Nomes e sobrenomes alemães

Ah, o assunto desse post é interessante. A intenção não é saber quais nomes são usados na Alemanha nem nada disso, mas sim para ver as regras de primeiros nomes e sobrenomes na Alemanha. Prepare-se: É BI.ZAR.RO.

Começando pelo primeiro nome, então. Se você tiver um filho na Alemanha e quiser/puder registrá-lo aqui (só dá se um dos pais for cidadão alemão), não vai rolar nomes como Maicon, Edyleuza ou Rosmarilson. O nome terá que ser aceito pelo Standesamt (algo equivalente ao cartório de registro civil) e deverá seguir algumas regras nada cisnormativas:

1 –  Tem que ser possível identificar o sexo da criança pelo primeiro nome. Se o primeiro nome for um nome neutro, como, digamos, sei lá.. Íris ou.. Ariel, sei lá, nesse caso tem que ter um segundo nome que especifique o gênero. Porque, que absurdo, né, não sabermos se alguém é mulher ou homem ao ler seu nome impresso em algum lugar, é tipo o horror.

Além disso, claro, seguindo essa lógica, é também proibido dar um nome feminino para um menino ou vice-versa, exceto Maria, que pode ser usado como segundo nome para meninos.

2 – O nome não pode ser absurdo ou degradante, claro.

3 – Sobrenomes, nomes de produtos ou nomes de objetos não são permitidos como primeiros nomes. Tudo bem.

Basicamente o que significa é que você não pode inventar nomes, e tem que deixar claro se a criança é menino ou menina. (aproveita e mergulha o nenê em tinta rosa ou azul para não restarem dúvidas).

Tá, mas e aí, eu sou brasileira, meu esposo(a) é alemão, mas eu queria chamar minha filha de Laís, porque convenhamos, é um nome que denota inteligência, confiança, coragem, e acima de tudo modéstia. Quero chamar minha filha de Laís, mas aqui na Alemanha esse nome não existe, como faz?

Bom, não que eu recomende dar para a criança um nome que não será facilmente reconhecido por aqui – é um saco ter que soletrar o nome toda vez. Se o nome que você der para a criança não for aceito pela Standesamt, você pode recorrer legalmente da decisão. Em casos em que a criança tiver pais de diferentes nacionalidades, é possível que o nome seja aceito se for normal no outro país. Como exemplo um caso de um casal germano-chinês que queria dar um nome chinês para a filha, e a Standesamt só aceitou após confirmar com a embaixada chinesa que o nome era normal na China (http://german.about.com/library/blname_reg.htm). Então há chances de você conseguir chamar sua filha de Laís, UFA!

E as leis de sobrenomes eu acho ainda mais peculiares.

Na Alemanha não dá pra ter vários sobrenomes. Você tem um sobrenome. Fim. Nada de Dom Pedros Primeiros por aqui.

Se você casar, mudar seu nome logicamente não é obrigatório, e tanto o marido quanto a esposa podem adotar o sobrenome do cônjuge. Mas aí vou ter que abrir mão do meu nome original? Bom, a alternativa é você combinar os dois nomes com um hífen. Então, digamos que a Angelina Jolie e o Brad Pitt fossem alemães, e o Brad quisesse adotar o nome da Angelina mas sem abrir mão do seu nome, ele poderia se chamar Brad Pitt-Jolie. Não Brad Pitt Jolie. Brad Pitt-Jolie.

Mas as 6 crianças do casal não poderiam se chamar Pitt-Jolie (nem Jolie-Pitt, aliás), mas só Jolie.

Quer dizer, os filhos recebem automaticamente só o nome comum do casal e isso não é opção. Se o casal mantiver seus próprios sobrenomes e ninguém adotar nome de ninguém, aí os pais podem escolher qual dos sobrenomes a criança vai ter. Mas só um (e todas as crianças tem que ter o mesmo, me parece)! Muito embora eu ache que um sobrenome seria mais do que o suficiente pros meus filhos, acho bizarro que não exista a opção de dar dois sobrenomes… mas enfim. Eles não querem saber de acúmulo de sobrenomes por aqui. Inclusive tem um caso de um casal em que a mulher já tinha o sobrenome hifenado e se casou e queria adotar o nome do marido e ficar com um sobrenome com dois hifens “Thalheim-Kunz-Hallstein”. Mas a Corte Suprema (o caso foi longe) não aceitou e manteve a proibição de adotar nomes com dois hífens. (http://www.thelocal.de/society/20090505-19067.html)

Ainda que o acúmulo de nomes e sobrenomes nada raro no Brasil seja questionável, essas proibições, sei não. Acho o maior exagero. Como li em algum lugar: no mínimo irônico vindo de um país com uma língua que acumula substantivos numa única palavra infinita…

Ainda falando um pouco mais sobre nomes. Aqui o sobrenome é híper importante. (Bom, acho que na verdade o Brasil é uma das poucas exceções nesse sentido, onde quase nunca as pessoas são tratadas pelo sobrenome ao invés do primeiro nome). Mas em qualquer situação que você não conheça a pessoa, ou quase qualquer situação que não seja absolutamente informal entre família e amigos, você será sempre tratado pelo seu sobrenome, precedido de Herr (Senhor) ou Frau (Senhora). Aliás, aqui até faz sentido que eles insistam em primeiros nomes com gênero específico. Sempre que eu mando um email para alguém que não me conhece e assino com o meu nome completo sem Frau nem Herr, e não há nada no email que indique um ou outro, recebo uma resposta me tratando como “Caro Senhor Awawa”…

E eles levam a sério esse negócio de tratar por você (du) ou por senhor(a) (Sie). Realmente é só digamos pessoas da sua idade, colegas de classe, tal, ou crianças, ou família estendida (tipo a família do seu namorado(a)) que você trata automaticamente por você. Qualquer outra pessoa desconhecida deve ser tratada por senhor ou senhora, e só se o mais velho ou o que estiver mais alto na hierarquia é que pode ter a iniciativa de começar a usar o “du” e primeiros nomes. (E a pessoa vai sempre perguntar antes se tudo bem).

É bem difícil se acostumar a tratar todo mundo por senhor(a) e a ser tratado pelo seu sobrenome. Por outro lado, em família eles sempre usam du, então é normal vc tratar, digamos, a bisavó de 96 anos de idade do seu namorado, por você ao invés de senhora, o que eu também acho particular!

Mas pelo menos não tem aquela separação besta entre Senhora e Senhorita (tá, em português a gente não usa, mas digamos Miss e Mrs. em inglês), Frau vale para todas as mulheres.


(Publicado em 24 de Maio de 2013)

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4 comentários

  1. Uau! Que difícil dar um nome para alguém!
    Pelo menos evita aquele monte de nomes constrangedores ou malucos.. e também é bem chato ter um nome super longo… acho que dois sobrenomes já está de bom tamanho XD
    Também deve ser bem estranho ser tratado por seu sobrenome.. ahahaha
    Mas esse negócio de identificar o sexo da pessoa só pelo nome… nada a ver! u__u
    Bem interessante!

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