Escritórios alemães – Parte 1

O tópico de como é trabalhar na Alemanha é um sobre o qual eu ainda não falei muito no blog. Esse post já faz um tempo que eu tô pra escrever, mas sempre que eu tento acabo desistindo porque nunca sei se as coisas que eu acho diferentes aqui são mesmo gerais ou particulares do escritório em que eu trabalho.

Então, se você também trabalha na Alemanha e tiver uma experiência totalmente diferente da descrita nesse post, compartilha nos comentários pra gente saber que nem todos os alemães são estranhos! =)

Minha experiência é com escritórios de arquitetura, que são normalmente escritórios pequenos, de no máximo 10 pessoas. Certamente tem muitas coisas muito diferentes em empresas grandes. Eu conheço aqui quatro escritórios, dois para os quais eu fiz alguns trabalhos temporários, o no que eu estou trabalhando há alguns meses, e o no qual meu namorado trabalha. Vou tentar falar de coisas mais genéricas, e não específicas de escritórios de arquitetura, até porque eu quero também fazer um post sobre a prática de arquitetura na Alemanha em breve.

A primeira coisa que eu notei por aqui foi que as pessoas não trabalham ouvindo música. Nos escritórios em que trabalhei no Brasil, sempre ficava o rádio ligado com música de fundo, ou então se não tivesse música de fundo, todo mundo ficava ouvindo a própria música no fone de ouvido. Música no trabalho dá pra viver sem, mas certamente faz bastante falta. A princípio, até dá pra levar seu fone e ficar ouvindo música, mas dado que ninguém faz isso e volta e meia seu chefe ou algum colega vem falar com você sobre qualquer coisa do trabalho, fica meio chato.

Acho que um dos motivos pra isso é que toda hora toca o telefone. Direto. No Brasil, normalmente tinha só o telefone geral do escritório, e normalmente quem ligasse falava com o chefe (lembrando, novamente, que estou falando de escritórios pequenos, de 5 a 10 pessoas). Aqui, mesmo em escritórios pequenos, é comum cada pessoa ter seu próprio ramal e falar diretamente com os clientes, fornecedores, etc, relacionados aos projetos em que está trabalhando.

A diferença que pra mim é mais estranha é ser chamada pelo sobrenome. No meu escritório, o chefe chama todo mundo pelo sobrenome e pela forma formal de tratamento Sie, mesmo quem trabalha com ele há mais de 10 anos. Já os colegas se tratam pelo primeiro nome e por du, entre si. Ficar trocando entre Sie (Senhor/a) e du (você) ainda gera uma certa confusão pra mim, principalmente pra conjugar os verbos de acordo. Mas isso também varia de escritório pra escritório. No do meu namorado, todo mundo se trata por du, mesmo com os chefes. Acho assim mais fácil, até porque eu ainda acho muito estranho ser chamada pelo sobrenome. E com outros profissionais que trabalham com você só que não no mesmo escritório, como os fornecedores, clientes, etc, todo mundo sempre se trata pelo sobrenome e Sr. ou Sra. Sempre sempre.

Outra diferença importante aqui é a quantidade insana de burocracia. Pra tudo, tudo, tudo, tem um papel, um documento, um contrato, um formulário, um comprovante. Em qualquer escritório – e isso eu tenho certeza que é geral em 100% das empresas alemãs – tem uma quantidade infinita de pastas exatamente assim:

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Juro, exatamente assim. Se você me disser que encontrou um escritório na Alemanha que não tem PELO MENOS umas 20 dessas pastas exatamente assim, eu te direi que você ou cruzou a fronteira pra algum país vizinho e não percebeu, ou não viu todos os cômodos do escritório – talvez as pastas estejam no porão. Mas em algum lugar elas estão.

Já falei sobre isso nesse post aqui, os Alemães são muuuuito noiados com papel, eles guardam TU-DO. No escritório do meu namorado, até pouco tempo atrás eles chegavam ao exagero de imprimir TODOS os emails que o escritório recebia para guardar nessas pastas!!!!!

E esse exagero acho que se expressa bem em desperdício de papel. Talvez eu que seja noiada com isso, mas eu sempre guardo qualquer pedaço de folha em branco pra usar pra alguma coisa, e folhas usadas só de um lado eu sempre uso de rascunho. Rascunho eles até usam, mas o que é desperdiçado de papel com a plotter, por exemplo, pra mim é dolorido de ver.

E no tema computadores, tem umas diferenças grandes também. Aqui é bem comum usar mac. Claro, várias empresas, provavelmente ainda a maioria, usa windows, mesmo. Mas em muuuuuuitas se usa mac. Principalmente em escritórios de arquitetura têm vários que usam Apple. O que no Brasil é raríssimo, na minha experiência.

E a questão da internet é outra coisa: alguns escritórios bloqueiam a internet TOTALMENTE. Ok, isso talvez seja raro, mas num dos escritórios em que eu trabalhei, e no escritório em que um amigo meu trabalha, simplesmente não tem internet nos computadores. Não é que o facebook ou o gmail são bloqueados: simplesmente não. Tem. Internet. Quer dizer, o programa de email com o email do escritório tem, mas o browser é totalmente bloqueado. Nesse escritório que eu fiquei temporariamente, tinha um computador no escritório todo com internet pra caso você precisasse pesquisar alguma coisa específica. Isso eu acho totalmente inviável hoje em dia. Não sei de outras profissões, mas como arquiteta eu preciso da internet direto – olhar coisas no google maps, pesquisar esse ou aquele detalhe construtivo, pesquisar materiais, fornecedores… não tem como trabalhar direito sem internet.

Fora que para um escritório tão pequeno – aquele tinha umas 6 pessoas além dos dois chefes – é uma mega falta de confiança por parte dos chefes bloquear a internet. Sabe, pra quê? Isso acaba criando um clima ruim na empresa em que em vez de trabalhar junto, você tem a impressão de que o chefe está contra você. Isso acabava naquele escritório se traduzindo de outras maneiras também: ninguém conversava absolutamente nada durante o trabalho, ficava todo mundo trabalhando em silêncio como zumbis nos seus computadores sem internet. Credo.

E falando sobre trabalhar junto e colegas: aqui as pessoas não fazem happy hour com os colegas da empresa! Pelo menos nos escritórios que eu conheço realmente não tem isso. A confraternização entre os colegas acontece de outras formas: por exemplo sempre que tem aniversário de alguém, aí ou o aniversariante traz um bolo pra todo mundo, ou rola um almoço com os colegas, etc…

Outra coisa que não é rara é um almoço “comunitário” onde um cozinha para todos. No escritório do meu namorado, às sextas, sempre um cozinha macarrão para todos, cada semana um dos colegas que cozinha. No escritório de um amigo, que é num lugar meio afastado sem restaurantes por perto, todo dia alguém cozinha pra todo mundo. Pra quem não se adapta bem à comida duvidosa alemã, como eu, algo assim seria um pesadelo!

Ok, ainda dá pra escrever várias outras coisas, mas o post já está muito grande, então o resto ficará para uma parte 2.


(Publicado em 4 de fevereiro de 2016)

 

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