Dez costumes alemães que eu não incorporei

Esse post é continuação do post anterior, onde eu mencionei 10 costumes alemães que já incorporei no meu dia-a-dia e nem parece mais que já foi diferente. Nesse post, vou falar de 10 costumes alemães que eu ainda não incorporei (porque é difícil!) ou que acho que jamais incorporarei (pq não fazem o menor sentido!)

Vamos lá…

DEZ costumes alemães que eu total NÃO incorporei

1 – Se reunir pra mostrar foto da sua viagem pros seus amigos que não estavam lá
Vou colocar esse primeiro porque acabei de ter que agüentar outra dessas situações. Os alemães A-DO-RAM chamar os amigos pra mostrar as fotos da viagem. Eu gosto de ver foto de viagem alheia. No facebook, no flickr. Onde eu decido quanto tempo eu olho cada foto, passo rapidão se não achar graça, olho mais tempo se for interessante… Mas eventos assim, com o fulano mostrando uma por uma as fotos da viagem, e contando as coisas que aconteceram naquele dia que pra ele são muito interessantes mas pra você totalmente aleatórias eu acho insuportável!

“Ah, aqui a gente tava tirando foto dessa montanha, aí chegou um grupo de japoneses e começou a tirar foto e foi muito chato.” *muda pra próxima foto, aparecendo o amigo em questão* “Mas aí a gente aproveitou e pediu pra eles tirarem foto da gente, e aí foi bom, porque no final ficou super boa essa foto, e a fulana tava olhando pro lado, mas ficou bem engraçado, e…”

“Aqui essa árvore que aparece aqui nessa foto é a que aparece aqui nessa outra foto meio de ladinho, ó, essa daqui, tá vendo? Aí ali do lado é que era nosso hotel, e aí essa árvore dava pra ver da minha janela, então eu lembro muito bem dessa árvore, que eu achei bem bonita uma hora que parou uns pássaros coloridos em cima, só que eu não consegui fotografar os pássaros, então ficou só a árvore, mesmo.”

Ah, não, gente. Os alemães adoram isso. Acho que eles devem gostar de assistir, também, se não não mostrariam, né? Sei lá. Em algumas situações tudo bem, até faz sentido. Por exemplo os meus sogros mostrando as fotos da viagem deles pro Brasil. Aí tudo bem, eu quero ver e conversar sobre as fotos que eles tiraram no meu país, faz sentido. Mas um amigo x mostrando as fotos mal tiradas da viagem aleatória que ele fez pra uma praia sem graça não sei aonde…Eu gosto de olhar as fotos de viagens alheias. No facebook. Posta lá que eu olho, comento e curto, e ainda acho bem legal. Mas slideshow, sei não. Aliás, isso nos leva para o próximo item:

2 – Não ter facebook / não ter nenhuma rede social / não se comunicar pela internet a não ser por email
Os alemães não são as pessoas mais comunicativas desse mundo. Tudo bem, nós brasileiros somos HÍPER-MEGA-SOCIÁVEIS-AO-EXTREMO. Não é que eu queira que os alemães fiquem o tempo todo conectados no facebook e no whatsapp que nem eu. Mas sabe quando bloquearam o wpp no Brasil, outro dia? Se fosse aqui, aposto todos os euros que eu tenho que os alemães nem. teriam. percebido. Sério. Se bloquear o facebook, então. Vai passar totalmente batido pra eles.

Diferente de nós, os alemães não tem necessariamente contas no facebook. Alguns tem. Outros não. Não é esquisito, pra eles, que alguns amigos não tenham facebook. Os que tem raramente colocam o nome de verdade, lá, normalmente eles colocam um nome inventado qualquer, por paranóia com privacidade. E os que têm facebook postam coisas muuuuuito raramente. Talvez entre os mais jovens, adolescentes, seja diferente, não sei. Mas entre as pessoas da minha geração, entre 25 e 30 anos, os poucos amigos alemães que têm facebook postam algo ou comentam/curtem coisas tipo umas 3 vezes por ano, talvez.

Isso pra mim é meio impensável. Não pelo facebook, em particular. Mas estar conectado o tempo todo é algo que é normal pra mim já faz bastante tempo. E principalmente depois que eu vim morar aqui isso passou a ser mais importante ainda, pra manter contato com as pessoas do Brasil que importam pra mim. Se eu e meus amigos no Brasil fossem tão ausentes da internet quanto os alemães são, com certeza eu já teria perdido contato com quase todos meus amigos nesses quase 4 anos que estou na Alemanha. E aliás, é meio isso que acontece com o meu namorado: os amigos de faculdade dele quase todos estão morando agora em outras cidades, e ele só fica sabendo deles tipo uma vez por ano quando muito. Não dá pra manter contato só por email, sabe. Isso exige você parar pra escrever um email específico para uma pessoa. Pelo face a pessoa posta lá alguma coisa da vida dela, vc vê, acha legal, acompanha… ainda que você não comente por algum motivo qualquer, você tá lá acompanhando e se sente próximo da pessoa dessa maneira. Isso pra mim é bem importante, sentir que estou de alguma maneira acompanhando a vida dos amigos mesmo estando longe.

Aqui nesse post eu falei um pouco sobre essa relação esquisita que os alemães têm com a internet.

3 – Esbarrar nas pessoas e não pedir desculpas
Bom, esse costume eu espero nunca incorporar. Não sei se em todas as regiões da Alemanha é assim, mas pelo menos na Saxônia as pessoas são grossas, que meu Deus. Não apenas esbarram em você e não pedem desculpas, em lugares cheios eu tenho a impressão honesta de que as pessoas não fazem o MENOR esforço para NÃO esbarrar em você. Você tá lá no caminho? E daí? Vou passar mesmo assim. Whatever.

Credo. Melhorem, alemães, melhorem.

4 – Achar que sanduíche é ou com queijo ou com presunto
Isso aqui não faz o menor sentido. Mas às vezes você quer comer uma coisinha qualquer, sabe, tipo um misto quente, ou até mesmo um misto frio, só pra disfarçar? Não. “Misto” é um conceito que os alemães ainda não incorporaram. Ou o pão é com queijo, ou o pão é com presunto, ou o pão é com salame. Todos terão tomate e pepino. Mas queijo E presunto, ou queijo E salame? Impensável. Quando eu estava escrevendo minha dissertação e passava o dia na biblioteca, não tinha almoço na cantina, só uns sanduichinhos frios e coisinhas assim. Às vezes eu almoçava lá e pra não comer um pão só com queijo ou só com salami, comprava dois, um com queijo e um com salame e “misturava” o conteúdo dos pães. Só assim.

5 – Lavar a louça fechando o ralo da pia
Os alemães têm uma maneira muito particular de lavar a louça. Pelo menos pra mim é particular. Eles fecham o ralo da pia e enchem a pia de água, tipo como quem vai deixar alguma coisa de molho. Mas aí eles lavam a louça assim, com a água ali parada. Imagino que seja a maneira que eles encontraram de lavar a louça usando pouca água, não sei. Mas eu juro que NÃO SEI como se lava a louça assim! Tá, pra lavar os primeiros dois pratos tudo bem, mas e aí? A água já tá suja e nojenta, COMO que lava a louça com água suja, gente???? Juro que pra mim é um grande mistério. Não sou a favor de lavar a louça esbanjando água, eu sempre fecho a água quando estou passando detergente na louça, etcetc. Não acho, de verdade, que lavar a louça como eu lavo gaste mais água que lavar a louça desse jeito curioso alemão…

Por sorte, quase toda casa alemã tem máquina de lavar louça, então não tenho nem que lavar a louça do meu jeito causando estranheza aos alemães, nem que observar, indignada, essa maneira absurda de lavar louça.

6 – Não ter ralo geral no banheiro e o piso dentro do box ser elevado em relação ao resto do banheiro

Os alemães não são muito bons de banheiro, sei lá. Ok, isso não é bem um costume, mas uma maneira como eles constroem suas casas, ou mais especificamente, seus banheiros. Mas aqui é assim: normalmente o chuveiro é dentro da banheira, com só uma cortininha pra separar a área do banho do resto do banheiro. E quando tem um box de fato, ou um chuveiro que não seja sobre a banheira, aí o piso da área do chuveiro é ELEVADO em relação ao resto do banheiro! Gente, isso não faz sentido nenhum, e se a água escorre pro resto do banheiro? E pra fazer tudo ficar ainda mais absurdo, NÃO TEM RALO GERAL nos banheiros!!! não tem ralo geral! Tem ralo na pia, tem ralo na banheira, tem ralo no box. Mas um ralo geral não tem! Tudo bem, eu entendo que não precise lavar o banheiro com uma mangueira de água, como muita gente no Brasil faz. Basta um pano úmido, e pra isso não precisa de ralo. Justo. Só que e quando escorre um monte de água do box ou mesmo da pia por algum motivo qualquer? Quer dizer, é uma área molhada, isso pode acontecer. Isso, na verdade, aconteceu ontem mesmo. Estava tomando banho num box e não percebi que o ralo estava meio entupido com cabelo. E a água estava acumulando. O box era bem fechado, então enquanto a porta estava fechada, estava tudo bem. Mas aí quando eu abri a porta, toda a água que eu não percebi que estava acumulada no chão escorreu de uma vez só pro banheiro, cujo piso está mais baixo que o do box, claro. Sem ralo pra onde empurrar a água, a única maneira de secar o banheiro foi com pano, torce o pano na pia, põe o pano no chão, torce o pano na pia, põe o pano no chão, torce o pano na pia… Não, algo aí não tá certo.

7 – Abrir a janela quando está muito frio lá fora
Eis algo que os alemães A.DO.RAM fazer. Abrir a janela pra entrar um “arzinho” quando tá DEZ GRAUS NEGATIVOS LÁ FORA.

“Não, mas tem que abrir um pouquinho, se não junta umidade na janela e aí estraga sei lá o quê”
“Mas tem que trocar o ar, não sei o quê etcetc”
“Não, mas tá muito quente aqui dentro, deixa entrar um arzinho.”
“Mas tá com cheiro forte da comida que a gente comeu agora, deixa sair um pouco o cheiro.”

Ok, só que não enquanto eu tô sentada do lado da janela, sabe!!

8 – Usar pantufas
Isso tem a ver com o costume que eu mencionei no outro post, sobre não usar sapato em casa. Eu já acostumei a sempre tirar o sapato antes de entrar em casa. Mas nunca me acostumei a usar pantufas. Os alemães (ok, não todos, mas muitos) fazem mór questão de umas pantufinhas. Invariavelmente eles te oferecem pantufas emprestadas se você está visitando. Mas eu tô de meia, sabe, não vejo porque pantufas. Quando eu não tô de meia, tá, uso havaianas. Mas não pantufas. E os alemães não sacaram, ainda, a praticidade das havaianas.

9 – Não necessariamente responder “tudo” quando alguém pergunta “tudo bem?”
No Brasil a gente fala “tudo bem?”. Aqui, os alemães perguntam “tudo bem?”. É uma pergunta, assim, de verdade, e tal. Não precisa responder “tudo”. Pode responder “não muito, viu”, “ah, mais ou menos”, “não mesmo”, “tô péssima!”. Pra gente tudo bem é tipo “bom dia”, não é uma pergunta de verdade. Isso eu ainda não consegui me acostumar. Se alguém me pergunta “tudo bem”, eu respondo automaticamente “tudo”, independente de qualquer coisa. É a resposta automática. Tipo “bom dia.” “bom dia.”. “Tudo bem?” “Tudo”.

Outro dia mesmo eu percebi o quanto é automático pra mim responder tudo quando tive o seguinte diálogo:

“Oi, Laís, tudo bem?”
“Tudo, só que minha vó faleceu ontem, tô bem triste.”

Não tava tudo bem. Minha vó tinha falecido. Eu estava (ainda estou) bem triste com o fato. Mas o “tudo” foi totalmente automático. “Tudo bem, mas tô super triste.”

10 – Não confiar em datas de validade
Uma coisa quase totalmente sem utilidade para os alemães são datas de validade. Eles ignoram datas de validade completamente. Ontem mesmo a gente comeu uma gelatina que tinha perdido a validade em 2011. Não sei, na verdade, como são as pessoas no Brasil em relação a datas de validade. Mas quando eu vejo que passou a data de validade, eu jogo o negócio fora. Sei lá, prefiro não arriscar. Passou a data de validade, vai que eu morro?

Os alemães eles olham, cheiram, experimentam, procuram no google e só aí decidem se é melhor jogar fora ou se podem comer. Ninguém morreu da gelatina de 2011, podia mesmo comer. Eles falam que é obrigatório por lei para todos os produtos, ter data de validade. Só que algumas coisas não perdem a validade tipo nunca. E mesmo assim eles têm que pôr uma data, lá. Aí eles meio que ignoram totalmente a data e tentam descobrir de outras maneiras se podem ou não podem comer.

O meu namorado chega ao extremo de se perguntar se dever tomar determinado REMÉDIO que perdeu a validade. Isso eu proibi. Não, gente, remédio fora de validade você JOGA FORA, não fica se perguntando se tudo bem, pelo amor de Deus…

Ok, acho que já deu! Esses são só alguns costumes estranhos que eu depois de quase 4 anos ainda acho estranhos, alguns dos quais eu provavelmente acharei estranhos pelo resto da vida (Sanduíche tem que ser com queijo E presunto, gente, acordem!!!).


(Publicado em 29 de Dezembro de 2015)

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5 comentários

  1. Essa da data de validade aqui tb é assim. Não vale muito. Inclusive nas cestas básicas vêm diversos produtos “vencidos” mas que estão perfeitos para consumo. Então eu resolvi totalmente incorporar esse negócio de ignorar a data de validade, a não ser talvez algo mais “perigoso” como uma maionese ou um remédio, como vc disse. Fora isso, uma avaliada visual e olfativa é o suficiente! 🙂

  2. Oi, sou Ilma, carioca. Em junho vou passar na Alemanha de ferias, encontrei agora seu blog. Estou adorando, me divertindo com seus posts. Parabéns.

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