Mas um dia eu posso precisar disso!

Uma particularidade dos alemães é que eles não sabem jogar coisas fora. Eles tem uma séria mania de guardar coisas velhas e desnecessárias que eles com certeza nunca mais vão usar, mas que eles têm medo de algum dia precisar e não ter mais.

Eu costumo fazer uma comparação com o Brasil comentando que na Alemanha é ao contrário: No Brasil as cidades são desorganizadas e bagunçadas, mas as casas das pessoas costumam ser super limpas e arrumadas. Na Alemanha as cidades são impecáveis e brilhantes, mas as casas das pessoas são bagunçadas e cheias de bobeira.

Uma coisa, por exemplo, que todo o alemão tem em casa em grandes quantidades são pastas de documentos exatamente como essas daqui:

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Te juro que em qualquer casa onde vive um alemão, vivem também pelo menos umas 10 dessas pastas, se ele for bem jovem. Se já for velhinho, umas 40. Tá, guardar documentos em pastas não é exatamente um sinal de desorganização, mais o contrário. Só que se você se aventurar a abrir algumas dessas pastas, encontrará os documentos do seguro de um carro que foi vendido em 1998, o comprovante de matrícula do primeiro semestre (e todos os outros semestres) da universidade, de cujo curso a pessoa já está comemorando 10 anos de formado, o jornalzinho do jardim da infância em que apareceu o nome do fulano na parte de “alunos destaques do ano”, etc etc. Ou seja, se houvesse uma revisão anual do conteúdo das pastas para ver o que convém continuar guardando, provavelmente a quantidade de pastas diminuiria drasticamente.

Se em casas já tem um monte de pastas, imagina em escritórios?

Se em casas já tem um monte de pastas, imagina em escritórios?

Outra coisa que alemães adoram guardar são caixas. Tipo a caixa do computador, a caixa da impressora, a caixa do aspirador de pó, a caixa da churrasqueira, porque vai que quebra e você tem que mandar para assistência técnica por correio porque não tem uma assistência técnica na sua cidade? Aí o melhor jeito de mandar é na caixa original! E se for vender? Melhor vender na caixa original! Melhor guardar, a caixa, DE TUDO!

Claro que em alguns momentos esse costume é até sensato. Em qualquer casa alemã, se vc precisar de uma sacola, pode ter certeza que terão sacolas de todos os tamanhos disponíveis. Papel? Rascunho, A4, A3, sulfite, com linha ou colorido? Qualquer sobra ou resto de qualquer coisa que possa ser reutilizado será guardado. É uma coisa bem sustentável, só que com freqüência levada ao extremo. Outro dia, limpando a gaveta de sacolas, encontrei umas sacolinhas minúsculas, daquelas que simplesmente você NUNCA vai precisar. E se precisar, nem vai lembrar que existe. Mesma coisa com as folhas avulsas de papéis diferentes… Uma amiga (brasileira) contou que na casa do namorado (alemão) encontrou o exagero de três prateleiras inteiras de sacolas.  E isso porque raramente, aqui, te dão sacola, quando você compra coisas. Ou, seja, para acumular tantas, significa que tem sacola que tá lá pelo menos há uns 3 anos.

Visitando casas de pessoas com filhos, sejam os filhos crianças, adultos, ou já pais, pode ter certeza que o porão estará repleto de trabalhinhos da terceira série. A máscara da fantasia de carnaval de quando a criança tinha 3 anos, tipo em 1989. O coração de cartolina vermelha com borda de glitter, com um “Feliz aniversário, mamãe!” escrito de cola colorida.

Eu queria ter tirado umas fotos de casas alemãs para ilustrar melhor a situação, mas achei que de repente acontecia dos donos entrarem no blog e ficarem ofendidos, e tal, achei melhor deixar pra lá. Não sei se esse medo de jogar as coisas fora tem alguma coisa a ver com tempos de guerra ou algo assim. Pode ser. Certamente os alemães têm um espírito menos esbanjador que a gente, demoram bem mais para comprar algo novo quando o velho ainda é utilizável, e tal. Como eu falei, existe um lado positivo. Às vezes levado ao extremo.

Um resultado desse medo de jogar as coisas fora são os Flohmaärkte, ou mercados de pulgas. São super comuns, em qualquer cidade tem possivelmente vários, semanais, onde você encontra tooodo tipo de tralha à venda. Tipo a feirinha do MASP subtraindo as coisas de valor. Mas são ótimos para encontrar bicicletas usadas bem baratas, ou mesmo alguns livros bons.

Wikipedia – Stefan Kühn

OBS adicionada mais tarde: Lendo esse post, minha amiga brasileira previamente mencionada, com quem eu não tinha previamente conversado sobre a particularidade das pastas e caixas, comentou que é absolutamente verdade e que as pastas do namorado contém, entre outras coisas: plantas de um apartamento que ele quase alugou, mas não alugou, em 2002; propagandas que ele recebe por correio (tipo da pizzaria da esquina), em alta quantidade, provavelmente de vários estabelecimentos comerciais que nem existem mais; uma pasta inteira de recibos de hotel, incluindo hotéis em que a estadia ocorreu nos idos de 1998; documentos da vespa alugada durante o intercâmbio feito 10 anos atrás, e por aí vai. Quanto as caixas, ela conseguiu convencê-lo a se livrar de uma parte – só as dos eletrônicos ou eletrodomésticos cuja garantia já estava vencida. E eu lembrei ainda que no escritório onde trabalha meu namorado, eles imprimem TODOS os emails que o escritório recebe e os guardam em pastas. TODOS.

(Publicado em 2 de Abril de 2014)

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