Xenofobia

Quarta-feira passada eu assisti a uma palestra na universidade de Dresden sobre o Brasil, por um professor que deu aula como professor convidado na Faculdade de Arquitetura da USP – onde eu me formei – por 4 anos.

Foi péssima. Ele apontou apenas pontos negativos e mesmo as coisas que ele mostrou que são positivas ele expôs de uma maneira negativa (de certa forma comparando com a Alemanha ao invés de comparar com a situação anterior no Brasil) e quase debochando, de modo que em vários momentos da palestra os alunos presentes riam. Todos os problemas mencionados foram descritos de maneira extremamente superficial, ignorando o contexto social e histórico por trás daquela situação. Eu era a única brasileira assistindo à palestra, e apenas dois outros presentes alemães pareciam ter qualquer conhecimento a respeito do Brasil (e os dois contestaram muitas das coisas que ele falou, ao final da palestra).

O mais frustrante é que, tendo dado aula na minha faculdade, não é possível que ele não tenha entrado em contato com as várias soluções e projetos positivos realizados pelo Brasil. A impressão que passou é que ele foi para o Brasil e não conversou com nenhum brasileiro sobre o país. Apenas fez seus próprios julgamentos com seu olhar de europeu superior, e voltou aqui para explicar para os outros alemães como as coisas funcionam.

Vim até checar os meus posts no blog para ver quantos deles passam uma impressão negativa da Alemanha. Mas me parece que mesmo nos posts em que escrevo sobre coisas que eu não gosto daqui, eu tento deixar claro que essas coisas podem ter lados positivos, ou que são diferenças culturais que exigem tempo para se habituar. Tenho certeza que nunca escrevi um post que soasse tão negativo e depreciativo da Alemanha quanto a palestra sobre o Brasil que vi, até porque eu escrevo meus posts com um alemão sentado do meu lado dando opinião.

MAS esse blog não é para contar sobre experiências particulares não-representativas, mas experiências mais gerais que mostram um pouco do país e da cultura. Então resolvi aproveitar a oportunidade dessa palestra horrível para discutir a receptividade dos alemães com estrangeiros.

Na verdade eu acho bem difícil falar sobre isso, porque a minha experiência varia bastante. Às vezes extremamente positiva, às vezes bem negativa. Mas acho que fazendo um balanço geral não só da minha experiência mas também das de amigos estrangeiros de diversos lugares, a Alemanha não é super receptiva. Primeiro preciso frisar que eu acredito que essa palestra desse fulano foi um caso à parte. Eu acho que os alemães no geral tomam muito mais cuidado de não falar sobre a cultura alheia de maneira negativa.

Uma coisa boa daqui é que os alemães carregam ainda um estigma muito grande da segunda guerra mundial. Um alemão regular, pelo menos da minha geração (eu tenho 27), toma muito cuidado em não dizer e de preferência nem pensar nada que possa soar minimamente similar ao que um neonazista diria. Dá para fazer uma boa comparação com a Itália, onde morei por 1 ano. Lá, sempre que eu conhecia uma pessoa nova e comentava que vinha do Brasil, as respostas variavam entre “Nossa, e, como é a vida lá, é muito ruim? AHBOMPelo menos o tempo lá é bom, né, no mínimo, hahahah!”, “Aham… e você quer ficar aqui, então?” (ao que eu respondia “não, vou voltar pro Brasil depois de um ano”, ao que eles respondiam com alívio, e, uma certa vez, até com “obrigado!”) e “nossa, mas lá tem universidades?”. A ignorância sobre o Brasil era tão grande que mais de uma vez eu tive que responder sobre o Obama ser presidente do continente inteiro, ou só dos estados unidos.

Já os alemães, quando você fala que é do Brasil, não costumam fazer nenhum comentário inconveniente. Freqüentemente acham que você fala espanhol, mas fora isso mantém eventuais ignorâncias a respeito do país dos outros pra si próprios.

Além disso, eles viajam de-mais. Muito muito muito. TODOS os alemães que já conheci já saíram da Europa pelo menos uma vez. E diferente de nós, eles viajam para TODOS os lugares, não só para os mais famosos. Sendo assim, vários alemães já visitaram o Brasil e portanto não são tão ignorantes sobre o país.

Uma observação que precisa ser feita é que no quesito aceitação a imigrantes, existe uma diferença razoável entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental. Nos estado que compunham a antiga Alemanha Oriental, a quantidade de estrangeiros é bem menor que na Alemanha Ocidental. De maneira que a aceitação aos mesmos, é, também, menor. Isso porque ainda antes da reunificação, a Alemanha Ocidental já estava recebendo imigrantes, enquanto a Alemanha Oriental só passou a recebê-los após 1990. (Com exceção daqueles oriundos de países socialistas, como é o caso dos vietnamitas, em grande número em Dresden).

Mas o resultado é que, enquanto nos estados da Alemanha Ocidental os alemães convivem diariamente com pessoas de diferentes aparências, aqui em Dresden a quantidade de africanos ou muçulmanos, por exemplo, é muito reduzida. Nas cidades pequenas da antiga Alemanha Oriental, então, é ainda mais raro. Assim, principalmente os imigrantes que são obviamente não-alemães se sentem mais à vontade nos estados do oeste do que nos do leste. Esse relato conta uma situação de racismo vivida por uma mulher brasileira, em Bremem (no oeste), em que várias pessoas presentes se levantaram em sua defesa. Uma história bem bonita.

Eu sou branca e não tenho traços muito obviamente não-europeus (embora também não pareça alemã), de maneira que tenho a sorte de passar razoavelmente despercebida por aqui, especialmente se estiver na companhia de alemães.Mas pelo que os amigos obviamente estrangeiros relatam, não é tão tranquilo ser negro, moreno, indiano, asiático ou muçulmano, por aqui. Todos já foram parados pela polícia para aleatoriamente mostrarem seus documentos sem motivo pelo menos uma vez (Segundo as leis alemãs, a polícia tem que te dar pelo menos um motivo para te pedir para mostrar seus documentos, e cor de pele ou aparência física não é motivo válido). Todos relatam problemas em conseguir encontrar uma república para morar (muitos tiveram que ouvir, antes mesmo de conhecer as pessoas pessoalmente, que a república procurava apenas coinquilinos alemães). Alguns relatam terem sido barrados na entrada de baladas. E, na minha experiência pessoal, conseguir emprego tendo um nome não-alemão também não é fácil. Já li relatos de outros que, enquanto viam todos os seus colegas de universidade com nomes alemães conseguirem estágio com facilidade, não eram chamados nem para entrevistas. Minha experiência foi a mesma, e a impressão que dá é que basta que leiam seu nome para que seu currículo já seja descartado. Para corroborar com as suspeitas, uma pesquisa recentemente publicada por aqui mostrou que, de fato, se seu nome não soar alemão, suas chances de conseguir emprego por aqui são bem menores, ainda que você tenha nascido e vivido a vida inteira aqui.

Aliás, alemães com pais estrangeiros têm grandes problemas para serem aceitos e vistos como alemães. Na Alemanha, não basta ter nascido aqui para ter direito à cidadania alemã. Se seus pais forem estrangeiros, você também o é, mesmo se tiver nascido aqui. E até muito recentemente, se quisesse adquirir a cidadania alemã por ter nascido e vivido a infância inteira aqui, teria que abrir mão da nacionalidade original dos pais. O mesmo vale, aliás, para qualquer um que queria nacionalidade alemã, exceto aqueles que tem um dos pais alemão e o outro estrangeiro. Mas se você casar com um alemão e quiser a nacionalidade alemã, terá que abrir mão da brasileira. Ainda essa semana uma lei mudou um pouco as coisas. A partir de agora, se você tiver nascido na Alemanha e vivido aqui pelo menos 8 anos, ou freqüentado a escola aqui por 6 anos, terá direito a adquirir a cidadania alemã sem abrir mão da sua nacionalidade original.

Esse tumblr reúne alguns breves relatos de alemães de origem estrangeira sobre os comentários preconceituosos ou no mínimo irritantes que eles ouvem de outros alemães.

Apesar disso, existem alguns pontos positivos, também. Há diversas iniciativas por parte do governo alemão no sentido da inclusão de estrangeiros. O DAAD, por exemplo, é uma instituição que dá bolsas para alunos estrangeiros estudarem aqui e para alunos alemães estudarem fora, pagas pelo governo alemão. Mais de 100.000 bolsas são concedidas anualmente, para cursos de qualquer área, e pessoas de qualquer lugar do mundo. De fato, ao escolher os bolsistas para cada curso, o DAAD procura sempre um grupo heterogêneo, com gente de cada continente. Além de serem híper organizados, a instituição ainda prevê ajuda tanto para os bolsistas que querem ficar na Alemanha quanto para aqueles que pretendem retornar aos seus países, como procura de emprego, financiamento, etc.

E no caso de você entrar em um processo de imigração, contará com cursos de integração (alemão e cultura), e ajuda para conseguir emprego.

E, claro, vários alemães são super abertos à presença de estrangeiros. O próprio presidente da Alemanha fez recentemente um bonito discurso em que frisou que hoje os alemães não são mais de uma única etnia e origem, condenou a discriminação e xenofobia, e se mostrou totalmente positivo à imigração. O discurso inteiro gigante em alemão você pode ler aqui (boa sorte). Abaixo vai um trechinho que eu gostei entre as partes que li, e que é bem representativo do espírito do discurso.

Uma jovem de família vietnamita nos Estados Unidos ou na Inglaterra é aceita como americana ou britânica sem questionamentos. Na Alemanha, por sua vez, lhe é perguntado com freqüência de onde ela vem “de fato”. Claro, curiosidade não é crime. Mas precisa ficar claro o que essa pergunta sinaliza: “Seu lugar não é aqui”. Quem quase automaticamente fala em inglês com um negro na rua talvez esteja tentando ser educado, mas ao mesmo tempo está imediatamente excluindo a possibilidade de um negro ser alemão.

(…)

Isso não pode continuar assim. A gente não pode mais falar de “nós” e “deles”. Agora existe um novo “nós alemães”, que é a união dos diferentes. E a esse ” novo nós” pertencem vocês [o discurso estava sendo realizado a um grupo de “novos” alemães, estrangeiros que estavam naquela ocasião recebendo suas nacionalidades alemãs] tanto quanto eu.

O original em alemão desse trecho:

“Eine junge Frau aus einer vietnamesischen Familie wird in den Vereinigten Staaten oder in Großbritannien ohne weiteres als Amerikanerin oder Britin akzeptiert. In Deutschland hingegen wird sie oft noch gefragt, woher sie “eigentlich” komme. Nun ist Neugier ja nicht verboten. Aber es sollte klar sein, dass solche Fragen auch signalisieren könnten: “Du gehörst nicht wirklich zu uns.” Wer auf der Straße eine Schwarze quasi automatisch auf Englisch anspricht, will vielleicht höflich sein, zugleich aber schließt er aus, dass eine schwarze Deutsche vor ihm stehen könnte.

(…)

Das darf nicht sein. Wir sollten nicht länger von “wir” und “denen” sprechen. Es gibt ein neues deutsches “Wir”, das ist die Einheit der Verschiedenen. Und dazu gehören Sie genauso selbstverständlich wie ich.”

Que outros alemães sigam o exemplo de tolerância demonstrado pelo presidente Joachim Gauck.


(Publicado em 5 de Julho de 2014)

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7 comentários

  1. Adorei a matéria, o blog continua ativo?

    Vc sabe me dizer como funciona o DAAD, pq pelo que vi no site, vc tem que falar alemao.

    Obrigado

  2. Muito bom seu texto, Lais.
    Esse professor deveria ter vergonha de ter uma postura tão parcial e negativa sobre o Brasil, tendo morado aqui por um tempo considerável, e sendo professor universitário.
    Eu tinha mesmo essa impressão sobre os alemães não serem muito receptivos aos estrangeiros (mas saber que eles não são receptivos nem mesmo a alemães filhos de pais de outros países me surpreendeu). Um país que já passou por tanta coisa já deveria ter evoluído mais nesse sentido.
    Sobre eles acharem que aqui falamos espanhol, é um clássico.
    Bem tocante o relado da brasileira que foi vítima de racismo no metrô. Tão bom saber que ainda há pessoas que saem em defesa de outras, ainda mais num caso assim.
    Agora os italianos se acham, hein?! Você que morou lá pode falar melhor que eu, mas eu lia o blog de uma brasileira que mora lá, e por tudo o que ela falava, a Itália lembra muito o Brasil nos pontos negativos, inclusive na desorganização e corrupção, e em em outros, somos até mais avançados (sistema de bancos e compras online, por exemplo), então, realmente não sei o que eles querem falar. Embora seja um país que quero visitar, fico com o pé meio atrás, pois não vejo bons relatos sobre os italianos. Mas claro que não dá pra generalizar.
    Abraços.

  3. sempre bom ver varios lados da msm situacao. eu msm so passei pela experiencia de ser tratada como uma “vc nao eh daqui” depois de uns 2 anos, qdo resolvi estudar de novo e eu era a unica estrangeira numa sala de qs 30 alemaes no auge dos seus 20 anos… esse grupo parece ser, de fato, excecao. eu tive msm um azar f.. danado rs mas ja percebi que qto mais jovem e/ou mais academico eh o terreno pra onde se caminha, mais se faz presente a ignorancia e o preconceito. isso me chocou, eu esperava encontrar resistencia entre os mais velhos por motivos meios obvios rs mas eh justamente o contrario rs fora dessa sala de aula, gracas a deus nunca tive esse tipo de experiencia…
    mas entrei pra comentar q a parte onde vc diz que tem q abrir mao da cidadania brasileira pela alema nao eh vdd. msm o post sendo de 2014… eu so adquiri a minha em 2015 e mantive a brasileira, mas uma amiga da minha mae conseguiu a dela ha qs 10 anos e tb manteve a cidadania brasileira… na alemanha, existe uma lista com os paises onde a cidadania eh “descartavel” ou “obrigatoria”, entao se seu pais de origem diz q vc nao pode renunciar a sua cidadania, a alemanha nao se opoe e te da a cidadania alema do msm jeito.
    no mais, eh sempre mto bom ler outras historias pra nao criarmos uma visao tao pessoal e individualista 🙂

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