Vegetarianismo e produtos orgânicos

Desde que vim morar na Alemanha passei a conhecer vários vegetarianos. No Brasil eu conhecia uns dois. Aqui cada vez que convidamos alguém em casa temos que oferecer uma alternativa vegetariana pro jantar, ou no mínimo ter o cuidado de perguntar antes de decidir o que cozinhar, porque as chances são grandes de que carne não possa estar no menu.

As fontes divergem, mas parece que há mais de 6 milhões de vegetarianos, o que daria quase 10% da população total alemã. É a terceira maior taxa de vegetarianismo na União Européia, perdendo apenas pra Itália e pra Suécia. Desses 6 milhões, aproximadamente 800.000 são veganos.

Pesquisando esses números, descobri também um termo que nunca tinha ouvido falar: part-time vegetarians. Parece um tanto engraçado que alguém escolha ser vegetariano apenas parte do tempo, mas parece que uma boa parte dos alemães escolhem reduzir o consumo de carne ao invés de cessá-lo totalmente, conscientemente não comendo carne em 3 ou mais dias da semana. Eu li em uma fonte que 52% dos alemães fazem essa escolha… não sei se é fato, mas não duvido completamente.

O resultado é que praticamente qualquer restaurante tem opções de pratos vegetarianos, embora carne suína seja um elemento super importante da cozinha alemã. Nos refeitórios, por exemplo, como os de universidades (conhecido como mensa), SEMPRE tem no mínimo uma opção vegetariana, sem exceção.

O engraçado é que, embora vegetarianismo seja super normal, churrascos entre amigos também são, mesmo entre vegetarianos. Eles não grelham só carne, mas também legumes, queijos, carne de soja, um monte de alternativas.

Essa alta taxa de vegetarianismo no país é sintoma de uma crescente preocupação com maus-tratos de animais, além de outras questões de sustentabilidade e saúde relacionadas com a produção de carne.

E para quem também atenta ao bem estar dos animais, mas não escolhe o vegetarianismo, existem alternativas: as comidas orgânicas, ou “bio”. Agora isso está aos poucos ficando mais comum no Brasil também, mas aqui já há um tempo tem essa tendência de escolher produtos definidos como orgânicos. São os produtos que tem um selo “bio”, esse aqui:

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Esse selo garante um nível de qualidade de acordo com regras da União Européia, que, resumindo:

  • O produto respeita a natureza
  • O produto foi produzido de maneira sustentável
  • Os processos de produção desse produto são controlados anualmente por autoridades para certificar que eles respeitam todas as regras de produção orgânica, além das regras da vigilância sanitária e do respeito ao consumidor.
  • Animais de fazenda podem pastar livremente ao ar-livre e são tratados de acordo com condições avançadas de bem-estar animal.
  • Organismos modificados geneticamente não são permitidos
  • Para comida, há limitações estritas quanto ao uso de pesticidas químicos, fertilizantes e antibióticos.
  • Agricultura orgânica tem limitações estritas quanto ao uso de aditivos alimentares e outros.
  • A maioria dos aditivos para os produtos da fazenda vêm da própria fazenda usando recursos e conhecimento locais.

(Lógico que essas regras são bem mais precisas que esses itens vagos que são só pra dar uma idéia geral)

Esse é um dos selos de comida orgânica que existe (o europeu), o mais comum, mais há outros selos tb, com regras mais ou menos estritas. Além disso, o prefixo “bio” só pode ser usado no nome de um produto se ele respeitar essas regras e tiver algum dos selos. Então você não pode dar um nome qualquer pro seu produto com “bio” na frente sem ter esse selo.

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Alguns produtos orgânicos no supermercado. Obviamente eles sempre têm embalagens verdes.

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Então comprar carnes orgânicas também é uma boa alternativa pra quem não escolhe o vegetarianismo.

Qualquer supermercado vende uma seleção de produtos orgânicos, mas há também supermercados só de orgânicos, pra quem realmente quer consumir exclusivamente produtos orgânicos.

Mas claro que nem tudo é lindo e perfeito: o maior problema dessa questão dos orgânicos é que os produtos com esse selo são bem mais caros que os “normais”. Como a foto lá de cima exemplifica bem, o litro de leite orgânico custa 1,09€, enquanto o litro de leite “normal”, apenas 0,55€. Então a questão de escolher produtos orgânicos não se limita só a uma preocupação com o meio-ambiente, mas também a uma questão financeira e social: se você está com o dinheiro contado, certamente não é a maneira como o leite foi produzido que vai ser seu critério pra compra, especialmente quando um é o dobro do preço do outro…

Mas é claro que essa tendência de preferir orgânicos não é nada negativa, e a Alemanha é o maior importador de produtos orgânicos na Europa: 40% dos produtos no mercado têm o selo.

Esse artigo do Spiegel (em inglês) fala um pouco mais sobre os produtos orgânicos na Alemanha pra quem interessar o assunto.


(Publicado em 24 de Setembro de 2015)

 

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1 comentário

  1. Bem legal esse post, Lais. Não sou vegetariana, só não como carne vermelha nem de porco (a de porco desde criança, porque nunca gostei), mas me interesso pelo assunto. Realmente a porcentagem de alemães vegetarianos é bem grande, impressiona (fiquei surpresa ao saber sobre a Itália também). Não sabia que existiam os “part-time vegetarians”. Acho que é uma boa saída quando se quer reduzir o consumo de carne. No Brasil existe um movimento dos vegetarianos chamado “Segunda Sem Carne”, que incentiva as pessoas a não comerem nenhum tipo de proteína animal pelo menos uma vez na semana (nesse caso, na segunda-feira). Mesmo não sendo vegetariana eu gostaria que tivéssemos mais opções de pratos sem carne nos restaurantes, mas não é algo muito comum no Brasil.
    Aqui os produtos orgânicos têm ganhado força, e também são mais caros que os comuns. Não faço questão, e por ser caro, não compensa sair comprando tudo orgânico, mas pelo menos o frango, o leite e os ovos que consumo costumam ser caipiras ou orgânicos. Mas gostaria mesmo que tivessem mais opções nas seções de frutas e verduras, pois a quantidade de agrotóxico usada no Brasil é abusiva.
    Li o artigo que você lincou, e achei engraçado e cheio de ironia (mas quem dera todos tivessem pelo menos metade da preocupação dos alemães com os alimentos geneticamente modificados, que o autor ironicamente alfineta no texto, né?!).

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