Dez costumes alemães que eu incorporei

Uma coisa de se mudar (ou passar muito tempo) num lugar diferente é que aos poucos, algumas coisas que antes pareciam totalmente estranhas para você passam a ser normais. Várias coisas que no começo eu achava totalmente sem sentido aqui hoje me parecem totalmente normais e eu até esqueço que outra coisa diferente já foi o normal.

Ultimamente andei pensando em algumas dessas coisas, então resolvi escrever um post com 10 costumes diferentes alemães que eu já incorporei totalmente, e 10 outros que eu ainda não incorporei ou acho que jamais incorporarei!

Não costumo fazer posts desse tipo, mas às vezes é legal!

DEZ costumes alemães que eu já incorporei total!

1 – Natal que dura 3 dias.
Ok, isso nao é exatamente um costume, mas foi isso que me fez pensar no assunto desse post. Aqui na Alemanha, dia 26 de Dezembro é feriado também, e chamado de  “segundo dia de Natal” ou “segundo feriado de Natal”. Como eles comemoram o Natal principalmente na véspera, dia 24, o Natal acaba tendo 3 dias. Acho bem esperta, essa idéia! Dia 24 não é feriado oficial, embora muita gente não trabalhe. Aliás, outro feriado dobrado é a Páscoa. Tanto a sexta-feira antes da Páscoa – sexta-feira santa – quanto a segunda-feira seguinte são feriados. Também é o segundo dia de Páscoa, segunda-feira. Segunda-feira é tão Páscoa, ainda, que eu fui perguntar agora pro meu namorado como chamava esse dia, e o seguinte diálogo seguiu:
“Sabe a segunda-feira depois da Páscoa?”
“Ahm? Como assim?”
“Ué, a segunda feira. Depois. Da Páscoa.”
“Ué, tem alguma coisa na segunda feira depois? Só sei da segunda-feira DE páscoa.”
“… É, isso. Como chama?”
“Segunda-feira de páscoa”
“Ok, esquece.”.

Com o Natal é a mesma coisa, inclusive, se vc disser para alguém, por exemplo “vamos nos encontrar no dia seguinte ao Natal?”, pode ter certeza que a pessoa vai marcar o encontro pro dia 27 de Dezembro!

Não sei se eu incorporei totalmente esse “costume”, mas dia 26 quando algum amigo no Brasil comentou que ia ter que trabalhar já no dia 26, eu brevemente pensei “ué, mas é feriado!”

(Até porque aqui quase ninguém mesmo trabalha em domingo e feriado, é proibido abrir lojas nesses dias! Aliás, outra coisa que eu incorporei: lembrar de fazer as compras para o Sábado porque no Domingo fecha tudo! Mas não vou fazer um item pra isso.)

2 – Passar muito rápido pelo caixa, especialmente em supermercados.
Esse aqui é SUPER importante. Muito mesmo. Os alemães CORREM no caixa. É tudo muito rápido, vc põe as suas compras na esteira o mais apertado possível, logo atrás já vem o próximo com as compras seguintes, etc. Quando chega no caixa, o caixa vai passando os produtos mega rápido, fecha a compra e já começa a passar o próximo cliente independente de você já ter ou não terminado de empacotar as suas compras. E se você ficar enrolando com isso, todo mundo vai te olhar feio que você está lá atrapalhando os outros. Normalmente se você não conseguiu terminar de colocar suas compras nas sacolas antes de pagar, você paga, e leva o resto para o balcão atrás do caixa (tem sempre tipo uma mesa-balcão para situações assim) e termina de empacotar lá sem atrapalhar o caixa e os outros clientes que estão com pressa. Sério, é tudo muito rápido.

E para pagar é a mesma coisa. O ideal é você chegar no caixa com o dinheiro já pronto, que se você ficar na hora ali contando moedinha uma por uma, pode ter certeza que vão te olhar feio, e, dependendo da falta de paciência do caixa (que não são as pessoas mais simpáticas que você vai encontrar pela Alemanha), suspiros impacientes, roladas de olhos para cima e sons diversos denotando desaprovação. Chega com o dinheiro contado na mão ou paga logo com uma nota de 50 euros ou cartão. Porque além de tudo, você é que vai ser considerado o mal-educado da história, se ficar lá enrolando.

Esse costume eu incorporei totalmente. Já peguei a manha de ser rápida no caixa, e da última vez que fui pro Brasil, fiquei me mordendo pra não perder a paciência nas vezes em que fui no supermercado, com a lentidão de todo mundo em pegar produto por produto, colocar leeentamente na sacola, procurar beeem devagar as moedinhas uma por uma… E aliás, isso nos leva ao próximo item:

3 – Não ter sacolinha pra cada grão de arroz que você compra
Os alemães são muito econômicos com sacolinhas plásticas. Ou melhor dizendo, nós é que somos extremamente esbanjadores de sacolinhas plásticas. No Brasil, você vai numa farmácia e compra um esmalte e eles te colocam numa sacolinha plástica. Você nem tem a opção de não ter a sacolinha, porque a pessoa do caixa passa o esmalte – ou o que for – no leitor de código de barras e já põe direto na sacolinha. Nem dá tempo de dizer “não precisa”. Aqui você rapidamente esquece esse exagero de sacolas plásticas. Em lugares como farmácia, lojas menores, eles só te dão uma sacola se você pedir especificamente por uma. Às vezes eles perguntam. Supermercados atê têm sacolinhas plásticas gratuitas mas elas são MUITO toscas, bem pequenas e super finas. É raríssimo alguém usar as sacolinhas disponíveis, raro mesmo. Normalmente as pessoas trazem suas próprias sacolas, ou, se tiver esquecido, compra uma decente reutilizável de pano ou de papel. Quando a gente esquece as sacolas de pano a gente ou compra uma de papel no supermercado, que é bem útil pra juntar o lixo de papel (veja o próximo item!), ou leva as coisas em caixas.

Aliás, sobre caixas nos supermercados: você não precisa pedir uma, basta pegar qualquer uma que já esteja vazia. Tem dois tipos de supermercado, os mais caros, tipo Rewe e Konsum, e os de desconto, tipo Aldi, Lidl e Netto. Esses últimos são os mais comuns e freqüentes, e o que a maioria das pessoas usa no dia-a-dia. Os preços são mais baixos, mas os produtos não são diferentes, a diferença maior é que tem algumas coisas mais “especiais” que você não encontra nesses supermercados, e também que eles são mais “bagunçados”. Então por exemplo, em vez de tirar os produtos da caixa e colocar bonitinhos na estante, eles colocam a caixa aberta com os produtos direto na estante.

Daí as caixas vazias. Quando as pessoas pegam todos os produtos daquela caixa, ficam lá sobrando as caixas vazias, que você pode pegar, se quiser, pra colocar suas compras. A gente faz isso com freqüência quando compramos nesses supermercados de desconto até porque eles normalmente não têm cestinha, só carrinho, e a gente raramente faz compras em grandes quantidades. Então a gente acaba pegando caixa também para carregar as coisas enquanto está fazendo as compras.

4 – A maneira de separar o lixo
Aqui separa-se o lixo, mas não é isso especificamente que eu incorporei – já que eu já separava o lixo antes – mas sim a maneira particular de separar o lixo. Aqui tem um lixo para recicláveis (embalagens, principalmente) (amarelo), um lixo orgânico (marrom), um lixo para papel (azul), e um lixo para outros (preto). E vidro só pode jogar nuns contâiners em locais específicos. Separar dessa maneira já ficou totalmente automático, agora. Sempre que você está num lugar diferente, tipo a casa de outra pessoa, e você precisa jogar algo no lixo, vc não pergunta “onde fica o lixo?”, você pergunta “onde fica o lixo reciclável?” ou “qual que é o lixo orgânico?”. O curioso é que o lixo reciclável é amarelo, mas eles às vezes chamam ele de “Der Grüne Punkt”, ou “o ponto verde”. Esse ponto verde é o símbolo de lixo reciclável, que é verde, esse aqui:

Todos os produtos que têm esse símbolo em algum lugar da embalagem (às vezes em preto e branco) vão no lixo com tampa amarela. Só que às vezes, por exemplo em restaurantes, eles têm só dois lixos, um para recicláveis e outro para as outras coisas. E aí às vezes eles marcam os dois com plaquinhas dizendo “Grüner Punkt” e “Sonst” (outros) ou algo similar.

E assim o lixo amarelo acaba às vezes sendo chamado de Ponto Verde. Não é daltonismo, não.

Para saber melhor sobre como funciona a separação de lixo e reciclagem na Alemanha, tem esse post aqui que explica tudo direitinho.

5 – Ficar sem sapato e sem casaco em casa
Aqui na Alemanha todo mundo tira o sapato antes de entrar em casa. Quer dizer, depois de entrar, mas antes de entrar nos outros cômodos. Nas casas e apartamentos você entra sempre em um hall de entrada, nunca direto na sala. Lá as pessoas deixam seus sapatos e casacos. O casaco, óbvio, pq quando tá frio fora dentro tem aquecimento. O sapato pra não sujar o chão. Especialmente quando tem neve, você chega com o sapato cheio de neve que vai derreter nos próximos minutos e criar uma poça de água suja embaixo. Nada que você queira na sua sala de estar.

Você se acostuma totalmente a tirar o sapato e o casaco assim que chega em casa. O casaco, aliás, você se acostuma totalmente a tirar quando chega em qualquer lugar. Qualquer tipo de jaqueta, mesmo que seja mais fina porque está só fresquinho, todo mundo sempre tira quando chega num lugar fechado. Se você continuar usando seu casaco ou jaqueta, as pessoas vão achar BEM estranho e perguntar porque você está fazendo algo tão sem sentido. Tira esse casaco e pendura ali na entrada antes que te olhem estranho!

6 – Fechar o zíper do casaco
E já que estamos no tema casacos e inverno, outro “costume” que você logo incorpora por aqui: fechar o zíper do casaco/jaqueta. Eu coloquei costume entre aspas porque isso não é um costume, é uma coisa totalmente normal que faz todo sentido. Casaco não funciona se tiver aberto, gente. A gente não sabe disso antes de viver um inverno de fato. Casaco de inverno, ou mesmo uma jaqueta mais fina, são a prova de água e vento, e é isso principalmente que faz com que o casaco te deixe quentinho, porque não entra aquele vento gelado. Obviamente isso só funciona se você fechar o casaco. Mas no Brasil a gente não tem inveeeeerno inverno de verdade, muito menos casaco de verdade, e aí a gente não sabe que casaco é pra fechar. É sempre assim: se você vir um brasileiro passeando por aqui no inverno (se estiver só viajando), a pessoa tá sempre com o casaco aberto. No maior frio. Gente, fecha o casaco. Você vai sofrer bem menos com o frio.

(Eu ouvi muita “bronca” do namorado no começo “mas fecha esse casaco, tá o maior frio!” “Mas eu não tô com frio na barriga, tô com frio sei lá onde!” “Mas não importa, se você deixa o vento frio entrar, não vai esquentar nunca!”)

7 – Atender o telefone falando seu nome
Um outro costume típico que eu já incorporei é atender o telefone falando meu nome completo, ou só o sobrenome. Aqui todo mundo sempre atende o telefone falando o nome inteiro ou sobrenome. Nome inteiro = nome + sobrenome. Se você tiver muitos nomes, não precisa atender falando “Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, alô?”, basta “D. Pedro I, alô?”.

É bem prático já saber quem atendeu o telefone quando você liga na casa de alguém, por exemplo. No Brasil se você pergunta o nome da pessoa que atendeu antes de dizer quem é, as pessoas ficam muuuuito ofendidas e desconfiadas!

8 – Tratar desconhecidos por sr./sra. + sobrenome
E falando de nomes e sobrenomes, uma coisa que primeiro é muuuuito estranho por aqui, e depois fica meio normal, é usar os sobrenomes das pessoas que você não conhece. Todas as pessoas que você ou não conhece, ou não é próximo, você trata sempre pelo sobrenome e a forma formal de tratar as pessoas, Sie. Eu ainda acho totalmente estranho meu chefe me chamar de Senhora e usar meu sobrenome toda hora, e aliás em geral ainda acho muito estranho ser tratada pelo sobrenome. Mas esses dias recebi um email de banco do Brasil, e a pessoa – que eu não conheço e com quem nem nunca falei – me tratou pelo primeiro nome e se apresentou com o primeiro nome. Totalmente normal no Brasil. Mas ao responder o email, eu me senti totalmente estranha dizendo “Boa tarde, Ana!” pra alguém com quem eu nunca nem falei! E me deu um ligeiro medo de que ela se ofendesse, mesmo sabendo que eu não estava fazendo nada de estranho. Mas você realmente se acostuma a tratar desconhecidos pelo sobrenome.

9 – Deixar as pessoas saírem antes de entrar no metrô/trem/tram
Hehe, talvez esse item seja mais uma esperança de que isso vai um dia ser assim em São Paulo… Mas aqui as pessoas de fato esperam os passageiros saírem do metrô antes de entrarem. Até dão espaço, esperando do ladinho da porta. É tudo tão mais fácil assim, queria tanto que isso fosse assim em SP!

10 – Não oferecer comida
Uma coisa que os alemães fazem muito raramente, e os nós fazemos quase sempre, é oferecer o que você tá comendo para as pessoas em volta. Os alemães só oferecem quando é, sei lá, um pacote de bolachas, algo assim que tem na embalagem várias daquela determinada comida. Oferecer, digamos, o prato que você pediu no restaurante pra outra pessoa experimentar é uma coisa totalmente estranha, aqui. Não tem nada de errado em pedir pra experimentar, se você quiser, mas oferecer do nada ninguém oferece. Isso eu incorporei tanto que me incomodo demais quando estou com brasileiros ou no Brasil e me oferecem para experimentar o que estão comendo. Agora acabo achando isso muito estranho – se eu quiser eu peço, oras. E algumas pessoas no Brasil não apenas oferecem, mas insistem MUITO até se convencerem de que você realmente não quer. Nossa, isso me incomoda muito! Que é aliás outro costume que eu incorporei: não insistir quando alguém disser não, e dizer sim tranquilamente quando quiser dizer sim para algo que me foi oferecido.

Também escrevi um post sobre essa história de oferecer/aceitar/insistir aqui.

 

Ok, foi bem difícil fazer essa lista, porque tem mais um monte de coisas que daria pra mencionar, e mais um monte de coisas que eu vou lembrar daqui a 10 minutos e achar que deveria ter escrito também! Mas pronto. Só que como o post já está gigante, vou deixar os 10 costumes que eu ainda não incorporei ou acho que jamais incorporarei para postar amanhã num post parte 2!


(Publicado em 28 de Dezembro de 2015)

Anúncios

3 comentários

  1. Isso dos caixas do supermercado várias pessoas falam, e eu sabendo disso, deixei de ir ao mercado. Já não estava tendo uma boa experiência, não precisava de pessoas olhando feio para mim, ainda mais sem falar alemão (aliás, os alemães olham muito para os “diferentes”; eu me sentia e era muito observada, e me sentia muito desconfortável. Li em algum lugar que os alemães se sentem vigiados mesmo quando não o são, e era assim que eu me sentia: vigiada). Voltando: realmente, os caixas aqui no Brasil e as pessoas tendem a ser vagarosas, mas nem tanto ao mar nem tanto à terra. Para que uma pressa tão doida dessa? O que mais me irrita aqui é que em alguns mercados já não há empacotadores, e os clientes ficam esperando as atendentes de caixa empacotarem os produtos, sendo que nem é obrigação delas.
    Sigo o canal de uma brasileira que mora na Alemanha e ela disse que não gosta de ficar só de meia na casa das pessoas, ela acha esse hábito chato. Mesmo que às vezes ofereçam pantufas. Agora eu não tiraria um casaco fino só por que iriam achar estranho, não.
    Tratar desconhecidos pelo sobrenome + Sr.ou Sra. é comum nos EUA também e na Inglaterra. No Brasil não usamos, e eu acho melhor assim. Já não basta o famigerado “senhora” e “senhor” usado por toda e qualquer empresa, que virou uma praga. Agora até em filas comuns, a pessoa atrás te chama de “senhora”. Na certa porque trabalha numa empresa assim e acostumou.
    Acho que perguntar o nome de quem atendeu é bem nada a ver, porque quem liga tem que pedir para falar com quem quer, e para isso não precisa saber quem está falando. Não acho ofensivo, mas sempre achei chato.
    O item 09 é bem comum em países minimamente civilizados, e é o esperado, né? Minha mãe me ensinou isso quando eu era criança, e serve para elevadores também. Assim como em ônibus onde todos descem juntos (os de aeroporto, por exemplo) o certo seria os que estão em pé descerem primeiro. Mas quem está sentado logo se levanta e está feita a bagunça.
    Quanto à comida, eu não acho estranho que me ofereçam, acho estranho me pedirem ou colocarem a mão no meu prato para pegar um “pedaço”. Oferecer comida é normal no Brasil, é meio que uma questão de educação para nós, mas também não acho deseducado não oferecer. Eu detesto dividir comida, então se ofereço é apenas por educação, e torcendo para que a pessoa não aceite. rsrs Mas também não peço a comida dos outros nem espero que me ofereçam.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s