Pegida: o movimento islamofóbico da Alemanha

Estou enrolando há um tempo para escrever esse post porque o assunto é chato. Mas como percebi que algumas pessoas têm visitado o blog procurando informações sobre as recentes manifestações islamofóbicas em Dresden – conhecidas pelo nome de Pegida – está na hora de escrever sobre o assunto.

“Pegida” é abreviação de Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes, ou “Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente”. Segundo os organizadores, a Pegida não é islamofóbica nem xenófoba, e a intenção é só se manifestar contra o radicalismo islâmico. Mas não é tão simples assim, infelizmente. Aqui, devido à história alemã, ninguém que não seja xenófobo e de extrema-direita se auto-denomina “patriota” ou “nacionalista”. A idéia de nacionalismo aqui ainda está diretamente ligada ao passado nazista do país. E além disso, islamofobia é uma coisa séria por aqui. Há uma grande quantidade de imigrantes de países árabes, e a integração desses (e dos outros imigrantes tb, mas principalmente dos muçulmanos) por aqui é muito difícil, pela cultura e religião diferentes e o preconceito dos europeus com muçulmanos. Então uma manifestação patriota contra a “islamização do ocidente”, aqui, é muito mais que uma manifestação contra religiosos radicais, mas uma manifestação efetivamente xenófoba. Direcionada principalmente aos imigrantes e refugiados muçulmanos, mas é óbvio que ódio não tem um limite claro de onde termina. De maneira que o Pegida junta dezenas de neonazis, xenófobos, racistas, e todo tipo de ódio.

Fundado em Dresden em Outubro de 2014, o Pegida começou a fazer manifestações semanais, toda segunda feira, e aos poucos foi juntando MUITA gente. A penúltima manifestação deles, dia 12 de Janeiro, juntou 25.000 pessoas. E claro, não ficou só em Dresden, o movimento foi se expandindo para outras cidades, também. Só que nas outras cidades, as manifestações contrárias ao Pegida foram bem maiores.

O mapa mostra o número máximo de pessoas que compareceram a uma manifestação do Pegida (em laranja) ou contra o Pegida (em azul) pela Alemanha. Dresden, onde foi fundado o movimento, é também a única cidade em que ele tem alguma força.

O mapa mostra o número máximo de pessoas que compareceram a uma manifestação do Pegida (em laranja) ou contra o Pegida (em azul) pela Alemanha. Dresden, onde foi fundado o movimento, é também a única cidade em que ele tem alguma força.

Como a maioria dos alemães é bem consciente da história e do perigo da extrema-direita, sempre que acontece alguma manifestação de alguma maneira ligada aos neo-nazistas, junta muita gente para bloqueá-los, como é o que acontece em 13 de fevereiro em Dresden.

Na segunda feira dia 05.01, vários monumentos e edifícios importantes ao redor da Alemanha, como a Catedral de Colônia, desligaram sua iluminação externa para mostrar que não apoiavam o Pegida.

No sábado dia 10.01, uma manifestação em Dresden pela tolerância e respeito, juntou mais de 35.000 pessoas. Em uma atitude que eu achei muito correta, o reitor da Universidade Técnica de Dresden convidou, por email, todos os alunos e professores da universidade para participarem da manifestação e mostrar para o mundo que o Pegida não representa Dresden.

Até a chanceler Angela Merkel, em seu discurso de ano novo, se manifestou conta o preconceito religioso e o racismo, e declarou seu apoio à tolerância.

Para complicar a história toda, um refugiado da Eritreia, um rapaz negro de 20 anos de idade, Khaled Idris Bahray, foi assassinado a facadas na frente do seu prédio, na noite de 12 pra 13 de Janeiro, logo após uma manifestação do Pegida. O contexto do assassinato indicou o provável motivo racista. Os colegas de apartamento, também refugiados da Eritreia, relataram hostilidade dos outros moradores do prédio, inclusive a pixação de uma suástica na porta de seu apartamento 3 dias antes do assassinato, seguida dos dizeres “nós vamos pegar vocês todos.” E porque a história já não era ruim o suficiente, a polícia saxônica, ao encontrar o corpo ensangüentado do rapaz, não classificou a morte como assassinato, declarando que “não havia sinais de crime”. A polícia saxônica é conhecida por declarações e ações polêmicas e problemáticas.

Enquanto um político do partido verde entrou com um processo contra a polícia pela demora em considerar a morte como assassinato, perdendo a oportunidade de colher provas nas primeiras 30h após a morte, grupos de apoio a refugiados e imigrantes organizaram uma demonstração no sábado 17.01 em memória a Khaled e pela segurança e proteção à refugiados, que juntou tanto imigrantes quanto alemães.

Porém na semana seguinte, a polícia prendeu um suspeito pelo assassinato, um colega de apartamento de Khaled, também da Eritreia. O racismo da polícia e as polêmicas envolvendo investigações relacionadas a refugiados resulta, ainda, em muito ceticismo em relação às investigações da morte de Khaled. Para muitos, os verdadeiros fatos por trás do assassinato ainda continuam sendo uma incógnita. (O vídeo abaixo, filmado em uma manifestação de neo-nazistas em Dresden, em fevereiro de 2011, mostra um grupo de neo-nazis atacando um edifício onde moram refugiados, com pedras e xingamentos racistas. No fim da rua, dois carros de polícia parados assistem a agressão sem fazer nada a respeito).

Mas independente da polêmica sobre o assassinato de Khaled, as manifestações do Pegida e contra o Pegida continuam acontecendo.

Para segunda-feira 19.01, A organização Dresden Nazifrei havia organizado uma enorme manifestação anti-Pegida com várias frentes. Mas no domingo à noite, o Pegida cancelou sua manifestação para o dia seguinte, e a polícia de Dresden subsequentemente proibiu qualquer concentração de pessoas ao ar livre para o dia 19.01, uma medida inédita na democracia alemã. O motivo divulgado foi que um dos organizadores do Pegida teria recebido ameaças de um grupo extremista islâmico, que a polícia considerou reais e perigosas o suficiente para proibir manifestações naquele dia. Mas nada foi esclarecido ou provado a respeito para o público. No dia seguinte, um dos principais líderes fundadores do Pegida, Lutz Bachmann, se afastou do movimento após a publicação em um jornal de Dresden de uma foto sua com um bigode e corte de cabelo remetendo a Adolf Hitler. Além da foto, postada na sua página do facebook algumas semanas antes do início da Pegida, prints de um grupo fechado do facebook com declarações racistas e xenófobas de Bachmann também foram divulgados. O grupo foi deletado poucos momentos após a divulgação.

Na semana seguinte, o Pegida reagendou sua manifestação para domingo (hoje, 25.01) ao invés de segunda. Ao invés de marchar, o movimento realizou uma manifestação estacionária na Theaterplatz que juntou, segundo a polícia, aproximadamente 17.000 pessoas. Atrás do bloqueio policial, a manifestação contrária juntou 5.000 pessoas. As diversas organizações e pessoas se unindo contra o Pegida em Dresden e ao redor da Alemanha têm se manifestado mais recentmente com símbolos relacionados a limpeza: vassouras, escovas de privada, batas laranja e amarelas usadas pelos garis daqui, entre outros objetos com a idéia de limpar a cidade do racismo, da xenofobia e do nazismo.

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Manifestantes usando batas laranja e amarelas que os garis usam e carregando vassouras e espanadores para limpar a cidade da xenofobia e do racismo.

Manifestação do Pegida de 25 de Janeiro. A grande concentração de bandeiras alemãs deixa clara a intenção nacionalista e de extrema-direita do Pegida. Ao fundo, na fachada do museu Zwinger, uma clara declaração anti-xenofobia: "A coleção de arte estadual de Dresden - 14 museus com obras de todos os continentes: Uma casa enorme cheia de estrangeiros! O orgulho da nação."

Manifestação do Pegida de 25 de Janeiro. A grande concentração de bandeiras alemãs deixa clara a intenção nacionalista e de extrema-direita do Pegida. Ao fundo, na fachada do museu Zwinger, uma clara declaração anti-xenofobia: “A coleção de arte estadual de Dresden – 14 museus com obras de todos os continentes: Uma casa enorme cheia de estrangeiros! O orgulho da nação.”

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Ao fundo, a manifestação do Pegida. Na frente, atrás do bloqueio policial, parte da manifestação anti-Pegida.

E essa é a história do Pegida até esse momento. Como essas manifestações vão se desenrolar – se perderão a força ou crescerão – veremos nas próximas semanas ou meses, e especialmente a influência que o Pegida terá sobre as manifestações anuais neo-nazistas que ocorrem em Dresden em 13 de Fevereiro. A ironia disso tudo é que a cidade em que o Pegida – o movimento contra a islamização e tal – foi fundado e tem alguma força, Dresden, tem uma população de muçulmanos de aproximadamente 0,1%. Que ameaça!

Edição: Leia aqui uma continuação desse post!


(Publicado em 25 de Janeiro de 2015)

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