Pegida parte 2: Uma resposta de Dresden

Antes de ler esse post, leia a primeira parte aqui para entender do que se trata.

Ah, a Alemanha. Às vezes tem que se admirar. Se por um lado volta e meia aparecem manifestações racistas, xenófobas e neo-nazis, as respostas que você vê pela cidade são simplesmente tocantes. No post anterior eu comentei, em uma das fotos, o grande cartaz no Zwinger – o museu mais importante de Dresden, que dizia “A coleção de arte estadual de Dresden – 14 museus com obras de todos os continentes: Uma casa enorme cheia de estrangeiros! O orgulho da nação.”, em uma clara resposta à xenofobia do Pegida. Algumas outras discretas manifestações pela cidade deixam claro a posição da maioria – por exemplo uma loja que vende roupas fair-trade importadas de países de terceiro-mundo com um cartaz dizendo algo como “Nós também defendemos uma Dresden colorida e multicultural” entre outros detalhes assim por aí. Essa descrição, “Dresden colorida”, está sendo frequentemente usada por quem se manifesta contra a xenofobia, se referindo às diferentes cores e etnias de uma cidade multi-cultural.

No último 13 de fevereiro, durante a bagunça das manifestações nazistas e anti-nazistas, o cartaz gigante no teatro municipal com uma citação de Erich Kästner, “De todos os infortúnios que acontecem, têm culpa não só aqueles que o provocaram, mas também aqueles que não o evitaram.”, em um claro apoio aos bloqueios à marcha dos neo-nazis.

Se por um lado essas manifestações racistas, xenófobas e anti-democráticas da extrema-direita são chocantes, assustadoras e deprimentes, por outro as respostas criativas e bem-humoradas do resto da sociedade são tocantes e emocionantes.

Uma dessas respostas aconteceu ontem, 26.01, em Dresden. Um evento organizado por artistas de Dresden sob o nome “Offen und Bunt – Dresden für alle” (Aberta e colorida – Dresden para todos), reuniu diversos artistas e pessoas famosas da Alemanha – tanto alemães quanto imigrantes – em um enorme show aberto no centro histórico da cidade, pela tolerância e por um “mundo aberto” (Weltoffenheit é o termo em alemão, não tem uma tradução precisa, mas significaria um mundo sem fronteiras, sem muros).

Entre as performances – músicas com o tema tolerância, e algumas especificamente a respeito do Pegida – algumas pessoas famosas ou nem tanto davam declarações contra a xenofobia e pelo multi-culturalismo. Uma das falas mais tocantes foi de uma refugiada da Síria convidada, que disse, em seu breve discurso, uma frase que sintetiza bastante a questão: Eu acho legal que eles [o Pegida] perguntem porque nós [refugiados] estamos aqui. Mas eles estão perguntando para as pessoas erradas. Eles estão perguntando para a gente, porque estamos aqui, mas deveriam perguntar para o seu governo [o governo alemão], porque estamos aqui. E o seu governo deveria responder honestamente. Que estamos aqui porque eles vendem armas para governos ditatoriais de outros países. [a Alemanha é o sexto país que mais exporta armamentos]” (tradução livre de memória).

Outras declarações desse gênero, criticando o Pegida, criticando a xenofobia, e elogiando uma cidade multi-cultural e aberta completaram a noite.

E não foi um evento pequeno. Além da Neumarkt (a praça na frente igreja símbolo da cidade) lotada de pessoas (os organizadores estimaram 25.000), holofotes coloridos iluminavam o skyline da cidade em diferentes cores vibrantes, criando um cenário impressionante, e, pelo seu significado – a cidade colorida, multicultural –, profundamente comovente.

Veja aqui uma foto panorâmica de 360˚ da Neumarkt lotada de pessoas.

Algumas fotos oficiais da imprensa:

© DPA

© DPA

Michael Schmidt

Michael Schmidt

Algumas fotos minhas do skyline colorido da cidade:

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(Publicado em 27 de Janeiro de 2015)

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3 comentários

  1. Oi, muito legal o post. Não imaginei que o grupo de pessoas nacionalistas, de extrema direita e neonazi, fossem tão fortes assim. Aliás, Pegida é a sigla utilizada pelos alemães também? (Tenho um amigo alemão, gostaria de comentar isto com ele)

    1. Oi Isabele!
      Não sei se você leu a parte 1 do post, mas lá eu expliquei a origem da sigla: “Pegida” é abreviação de Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes, ou “Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente”. Então sim, Pegida é a sigla em alemão! =)

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