem um quarto privativo só pra você. Como foi só uma noite e deu a sorte de eu estar sozinha, não tenho do que reclamar. Certamente se fosse mais tempo e tivessem outras pessoas no quarto teria sido um tanto desconfortável dividir… mas enfim!

No dia seguinte de manhã tive alta – e foi outra coisa um tanto diferente. Basicamente depois da médica fazer os exames de manhã cedo para ver se estava tudo bem, uma enfermeira trouxe uma carta de alta (Entlassungsbrief) num envelope – que era basicamente uma carta para a minha médica normal (não a médica do hospital, mas a médica que me acompanha regularmente) dizendo o que tinha acontecido, como tinha sido a operação, com fotos da operação e tudo mais. Quando meu namorado chegou para me buscar, não precisamos dar satisfações a ninguém, foi só se trocar, pegar as coisas e ir embora. Achei curioso, porque eu poderia ter ido embora da mesma maneira também antes de me entregarem a tal carta. A minha impressão – em comparação com hospitais que eu visitei no Brasil para ver alguém que estava internado ou coisa assim – é que era tudo mais aberto, meu namorado podia ir e vir sem dar satisfações a ninguém, e eu tb pude sair sem dar satisfações a ninguém. Foi tudo meio na confiança de que eu seguiria as recomendações deles. Curioso.

De resto não vi grandes diferenças no hospital alemão para os hospitais brasileiros que visitei. Claro que não visitei muitos hospitais em lugares remotos do Brasil, que certamente são bem diferentes dos grandes hospitais de São Paulo. E também não tenho um conhecimento muito expert pra poder dizer se os instrumentos pareciam mais modernos e de última geração em comparação ao que se usa no Brasil ou não. Não achei nada particularmente impressionante nesse sentido, mas como falei, não tenho muita experiência no assunto. Quanto a remédios, depois da cirurgia e durante a noite eles injetaram algo para a dor, suponho que morfina, mas no dia seguinte e para o resto da semana, a médica recomendeu apenas ibuprofeno.

Mas um inconveniente é que a médica do hospital recomendou que eu tire uma semana de repouso mas não me deu o papel de licença médica do trabalho (Krankschreibung). Para pegar esse papel, terei que ir essa semana na minha médica normal com a tal Entlassungsbrief para que ela me dê a Krankschreibung que eu preciso entregar para meu chefe. Um tanto inconveniente já que não é exatamente repousante ter que sair de casa pra ir ao médico só pra buscar um papel… mas enfim!

Em tempo: Deu tudo certo a cirurgia, não era o que eles tinham suspeitado mas outra coisa que também precisava de cirurgia: um cisto que tinha se rompido e no processo machucado uns tecidos que estavam sangrando internamente! A médica e a enfermeira me disseram muitas vezes que ainda bem que eu fiquei no hospital (porque depois que eu cheguei a dor melhorou muito) e não fui pra casa, se não poderia ter sido bem pior! Mas deu tudo certo… e mais uma experiência de Alemanha pra coleção! O chato é que com essa confusão acabei perdendo as celebrações do dia da reunificação alemã, que esse ano foram aqui em Dresden… e eu estava planejando um post sobre o assunto… vai ficar pro ano que vem!


(Publicado em 04 de Outubro de 2016)

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3 comentários

  1. Lais, seus post são sempre deliciosos. Fico feliz que você esteja bem. Eu conheço o sistema de saúde brasileiro razoavelmente e lendo seu post diria que é invejável viver num país com um sistema de saúde assim.
    Abraços

    1. Oi Plínio! Obrigada pela mensagem! Eu acho que se vc tem um seguro de saúde tudo certinho, não há mto o que reclamar do sistema de saúde alemão. Mas se você não tem um, e não tem direito a um público, o negócio fica complicado e cheio de problemas… infelizmente não é tão simples quanto deveria ser! Mas por enquanto não tenho reclamações dos médicos ou hospitais!

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