Precisão alemã

Os alemães são conhecidos no mundo por serem bons engenheiros. Eu, como arquiteta, posso dizer que em termos de construção eles são realmente bem detalhistas, todos os detalhes construtivos são executados muito perfeitamente, os projetos tem milhares de pranchas de detalhes… Não por acaso a revista de arquitetura alemã mais conhecida e vendida chama “Detail”.

E isso indica uma característica da cultura alemã: precisão.

precision

Os alemães são muuuuuito precisos.

Eu poderia dar como exemplo os horários dos trens e ônibus. Realmente, todo transporte público aqui tem horário específico para passar em cada ponto (preciso no minuto, tipo 13:48, 16:23, etc), que eles costumam acertar. Mas para trens isso não é tão estranho – é meio que nem avião, tem que ter uma hora certa exata pra sair. Para ônibus, claro, já é uma precisão bem avançada saber exatamente o minuto em que ele vai passar.

Mas esse nem é o melhor exemplo. Outras coisas mostram essa precisão com mais… precisão.

Como por exemplo receitas. Sim, receitas, de comida. As receitas aqui não dizem “meia xícara de chá de açucar”, “3 colheres de chá de sal” ou “3 copos de leite”. Elas dizem “85g de açúcar”, “10g de sal” e “600mL de leite”. Tudo bem, todo mundo tem uma balança de cozinha e um copo com medidas de volume em casa. O curioso mesmo é que eles ficam totalmente confusos com receitas que medem os ingredientes em xícaras, colheres e copos! O meu namorado uma vez comentou comigo, achando que me surpreenderia, que quando ele morou nos Estados Unidos as receitas eram todas em xícaras e como você ia saber quanto era meia xícara de chá? Qual xícara? Tem xícaras de chá de tantos tamanhos! Eu, achando receitas em xícaras totalmente normais, logo argumentei que o que importa é a relação, não a medida exata. Tanto faz se é a aquela ou essa xícara, se você usar a mesma xícara pros vários ingredientes da receita, já basta. Fora que em que receita importa uma medida tão precisa do ingrediente que uma xícara um pouco maior ou um pouco menor faria diferença? Mas os alemães acham um absurdo receitas que não dizem medidas precisas.

Outro exemplo é o troco. Aqui, como em qualquer lugar, vários preços são quebrados: 1,99€, 0,62€, etc. A diferença é que aqui eles te dão o troco exato, sempre. Sempre. O que significa que depois de poucas semanas você já tem uma coleção infinita de moedinhas de um e dois centavos, que você nunca usa. Aliás, não apenas eles dão o troco exato, mas se você pagar algo que custa 0,99€ com uma moeda de 1€, é totalmente normal esperar o troco de um centavo. Totalmente normal. E troco “em bala” é completamente impensável.

E o que fazer com os montes de moedinhas de um ou dois centavos? Você pode começar a pagar com elas, também, para pagar exatamente os preços quebrados. Eu já estou aprendendo a fazer isso, para não acumular. Mas uma boa alternativa para as moedinhas acumuladas é comprar selos na máquina que vende selos na frente das agências dos correios. São as únicas máquinas que eu conheço que aceitam moedinhas até de um e dois centavos, porque os preços dos selos são super quebrados e a máquina não dá troco. Então eu vou guardando essas moedinhas num cofrinho e sempre que preciso de um selo, junto as moedinhas necessárias e pago tudo em 1 e 2 centavos. Depois de uns 6 meses acumulando moedinha, já dá pra comprar um selo, hehehe!

Ah, outro ótimo exemplo. Sabe quando você vai num restaurante/lanchonete e tem a opção grande e a opção pequena? Aqui, normalmente o menu não diz “grande” ou “pequeno”. Diz 0,3L ou 0,5L (eles raramente falam de volume de bebidas em mL como a gente, mas sempre em L, e às vezes em cL!). Ou, se for uma pizza, diz 28cm ou 32cm. Grande ou pequeno é muito relativo, tem que ser mais preciso que isso. E aí todos os copos de restaurante tem a marquinha mostrando onde que é 0,3L, ou 0,5L, ou o que for. (É bem capaz que tenha alguma lei que diga que isso é obrigatório!)

Os próprios alemães têm noção que eles são obcecados com precisão. Eles brincam que a expressão em inglês “Fuck you!”não era suficientemente precisa, de maneira que a versão alemã da expressão ficou “Fick dich ins Knie!” ou “vá se foder no seu joelho”, afinal, tinha que especificar onde, né.

Esse detalhismo todo é bom em muitas situações, mas em outras, altamente irritante. Eles acabam ficando super exigentes com qualquer coisinha. Por exemplo: nos meus primeiros meses aqui, eu dei aula de inglês para alguns alemães. Em uma ocasião, eu tinha feito uma frase que tinha que completar os pronomes que estavam faltando. E a frase era algo desse tipo: “Todos os meus colegas do escritório estudaram na mesma faculdade que eu”. E o alemão em questão, quando leu a frase parou, e olhou… e disse: “não… mas isso não é possível… porque no escritório sempre tem pessoas de diferentes áreas, tem a pessoa do RH, a pessoa do departamento jurídico… não dá pra ter estudado todo mundo o mesmo curso!” … Era só uma frase boba para completar os pronomes! E o pior: quando eu contei essa situação para o meu namorado, rindo e achando que ele iria responder “hahaha, nossa, que exagero!”, a resposta dele foi “Ah, mas é que às vezes essas frases de curso de línguas não fazem sentido mesmo, e…”… (reticências ad infinitum).

E aliás, em qualquer situação que eu faça alguma reclamação pro meu namorado do tipo “Ah, você sempre faz tal coisa!” ou “você sempre diz sei lá o quê!”, ele SEMPRE (e nesse caso é sempre mesmo) responde “não, não é verdade! Não é sempre! Naquele outro dia lá eu fiz diferente, e…”. Ele acha um absurdo que eu diga “sempre” quando o correto seria “a maioria das vezes” ou “realmente muitas vezes” ou “bem mais vezes do que o necessário”, etc…

Mas a verdade é que você acostuma com essa precisão, que é muito conveniente em várias situações.


(Publicado em 1˚ de Agosto de 2015)

 

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7 comentários

  1. Se tem uma coisa que eu particularmente posso confirmar é a fama dos alemães na engenharia, eu que curso engenharia civil, tenho eles como exemplo. Você mora na Alemanha? Queria perguntar sobre o mercado da construção civil no país, ter a opinião de alguém que realmente trabalha na área, se conseguir responder ficarei muito grato. Gostei do blog 🙂

  2. Só li verdades! Passar 1 ano na Alemanha me fez ficar chocada aos extremos com isso, mas no fim acabei me acostumando e achando que praticamente tudo está errado aqui no Brasil porque falta isso. Ônibus que chegam meia hora (?!) atrasados, produtos sem indicação de tamanho nos menus… é estranho lidar!
    Concordo que é conveniente, é bacana saber se organizar quanto a isso. Nos bancos dá para trocar as moedinhas por notas normais e se livrar dos 1 e 2 centavos que sempre acabam sobrando.
    Adorei a postagem, beijos!

  3. Quando li este post eu ri muito!!!!! Kkkkkkk ainda mais nas partes da xícara de chá, e na do aluno que falou das áreas do escritório. 10^k … Eu acho que eu tenho alguma raiz alemã pois me identifico um bocado com certos costumes e ações… tipo privacidade, detalhismo… mas não olhei todos os documentos para ver toda a minha antecedência, por enquanto eu sei que tenho antecedência portuguesa e espanhola devido aos meus nomes, tenho vontade de saber. Excelente post! De todos que li os seus são os mais legais e detalhistas 🙂 Queria casar com uma delas rs!

    1. Confesso que nem lembrava direito o que tinha escrito no post, fui ler de novo e ri também! Rsrsrs esses posts sobre como as pessoas são são os mais divertidos de escrever! 🙂 obrigada pela visita!

      1. Nada! Eu estou bem feliz de ter um excelente blog como o seu, eu li bastante coisa! Espero um dia ir para aí, e contribuir também com a experiência que tiver!!!

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