Portingalemão

Uma conseqüência inevitável de se mudar pra um país que fala outra língua é a mistura das línguas. Algumas misturas de língua têm até nome oficial, tipo o famoso Spanglish dos latinos nos EUA, o nosso portunhol ou portuñol entre sulamericanos, o Denglisch (Deustch + Englisch), etc. Mas quando vc está num país em que a língua é mais difícil que a média e vários dos estrangeiros não falam ou não aprenderam ainda a língua local, inevitavelmente acaba entrando uma outra língua na mistura, o inglês claro.

Esses dias eu olhei uma lista de coisas a fazer que eu tinha escrito rapidinho no trabalho, listando as coisas a fazer naquele dia, e notei que a lista estava uma mistura louca de alemão, inglês e português.

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A lista em questão

O curioso é que essa mistura nem é relacionada à sua fluência em cada língua. Acaba sendo uma questão de praticidade, mesmo. Então quando, por exemplo, eu escrevo algo que é só pro meu próprio uso, a mistura é inevitável, acabam saindo coisas em português, inglês ou alemão, dependendo da língua que estava na cabeça em cada momento.

Como estrangeiro morando na Alemanha, vc querendo ou não acaba usando muito o inglês – mesmo que seu alemão já seja fluente – pq é inevitável que vc tenha vários amigos que não falam nem alemão nem português. Então você acaba mesmo usando as três línguas regularmente.

Aí tem situações em que você não mistura: por exemplo se vc está conversando em alemão com um alemão: vc fala tudo em alemão, mesmo. Mas tem situações em que você mistura por questão de conveniência: se você está por exemplo conversando com outro brasileiro e vai usar alguma palavra específica que vc teria que inventar uma tradução pra poder falar em português pq é algo específico daqui. Aí vc acaba falando aquela palavra em alemão mesmo. Ou às vezes simplesmente pq vc tá falando rápido e não quer ficar toda hora parando pra pensar qual é a palavra naquela língua que vc tá falando, quando vc sabe que a pessoa com quem vc tá falando entende a outra língua também, então vai a primeira palavra que veio na sua cabeça e pronto!

De exemplo, peguei rapidinho aqui umas frases tiradas de conversas com outros brasileiros recentemente pelo face ou whatsapp:

“Alguém por aí que poderia me informar onde fica a loja portuguesa em DD que possa achar polvilho? Haltestelle? Danke
(Haltestelle = ponto de ônibus/tram)

“Fui numa Fahrschule aqui para me registrar para a prova escrita e a mulher me orientou ir ao Führerscheinstelle primeiro.. Vou lá amanhã.”
(Fahrschule = autoescola. Führerscheinstelle = o equivalente ao Detran)

“Em meißen eles vão começar a oferecer Ausbildung ano que vem, tem 2 vagas”
(Ausbildung = tipo um curso técnico de 3 anos para alguma profissão)

“Mas aí fiquei pensando q eu tô com horários malucos no Praktikum aqui, e se não tiver ninguém em casa vai derreter.”
(Praktikum = estágio)

Ou com outros estrangeiros:

“And there’s a Ferienwohnung right in front of the restaurant which is also good.”
(Ferienwohnung: apartamento de férias, pra alugar)

“Are you thinking Eis Becher or cone ice cream?”
(Eis becher: uns sorvetes gigantões todo produzidos)

“So now, even if the contract should end, the gesetzliche Krankenkasse has to then give you an option to stay as a freiwillig versicherter member which is loads cheaper than being in a private one.”
(gesetzliche Krankenkasse: seguro de saúde público. freiwillig Versicherter: segurado voluntário) (ainda preciso fazer um post sobre seguros de saúde, dá assunto pruns 10 posts…)

E algumas situações acabam ficando até absurdas: outro dia eu estava andando na rua com meu namorado e encontrei uma amiga brasileira. Começamos a conversar, os três. Ela falando em alemão, ele em inglês e eu em português. Os três falam as três línguas e por algum motivo essa mistura funcionou bem assim. Foi bem uma questão de tentar facilitar pro outro: ela estava falando alemão pq o meu namorado é alemão. Eu estava falando em português pq ela é brasileira. Ele falando em inglês pq ele não fala português tão bem e nenhuma de nós era alemã. Resultado: portingalemão.

(ou, se vc preferir, Portalinglês, Aleminportuguês, Aleportinglês, Inglaleportuguês ou Inportalemão)

Teve também outra situação bizarra: eu estava com um grupo de pessoas de países de língua espanhola num encontro dos alunos do curso de alemão. Eu aprendi espanhol na escola, e entendo razoavelmente bem – como não é difícil para qualquer brasileiro – mas não consigo falar praticamente nada em espanhol. E eles, lógico, estavam falando entre si em espanhol. Eu entendia o que eles falavam e respondia em alemão – que eles entendiam já que eram alunos do curso de alemão. E de alguma maneira a comunicação assim acabou funcionando. Também assim se comunica meu namorado quando estamos com um grupo de brasileiros. Ele entende razoavelmente o que está sendo dito, mas não consegue responder bem em português, então responde em inglês, mesmo.

E essa mistura também acaba sendo comum pra quem tá começando a aprender alemão. Quando você está aprendendo a língua, é comum você entender mais do que consegue falar porque muitas palavras vc ou conhece mas não lembra na hora de usar, ou não conhece mas entende o significado pelo contexto. Então em um determinado momento, é comum vc entender bastante mas não conseguir falar quase nada, e acaba se comunicando com outros alemães nesse modo bilíngue: eles falando em alemão e você respondendo em inglês.

Eu acho bem interessante ver como as pessoas se arranjam pra se comunicar.

Eu já escrevi um post grande sobre a relação dos alemães com a sua língua (escrito em um momento de frustração). Esses dias também me veio na cabeça uma analogia muito boa pra essas questões de língua: quando você está tentando falar alemão num grupo de alemães, é como se você tivesse jogando uma partida de Scrabble em que todos os outros jogadores têm um set inteiro de letras pra jogar e você tem só as 8 que as regras do jogo permitem. E aí os outros te perguntam porque você não está se divertindo com o jogo, e quando você explica o quão injusto é o jogo eles te dizem “ah, mas vc está indo tão bem com essas letras que vc tem! Se você jogar mais 100 partidas você ganha mais uma letra! É só jogar bastante que vc vai juntar todas as letras, também!”

scrabble

Mas o que isso tem a ver com o portingalemão?

A questão é que os alemães vão o tempo todo fazer uma pressão louca pra vc aprender alemão perfeito o mais rápido possível. É lógico que é importante vc aprender a língua do lugar que você mora, se vc quer ter uma vida normal e participar 100% na sociedade não tem como sem saber a língua. Mas essa pressão constante e exagerada não ajuda em nada – só te deixa mais frustrado e se sentindo culpado quando vc escolhe falar com alguém em inglês em vez de alemão, ou ler alguma coisa traduzida em vez do original alemão, ou assistir um filme alemão com legenda, sei lá.

E isso eu acho inaceitável. Eu acho que a prioridade é se conseguir se comunicar o melhor possivel.

Eu falo alemão razoavelmente bem, trabalho num escritório onde não falo inglês com ninguém, só alemão, e de uma maneira ou de outra funciona. Às vezes é frustrante, às vezes eu me comunico aos trancos e barrancos, e às vezes é tudo lindo e perfeito. Mas de uma maneira ou de outra, funciona. Mas com meu namorado, que é alemão, eu falo a maior parte do tempo em inglês. E TUDO BEM que seja assim. Eu ouço muuuuuita crítica dos alemães (críticas discretas) de que eu deveria falar só em alemão com ele. Mas por quê? Os dois falam inglês fluentemente e com facilidade. Eu me viro em alemão, mas ainda é um esforço constante com vários momentos de frustração. É a analogia do jogo de Scrabble. Por que eu teria que passar por isso o tempo todo, jogar o jogo com as regras injustas constantemente com meu próprio parceiro, na minha própria casa? Na minha casa eu falo a língua que eu quiser. A única pessoa no mundo que pode me dizer que língua eu tenho que falar com meu namorado é meu namorado. Se ele dissesse que não quer mais falar inglês pq pra ele é um esforço e é frustrante, aí a gente ia ter que falar ou alemão ou português, ou os dois. Mas se os dois estão satisfeitos assim, porque as pessoas acham que têm que me dizer em que língua a gente tem que falar na nossa própria casa?? Acho isso o cúmulo. E isso é seeeeempre assim com qualquer casal internacional, as pessoas vão sempre te pressionar pra falar a língua do outro e te fazer sentir culpa por escolher a língua que for mais confortável para os dois.

Também recentemente, conversando com a minha professora de alemão, comentei que participo de um clube de leitura. Ela perguntou em que língua são os livros e eu disse que são em inglês. Ela passou daí a me falar que eu deveria ler em alemão, pq se aprende a língua muito mais rápido, blábláblá. Eu leio bastante, leio muitos livros. Às vezes eu leio em alemão também. Mas a maioria dos livros que eu leio ainda é em inglês ou português, já que em alemão eu ainda leio muito mais devagar, e não entendo 100%, e não é  a mesma coisa. Então às vezes eu leio em alemão, e às vezes, não. E TUDO BEM. Mas ela me criticou muito e falou que eu tinha que ler só em alemão! Como assim? Minha vida tem que se tornar um constante exercício, um constante treino, até eu falar alemão 100%? Eu não posso fazer nada simplesmente pelo prazer de fazer aquilo, eu tenho que fazer tudo no formato exercício-aprendizado-de-língua? Eu leio porque eu gosto de ler, e eu quero entender o que estou lendo. Não quero o tempo todo ter que ficar olhando o que significa aquela ou essa palavra, ou tirar do livro apenas uns 60% do que eu poderia ter tirado se tivesse lido numa língua em que sou mais fluente. Ler na língua que você quer aprender de fato ajuda pra caramba – aliás foi principalmente lendo que eu aprendi inglês. Mas não dá pra querer que a pessoa faça APENAS isso. Essas coisas me incomodam pra caramba.

Outra coisa que me incomoda profundamente (isso não acontece mais, mas no começo). No começo quando meu alemão era mais ou menos, freqüentemente alguns alemães falavam pra mim que só iam falar alemão comigo pq eu precisava treinar. Eu acho uma coisa super paternalista a pessoa decidir POR VOCÊ que você precisa treinar. Tudo bem, em várias situações eu queria de fato falar em alemão pra treinar. Mas em outras, eu queria me comunicar. Em outras situação eu queria, sei lá, discutir a legalização do aborto, ou a situação política do Brasil, ou sei lá que outro assunto polêmico e difícil que nem em sonho eu conseguiria discutir em alemão com o vocabulário que eu tinha. E eu acho uma atitude muito paternalista do meu interlocutor – se ele fala inglês perfeitamente bem – me obrigar a me comunicar com ele APENAS na língua nativa dele que pra mim ainda é super difícil! Por que não deixar eu escolher quando eu quero treinar a língua e quando eu quero me comunicar plenamente? Eu não sou nenhuma criança, não é você que define todas as regras da nossa relação, sabe? Não é assim que funciona.

Então tudo isso é pra falar que: tudo bem misturar as línguas. Tudo bem se você precisar falar um portingalemão ou um Denglisch com alguém porque sua fluência na língua ainda não é suficiente. E se vc quiser mudar e falar só em inglês pq naquele momento sua prioridade é comunicação, e não treino, tudo bem. Ninguém tem que te criticar por isso. É importante se esforçar pra aprender alemão, lógico, mas todo mundo tem seu tempo, todo mundo aprende no seu tempo, ninguém aprende de um dia pro outro. É importante se esforçar e procurar situações em que você possa praticar, mas se em algum momento você não quiser praticar, porque você está cansado, porque você está frustrado, pq vc não quer se sentir constantemente como uma criança de 3 anos conversando com advogados e juristas: TUDO BEM. Não deixe que outras pessoas te façam sentir que você está fazendo algo errado porque não está falando/lendo/escrevendo/ouvindo alemão CEM POR CENTO do seu tempo aqui.

(Ai, volta e meia eu vou escrever um post sobre alguma coisa que eu achava que era bobinha e acaba saindo o maior desabafo, no post!)


(Publicado em 26 de Junho de 2016)

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