Coisas que eu aprendi na Alemanha

Semana passada completei 4 anos de Alemanha. Acho que estou ficando velha, porque embora pareça que eu me mudei pra cá faz tempo, quando eu digo “4 anos” não parece muito tempo.

Mas com certeza esses 4 anos foram bem marcantes na minha vida em vários aspectos.

Coincidentemente, encontrei num canto um papel em que eu tinha escrito, há alguns meses atrás, uma lista de coisas q eu aprendi desde que mudei pra cá. Achei que caberia muito bem um post sobre isso bem nessa data importante.

Você provavelmente está achando que eu vou escrever sobre como eu, sei lá, aprendi a ficar do lado direito da escada rolante ou dar preferência pra pedestres ou sei lá o quê que as pessoas acham que se aprende quando se mora na Europa.

Mas não é nada disso. Acho que esse post poderia ser escrito por qualquer pessoa que se mudou pra outro país em que se fala outra língua. (Quase. Alguns itens são, mesmo, relacionados à Alemanha).

Vejamos, vejamos…

1. A responder “sim” ou “não” de acordo com o que a pessoa espera ouvir como resposta

Isso, lógico, da época que eu ainda não entendia alemão muito bem. Fiquei craque em reconhecer se uma pessoa desconhecida me perguntando alguma coisa espera ouvir “sim” ou “não” como resposta. Tive várias conversas com desconhecidos em que a pessoa me perguntou algo, eu respondi o que ele esperava ouvir, e ele foi embora satisfeito e eu fiquei pra sempre sem saber o que ele tinha perguntado.

Os exemplos são bem mais bobos do que você está provavelmente imaginando. São coisas como, vc encontra seu vizinho na escada e ele te pergunta alguma coisa. Pode ter sido algo como:

“Não foi você que esqueceu a porta aberta hoje de manhã, não, foi?”
“Não, não.”
“Ah, então tá. Que não pode deixar aberta, mas tem alguém que sempre esquece.”

ou então o mesmo vizinho talvez esteja saindo com o carro e te viu indo pegar sua bicicleta, pergunte:

“Você tá de saída, né?”
“Sim, sim!”
“Ah, vc fecha a porta pra mim, então, por favor?”
“Sim, sim!”
“Obrigado!”

Juro, tive vários diálogos desse gênero que eu até hoje não sei com o que eu concordei ou o que eu neguei. Mas as pessoas pareceram satisfeitas, e eu evitei a chateação embaraçosa de explicar que não entendi o que ele estava falando, e às vezes é só isso que importa.

2. A ler expressões faciais, coisas faladas nas entrelinhas e linguagem corporal.

Todo mundo gosta de acreditar que é muito bom nisso, de saber o que o outro está pensando. Não é verdade, a maioria das pessoas é bem ruim disso. Para não cometer o mesmo erro, não vou dizer que fiquei muito boa nisso, vou apenas dizer que eu era beeeem pior em ler sutilezas de expressões faciais, linguagem corporal e coisas assim e que melhorei pra caramba essa habilidade depois que vim pra cá. Eu não tinha idéia que eu era relativamente ruim em ler essas coisas até melhorar muito essa habilidade. O motivo, óbvio, era que por um bom tempo esses eram os únicos instrumentos que eu tinha pra me comunicar. Ou melhor, pra entender a outra pessoa.

Quando você não fala bem a língua e tem que se expressar e compreender pessoas se expressando nela constantemente, é inevitável que você melhore muito sua habilidade e compreender outros aspectos da comunicação além das palavras que estão sendo ditas. Isso, lógico, se relaciona super com o item anterior, o de saber o que a pessoa espera como resposta mesmo sem ter ideia de qual foi a pergunta. O fato é que, quando vc entende as palavras, vc acaba ignorando muitos outros aspectos da comunicação pq o significado das palavras têm prioridade no seu entendimento do que está sendo dito. Quando vc perde esse aspecto, vc tem que melhorar nos outros. É que nem aquilo de cegos serem muito bons de reconhecer sons e cheiros. Quando vc perde o sentido principal, os outros ganham uma importância tremendamente maior.

De novo, não quero cometer o erro de dizer que sou muito boa nisso – já que quase todo mundo acha que é. Não sei o quão boa eu sou nisso, só sei que sou muito melhor que antes de vir pra cá.

3. Respeitar pessoas diferentes

Isso com certeza não foram os alemães que me ensinaram, vale observar. Mas desde que eu vim pra cá eu passei a ter muito mais contato com pessoas de culturas e origens muito diferentes da minha. Fiz amigos muçulmanos, hindus, budistas. Não é que eu fiquei necessariamente mais tolerante que antes – eu sempre tentei ser tolerante. Mas a convivência diária realmente é o que te mostra que as pessoas no final das contas são todas muito parecidas, e o que muda é só o contexto e o passado delas, e ninguém simplesmente nasce mau ou bom. A convivência diária também faz com que você trate fatores que antes eram coisas inimagináveis e impensáveis pra você como normais e sem importância. Por exemplo, os hijabs, aquele pano que as mulheres muçulmanas usam para cobrir os cabelo. É uma coisa que antes de vir pra cá – por mais que eu me esforçasse em não julgar – eu via como necessariamente uma imposição, uma opressão, uma coisa que certamente qualquer moça independente dona de si imediatamente desistiria de usar na primeira oportunidade. Depois de fazer amizade com uma palestina muito querida, e conviver diariamente com alguém que em muitos sentidos é parecida comigo mas vem apenas de uma cultura diferente, o fato de ela usar ou não um pano na cabeça me parece a coisa mais sem importância possível. Porque isso me incomodava tanto, antes? Se a menina quer usar um pano na cabeça, usa, ué. Ela tava morando sozinha na Alemanha, fazendo um mestrado, a família na Palestina, quase nenhum muçulmano por perto, se ela continuou usando o hijab é porque ela quer, ué. Achar que a mulher não tem capacidade de crítica e de decisão também é machismo, ora.

Enfim. Essas coisas que quando estão totalmente fora da sua realidade parecem totalmente sem sentido, mas quando estão lá na sua cara de repente viram uma coisa boba.

Pra ser justa, acho que eu teria aprendido isso se tivesse ficado no Brasil também, uma vez que a quantidade de imigrantes lá – pelo menos em São Paulo da última vez q estive lá – aumentou pra caramba nos últimos anos! (Acho isso ótimo.)

4. Quem no Brasil realmente se importa comigo – e com quem no Brasil eu realmente me importo

Essa é clássica pra quem vai morar fora, mesmo que por um tempo relativamente curto. Eu já tinha percebido quando passei um ano na Itália fazendo intercâmbio. Quando você está fora, todo e qualquer contato com seus amigos só acontece se existe um esforço por trás. Lógico que dar um like ou outro no facebook não exige esforço. Mas contato, mesmo, contar da sua vida e querer saber da vida do outro e ele se interessar em saber da sua, isso exige um esforço extra. E o fato é que as pessoas só fazem esse esforço quando é com alguém que realmente importa.

Depois de 4 anos, eu sei exatamente quem no Brasil realmente se importa comigo – com sinceridade, porque gosta de mim, não porque está simplesmente curioso de saber como é viver na Alemanha ou, pior, que está curioso de saber como está a sua vida apenas porque está torcendo loucamente pra dar tudo errado, por inveja. (tem desses, também). E eu imagino que para os meus amigos de lá também (espero) tenha ficado bem claro o quanto eu me importo de fato, com sinceridade, com eles, e o quanto eu quero saber que eles estão bem e estão felizes. Depois de um tempo fora é inevitável, vc sabe exatamente quem são de fato seus amigos.

E mesmo a quantidade de comunicação com cada amigo é diferente. Tem uns que não são tão ligados nas internets quanto eu, e que portanto eu tenho menos contato. Mas não necessariamente isso significa que eles não se interessam ou não se importam, e mesmo com esses fica claro.

Priiiincipalmente quando você volta. Quando você vai viajar rapidinho e tem pouco tempo pra ver todo mundo. Aí fica óbvio pra TODO MUNDO (pra vc e pra eles) quem realmente importa pra quem, porque:
a) você não tem tempo pra ver todo mundo, então vc acaba limitando só aos realmente muito importantes, e sempre tem alguns que vc deixa pra trás que gostariam de ter sido lembrados

b) tem outros que você sugere encontrar e vc percebe que a pessoa fez zero esforço pra te ver naquelas semanas que vc passou lá, mesmo você tendo insistido.

(Lógico que eu estou falando aqui de amigos mais próximos. Tem vários amigos que são queridos, que eu gosto de saber que estão bem e estão felizes, mas não são necessariamente próximos o suficiente para eu marcar alguma coisa quando volto pro Brasil.)

5. Manter contato intercontinental

Bem relacionado ao item anterior. Mas uma coisa que você percebe quando está longe é que o contato físico é importante e que só emails e conversas no facebook não bastam para matar a saudade de alguém. O que isso significa é que receber cartas ou pacotes pelo correio têm um significado gigante quando você está fora. E embora seja pouco freqüente eu receber coisas pelo correio do Brasil, eu tento sempre enviar alguma coisa para os amigos mais próximos (às vezes alternando que o dinheiro não nasce em árvore, né). Principalmente no Natal eu tento sempre enviar alguma coisa. Às vezes você vê algo que te lembra muito alguém e aproveita pra mandar pro correio – sem nenhum motivo especial – e a pessoa fica profundamente contente de receber um presente inesperado seu vindo direto da Alemanha. Acho que essas coisinhas super ajudam a manter o contato com as pessoas de lá.

6. O preço de morar fora

Morar fora tem um preço que a gente não tem idéia de quão alto é até ter que pagar. Lógico que não estou falando de dinheiro. Tem coisas que não são segredo, que você sabe que vão ser assim e você sabe que vão ser difíceis. Mas essa dificuldade é muito vaga na sua cabeça antes de você passar por ela pra vc ter idéia dela de fato e ter noção de se o preço vale a pena. Isso você só descobre quando já está longe.

No final do ano passado minha avó materna faleceu, e estar longe naquele momento foi bem mais difícil do que eu imaginaria que fosse ser. Eu sabia que seria difícil perder uma avó querida, sabia que quando isso acontecesse eu provavelmente não teria como pular correndo num avião para chegar a tempo do enterro. Sabia dessa coisas. Mas não tinha ideia de como elas seriam difíceis de lidar. Minha avó se importava muito comigo e isso sempre ficou muito óbvio. Quando acontecia algum acidente em que a vítima era alguém da mesma idade e gênero de algum dos netos dela, ela imediatamente ficava toda preocupada que pudesse ser o neto em questão. Caiu um avião na Alemanha – “Ai, meu Deus, a Laís não estava nesse avião, não, né? Melhor ligar pra ter certeza!”. Na última vez que eu visitei ela, ela disse que se ela morresse (ela já estava bem mal) ela viria pra Alemanha me visitar. “Mas como você vai saber onde eu moro, vó?” “Ah, espírito sempre acha!”.

Quando ela faleceu eu não estava lá para me despedir, nem dela viva nem na hora do enterro. E o pior, todas as pessoas que estavam passando pelo mesmo que eu, que também estavam sofrendo com a morte dela, todas estavam longe. Eu percebi como o enterro/velório é mais que uma oportunidade pra se despedir da pessoa, mas é também uma oportunidade pra você encontrar e abraçar as pessoas que estão sofrendo com essa perda como você. Não ter tido essa oportunidade é algo que eu nunca teria imaginado que me chatearia tanto. É um dos preços a pagar por escolher morar longe.

Nessa semana nasceu minha primeira sobrinha, filha do meu irmão, e eu já estou planejando de ir visitá-los em Janeiro, mas é super decepcionante não poder ir lá no hospital logo depois do nascimento. E principalmente de saber que você não vai poder assistir a criança crescer e ter a oportunidade criar um vínculo forte com ela que você como tia gostaria de ter, de ir passear com a sobrinha uma vez por mês ou coisa do tipo, estar em todos os aniversários e momentos importantes, etc.

(Mas em minha defesa, se eu tivesse ficado no Brasil seria igual uma vez que meu irmão também mora fora)

7. A parar de achar que tudo aqui é melhor

É lógico que tem muitas coisas aqui que são bem melhores. Mas é uma ingenuidade imensa achar que TUDO aqui é MUITO melhor que no Brasil. Tem coisas melhores e coisas piores. Tudo depende do que é mais importante pra você. E a questão é que as coisas piores você só vai descobrir que são piores quando você estiver morando aqui de fato.

8. A não discutir problemas do Brasil com europeus

Outra coisa que eu parei completamente é de criticar o Brasil para europeus. Sério, se tem uma coisa que eles não precisam é mais motivo pra se acharem melhores que o resto do mundo. Eu deixo as críticas para discutir entre outras pessoas que também são de fora.

9. A ser direta, a me comunicar, a dizer o que eu quero.

Isso sim é uma coisa bem relacionada à Alemanha. Como já discuti em outros posts, os alemães são bem diretos, não fazem grandes cerimônias para responderem “sim” ou “não” de acordo com o que querem ou não querem. Isso é algo que eu incorporei e acho muito mais prático do que o nosso
“Você quer alguma coisa pra comer?”
“Não, não, tô bem, obrigada!” *morrendo de fome*
“Mas tem certeza?”
“Magina, não precisa se incomodar!” *morrendo de fome*
“Mas magina, não é incômodo nenhum, pega aqui um pedaço dessa torta que eu fiz ontem!”
“Não, magina, deixa aí pra vc comer mais tarde!” *morrendo de fome*
“Quê isso, eu não vou agüentar essa torta inteira, pega um pedaço!”
“Ah, mesmo, mas você não vai querer, depois?” *morrendo de fome*
“Não, pega, ó, vou cortar aqui um pedaço pra você!”
“Ah, tá, brigada então!”

10. A procurar amigos

Eu nunca tive nenhuma dificuldade super gigante em fazer amizades, mas também nunca fui mega sociável daquelas pessoas que conversa com qualquer um com a maior facilidade. Eu já escrevi um post sobre como fazer amizade com alemães no qual eu expliquei já na primeira linha que eu não sei como se faz amizade com alemães. Embora o post eu tenha escrito há dois anos atrás, a resposta para essa pergunta continua em aberto. Se alguém souber me avisa.

A verdade é que os alemães são bem diferentes nesse quesito, e o processo de fazer uma nova amizade aqui é uma coisa diametralmente oposta ao que a gente está acostumado no Brasil.

Nesses 4 anos o que eu percebi é que de longe o mais fácil é fazer amizade com americanos (do continente inteiro, não só dos Estados Unidos. Mas também dos Estados Unidos) ou com alemães que já moraram no continente americano. Na verdade foi bem surpreendente pra mim perceber o quão parecido a gente é com os americanos (agora falando dos dos Estados Unidos, mesmo) em vários sentidos e o quanto isso ajuda pra caramba a fazer amizade com eles. No momento meus amigos principais são ou americanos (EUA) ou sul-americanos, e uns poucos alemães americanizados (no continente, não necessariamente nos EUA).

Mas na verdade não era disso que eu queria falar, mas sim sobre como fazer amizades aqui. Ou melhor, como eu descobri como procurar amigos aqui.

Pra mim a solução apareceu só no ano passado. Existe um grupo de facebook especificamente para mulheres internacionais em Dresden, e foi lá que eu finalmente comecei a fazer umas amizades mais efetivas. Até então eu tinha alguns amigos, mas ninguém que fosse de fato muito próximo. Através desse grupo eu comecei a participar de coisas como clube de leitura, trabalho voluntário com refugiados, e outros eventinhos onde conheci pessoas muito legais e muito fáceis de conversar. Isso faz um ano. Ou seja, demorou 3 anos para eu realmente começar a fazer amizades aqui de fato, de pessoas q eu tenho certeza que mesmo que se eu voltasse pro Brasil ou elas para seus países, continuaríamos em contato.

Mas isso é completamente diferente dependendo das circunstâncias. Acho que a maioria dos brasileiros é bem mais sociável que eu e faz amizades com mais facilidade que eu. E quem vem pra cá estudar tb tem essa facilidade extra de fazer amizade com os colegas de classe. (Eu fiz um mestrado aqui mas era um grupo bem pequeno e acabou não rolando nenhuma amizade forte no grupo).

Outra coisa que ajudou PRA CARAMBA fazer amizade aqui: ir atrás de pessoas que pudessem cuidar dos meus gatos quando a gente viaja. A minha melhor amiga daqui é uma americana que eu conheci quando ela postou naquele grupo de mulheres internacionais perguntando se alguém podia cuidar do gato dela ou dos dois cachorros por um fim de semana. Aí nós montamos um grupinho de donos de bichos pra ter quem pedir ajuda pra cuidar dos bichos durante viagens, e através desse grupinho conheci mais um monte de gente legal.

 

É isso! Eis aqui uns posts relacionados:

10 costumes alemães que eu incorporei
10 costumes alemães que eu não incorporei
5 coisas do Brasil e da Alemanha que eu sinto/sentiria falta


(Publicado em 30 de Julho de 2016)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s