Transporte público na Alemanha

Diante da escalada de manifestações ocorrendo em São Paulo, no Rio, e em outras cidades brasileiras, me pareceu superficial vir aqui escrever um post sobre, sei lá, os jardins que os alemães que não moram em casa alugam ou compram, às vezes bem longe de suas casas, para ter um lugar verde para plantar umas plantas e cultivar umas coisinhas. Ou um outro post, sobre, sei lá, o que os alemães fazem no seu tempo livre, ou bichos de estimação que os alemães tem, entre outros vários assuntos que tenho planejados para futuros posts.

De fato, essa semana tem que ser alguma coisa que contribua para a discussão.

O ideal seria, claro, um post sobre violência policial na Alemanha, ou repressão a manifestações na Alemanha. Existe? Existe. Aliás, aqui em Dresden, o dia 13 de fevereiro é uma ótima data para presenciar alguns absurdos por parte da polícia e da justiça, que misteriosamente não proíbem a manifestação neo-nazista, mas tentam parar os manifestantes que saem às ruas para bloquear os nazistas. Vídeos de manifestantes pacíficos, que estão simplesmente sentados no chão, sendo arrastados pela polícia para desbloquear o caminho dos nazistas, ou ainda o vídeo mais chocante que vi desse mesmo dia, em que nazistas atiram pedras em um edifício onde moram estrangeiros , xingando e gritando ameaças aos mesmos, enquanto dois carros de polícia assistem a tudo de longe sem tomar nenhuma atitude.

Outros registros, de policiais tirando seus capacetes e se juntando aos manifestantes do movimento Occupy, em Frankfurt, também existem.

Mas eu, nunca tendo participado de uma manifestação na Alemanha nem estando suficientemente informada sobre a política, a atuação das autoridades e da polícia, ou a reação do povo por aqui, não estou capacitada para escrever sobre isso.

Entretanto, um post que já estava planejado e que vem a calhar neste momento, ainda que a discussão já esteja muito além do transporte público, é esse: como funciona o transporte público alemão.

Até já escrevi um pouco sobre o assunto, nas dicas sobre Berlim e Dresden, e no post sobre empregos que não existem na Alemanha (cobrador de ônibus sendo um deles). Esse post é uma compilação do que já foi dito e outras informações adicionais.

O transporte público alemão é gerido por empresas públicas responsáveis por uma cidade ou uma região. Então em cada cidade ou região apresentará diferenças. Até aí não é muito diferente do Brasil, exceto que aqui as empresas são mesmo públicas, não tem Via Quatro criando logos para suas próprias linhas de metrô.

Tem muitos pontos positivos no transporte público por aqui. Em primeiro lugar, TUDO é 100% integrado. Não tem essa história esquisita de, ok, você pode pegar vários ônibus durante 3 horas, mas se entrar no metrô tem que pagar extra. Se você comprar um bilhete de transporte, que aqui em Dresden vale por 1h, nessa 1h vc pode pegar quantos ônibus, trams, metrôs ou trens regionais você quiser. Como assim, trem regional? Quer dizer, com o mesmo passe do ônibus você pode pegar também o trem regional que vai, sei lá, para Leipzig. Só que, claro, se você estiver só com o bilhete de Dresden, você só pode usar esse trem dentro dos limites da cidade, então você pode pegar um trem regional de uma estação para outra dentro de Dresden.

Em várias cidades, especialmente nas metrópoles, os limites da cidade funcionam por zonas. Quer dizer que você pode comprar um bilhete para uma zona, duas, três, o que for, dependendo da onde você vai. A Zona 1 seria a área principal da cidade, a zona 2 as áreas mais periféricas e a Zona 3 as cidades em volta. É um sistema que aqui faz sentido, pagar de acordo com a distância que você anda, mas obviamente só faz sentido porque não rola uma expulsão das classes mais baixas para as periferias como nas metrópoles brasileiras. Por aqui, normalmente, as cidades em volta e as áreas periféricas são escolha de famílias que preferem ter uma casa maior, jardim, mais espaço para as crianças, essas coisas.

As tarifas variam, claro, de cidade para a cidade, mas não são baratas. Em Dresden, uma cidade pequena, com distâncias facilmente realizáveis de bike, o bilhete unitário custa 2,00€, bem caro se comparado a Berlim, uma metrópole, onde o bilhete custa 2,40€.

Mas a verdade é que, se você é um usuário habitual de transporte público, você nunca vai pagar a tarifa unitária. Tem alternativas que saem muito mais em conta. Vou usar Dresden como exemplo, mas as informações são similares para qualquer cidade. Aqui, se você pega transporte público todo dia para ir para o trabalho, você tem as seguintes opções:

> o ticket mensal, por 52,50€. Se você vai e volta do trabalho 5 dias por semana, portanto usa o tram aproximadamente 42 vezes por mês. Com o bilhete mensal, você acaba pagando só 1,25€ por viagem. Mas, claro, tendo o bilhete mensal, você pode usar o transporte público infinitamente durante o mês todo. Então se além dessas idas ao trabalho vc ainda usar durante o fim de semana umas duas vezes, talvez durante a semana mais duas ou três vezes para ir para outros lugares, digamos que você acabe usando o transporte público um total de umas 62 vezes durante o mês, já sai 0,85€ a viagem. Vale muuuito a pena.

> o bilhete mensal abonado: você pode também se inscrever para receber o bilhete mensal todo mês por correio, como uma assinatura de revista. Dessa maneira, você paga só 46€ pelo bilhete, e pode cancelar sua “assinatura” quando quiser. Nesse caso, cada viagem, na estimativa só-trabalho sai 1,09€, e na estimativa trabalho+passeios, 0 74€.

> o bilhete anual, por 520,00€. Se você realmente só usar o transporte público para ir e voltar do trabalho, portanto um total aproximado de 42×11 (12 meses menos 1 mês de férias) = 462 vezes, cada viagem já sai por 1,12€, ou, naquela média de trabalho + algumas viagens extras, 62×11 + digamos só 10 vezes durantes as férias porque vc foi viajar = 692 viagens por ano. Cada viagem sai por 0,75€. Parece mais caro que o bilhete mensal abonado, mas só porque eu calculei esse mês de férias. Se você receber o bilhete assinado durante o ano todo, sai um total de 552€. Aí vale mais a pena comprar o bilhete anual, mesmo. Uma coisa interessante do bilhete anual, é que ele não vale só para a pessoa que comprou. Você pode emprestar o seu para outra pessoa sem o menor problema. E, durante o fim de semana e feriados, durante às 18h do dia anterior ao feriado até às 6 da manhã do dia do feriado (ou sábado ou domingo), ele serve como bilhete família. Você pode levar com você portanto outro adulto e duas crianças.

E o bom também do bilhete anual e do bilhete mensal abonado é que você pode levar com você a sua bike OU o seu cachorro grande. Nos bilhetes normais, para levar bike ou cachorro grande tem que pagar extra.

O que nos leva para o próximo item: o que pode levar no transporte público?

Bom, basicamente qualquer coisa que passe pelas portas, exceto que para algumas coisas você tem que pagar extra. Mas já ouvi história até de gente mudar de casa de tram. Tipo levando móveis e tal. O meu namorado me jurou que junto com 4 amigos, trouxeram de uma loja até a universidade, de tram e ônibus, 5 pacotes de 25kg de concreto. Nada é impossível.

Mas oficialmente te dizem que você pode levar com você, gratuitamente:

> 1 carrinho de bebê (com ou sem bebê dentro)

> 1 cadeira de rodas (com você nela, não uma pessoa extra)

> 1 par de Esquis (mas não pode ir usando)

> 1 trenó (o tipo pequeno, sem renas)

> 1 animal pequeno (dentro de caixinha)

ou

> 1 bagagem de mão

E pagando extra você pode também levar

> uma bicicleta

> um cachorro grande

ou

> bagagem grande

E o que é “extra?” Para levar a bicicleta com cachorro dentro da mala, você tem que ter um bilhete extra, de tarifa reduzida. O bilhete de tarifa reduzida é o mesmo que serve para crianças de até 14 anos, e custa 70% do bilhete normal. Então o unitário reduzido custa 1,40€

Mas se você leva sempre sua bike ou seu São Bernardo com você pro trabalho, e você tiver o bilhete mensal não-abonado, que não inclui bicicleta ou São Bernardo, você pode comprar o bilhete mensal de bicicleta, por 16€, que é mais barato que o bilhete mensal reduzido. Isso também pode lhe ser útil caso você seja estudante. O que nos leva a ainda mais uma questão importante: mas e estudante não paga meia?

Melhor que isso. Estudante não paga! Bom, quase. Primeiro, lembro que isso varia de estado para estado e caso para caso. Mas, no geral, se você é estudante você tem um bilhete semestral para o transporte público, que você pode usar também infinitamente naquele semestre. Aliás, mais do que isso. É melhor ainda que um bilhete mensal ou anual, porque não vale só na cidade em que você estuda, mas no estado inteiro. Então se você estuda, digamos, na universidade de Dortmund, e sua família é de Colônia, você pode ir para casa todos os fins de semana sem pagar nada. Muito prático. Se a sua família não é do mesmo estado onde você estuda, pelo menos dá pra ir passear nas cidades próximas sem pagar nada, o que também é legal. Só se você estudar em Berlim, Hamburg ou Bremen é que você sai em desvantagem, já que essas cidades são estados separados. =( Qüé qüé qüé…

E porque “quase” não paga?

Bom, aqui na Alemanha praticamente todas as universidade são públicas. Mas não são 100% gratuitas. Você paga uma taxa de matrícula a cada semestre. Essa taxa varia de estado para estado, e costuma ser entre 100 e 300 euros. Parte (a maior parte) dessa taxa vai para pagar esse bilhete semestral, e o que resta financia o grêmio estudantil e as organizações estudantis que organizam moradias para os alunos e coisa do tipo. Escrevo mais sobre isso num post sobre universidades. Mas portanto você acaba pagando uns 150 euros para esse bilhete, que vale infinitamente durante todo o semestre. Mas, se não me engano, ele não inclui bicicletas ou São Bernardos, daí o bilhete mensal de 16€ caso você queira muito levar todo o dia o seu São Bernardo para assistir a aula com você.

Quem não leu ainda nenhum dos outros posts que mencionam transporte públicos pode estar se perguntando: e como funcionam esses bilhetes? É um cartão, tipo o bilhete único de SP? É um bilhete tipo o do metrô, que você passa numa catraca? Como funciona?

Para os bilhetes normais (unitário, de 4 viagens, diário, tal), você valida o bilhete no tram ou ônibus, ou na plataforma do metrô ou trem. Validar significa que você carimba o bilhete numa maquininha dentro do ônibus ou na plataforma. Não tem cobrador, você que se auto-cobra, digamos. Se você não carimbar o seu bilhete, viaja de graça. A não ser, claro, que entre o fiscal no seu ônibus para fiscalizar as passagens de todo mundo. A multa por não carimbar o bilhete, se você for pego por um fiscal, é de 40 euros. E eles calculam a quantidade de fiscalizações necessárias para que, estatisticamente, não valha a pena o risco de não carimbar.

Para os bilhetes mensais ou anuais, não precisa carimbar, o bilhete já vem com o mês em que é válido impresso.

O bilhete semestral de estudante é, na verdade, a carteirinha da universidade. Mas você tem que ter em mãos também uma identidade sua para provar que você é você, já que o bilhete semestral só vale para você.

Mas e como é o transporte público na Alemanha? É bom? É cheio? Fica lotado? É organizado?

Super. Organizado demais. Todos os trens, ônibus, trams, metrôs, o que for, tem horário marcado para passar em cada ponto, e raramente eles vêm fora do horário. Em várias estações tem displays eletrônicos que mostram o tempo para o próximo ônibus de cada linha chegar. Todas as estações, com ou sem display, tem um mural com uma folha para cada linha mostrando os horários da mesma. Então você sempre sabe, quando está no ponto, quando vem o próximo ônibus. E, claro, as informações também são facilmente encontráveis na internet, e tem aplicativos para o celular, de maneira que você sempre pode planejar, com bastante precisão, qual ônibus quer pegar.

Os ônibus aqui também ficam cheios, na hora do rush. Nas cidades grandes, claro, mas mesmo em Dresden, lá pelas cinco da tarde os trams ficam bem cheios. Mas nunca vi nada chegar perto de uma Estação da Sé às 18h ou dos trens híper-lotados da CPTM, por exemplo. Aqui o transporte fica cheio. Às vezes bem cheio. Mas não superlotado. E as pessoas são super tranquilas em termos de dar espaço para passar, para sair, etc. Regras básicas como deixar as pessoas saírem antes de entrar e ficar à direita na escada rolante do metrô são respeitadas à risca. Os ônibus esperam calmamente até todo mundo conseguir descer no ponto, se estiver muito cheio, ninguém perde o ponto porque estava longe da porta. As pessoas são bem tranquilas para levantar só quando chegar no ponto, e não 20 minutos antes. Se alguém precisar entrar ou sair com carrinho de bebê, cachorro ou bicicleta, sem problemas, com um pouco de paciência as pessoas se re-arranjam para dar espaço. Minha impressão é que os alemães são bem tranquilos e respeitosos no transporte público. Sempre tem lugar pra velhinha sentar. O motorista não acelera loucamente assim que você entra no ônibus, derrubando todo mundo que está de pé.

E os trens e ônibus são super modernos, silenciosos e confortáveis. Dentro do ônibus sempre tem um visor que vai mostrando as próximas estações, e as conexões possíveis. Você nunca vai precisar perguntar nada para o motorista, informação sobre o percurso não falta, nos pontos e dentro dos ônibus. E funcionam 24h.

E finalmente, talvez o ponto mais importante sobre o transporte público daqui, tomando Dresden como exemplo novamente. Aqui o tram é prioridade sobre tudo. Até sobre pedestre. Se tem um tram chegando, fecham todos os semáforos para o tram passar primeiro, sempre. De maneira que ir de tram é muito mais rápido que outros meios de transporte. As ruas são estreitas, muitas delas têm só uma faixa para carro, os semáforos tem longos períodos em que ficam abertos para pedestres, estacionar na rua é caro, não tem estacionamentos particulares, praticamente, só públicos, alguns bolsões ou estacionamentos subterrâneos, que também são pagos, e a gasolina é cara. Andar de carro, nas cidades alemãs não vale muito a pena. O transporte público é pensado para que seja mais rápido e barato e fácil que o particular e isso funciona. Claro, tem congestionamento também. Mas vindo de São Paulo, os congestionamentos daqui quase não são dignos do nome.

As tarifas para o transporte público de cada cidade podem ser facilmente encontradas na internet no site das empresas que fazem o transporte municipal. Aí vão os links das cidades mais importantes para ajudar:

Berlim (BVG); Bremen (BSAG)Colônia (KVB); Dresden (DVB)Düsseldorf (Rheinbahn); Frankfurt (RMV); Hamburg (HVV): Hannover (Üstra); Munique (MVV); Nuremberg (VAG); Stuttgart (VVS).


(Publicado em 17 de Junho de 2013)

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11 comentários

  1. Já pensou se aqui fosse assim também? Prioridade para o transporte público, fácil acesso a informações, respeito entre as pessoas…
    Mas adorei o cachorro! XDDD

  2. Olá! Primeira vez que visito o seu blog e já achei bem interessante. Só uma dúvida: li há pouco que a taxa de matrícula semestral foi abolida nas universidades alemãs. Essa informação confere? Quando estudei lá, pagava uma taxa de aproximadamente 60 DM (marcos ainda, faz tempo …)

    1. Oi frausantana,
      Então, a taxa de matrícula que foi abolida não foi essa taxa que se paga pelo bilhete semestral. Algumas universidades tinham uma taxa de matrícula, que era, basicamente, um valor a ser pago para universidade para estudar lá. Eram valores altos como, sei lá, 500 euros, 1000 euros, valores que realmente dificultavam para alguns estudantes se matricularem nas tais universidades. E isso variava de estado pra estado, alguns estados não tinham essas taxas para as suas universidades enquanto outros tinham. Me parece que agora essa taxa foi abolida em todos os estados. Mas o valor que se paga semestralmente para o bilhete semestral é outra coisa: é realmente a compra do bilhete semestral + um certo valor para financiar o que seria o “grêmio” da universidade. Ou seja, nem um centavo desse valor que é pago entre 100 e 300 euros vai para a universidade em si. Essa “taxa” ainda existe, sim.

    1. Oi Kareen! O bilhete mensal abonado chama Abo-Monatskarte. Quanto a onde comprar, depende da cidade pq em cada cidade é uma empresa diferente que gere o transporte público. Aqui em Dresden se não me engano dà pra pedir pela internet, sim.

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