A relação dos alemães com a língua alemã

Uma coisa definitivamente frustrante sobre morar na Alemanha é, claro, a língua. Não porque ela seja particularmente difícil. Sim, é difícil, mas certamente bem mais fácil que muitas outras línguas. O que torna a experiência frustrante é a relação dos alemães com a língua alemã.

Eles gostam demais da própria língua.

Você deve estar pensando que ué, não tem nada de errado nisso. Eu também gosto bastante de português. Normal gostar da sua própria língua, não é?

Claro. Só que a maneira como as pessoas lidam com pessoas que aprendem ou estão em processo de aprendizado da sua língua é variada. E a maneira como as pessoas se dispõe a tentar entender outras pessoas em outras línguas que não a sua própria também é bem variada.

Já antes de vir para Alemanha essa relação dos alemães com sua própria língua me incomodava bastante. Eu morei na Itália por um ano e lá fiz alguns amigos alemães e austríacos. E quando esses falantes nativos de alemão estavam juntos, mesmo que com outras pessoas que não entendiam nada de alemão, eles falam alemão entre si e não faziam o menor esforço em te incluir na conversa. Em várias situações em que eu estava em um grupo onde a maioria presente era falante nativo de alemão, eles se comunicavam só em alemão, excluindo da conversa, sem a menor cerimônia, eu e os outros não-alemães presentes.

E nas primeiras vezes que eu visitei o namorado na Alemanha, antes de morar aqui, passei por várias situações semelhantes. Entre amigos dele, fosse um grupo pequeno ou grande, ninguém fazia o menor esforço para me incluir na conversa sabendo que eu não entendia uma palavra de alemão. Mesmo todos sendo perfeitamente capazes de falar inglês, ninguém se dava ao esforço. E eles não achavam nem um pouco estranho nem se sentiam nem um pouco mal de te excluir completamente da conversa. É quase como se você, não falando alemão, se tornasse completamente invisível.

Aos poucos, especialmente durante meu primeiro ano aqui, fui aprendendo alemão até chegar em um ponto de fluência em que conversas cotidianas não são mais problema. Mas mesmo já podendo participar das conversas ainda sinto demais os problemas dessa relação que os alemães têm com a própria língua.

Essa exigência que os alemães fazem com os estrangeiros aqui de falar e entender alemão perfeitamente independente do tempo que vc teve para aprender acaba sendo uma maneira discreta mas muito efetiva de várias pessoas extravasarem sua xenofobia. Mesmo quem não é particularmente anti-imigrante e não tem necessariamente nada contra estrangeiros acaba revelando muito da sua xenofobia escondida quando se discute a necessidade de falar alemão.

É necessário falar alemão para viver na Alemanha? Óbvio. É necessário para um estrangeiro aprender alemão se quiser viver aqui? Necessário é, mas essa é uma questão bem relativa. Ninguém aprende uma língua de um dia pro outro. Alemão não é uma língua fácil, e para quem nunca aprendeu outra a não ser a própria língua nativa, ficar fluente em uma língua nova é um processo bem demorado. E isso é uma coisa que me parece que os alemães não estão dispostos a entender. Claro, há excessões. Mas eis um exemplo que ilustra muito bem esse problema: numa conversa entre colegas de trabalho sobre refugiados, uma mulher estava contando que foi em um evento sobre refugiados em que um jovem sírio contou a sua história. O rapaz tinha 17, 18 anos, chegou na Alemanha há uns 2 anos, e, segundo a pessoa que estava contando a história, falava alemão perfeito. Ele estava contando que nos últimos anos fez o colegial aqui na Alemanha, sem problemas, mas ao terminar o curso, não foi autorizado a participar do Abitur – a prova nacional de ensino médio que te dá acesso à universidade, algo mais ou menos equivalente ao ENEM. A mulher que estava contando essa história disse que não sabia porque ele não podia fazer a prova. Então os outros colegas em volta começaram a discutir a situação tentando imaginar qual poderia ser o motivo. A conclusão imediata, automática, foi de que provavelmente ele não sabia alemão suficiente. Vai ver – concluíram os alemães – que é necessário um determinado certificado de alemão para fazer a prova, que ele não conseguiu obter. Confusa com essa conclusão curiosa, questionei: “ué, mas você não disse que ele falava alemão perfeito?”. A resposta: “Bom, ele falava alemão muito bem, mas vai ver ele não escreve alemão bem o suficiente e por isso não passou na prova de língua”.

Quer dizer.

Um estrangeiro estava contando que não podia fazer o Abitur que lhe daria acesso à universidade. Segundo a narradora da história, ele falava alemão perfeito. E AINDA ASSIM a conclusão imediata dos alemães presentes era de que se ele não podia fazer o Abitur, devia ser quase com certeza porque ele não sabia alemão suficiente.

Burocracias complicadas referente aos direitos dos refugiados? Leis injustas para estrangeiros? Não, nada disso passou pela cabeça como possibilidade. O problema certamente era a incapacidade do menino – que falava alemão perfeito – de falar alemão. Coerência zero.

Isso para mim ilustra bem a questão: os alemães acham que para viver aqui é necessário falar alemão PERFEITO. E que qualquer coisa que você não consegue, como estrangeiro, qualquer acesso que você não tem, certamente é porque você não fala a língua suficientemente bem. Entendem o problema?

É praticamente impossível atingir um nível de perfeição em uma língua estrangeira aprendida depois de adulto. Mesmo que você fale a língua muito muito bem, seu vocabulário vai sem dúvida ser menor do que o de alguém que aprendeu a falar falando aquela língua. Sua pronúncia nunca vai ser totalmente perfeita. Nenhum estrangeiro que aprendeu alemão depois de adulto será capaz de falar alemão – gramática, vocabulário e pronúncia – melhor que um alemão. A grande maioria vai falar um alemão suficiente, mas com uma forte pronúncia e vocabulário reduzido. E ISSO TUDO BEM. Só que a língua vai sempre ser uma maneira dos alemães extravasarem discretamente sua xenofobia e insistir que é porque você não fala alemão bem o suficiente que você não consegue as coisas aqui.

Meio do gênero: “ah, não tenho nada contra estrangeiros virem morar aqui. Mas tem que falar alemão perfeito.”. Ou seja, a pessoa diz pra si mesma que não tem nada contra, mas impõe uma barreira intransponível. E não se dispõe ao menor esforço para ajudar o outro a transpor essa barreira.

Claro que não são todos os alemães que são assim. Muitos alemães – principalmente pessoas mais jovens e que já moraram um tempo em outro país e sabem o sufoco que é se comunicar diariamente em uma língua estranha – não exigem de ninguém uma pronúncia ou compreensão perfeita de alemão para respeitá-los igualmente. Muitos se esforçam pra te ajudar com a língua e não se incomodam com seus erros. E, claro, é bom lembrar que a minha frustração é muito relacionada ao fato de eu morar em Dresden – uma cidade com relativamente poucos estrangeiros, onde as pessoas têm pouquíssima convivência e tempo de convivência com pessoas de fora no seu dia-a-dia. Certamente em muitas cidades grandes da Alemanha Ocidental a experiência é bem diferente, e as pessoas são bem mais tranqüilas em relação à língua.

E, mesmo aqui em Dresden, acredito mesmo que isso melhore aos poucos nos próximos anos, com mais e mais pessoas indo morar no exterior, e mais pessoas vindo do exterior morar aqui.

Mas de uma maneira ou de outra, uma dica importante para quem está querendo vir morar na Alemanha: aprende alemão. Corre, faz curso, estuda, se esforça, porque não falar alemão vai complicar demais pra você ser aceito por aqui.


 

(Publicado em 22 de Dezembro de 2015)

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