Como passar uma boa impressão entre alemães

Eu queria ter lido as coisas que vou escrever antes de ter vindo pra Alemanha. Mas ninguém me falou, nem meu namorado alemão, provavelmente porque pra ele é tão óbvio que nem lhe passou pela cabeça que essas dicas seriam necessárias.

Então, depois de cometer muitos erros em como interagir com os alemães que eu acredito que tenha dificultado minha integração por aqui nos primeiros anos, aos poucos fui aprendendo pequenas regras de convivência que fazem toda a diferença na impressão que as pessoas criam sobre você.

Nunca é tarde demais para aprender essas pequenas regras e aplicá-las. A minha impressão é de que desde que eu tenho mudado pequenos elementos do meu comportamento para se adequar à cultura local, as pessoas têm respondido de maneira bem mais positiva.

Então, quem sabe, com esse singelo post de pequenas dicas eu consiga ajudar alguém a se integrar entre os alemães com mais facilidade.

Algumas das coisas que eu vou mencionar já foram discutidas em diferentes posts sobre outros assuntos, mas achei que valia a pena juntar num único post algumas regrinhas.

Primeira coisa. Ao conhecer um alemão, o cumprimento básico de qualquer situação é um aperto de mão. Um aperto de mão nunca é demais nem de menos. Se você esperar o alemão em questão tomar a iniciativa do cumprimento, pode ser que ele só acene com a cabeça ou até te dê um semi abraço (se for, digamos, alguém muito próximo de alguém muito próximo de você). Mas se você tomar a iniciativa, pode ter certeza que em qualquer situação um aperto de mão sempre cabe. Sempre. Nunca é demais ou de menos. É a opção mais segura.

Mas a dica mais importante na verdade não é essa, mas outra: ao apertar a mão do seu novo conhecido alemão, certifique-se de dar um aperto bem forte e decidido. Os alemães as vezes quase quebram os ossos das mãos uns dos outros com seus apertos-de-mão-braço-de-ferro. Um aperto de mão solto, sem vontade, passa uma má impressão.

Não tenho fontes, mas poderia apostar que isso tem uma importância triplicada numa eventual entrevista de emprego. Tenho quase certeza que na decisão desse aperto de mão inicial pode estar contida uma impressão forte sobre sua personalidade. Aperto forte: pessoa forte, decidida. Aperto fraco: pessoa fraca, insegura.

Segunda coisa: limite toques ao aperto de mão. Não encoste em pessoas desconhecidas. Aliás, não encoste em ninguém, por via das dúvidas. Se precisar muito chamar a atenção e a pessoa não estiver te ouvindo, um toque bem de leve no braço, ou nas costas, basta (quando digo costas me refiro àquela região das costas perto do braço, onde tem aquele osso sobressalente. Nunca na cintura!) Não encoste em outras partes do corpo, jamais no ombro (que pra gente é meio comum). Essas regras de toque eu aprendi meio sem perceber. Fui internalizando esses costumes até que quando um amigo brasileiro veio me visitar e pediu licença para uma moça desconhecida dando um típico tapinha no ombro, eu fiquei quase indignada com o atrevimento, rsrsrs!

Terceira coisa: ao comer com alemães, algumas coisas básicas não devem jamais ser esquecidas, jamais. Já falei disso umas duas vezes, pq é importante mesmo. Nunca, nunca, nunca comece a beber antes de brindar. Os alemães brindam quase sempre, quase em qualquer ocasião, eles adoram mesmo brindar. É muito mal-educado começar a beber antes de brindar com todo mundo.

E super importante: ao brindar, olhe nos olhos da pessoa com quem vc esta brindando, faça absoluta questão de olhar nos olhos. Eu não tinha a menor ideia de que isso era importante, e ninguém nunca me avisou que eu estava fazendo errado. Provavelmente são aquelas coisas que vc nem pensa a respeito conscientemente, mas passa uma impressão sobre a pessoa. Quer dizer, talvez os alemães à minha volta não tenham pensado “Nossa, como essa moça é grossa, nem me olhou ao brindar!”, mas tenho quase certeza que a impressão que eles tiveram de mim, inconsciente, foi diferente do que se eu tivesse olhado nos olhos.

Eu sempre olhei pro copo, ué, pra saber onde bater meu copo, não derrubar a bebida, e tal. Só descobri que estava fazendo errado quando uma amiga brasileira comentou o assunto. Desde então, fui olhar e, realmente, durante TODOS os brindes os alemães estavam sempre me olhando diretamente nos olhos. Certamente devem ter achado ruim eu não ter respondido de acordo. Agora tomo o maior cuidado com isso.

Já no que diz respeito à comida: nem sempre os alemães esperam todos os outros para começar a comer, eu ainda não sei bem quando eles acham que faz sentido esperar, e quando eles acham que não precisa. Mas uma coisa é constante: eles SEMPRE falam bom apetite (Guten Apetit) antes de começar a comer  sempre, sempre. Portanto, na dúvida, eu fico olhando em volta e esperando até alguém começar a comer, pra saber que já é ok. E não esqueça do Guten Apetit.

Uma coisa que os alemães esperam de você é que você seja direto. Se eles, por exemplo, te convidarem para uma coisa qualquer, e você não quiser ir, nunca diga “vou dar uma passada” sem a menor intenção de ir. Diga que não vai. Se vc der a entender que vai e não for, eles podem ficar seriamente ofendidos. Nunca ofereça algo se não for de verdade. Se você disse algo do gênero, “ah, quando você vier para o Brasil, pode ficar lá em casa!” e aí arranjar uma desculpa esfarrapada quando eles te derem as datas da viagem, eles vão ficar muito ofendidos, também. Só ofereça se for sincero, pra qualquer coisa. E qualquer coisa que você queria pedir deles, ou não queria aceitar, seja direto, diga que não, e porquê. Evite mentir, mas claro, também não precisa ser grosso e dizer que não vai na festa porque acha ele um chato. Os alemães muitas vezes acabam indo em eventos que não querem ir pq o motivo para dizer não não pode ser dito, eles não querem mentir sobre o motivo, e também não querem disfarçar, dizer que vai, e não ir. A regra é: Não minta, não desconverse, mas não seja grosso. É uma linha tênue entre ser direto e ser grosso, mas ela existe e aos poucos você vai enxergá-la melhor.

E finalmente, uma regra que vc vai aprender na primeira aula de qualquer curso de alemão, mas que sempre é bom falar: trate desconhecidos por Sie (senhor/a), nunca por du (você). Isso é super difícil de acostumar, já que a gente usa você pra quase qualquer um em quase qualquer situação. Mas aqui, tome o cuidado de usar sempre o modo formal da linguagem quando a pessoa for desconhecida. Se for alguém mais jovem, pode não ter tanto problema, mas na dúvida use o Sie.

É isso! Espero sinceramente ajudar outros desavisados com essas dicas, hehehe! Boa sorte!


(Publicado em 23 de Maio de 2015)

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8 comentários

  1. Que post interessante! É incrivel com certas regras mudam de país para país!
    Nunca imaginaria a questão de olhar nos olhos durante o brinde, pois a impressão que como turista, é que eles não olham nos olhos nunca, não medem etc.
    Aconteceu um lançe engraçado conosco em Berlim. Estávamos no ônibus e meu marido acidentalmente bateu o ombro em uma moça. Ele tocou o braço dela, sorrindo e pediu desculpas. A moça ficou fula da vida!
    Agora me conta uma coisa: o que são esses tapas no “bottom” que vi direto! Marido batendo no bottom da esposa saindo do elevador, sogra batendo no genro, namorada no namorado.. fiquei constrangida!

      1. É mesmo Lais? Eu umas 2 vezes no elevador do hotel em Berlim(casais diferentes) e em Dresden tb, quando um casal encontrou os pais. A mãe comprimentou a filha e o genro assim! Achei que era coisa de alemão! hahaha

  2. Lais, alguma vez você recebeu um feedback alemão sobre suas mudanças de hábito? Tipo “nossa, quando eu conheci você, você não fazia tal coisa, mas eu percebi que agora vc faz”? Ou “eu achei que você era grossa, pq nunca falou Guten Apetit antes de comer”? uahahah 😉

    1. (eles são muito discretos) Mas tem também o fato que eu comentei no post, que muitas dessas coisas a gente não percebe conscientemente, mas reage de acordo, sabe? A pessoa não necessariamente percebe conscientemente que vc agiu ligeiramente diferente em alguma sutileza, mas a opinião da pessoa em relação a vc é formada de acordo. Então o que eu vi de feedback foi em termos de reações e como as pessoas lidam comigo, e não no que elas disseram a respeito. Mas sério, “quando eu te conheci achei que vc era grossa, mas vc mudou” é uma coisa que eu não imagino nenhum alemão dizendo.

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