Eleições 3 – Como funciona o segundo turno

Já escrevi dois posts sobre as eleições na Alemanha, esse, que fala um pouco sobre as eleições parlamentares (a mais importante), e os diferentes partidos, e esse, que fala sobre as eleições para o parlamento europeu, para o parlamento municipal, e como funciona para se registrar para votar.

E quando eu achei que não tinha mais nada para falar sobre eleições alemãs, apareceu um ótimo tema para um post.

Hoje foi dia de eleição municipal aqui em Dresden, mais especificamente, eleições para a prefeitura. Como eu já expliquei em outros post, as datas de eleições por aqui são beeem variadas. Cada estado tem seu próprio calendário eleitoral para os cargos do governo e das prefeituras. E mesmo esses são separados: o parlamento municipal, algo como a câmara dos vereadores, foi eleito no ano passado, e agora estamos elegendo o/a prefeito/a.

Hoje foi, na verdade, o segundo turno. E é sobre isso que eu vou escrever. Segundos turnos.

Por aqui é bem raro ter segundo turno de alguma coisa. Isso porque são pouquíssimos os cargos com apenas uma vaga que você elege diretamente. Quer dizer, a chanceler, por exemplo, é eleita pelo parlamento federal, o Bundestag. O presidente é escolhido também pelo Bundestag e convidados (pessoas famosas, tipo jogadores de futebol ou atores de televisão convidados pelos membros do parlamento. Sim, bem esquisito, mas como o presidente não tem nenhuma função muito importante, é mais um representante para acenar da sacada, talvez não seja tão esquisito assim). Os governadores e governadoras (chama Ministerpräsident/in) também é escolhido pelo parlamento estadual, chamado Landtag. O eleitor elege os parlamentares que elegem alguém para esses cargos. O único cargo com só uma vaga eleito diretamente é o cargo de prefeito. Então é o único cargo para qual pode haver um segundo turno.

Qual a lógica do segundo turno? Você tem um cargo com uma vaga e, digamos, 7 candidatos. 30% votam para o/a candidato/a A, 20% votam para o/a candidato/a B, e os outros têm os cinco 10% dos votos, cada. Sem um segundo turno, o/a candidato/a A vence com 30%. Só que talvez aquele A seja o único, por exemplo, que fez uma campanha proibindo a adoção de gatos na cidade. Todos os outros candidatos e candidatas gostam de gatos e têm diferentes propostas para melhorar a vida dos felinos urbanos. 30% da população detesta gatos enquanto os outro 70% ama gatos e dividiu seus votos entre os candidatos e candidatas restantes de acordo com as outras propostas específicas da campanha. Sem um segundo turno, aqueles 30% da população vence embora a vontade representada por eles e seu candidato não seja a vontade da maioria, que adora gatos. Então você faz um segundo turno entre os candidatos com mais votos, nesse caso A e B, e nesse segundo turno muito provavelmente o candidato/a A receberá 30% dos votos, e o/a B, 70% dos votos. E aí, simplificando a história, você sabe a vontade da maioria.

Né? Então qualquer segundo turno minimamente lógico ocorre entre os dois candidatos com mais votos. Certamente na Alemanha é assim também, não?

NÃO.

A regra pro segundo turno aqui é a mais bizarra já inventada: todos os candidatos podem concorrer novamente. Simples assim. Eles que escolhem se querem concorrer novamente ou não. O segundo turno acontece se nenhum candidato conseguir 50% + 1 dos votos, mas todos os candidatos podem escolher concorrer, e, se for o caso, e o resultado for exatamente idêntico ao do primeiro turno, vence aquele com mais votos mesmo que não seja mais que a metade!

Muito estranho. A idéia por trás é que candidatos com propostas similares abririam mão de concorrer para dar a chance para aquele que tem mais chances de ganhar, ou entrariam em acordo, do tipo “se você colocar tal coisa entre as suas propostas, eu abro mão de concorrer de novo”, coisas assim. Quer dizer, a lógica do segundo turno está muito mais em um jogo de coalizões, acordos, apoios e especulações.

Quando eu fiquei sabendo que era assim (e meu namorado só conseguiu me fazer acreditar que era assim depois de me mostrar a lei que diz isso) me pareceu completamente absurdo e sem sentido. Mas agora escrevendo esse post estou até vendo uma lógica por trás. Talvez a idéia é mesmo de forçar os candidatos a fazerem acordos entre si de maneira a juntarem mais eleitores satisfeitos. Talvez para não ter tantos eleitores votando num fulano só para que o outro fulano muito pior não vença. Imagina se você tem os candidatos A, B e C, A com propostas totalmente opostas de B e C, que tem propostas similares mas não idênticas. Num segundo turno, os candidatos B e C discutiriam entre si, fariam acordos para adaptar um pouco as propostas do candidato entre eles que teve mais votos, para satisfazer também aos eleitores do outro, e o com menos votos aceitaria abrir mão de concorrer novamente. Pensando bem, faz realmente muito sentido.

Uma pessoa votando na Alemanha. „Wahlen 2“ von Das Original wurde von Bayernnachrichten.de in der Wikipedia auf Deutsch hochgeladen - Übertragen aus de.wikipedia nach Commons.Original text: selbst fotografiert / Alexander Hauk / www.alexander-hauk.deselbst fotografiert / Alexander Hauk / www.bayernnachrichten.de. Lizenziert unter Attribution über Wikimedia Commons - https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Wahlen_2.jpg#/media/File:Wahlen_2.jpg

Uma pessoa votando na Alemanha.
„Wahlen 2“ von Das Original wurde von Bayernnachrichten.de in der Wikipedia auf Deutsch hochgeladen – Übertragen aus de.wikipedia nach Commons.Original


(Publicado em 5 de Julho de 2015)

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