Bicicletas e a polícia

O que tem uma coisa a ver com a outra, você está se perguntando?

Eu já escrevi vários posts sobre pedalar na Alemanha (esse, esse também, mais esse, esse aqui e esse outro), mas recentemente, passei por três situações diferentes que eu achei que calhariam contar no blog, e talvez combinem bem num post. Um post sobre bicicletas e a polícia.

Como eu já devo ter mencionado em algum dos outros posts sobre bicicletas, é obrigatório para ciclistas terem farol na frente e atrás da bike a noite. Isso não é novidade, nem diferente: no Brasil é obrigatório também. Mas desde que eu cheguei me avisaram que por aqui isso é levado a sério e você pode mesmo ser parado pela polícia e multado se seu farol não estiver funcionando. Então eu sempre me certifiquei que as luzes estavam em ordem, mas nunca tinha me acontecido de me pararem ou de ver algum policial parando ciclistas sem farol. Até outro dia.

O meu farol dianteiro tinha queimado, e eu demorei um pouco pra trocar porque era verão e só escurecia depois das 21h, e normalmente esse horário eu já tinha voltado pra casa. Alguns dias aconteceu de eu voltar depois de escurecer, e eu super preocupada com o farol, olhando ansiosa pra cada carro de polícia que passava achando que eles poderiam me parar e me multar a qualquer momento. Mas não aconteceu nada e eventualmente eu comprei uma lâmpada nova, troquei, e tudo bem.

Só que o fio que liga a lâmpada à roda (é daqueles faróis que acendem com a energia produzida pela roda) estava (ainda está) meio com mal contato e às vezes o farol apaga e eu preciso dar uma mexidinha de leve no fio para ele voltar a acender. Lógico que a única vez na vida que eu passei por um policial parando bicicletas foi num desses momentos em que o farol apagou por causa do mal-contato do fio.

O policial estava numa esquina fazendo justamente isso: olhando as bicicletas que passavam e parando aquelas que estavam irregulares por um motivo ou outro. Ele me parou e perguntou se eu sabia que o farol da frente não estava funcionando. Eu respondi que estava sim, era só um mal-contato que fazia com que ele apagasse de vez em quando. Lógico que quando testamos – ele segurou a bicicleta e eu girei o pedal pra ligar o farol – não funcionou. Testamos umas 20 vezes e nada… E eu insistindo “não, mas eu troquei na semana passada, é só um mal-contato, eu tenho certeza que está funcionando, não pode ser!!”
Aí ele foi checar a de trás e LÓGICO que nessa situação o farol de trás TAMBÉM resolveu não funcionar. Por que, né, seria muito fácil se tudo funcionasse como devia. E o policial falando “mas como assim, uma bicicleta tão nova e você não troca o farol… não pode, é perigoso, bláblá…” “Mas eu troquei, eu juro que está funcionando!!”.

Ele falou que a multa para cada farol que não estava funcionando era 10 euros, e eu teria que voltar empurrando a bicicleta… Aí, inconformada com os faróis, eu falei que ia dar uma volta ali na esquina num círculo pra ver se funcionava. Pronto, foi só pedalar de verdade que os dois faróis voltaram a acender… Ele deu ok, e eu fui embora bem aliviada, que os 20 euros teriam feito falta.

Então taí, eles fiscalizam mesmo. Na ocasião era no final do verão, quando começa a escurecer mais cedo, e já é mais freqüente que as pessoas pedalem a noite também. Então acho que nessa época eles fiscalizam com mais freqüência, até pra algumas pessoas multadas servirem de exemplo pra todo mundo ir consertar logo seus faróis antes do outono e inverno, quando escurece beeeem mais cedo.

Primeira dica: não ande a noite sem faróis.

A segunda experiência com bicicletas e a polícia foi um pouco menos feliz. Eu estava outro dia saindo tranquilamente da biblioteca quando encontrei um amigo – também brasileiro – meio sem saber o que fazer: a bicicleta dele tinha sido roubada, ali na frente da biblioteca. Era uma bicicleta super boa que ele tinha trazido do Brasil, achando que aqui poderia usá-la tranquilamente sem medo de roubo… só que não.

Ligamos para a polícia, que nos disse que teríamos que fazer um B.O. ou online ou numa delegacia. Foi até bem fácil fazer o B.O. no site da polícia, apesar de que precisamos de uma ajudinha alemã pra entender tudo o que estava sendo perguntado no formulário. Coisas importantes que eles perguntam: uma descrição da bicicleta – se você tiver foto melhor ainda; algum número de registro (tipo um número do chassi pra bicicletas, que fica gravado em algum lugar do quadro, costuma ter nas bicicletas daqui, imagino que nas do Brasil também); e se você tem um documento que comprove a compra da bicicleta. Isso é um detalhe que se você comprou uma bicicleta usada, meio tosca, você certamente não tem, e eu acho que se eles encontrarem a bicicleta roubada mas você não puder provar que é sua porque não tem esse documento de compra, suspeito que eles não devolvem ela pra você, não…

Então se você comprar uma bicicleta nova, ou semi-nova, boa e cara, certifique-se de guardar ou exigir o documento de compra pra poder provar que ela é sua!

Então segunda dica: cuidado onde você deixa sua bicicleta, se ela for boa vale a pena investir num cadeado mais seguro. Os melhores que tem aqui, pelo que eu sei, são esses assim:

ou assim:

E são super caros, por volta de uns 80 euros por um cadeado bom. E mesmo assim, não deixe sua bike em locais com pouca visibilidade e com pouco movimento (ou use uma toscona qualquer que se roubarem tudo bem).

A terceira experiência com bicicletas e as autoridades (dessa vez não foi a polícia) aconteceu no fim de semana passado. Eu deixei a bicicleta de manhã na estação de trem, e voltei para buscá-la a noite. Quando cheguei, tinha o seguinte adesivo na minha bicicleta:

2015-09-29 14.45.18

Na verdade ele não tinha sido colocado na minha bicicleta mas em alguma outra do lado, e a pessoa quando buscou tirou o adesivo e jogou na minha bicicleta. É um adesivo da prefeitura, e está dizendo a bicicleta já está lá há vários dias, e não é permitido deixar sua bicicleta em locais públicos por tempo indefinido. O aviso informa que se você não retirar a sua bicicleta até dia 8 de outubro, eles vão “guinchar” a bicicleta e aí você (se quiser buscar a bicicleta na prefeitura depois) terá que pagar uma taxa pelo trabalho deles de quebrar o cadeado, retirar a bicicleta e guardá-la até você ir lá buscar. Está marcado com a data de 15 de setembro, então eles te dão umas três semanas pra descobrir esse aviso lá na sua bicicleta e retirá-la, bastante tempo. O adesivo é de plástico pra não estragar na chuva e dessa cor agradável pra você ver bem de longe. Eu olhei as outras bicicletas paradas por ali e algumas outras tinham esses adesivos colados no quadro.

Como era na estação de trem, devem ter várias pessoas que deixam a bike lá e vão viajar e voltam sabe-se lá quando, e tal. O que eu não sei é como que a prefeitura consegue controlar quais bicicletas já estão lá há muito tempo e devem receber avisos pra retirar… Será que eles fotografam o local e chegam de tantos em tantos dias? Me parece tanto trabalho…

Então, terceira e última dica: não deixe sua bicicleta por muitos dias seguidos num local público.

E isso. Bicicletas dão vários posts mesmo.

Anúncios

3 comentários

  1. Bem interessante seus posts sobre bicicletas, Lais. Eu estranhei o fato das bicicletas poderem andar no mesmo espaço dos pedestres, e sempre me assustava quando elas vinham. O sinal para atravessar a rua de bicicleta serve só para quem está de bicicleta? O pedestre tem que aguardar o sinal exclusivo pra ele, mesmo que não tenha ninguém de bike? Fiquei com essa dúvida. Ah, e é verdade que os pedestres podem ser multados se atravessarem no sinal vermelho?
    Outra dúvida: tem uns cilindros de ferro nas ruas, e eu vi que para o carro passar ele aciona alguma coisa que faz esse cilindro baixar. Na verdade, não sei se é automático ou se o motorista tem algum dispositivo como se fosse um controle de portão. Uma vez vi um motorista que não esperou baixar por completo e bateu nesse cilindro. Começou a escorrer água, então acho que era um hidrante. Você sabe dizer como funciona esse esquema de baixar/subir e se é hidrante mesmo?
    Achei o trânsito mais agressivo do que eu imaginava, na Alemanha, os carros param nas faixas e tudo, mas senti uma certa pressa neles (claro que não se compara à agressividade do trânsito brasileiro, que está cada dia pior); e apesar do transporte público eficiente e do grande uso de bicicletas, tive a impressão de que eles gostam bastante de carro. Na cidadezinha que visitei um dia, tinham poucas pessoas nas ruas, mas passava carro toda hora, e sempre correndo. Também achei que o sinal fica pouquíssimo tempo aberto para o pedestre, e bastante tempo para os carros. Tem que colocar sebo nas canelas na hora de atravessar as ruas.
    Coincidentemente vi um vídeo semana passada, de uma brasileira que também mora na Alemanha, que só não foi multada por causa do farol apagado porque um homem a avisou. Acho que ela esqueceu, ou estava distraída, algo assim. Logo adiante tinha um policial multando os ciclistas com farol desligado, e ela escapou por pouco.
    Espero que seu amigo consiga recuperar a bicicleta dele, mas deve ser meio difícil, não? =/

    1. Oi Jussara,
      Esses cilindros que abaixam são só pra fechar o espaço para carros não-autorizados, como por exemplo num estacionamento privativo onde só quem trabalha no prédio pode estacionar. Aí quem pode estacionar tem um controle pra baixar o cilindro, como um portão automático. A água escorrendo deveria estar vindo do próprio carro, suponho.
      Pois é, os alemães gostam mesmo dos seus carros, é afinal o país da BMW, Porsche, Volkswagen, Audi e tantas outras marcas conhecidas. Acho que a grande diferença é que mesmo quem tem e gosta muito de carros tb tem uma bicicleta que usa regularmente, sabe? Eu lembro bem um dia que vi parados na garagem de uma casa dois Porsches super chiques e do lado umas quatro bikes, também. Quer dizer, me parece que os alemães não usam carro pra ir buscar pão na padaria da esquina, sabe?

      1. Legal, Lais, eu sempre ficava me perguntando o porquê daqueles cilindros no “meio” da rua.
        Eu só me lembrava que a Volks era alemã, nem me lembrei das outras (alma de pobre =D).
        É, concordo com você. Apesar de gostar de automóveis, eles parece que não têm a “cultura” do carro como temos aqui no Brasil, de usá-lo para tudo, até para ir à esquina, como você disse. O Brasil ainda precisa evoluir muito nesse quesito, além de melhorar o transporte público, que é de ruim a péssimo em quase todo o país (também seria preciso mudar a mentalidade do brasileiro).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s