Igualdade de gênero na Alemanha

Provavelmente uma característica que não vem à sua cabeça quando você pensa sobre alemães é que seja uma cultura particularmente machista, especialmente no século XXI.

Realmente, em comparação com o machismo muitas vezes forte no Brasil, morando na Alemanha um tempo pode lhe parecer que por aqui isso é bem reduzido. Mas será que é, mesmo, ou ainda existe uma considerável desigualdade de gênero na Alemanha?

Os alemães provavelmente dirão, na sua maioria, que não, não são machistas. Para os alemães, em termos de liberdade e igualdade, a Alemanha e a Europa atingiram um patamar bem elevado, e certamente muitos alemães, inclusive mulheres, achariam sem sentido lugar por igualdade de gênero na Alemanha. Me parece, após morar aqui um tempo, que realmente em vários sentidos a igualdade de gênero por aqui é bem maior que no Brasil. Mas daí a dizer que não existe machismo aqui já é um grande salto. No ranking do Global Gender Gap de 2014, que analisa a desigualdade de gênero nos diferentes países, a Alemanha aparece em 12˚ lugar de país com mais igualdade, ou seja, uma posição super boa (o Brasil aparece em 71˚ lugar). Mas quase igual ainda não é igual, e mesmo na Alemanha ainda há espaço para evolução nesse sentido.

Esse Global Gender Gap mede a igualdade em quatro áreas principais: educação, oportunidade e participação na economia, saúde/sobrevivência e empoderamento político. A Alemanha pontua muito bem nos quesitos educação e saúde, onde a diferença entre homens e mulheres é praticamente nula. Em termos de participação econômica, a pontuação é razoável (73%), mas é em participação política é que o país ainda deixa a desejar em igualdade, com uma pontuação de apenas 40%.

Esses dados são traduções de diferenças reais como a presença de mulheres no parlamento alemão (36%) e a diferença entre salários de homens e mulheres exercendo o mesmo cargo (mulheres alemãs recebem em média 76% do salário dos homens no mesmo cargo, uma das maiores diferenças de salário na europa).

Mas quais são as diferenças ou igualdades percebidas no dia-a-dia?

Uma coisa bem clara é a uma diferença entre as gerações mais velhas, das pessoas com 50 anos acima, pras gerações mais atuais, das pessoas com 30, 20 anos de idade. Entre os casais mais jovens, a divisão de trabalho doméstico é muito comum e, pelo menos pela minha experiência e pelas pessoas que eu conheço, parece bem balanceada. Isso é um ponto bem positivo.

Mas por outro lado, ainda existe uma expectativa razoável da sociedade de que a mulher pare de trabalhar (ainda que temporariamente) uma vez que se torne mãe. Nesse ponto, é interessante notar a diferença que existe entre a Alemanha Ocidental e a Oriental. Na Alemanha Oriental, esperava-se de todos os adultos que trabalhassem e fossem portanto “úteis à sociedade”. Por isso o governo oferecia todas as facilidades necessárias para as mães: escolas e creches em período integral, por exemplo, eram a regra e não a exceção. Já na Alemanha Ocidental isso não aconteceu, de maneira que ainda se espera da mãe maior responsabilidade com a família que do pai, e ainda se critica discretamente mulheres que escolhem continuar suas carreiras depois de ter filhos. Em termos de lei, essa diferença já não é tão presente: os direitos de licença maternidade e paternidade são extensos e praticamente idênticos. Tanto o pai quanto a mãe podem tirar 12 meses de licença, recebendo 65% do salário, ou 14 meses caso seja mãe/pai solteira/o. É possível ainda para ambos tirar uma licença extra não-paga até que a criança complete 3 anos. Ou seja, se as famílias assim escolherem, pode ser o pai a ficar em casa cuidado da criança e não a mãe. A única diferença é que a mãe tem ainda direito a 14 semanas de licença recebendo 100% do salário, pela gravidez em si, sendo 6 semanas a tirar antes do nascimento, e o resto depois. Só que, embora na lei seja igual, na prática não é tão simples. Não tem creche suficiente para todas as crianças da Alemanha, de maneira que o governo, ao invés de construir mais creches, criou um programa em que eles pagam uma bolsa para mães ou pais que fiquem em casa cuidando da criança até a mesma atingir a idade escolar. Ou seja, ao invés de pagar pela creche, o governo paga para a mãe ou pai cuidar da criança. Só que isso resulta em uma desvantagem para as mulheres. Se um dos dois pais vai abrir mão do emprego para criar a criança, mesmo que nem houvesse nenhuma expectativa em relação a qual dos dois teria que fazer isso, seria natural e razoável para o casal escolher que aquele que ganha mais no emprego continue trabalhando, enquanto o outro pare de trabalhar. E, como já discutimos, a diferença de salário ainda é considerável e as oportunidades de emprego também. Assim, pagar para que um dos pais cuide da criança ao invés de construir creche inevitavelmente diminui a probabilidade da mãe poder continuar trabalhando após o nascimento do filho.

E claro, como mencionado antes, em termos de oportunidades no mercado de trabalho, ainda existe uma diferença bem razoável entre mulheres e homens. Mulheres têm menos oportunidade e recebem menos pelo mesmo trabalho, além do ainda existente teto de vidro em grandes empresas, que impede que mulheres – mesmo muito melhor qualificadas que seus colegas homens – sejam promovidas aos cargos mais altos. Para tentar mudar um pouco essa situação, o governo alemão recentemente aprovou a criação de cotas para mulheres nas cúpulas de empresas. A partir de 2016, grandes empresas terão de reservar 30% dos cargos nos conselhos de administração de empresas para mulheres. A medida já foi aplicada em outros países da europa como a Noruega, França e Holanda. Para ilustrar um pouco a desigualdade: 59% das empresas de médio porte alemãs não têm nenhuma mulher em cargo de liderança, um dado bem mais negativo que a média européia de 36%.

Mas voltando ao dia-a-dia. Diferenças positivas que você percebe na Alemanha em relação ao Brasil no quesito igualdade de gênero é a total e completa ausência de assédio de rua. Homens desconhecidos dando opinião sobre a sua aparência no meio da rua, olhando para você de maneira desrespeitosa, buzinando de carros ou qualquer outro tipo de assédio de rua é praticamente inexistente. Um alívio. E outro ponto positivo, também relacionado, é que na Alemanha as mulheres vestem o que bem entendem e ninguém diz nada a respeito. você pode sair de shorts curto, decote, saia, o que for, sem medo de ser assediada por desconhecidos ou criticada por conhecidos por isso. Ninguém solta aquelas bobagens de que “mulher precisa se dar o respeito”. Me parece que a maioria dos alemães já entenderam que não existe condição pra respeito que só se aplica a um gênero.

Já as coisas negativas do dia a dia. Como no Brasil e na maioria dos países, os padrões de beleza impostos para mulheres ainda têm uma influência muito forte, e a objetificação feminina na mídia também é ainda muito presente. Quanto às expectativas para crianças, também ainda é bem comum a separação de “brinquedos para meninas” e “brinquedos para meninos”. E ainda é bem forte também a idéia de que certas ocupações são mais masculinas enquanto outras mais femininas. Mulheres nas engenharias e ciências, por exemplo, são em número bem reduzido em relação aos homens. Aliás, uma diferença forte que eu notei: na faculdade em que eu estudei no Brasil, a relação de professores homens para professores mulheres era de quase 1 pra 1. Eu lembro que contei uma vez e tinha aproximadamente 55% de homens e 45% de mulheres professoras doutoras no meu curso. Já meu namorado conta que na faculdade dele (ele fez o mesmo curso que eu e no mesmo período, só que na Alemanha), o número de professoras era extremamente reduzido, ele lembra de no máximo duas durante o curso inteiro.

Tem um programa legal do governo alemão que tem como intenção justamente incentivar mais meninas a seguirem carreiras que são tradicionalmente masculinas, chama-se Girl’s Day. Eles fazem eventos nas escolas com crianças a partir dos 11 anos, mostrando para as meninas profissões técnicas, científicas e “braçais” (marcenaria, por exemplo), e incentivando-as a considerarem também essas carreiras. Um pouco depois do início do Girl’s Day, o governo começou também o Boy’s Day, para fazer o mesmo para os meninos: incentivá-los a seguir carreiras tradicionalmente consideradas femininas, como professor de escola primária/creche, enfermeiro, e outras profissões ligadas ao cuidado de pessoas.

Então, resumindo: a Alemanha está evoluindo, e existem várias leis e programas do governo com a intenção de diminuir a desigualdade de gênero no país. Mas há, ainda, bastante espaço para melhorias nas condições atuais.


(Publicado em 8 de Março de 2015, dia internacional das mulheres)

 

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