Comunicação direta

Não seria novidade escrever aqui que os alemães são sempre muito diretos, que respondem honestamente sem rodeios ou atalhos. Mas o que significa isso, na prática? Que eles soam sempre grossos e mal-educados? Que se você perguntar para um amigo alemão o que achou do seu novo corte de cabelo, ele talvez responda que ficou péssimo? Que se eu convidar alguém em casa e a pessoa não estiver a fim, vai responder, simplesmente “Não, obrigada.”? Se eu der um presente de aniversário para um alemão e ele não gostar, vai dizer “nossa, que porcaria, pode ficar que eu não quero isso, não!”?

Essa história da comunicação direta é um pouco difícil de entender, porque não é tão extrema quanto parece, mas te surpreende quando você menos espera. Ou melhor, surpreende os alemães, principalmente.

Por aqui as pessoas também procuram ser educadas e simpáticas, mas mais importante na cultura alemã é se comunicar de maneira clara, sem deixar dúvidas e sem mentir.

Na prática isso significa o seguinte:

1 – Se alguém te oferecer alguma coisa, sinta-se livre para aceitar sem cerimônias. Ninguém oferece só por educação. Se te oferecerem um café, uma água, uma bolacha, coca-cola, cerveja ou salsicha, se quiser aceite, se não basta um “não, obrigado”. É desnecessária aqui aquela dança:

“– quer um pedaço?

– Ah, não obrigado.

– Não, sério, pode pegar, eu não vou agüentar tudo!

– Não, magina, é seu bolo, não precisa!

– Não, mas sério, é muito grande, pega um pedaço!

– Ah, tem certeza?

– Tenho!

– Ah, que bom, eu tava morrendo de vontade!”

O que também significa que se você oferecer algo e a pessoa não aceitar, não precisa insistir. É até ruim insistir, a pessoa vai sentir que você não respeita a vontade dela, e tal. Se ela disser que não quer, acredite.

2 – Se você comentar que alguém deve passar na sua casa qualquer dia desses, o seu amigo alemão vai entender isso como um convite direto. “Você tem que vir lá em casa qualquer dia!” aqui é equivalente a “Vem jantar com a gente no sábado que vem às 20h?” com a diferença que o dia e o horário quem vai escolher é o convidado. Ele provavelmente vai te ligar um dia aleatório “E aí, posso ir amanhã?”.

Duas experiências engraçadas nesse sentido:

Da última vez que fui num evento familiar do meu namorado comentei com a avó dele, que mora em outra cidade, que ela tinha que vir nos visitar para ver nosso apartamento, e tal. Não era desonesto, eu de fato queria que ela visitasse, mas também não era assim um “NOSSA, você TEEEEM que vir visitar a gente, a gente MAL PODE ESPERAR pra receber uma visita sua, VAI SER O MÁÁÁXIMO, QUANDO VC VEM?”. Mas a resposta foi de acordo: “Ah, não, mas magina, não tem como, eu só vou para Dresden durante o Natal, e no Natal vocês não estão em casa, aí não tem como, para mim é muito difícil viajar, e….”.

Ok, tudo bem, vó, vc não PRECISA visitar, vc PODE visitar se quiser. Aqui esses convites casuais são levados bem mais a sério.

Outra situação contam os pais do meu namorado, que em uma viagem ao redor do mundo conheceram um paulistano no Chile. Como por coincidência o próximo destino do casal era São Paulo, o recém-conhecido então, segundo os dois, convidou-os a ficar na casa dele. Assim contam eles. Eu aposto que o moço só falou algo do tipo: “Ah, que legal que vocês vão para São Paulo, podem me visitar, então!”. Mas, claro, problemas interculturais de comunicação resultaram em que quando o casal estava para ir para São Paulo, ligaram para o rapaz perguntando se poderiam, então, ficar na casa dele entre as datas x e y. A resposta, foi, claro, algo como “Ahm? Ah! Er… é que… essa semana… eu estou reformando o apartamento.. esse mês inteiro, na verdade, eu nem estou ficando lá, estou temporariamente na casa do meu irmão, então…”.

Então cuidado se comentar com alguém de outra cidade que ele deve visitar. Ele virá com malas no fim de semana seguinte, se possível.

Mas, claro, o outro lado é que se algum alemão comentar “venha nos visitar uma hora dessas!” você não precisa se sentir constrangido na sua próxima viagem para aquela cidade de perguntar se pode dormir no sofá do seu amigo.

3 – A comunicação entre pessoas que não se conhecem é mais fácil, porque é sim bem direta.

Por exemplo: digamos que você peça um favor para alguém que você não conhece, como um desconto numa loja. Se a pessoa concordar, você não precisa ficar se perguntando “ixi, mas ele/a fez mó cara feia, acho que ele/a não gostou muito…”. Se a pessoa não achar boa idéia, ela vai dizer claramente que não. Alguém que você não conhece não vai fazer algo por você que não deveria fazer só porque não sabe falar não. No Brasil as pessoas não sabem falar não. Um bom exemplo para mim era sempre no ônibus. Tem claramente lá a placa dizendo que não pode ouvir música alta. Não deveria ser responsabilidade do cobrador dar bronca em quem não seguisse a regra? Mas a gente não sabe falar não no Brasil. Aqui fácil fácil a pessoa responsável iria lá tirar satisfações e dar bronca. Inclusive, se você estiver fazendo algo que incomode outras pessoas, espere ouvir bronca de desconhecidos.

4 – Se alguém te perguntar, digamos, se você vai na festa e você responder “ah, acho que vou passar lá mais tarde!”, a pessoa estará esperando que você apareça mais tarde. Eles não entendem indiretas. Se você não quer decepcionar a pessoa (no caso de ser, digamos, o anfitrião, ou um pretendente, sei lá, alguém que de fato queira saber se você vai) mas você não quiser ir, melhor dizer “Ih, não vai dar”. Uma coisa positiva, pelo menos na minha experiência, é que se você fala “não vou poder” ou “preciso ir, até mais”, os alemães não pedem justificativa. E eles também só vão te perguntar “Mas por que você não foi, ontem, na festa?” se você tiver dito que iria.

5 – “Tudo bem?” é uma pergunta levada a sério, por aqui. Mas já escrevi sobre isso no post Oi, tudo bem?

O que essa comunicação direta NÃO significa:

Que um amigo seu vá ser grosso ou te ofender desnecessariamente só porque é híper honesto.

Se você convidar alguém para, sei lá, ir tomar um café ou ir jantar na sua casa, e a pessoa não quiser, ela não responderá simplesmente “não, obrigado”. Ela também vai tentar responder de uma maneira simpática, ou até ir, se achar que não é uma situação que dê para dizer não. Entre amigos, os alemães também sabem que nem sempre é possível dizer não. Mas se ele disser que vem, pode ter certeza que vem. Os alemães jamais dizem uma coisa e fazem outra (bom, claro, jamais é exagero, mas eles procuram manter a palavra).

Se você perguntar para um alemão a opinião dele sobre seu novo corte de cabelo, e ele não tiver gostado, ele também não vai responder de maneira direta que não gostou. Ele não vai se sentir confortável em mentir, mas vai procurar achar uma maneira simpática de responder, ou fugir de ter que responder. Ele provavelmente não vai responder “Ah, adorei!” se não tiver gostado, como talvez a gente fizesse, mas não vai ser mal-educado.

Se você der um presente para um alemão e ele detestar total o presente, ele vai sorrir e agradecer e fim. Como você faria. Mas se por algum motivo o presente for algo que ele realmente não pode usar, independente de ter ou não gostado, ele provavelmente vai te dizer. “Ixi, adorei os chocolates, mas é que eu sou diabético!” ou “putz, obrigada pela garrafa de vinho, mas eu não bebo álcool!”, etc. Isso não vai ser considerado um problema. Mas se ele simplesmente não gostar do presente, vai ser tão educado quanto você seria em não dizer que achou péssimo.

No começo, essas diferenças podem parecer estranhas e difíceis de se acostumar, mas com o tempo você vai percebendo que é, na verdade, muito fácil se comunicar dessa maneira. Acaba sendo mais fácil em várias situações, de saber o que a outra pessoa pensa de fato, e se sentir na liberdade de dizer o que pensa também sem ficar com medo de ofender a pessoa.


(Publicado em 15 de Agosto de 2013)

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7 comentários

  1. Muito mais fácil assim! Sem medo de desagradar, sem trabalho de inventar desculpas e sem ter que lidar com falsidade. Os alemães devem ser mais felizes por isso! =)

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