Achado é roubado, sim!

Uma expressão que não existe correspondência em alemão é o velho “achado não é roubado”. Bem típico da cultura alemã é não tocar em objetos perdidos, exceto para colocá-lo num lugar bem visível. Claro, não exageremos. Se você perder uma nota de 100 euros na rua, é bem pouco provável que ela continue lá por mais do que alguns minutos. Mas objetos diversos sem grande valor – digamos um cachecol, uma luva, um brinquedo – uma vez perdido você tem boas chances de reencontrar voltando para o lugar onde perdeu. Me parece que na nossa cultura (brasileira), quanto menor for o valor do objeto perdido, menor é a culpa para aquele que o encontrar levá-lo para casa. Acredito que a expressão “achado não é roubado” é realmente algo que a gente considera verdade.

Com alemães é realmente diferente. Eles vêem um objeto perdido não como algo sem dono, mas como algo cujo dono pode voltar para procurar.

Não estou dizendo que os alemães são melhores pessoas por isso – como já expliquei, essas “regras” tanto na nossa cultura quanto na deles só vale para objetos de menor valor. Para, por exemplo, um iPhone perdido, acredito que a regra, as decisões envolvidas e a carga de culpa resultante varia não de cultura para cultura mas de pessoa para pessoa. Quer dizer, tanto um brasileiro quanto um alemão, ao encontrar um iPhone na rua, saberá que o dono quer reencontrar o iPhone, tentará reencontrar o iPhone, e vai ficar extremamente decepcionado em perder o iPhone, que também representará um prejuizo financeiro considerável. A decisão de ficar com o celular ou tentar reencontrar o dono vai depender do seu nível de honestidade e empatia individual, não da sua cultural

Já com objetos pequenos eu vejo que é uma questão cultural, mesmo. No Brasil, alguém que encontre um objeto de pouco valor não vai se preocupar com empatia ou honestidade porque entende que a perda do objeto não representa uma grande perda para o dono. E achado não é roubado. Para um alemão, a idéia é ‘se não é meu, eu não toco’, mesmo que tenha poucas chances de alguém voltar e reencontrar o objeto perdido, ou ficar muito chateado com a perda.

Vai, exemplos concretos para ilustrar e divertir.

Num dos meus primeiros momentos de convivência com alemães, estava passeando com um alemão em um parque, e vi, no meio de um gramado, um livro esquecido. Fui buscar o livro e trouxe comentando alguma coisa a respeito do mesmo com o dito rapaz. Era um livro qualquer, algo do tipo “aprenda a pescar”, com cara de que tinha custado uns 2 euros, talvez 3. E uma característica importante: as folhas estavam completamente onduladas, como se, depois de ter sido esquecido no gramado, o livro tivesse tomado uma chuva forte o suficiente pra ensopar as páginas. Era um dia de sol sem uma nuvem no céu. Ou seja, o livro devia estar lá há pelo menos 2 dias.

Eu mostrei o livro para o amigo, e qual não foi a minha surpresa quando, depois de breves comentários a respeito do livro, ele fez questão de devolver o livro exatamente no local onde tinha sido encontrado? Ou melhor, ele o deixou sobre um banco próximo, de maneira bem obviamente visível.

Outro exemplo é uma situação recente que me inspirou para escrever o post: semana passada, passeando novamente em um parque com o mesmo alemão da história anterior, vi sentadinho em um banco de maneira bem obviamente visível um ursinho rosa de pelúcia. Passamos de bicicleta, eu notei o bichinho, e continuamos o nosso caminho para algum outro canto do parque.

Quando chegamos no parque era 10:30. Ao ir embora, às 14:00, me ocorreu de passar lá de novo. O ursinho continuava sentadinho no mesmo local. Até tirei uma foto:

ursinho rosa

E note que era um feriado ensolarado, em um dos últimos dias de relativo calor antes do inverno. Ou seja, o parque tava cheio de famílias com crianças, mas ninguém levou o bichinho.


(Publicado em 9 de Outubro de 2014)

 

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3 comentários

  1. Vou tentar descrever esses situações de minha própria perspectiva como alemão… Dizia que, em geral, «achado é roubado» – a não ser que – você pode excluir com uma probilidade suficiente que o dono vai voltar procurar/buscar a coisa. A lógica: não tenho direito determinar de que valor é a coisa, normalmente não posso sabê-lo. O ursinho pode ter um grande valor para uma criança. É mais difícil decidir no caso de dinheiro. Se vou deixa-lo no chão, é mais provável que outrem vai leva-lo que o dono vai voltar e acha-lo, ao menos na rua. Uns meses atrás, achei uma nota de 10 euros. Olhei em volta, mas não vi ninguém que estava procurando alguma coisa. Levei-lo, mas adicionei o montante a meu donativo próximo. Este é meu «solução» pessoal, talvez uma solução muito «monástica»… 😀 Só penso que, provavelmente o dono do dinheiro chateou da perda, talvez o dono não notou a perda, ou talvez o dono voltou procurar o dinheiro. Não posso saber, mas eu sei que a perda levou a um ganho do bem comum. É também comum na Alemanha que se alguém acha alguma coisa (por exemplo depois do fim do trabalho, quando um edifício é esvaziado), a pessoa leva a coisa, guarda-lo, e vai pendurar bilhetes de notificação perto do local do achado. Se a coisa é de grande valor, o dono tem que andar alguns propriedades do achado para reavê-lo. No caso de um iPhone, caso é claro: 1. O dono quer com certeza reavê-lo, e 2. existe, em geral, uma boa possibilidade de achar o dono por meio dos dados no aparelho. Nesse caso seria completamente antiético guardar o iPhone como propriedade. Veja também isso: http://www.dailymail.co.uk/news/article-2430530/Helsinki-worlds-honest-city-Lisbon-lost-wallet-test.html

    1. Infelizmente, apesar de tudo isso, a Alemanha não é nenhum paraíso de honestidade… Afinal de contas, o indivíduo dicide, qual caminho seguir, e existe honestos e desonestos por toda a parte.

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