Comprando (e doando) roupas na Alemanha

No fim de semana passado fomos comprar algumas roupas novas, e eu prestei atenção em várias coisas que são diferentes do Brasil no tópico comprar roupas, e achei que dá um post.

Talvez a primeira coisa a se discutir é onde comprar roupas na Alemanha. Não que tenha muita diferença. A opção mais em conta são as grandes lojas como C&A, H&M e Primark. Primark é de longe a mais barata, os preços são tão absurdamente baixos que vc fica se perguntando como eles fizeram pra produzir aquilo e vender por aquele preço e ainda obter lucro. Suspeito que a resposta não é nada boa. Por isso por aqui a maioria das pessoas que pode evita comprar nessas lojas – não é nenhum segredo que as roupas são produzidas em países onde os empregados são extremamente mal-pagos e vivem em condições de semi-escravidão. Mas também é verdade que não é todo mundo que pode pagar roupas em lojas fair-trade mega ecologicamente e socialmente corretas e insanamente caras, então também não julgo quem acaba se rendendo às lojonas mega baratas… Primark nesse sentido é a mais barata (sério, tem que procurar muito lá pra achar alguma peça de roupa por mais de 10 euros) e a “pior” no sentido de salários, origem das roupas, direitos trabalhistas, etc. Um pouco melhores são a C&A e a H&M, também ainda bem baratas mas não tanto quanto a Primark. A próxima opção em termos de preço seriam lojas grandes de outlet como a TK Max. Depois, as redes grandes mas não tão em conta que vc encontra em qualquer shopping tipo, sei lá, M Office, Sinn Leffers, e várias outras que existem no mundo todo.

Aliás shoppings mesmo não são suuuper comuns. Lógico que tem alguns, mas não é um a cada esquina. Aqui em Dresden, por exemplo, só tem 3. Mas em todas as cidades têm sempre umas enormes ruas comerciais, só para pedestres, com todas as lojas que também têm em shoppings como lojas de rua.

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Prager Straße, a principal rua comercial de Dresden.

E uma opção que os alemães gostam muito são as lojas de rua mais alternativas. Tem muitas, e também está aumentando muito o número de lojas que atraem os alemães mais social ou ecologicamente corretos, lojas fair-trade, ou, sei lá, tem até loja de roupas veganas. Mas, lógico, essas são todas super caras… Mas tem algumas dessas lojas de rua de marcas alternativas que não são super caras e têm roupas bem bonitas e diferentes… essas são as lojas que eu mais gosto.

E pros alemães mais alternativos mas vivendo de bolsa de estudo, brechós são uma opção bem atrativa.

Mas em lojas de roupas uma coisa que é bem diferente aqui são os trocadores. Os trocadores em si não são diferente, mas a atitude dos alemães em relação a trocadores: não tem nenhuma frescura em termos de separar trocadores femininos e masculinos. Na grande esmagadora maioria das lojas eles são unisex. Se a loja for maior e tiver seções masculina e feminina grandes o suficiente, certamente haverá um provador numa seção e outro na outra. Mas ninguém vai achar estranho se vc for provar as suas roupas no provador da outra seção, até porque é super comum por exemplo você moça ficar sentada nas cadeiras/sofás exatamente na frente dos provadores masculinos enquanto seu marido/namorado experimenta as roupas e te mostra, ou ao contrário.

E também ninguém presta atenção na quantidade de roupas que vc leva pro provador. As únicas lojas que eu já vi em que rola um sistema de cartões com o número de roupas que você está levando pro provador – que nem é comum em qualquer loja grande no Brasil – foram na Primark e na TK Max. Mas mesmo em outras lojas grandes como a C&A e H&M não é assim, ninguém presta atenção se você está saindo do provador com o mesmo número de roupas em cabides que quando entrou.

E outra coisa que está começando a mudar aqui é que quando as lojas (principalmente as maiores) estão começando a cobrar por sacolas. Em supermercados já é super raro as pessoas não levarem sua própria sacola, e isso é uma diferença bem gigante em comparação ao Brasil: no Brasil as pessoas tem uma necessidade por saquinho que MEUDEUS. Vc vai numa farmácia comprar um ESMALTE e te dão um saquinho. Qualquer coisa tem que ter um saquinho que AIDEMIMTERQUELEVARESSACOISAQUEEUACABEIDECOMPRARASSIMNAMÃOEXPOSTASPARATODOS OUENTÃOCOLOCARNAMINHABOLSA/MOCHILA/BOLSO/SACOLAPRÓPRIA! Aqui é bem normal, por exemplo, vc ir no supermercado comprar uma ou outra coisa e levar pra casa na mão mesmo, sem nenhuma sacola. Sacolas em supermercados costumam ser pagas, mas em outras lojas que dão sacolas gratuitas pras suas compras (tipo, sei lá, uma livraria por exemplo) seeeeempre te perguntam se você precisa de sacola no caixa antes de já ir te dando uma sacola. Bem frequentemente as pessoas não precisam e não pedem. E agora nas lojas de roupas maiores estão começando a cobrar por sacolas, também.

Ok, abordamos tudo o que se refere a comprar roupas. Mas e para desfazer-se delas? O que os alemães fazem com roupas velhas que não querem mais?

As duas opção mais comuns são ou deixar as roupas numa caixa na frente do portão de casa, ou colocar em contâiners de doação de roupas que tem espalhados pela cidade.

Deixar coisas que você não quer mais mas podem ainda ser úteis pra alguém numa caixa na frente de casa é bem comum por aqui – pelo menos aqui no bairro onde eu moro, onde tem muitos jovens. Eu escrevi um post só sobre esse assunto aqui. Mais comum é doar livros ou coisas de cozinha (pratos, etc) nessas caixas, mas volta e meia eu vejo umas com roupas também. Não sei se funciona muito bem, eu particularmente acho meio nojento, sei lá (embora não veja problema em comprar roupa em brechó). Mas pode ser frescura minha, os alemães são bem desligados com essas coisas.

A outra opção, os containers de doação de roupas, você encontra por todo lado na cidade, normalmente próximos aos outros contâiners de lixo (vidro e papel). São containers normalmente do exército da salvação, cruz vermelha ou outras organizações similares. O que acontece com as roupas depende do container. Não são todos de ONGs, tem também containers de redes de brechós, por exemplo, e nesse caso as roupas doadas são apenas revendidas em brechós! Bem estranho, isso, mas não é muito fácil de controlar: algumas roupas doadas em containers são até roubadas por pessoas que então revendem. E nem todos os containers que tem por aí são legais, alguns estão lá ilegalmente.

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Stefan Flöper / Wikipedia

Para se certificar que as suas roupas velhas serão doadas a quem de fato precisa, e não revendidas para o lucro de quem as coletou de graça, o mais recomendado é entregar as roupas diretamente em centros de coleta de organizações em que você confie – por exemplo você pode doá-las em campos de refugiados, ou para a cruz vermelha diretamente. Doar nos containers é pouco recomendado porque você realmente não sabe o que vai acontecer com a roupa – se ela vai ser revendida pelo próprio dono do container ou roubada dos containers para ser revendida. As que são revendidas acabam, quando em boa qualidade, sendo revendidas em países da europa oriental ou, quando em má qualidade, em países africanos. Certamente não era a sua intenção ao doar suas roupas velhas…

Mesmo as organizações que de fato doam as roupas para pessoas que precisam têm que vender uma parte para pagar o processo de organização e seleção das doações. Felizmente na verdade não há falta de roupas doadas: as organizações que trabalham com pessoas necessitadas (tipo a cruz vermelha) têm muito mais doações (de roupas) que a demanda. Isso eu posso confirmar: no ano passado trabalhei um tempinho de voluntária num campo de refugiados ajudando a organizar as roupas doadas, e tinha realmente muuuuuuuuuuuuita, mas muuuuuuuuuita roupa lá, muito mais do que todas as pessoas do campo conseguiriam usar. Ainda bem! =) Então mesmo essas organizações às vezes revendem as roupas para levantar dinheiro para as outras necessidades. Em 2013, por exemplo, a Cruz Vermelha juntou 3.5 milhões de euros com roupas doadas, que são então revertidos para outros projetos da organização. Acho que o ideal é doar direto na Cruz vermelha ou doar em containers específicos da Cruz Vermelha (ou alguma outra organização que você confie). E, claro, não comprar roupas que você só vai usar uma vez e depois jogar fora… =)


(Publicado em 24 de Abril de 2016)

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