Objetos que não existem no Brasil

O post anterior foi sobre objetos típicos do dia-a-dia brasileiro que não existem ou são incomuns na Alemanha. Inevitavelmente terá que seguir um post sobre objetos típicos do dia-a-dia alemão que não existem no Brasil! E é esse!

Lembrando (porque lógico que sempre aparece alguém comentando “ah, mas isso tem, awawa, só é incomum”), sim, a maioria desses objetos existem no Brasil, só são incomuns. Foi isso que eu quis dizer com “objetos do dia a dia que não existem ou são incomuns”. OK, BORA:

1 – Pasta com furinho

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Se você procurar dessas pastas no Brasil você certamente acha, mas acalme-se, acalme-se, há um motivo para ela ser o primeiríssimo item dessa lista. Essa pasta é provavelmente O UM OBJETO MAIS COMUM na Alemanha. Tipo se você juntar todos os objetos existentes na Alemanha, essas pastas vão ser provavelmente assim uns 50%. Pelo menos. Os alemães adoram guardar papel, imprimir tudo o que possível, e eles sempre, SEMPRE, arquivam os papéis nessas pastas. Assim, não é uma coisa que bastante gente tem, mas alguns outros têm outros tipos de pastas e tal. Não, não. TODOS os alemães têm pelo menos 20 dessas pastas em casa. Se você é um leitor assíduo do meu blog você já tá sentindo aqui o repeteco, porque eu já desabafei sobre o amor alemão por essas pastas em uns 3 posts.

2 – Caderno quadriculado

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Ontem uma amiga que ficou um mês na Alemanha no ano passado perguntou se nesse post eu ia falar do caderno quadriculado. É claro que eu ia falar do caderno quadriculado. O caderno quadriculado é possivelmente o primeiro objeto curioso do dia-a-dia alemão que você nota morando aqui. Basicamente qualquer caderno, qualquer caderno bem simplão que você compra na papelaria da esquina, é quadriculado. Eu não sei bem porquê, mas os alemães só usam caderno quadriculado, gente! No Brasil caderno quadriculado era uma coisa muito específica que você comprava pra aula de matemática da terceira série, e só. Porque você usaria uma folha quadriculada pra escrever normal? Só atrapalha, gente. Não, não, caderno quadriculado, desculpa, não faz sentido isso não, Alemanha.

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3 – Chaleira elétrica

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Chaleira elétrica é um eletrodoméstico presente em todas e qualquer residência alemã. É uma coisa tão incrivelmente prática que eu não entendo como não é mais comum no Brasil. Tem pra vender, e não é nada inacessível, uma basicona de plástico que nem essa custa uns 50 reais. Mas por algum motivo as pessoas não estão acostumadas a usar. Recomendo, gente, comprem. Perguntei para alguns amigos se não é comum, mesmo, e a maioria respondeu que não mas um ou outro disse que é. Então talvez esteja ficando mais comum.

4 – Gaseificador de Água

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Outra presença quase imprecindível na morada germânica: um gaseificador de água. Já falei em outros posts, aqui default é tomar água com gás. Se você pede água sem especificar, te trazem água com gás. Então nada mais normal que ter um gaseificador de água em casa, claro. Até porque água se toma a da torneira, não é comum comprar água mineral.

5 – Tabuinhas de pão

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No Brasil normalmente a gente tem uma tábua: pra bater carne, cortar alguma coisa, etc. Aqui além das tábuas de cozinha, de cortar coisas, todo mundo têm essas tabuinhas pequenas e fininhas, que são pra comer pão. Os alemães comem pão de uma forma bem particular, na minha humilde opinião, que é nessas tabuinhas em vez de prato. Porque aí você usa pra cortar o pão (que aqui frequentemente são aqueles pães grandões que você corta em fatias) e o queijo (que eles frequentemente compram em blocos em vez de fatiado). Eu achava bem nada a ver comer numa tabuinha, mas acostumei!

6 – Essa “esponja” de louça:

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É a esponja default de lavar a louça. Lavar a louça, aliás, é uma coisa curiosamente diferente aqui na Alemanha. Eles lavam a louça fechando o ralo e enchendo a bacia de água, e aí lavam louça ali na água parada. Acho esquisitíssimo, não sei como faz pra lavar a louça assim. Desse e outros costumes alemães que eu não incorporei na minha vida eu falei nesse post aqui. Aliás, já que estamos falando de louça, os alemães sempre deixam a louça suja do lado da pia, nunca dentro. Tipo, do lado da bacia. Essa é uma eterna briga entre eu e meu namorado, eu acho que fica mó feio e mais bagunçado deixar do lado, ele se incomoda de deixar dentro pq às vezes ele quer usar a bacia pra, sei lá, lavar uma fruta, e aí não dá pq tá cheio de coisa dentro. E eu digo, ué, quer lavar a fruta e não tem espaço, que tal lavar as louças antes? Ou colocar na máquina de lavar louça (outro objeto bem comum nas casas alemãs, por sinal) (as vezes as louças estão na pia esperando a máquina ser esvaziada ou é alguma coisa que não pode colocar na máquina). Aliás esse problema da fruta, ou genericamente de usar a torneira quando tem louça na pia, não é um problema no Brasil porque as torneiras da pia da cozinha costumam ser super altas! Percebi isso na última vez que voltei pro Brasil, como parecia que a água voava por todo lado porque as torneiras eram tão altas! As torneiras aqui ficam mais perto da pia. Aí realmente não sobra espaço pra usar a torneira, se tiver louça na pia.

Agora a grande questão é: Será que as torneiras costumam ser mais altas no Brasil porque as pessoas costumam deixar as louças dentro da bacia e não fora, ou será que as pessoas aqui deixam as louças fora da bacia porque a torneira é baixa? Quem veio primeiro, a torneira ou a louça?

7 – Torneira com misturador em qualquer pia

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E já que estamos falando de torneira! Aqui todas as torneiras da casa têm misturador, ou seja, água quente e fria. Na pia da cozinha e na pia do banheiro sempre tem água quente também. Uma maravilha quando tá frio! Curiosamente, as máquinas de lavar roupa também usam água quente, o que é algo bem incomum no Brasil. Meu namorado ficou um tanto chocado quando fomos lavar roupa no Brasil e a máquina não tinha opção de lavar quente, rsrsrs. Ele achava que precisava lavar quente a todo o custo roupas como peças íntimas, ou panos sujos, coisas que você queira lavar bem lavado. Aqui os produtos de limpeza não costumam ser tão químicos como no Brasil, então talvez isso faça uma diferença, também.

8 – Interfone que abre porta

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Na verdade a diferença não é o interfone mas a ausência de porteiro nos prédios, né. No Brasil quase todos os prédios têm porteiro, então o interfone não precisa ter um botão que abre a porta do prédio. Mas nos prédios que não têm porteiro certamente é que nem aqui: o interfone tem um botão que abre a porta lá embaixo. Nessa foto você deve ter notado que o meu interfone tem também um outro botão (todos têm), que eu nunca na vida usei, e suponho pelo desenhinho que seja pra acender a luz lá embaixo. Mas ela já acende automaticamente, então sei lá pra que serve esse botão. Em alguns prédios o interfone tem também uma câmera pra você ver quem é, mas é mais raro.

9 – Gancho pra pendurar casaco

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Claro que não é inexistente no Brasil, mas aqui é um objeto presente em absolutamente qualquer lugar. Em qualquer casa, escritório, escola, restaurante (a maioria), costuma ser comum também em banheiros de shoppings e lojas, etcetc. Tem em todo lugar porque no inverno quando você entra num lugar fechado a primeira coisa que você faz é tirar o casacão e pendurar em algum canto. E todos os casacos têm uma alcinha logo embaixo do capuz, pra pendurar.

10 – Aquecedor

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Presença constante no dia-a-dia alemão, os aquecedores. Aqui nesse post eu falei um pouco sobre como as casas e locais fechados são aquecidos.

Ok, já deu pra ter uma idéia. Suspeito que esses dois posts sobre objetos do dia-a-dia diferentes nos dois países terão várias continuações, porque desde que eu escrevi o post sobre os objetos que não existem na Alemanha, há dois dias atrás, já pensei em uns cinco outros objetos que poderiam ter ido pra lista!


(Publicado em 16 de Fevereiro de 2017)

Curta o Manha de Alemanha no face!

Objetos que não existem na Alemanha

Uma coisa que você não espera, quando vai morar em outro país, é que algumas pequenas coisas do dia-a-dia sejam feitas diferente. Você sabe que a cultura vai ser diferente, que as pessoas vão agir diferente. Mas você não prevê, por exemplo, que as pessoas todas lavem louça de uma maneira completamente outra da sua. Na verdade nem passa pela cabeça que existam maneiras diferentes de lavar louça além de pequenas variações como deixar a torneira aberta direto ou abrir e fechar de acordo com o necessário.

Essas pequenas diferenças em como as coisas são feitas aqui e ali acaba tendo um resultado curioso: alguns objetos do dia-a-dia que são presença obrigatória nas casas em um país são incomuns ou até completamente inexistentes noutro.

Pensando em alguns desses objetos esses dias, resolvi listá-los em um post. Certamente seguirá um próximo post sobre objetos típicos do dia-a-dia alemão que não existem no Brasil!

1 – Toalha de Mesa

img_1266Foi esse o um objeto que inspirou esse post. Eu percebi que toalhas de mesa tinham desaparecido da minha vida ao assistir Narcos, outro dia, e ver muitas mesas cobertas com toalhas. Senti uma familiaridade, parecia que estava em casa. Me toquei que a toalha de mesa acabou ficando para mim com uma cara de Brasil, de lanche da tarde na casa da vó no domingo, almoço de arroz e feijão e bife, massa no sábado com uma garrafa enorme de coca-cola na mesa.

Aqui não se usa toalha de mesa, é bem raro. Falando com meu namorado, pra ele toalha de mesa é uma coisa que remete a anos 90, a infância. Parece que as toalhas de mesa saíram de moda, por aqui. Ele apontou um motivo importante: as mesas hoje em dia são a maioria de madeiras com superfícies bem bonitas. Porque você iria querer cobrir? A toalha de mesa era pra cobrir a mesa que era feia, antes.

Realmente tem bastante a ver a toalha com a mesa, no Brasil as mesas simples costumam ser de metal toscão tipo aquelas de bar, de fórmica branca se for uma mesa na cozinha, ou até de plástico, daquelas de quintal. E as mesas bonitas, no Brasil, são quase sempre de vidro, e vidro não é uma superfície realmente muito convidativa a se usar sem nada cobrindo, tudo faz barulho quando você coloca na mesa, e dá sempre uma má impressão de que usar sem toalha vai danificar o vidro. Logo, toalhas.

2 – Lençóis de cama

Aqui as camas são feitas bem diferente. No Brasil, normalmente as camas são arrumadas nas seguintes camadas: primeiro o lençol que cobre o colchão, depois um lençol fininho por cima, e depois, se estiver mais frio, ou um edredom, ou um cobertor, ou ainda um desses “panos de cobrir cama” que é mais uma decoração que você tira e coloca do lado quando vai dormir, não usa pra dormir. Na foto da esquerda é um desses, na foto da direita é uma cama só com lençol. Na Alemanha não tem esse lençol que você usa pra se cobrir, é só o lençol que cobre o colchão e o cobertor. O cobertor fica dentro de um lençol que é tipo uma “sacola”. Eu fiz um post só sobre camas pra falar sobre esses cobertores maravilhosos e também sobre os travesseiros típicos daqui, você pode ler esse post aqui.

3 – Canga e Toalha de Praia

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Canga é uma coisa bem incomum por aqui. Bom, não dá pra esperar muito de um país que tem poucas praias e todas bem sem-graça. Pra praia ou pra piscina, os alemães costumam levar uma toalha normalzona, mesmo. Até tem alguns que tem coisas similares a cangas, mas não são comuns. Toalhas de praia, daquelas que são menos fofas que toalhas normais e tem um lado colorido e um lado branco, eu nunca vi por aqui.

4 – Ralos grandes no chão do banheiro ou da cozinha

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Prepare-se para o que eu vou te dizer: os banheiros e as cozinhas das casas alemães não. têm. ralo. Não têm. Tem só o ralo da banheira e das pias. Mas um ralo, mesmo, no chão, non exciste. O que talvez seja bom, né, sem ralo não dá pra vc lavar a cozinha com uma quantidade absurda de água, você só passa pano que nem nos outros cômodos da casa. Ou não, porque aí se vaza água da pia ou da banheira ou do vaso ou o que for, só secando com paninho um por um. Certamente é menos prático. Mas, é assim. Nesse post aqui, que foi um dos primeiros que eu escrevi pro blog, eu falei um pouco sobre algumas diferenças das casas alemãs.

5 – Box de plástico no banheiro
Ok, esses pelo visto estão ficando incomuns no Brasil porque eu perguntei pra um monte de amigos e ninguém tinha um box de plástico pra me mandar uma foto. Mas aqueles boxes bem padrão de plástico, toscões? Pois é, eles não existem aqui. Os de vidro existem, embora também não sejam super comuns. O mais comum é uma cortininha nojentinha que fica grudando em você durante o banho, péssimo.

6 – Bidê
Também bastante raros na Alemanha são os bidês. Mas também não sei porque ainda tem tanto no Brasil, é um negócio que tem tão pouco uso…

7 – Havaianas2017-02-14-21-41-31

Bom, até tem, assim, chinelos. Havaianas, mesmo, não, mas uns chinelos alternativos meio toscões, tem. Só que eles são bem menos comuns. Na piscina você vê alguns, mas em casa ninguém usa. Na rua, muito menos.

8 – Filtro de torneirawhatsapp-image-2017-02-14-at-20-44-59

Esses filtros simples pra beber água direto da torneira não existem por aqui. O motivo básico é: pode beber água direto da torneira. E é totalmente normal. Aliás bebedouro também é super raro. Normalmente vc enche sua garrafinha em qualquer torneira, mesmo na do banheiro. Soa estranho, mas é normal.

9 – Filtro de barro

Bom, lógico, se as pessoas bebem água direto da torneira, não precisa desses filtros, também. Mas aqueles galões de água transparentes até tem em alguns poucos lugares onde você não tem acesso muito direto a uma torneira, como por exemplo em farmácias.

10 – Pia de pedrawhatsapp-image-2017-02-14-at-19-48-43

No Brasil, todas as pias de cozinha e várias pias de banheiro são de pedra, de diferentes tipos e cores, mas sempre de pedra. Aqui pia de pedra você não vai ver nunca, não existe mesmo. Pedra aqui é super caro. O normal é as pias serem ou de madeira ou de compensado revestido com plástico ou fórmica. Tipo assim:

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Acho bem mais bonito, mas tem o problema de não poder colocar as panelas quentes direto na pia porque obviamente vai marcar a madeira ou o plástico. Depois que você acostuma a colocar uma coisa embaixo da panela tudo bem, mas óbvio que antes disso acontecer eu fiz uma bela marca preta redonda de panela na pia da casa da minha sogra! O_o’

11 – Abridor de lata simpleswhatsapp-image-2017-02-14-at-21-00-02Esses abridores de latas bem simples são incomuns por aqui. A maioria das pessoa têm desses assim:

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12 – Fôrma de pizza
Eis um objeto muito muito importante que falta em todas as casas alemãs. Uma fôrma basicona de pizza.

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Pois é, não tem. Não é que eles não façam pizza com muita freqüência, eles até fazem de vez em quando. Mas quando fazem, fazem direto na bandeja do fogão, que é quadrada! Gente, pizza quadrada, quem já viu isso?? Tá errado!

13 – Caneta BICimg_1260Não é que elas não existem, mas certamente não são a caneta padrão mais comum que se usa, como no Brasil. Aqui mais comuns são canetas daquelas que você aperta em cima pra empurrar a ponta pra fora. O que significa: no more tampinhas de caneta BIC perdidas nem canetas BIC sem tapinha perdidas pela casa. Acho bom!

Ok, é isso que eu consigo lembrar no momento. Acho que a parte mais divertida desse post foi sair pedindo pros amigos me mandarem fotos de determinados objetos de suas casas no Brasil! Obrigada pelas contribuições, miguxos! Certamente tem vários outros objetos típicos do dia-a-dia brasileiro que não existem por aqui, mas acho que 13 já tá bom por hora. O próximo post vai ser, claro, sobre objetos do dia-a-dia alemão que não existem no Brasil! Se você é um brasileiro vivendo na Alemanha e lembrou de outros objetos que não existem aqui, contribua com esse post lá nos comentários! 😀


(Publicado em 14 de Fevereiro de 2017)

 

Ausbildung – cursos técnicos

Algo que eu acho interessante na Alemanha é que para muitos empregos que não exigem qualificação superior acadêmica, você ainda precisa de um diploma de um curso técnico para poder exercer aquela profissão.

Na verdade, são pouquíssimas as profissões que você pode exercer de maneira fixa sem nenhum tipo de curso profissionalizante, se é que tem alguma.

Para falar disso, primeiro tenho que explicar como funciona o sistema educacional na Alemanha. Mas eu já fiz isso, nesse post aqui. Resumindo a história, você tem alguns caminhos possíveis: ou você faz o Gymnasium e o Abitur, que seria o equivalente a fazer o ensino médio até o final e ter o ENEM como um diploma final de ensino médio, ou você faz ou a Realschule ou a Hauptschule, que são menos anos de escola e com o diploma dessas escolas você pode fazer cursos profissionalizantes ou técnicos, mas não ingressar na universidade. Para entrar numa universidade você precisa do tal Abitur, algo similar ao ENEM.

Existem também algumas combinações possíveis, por exemplo colégios técnicos, onde você pode fazer um curso técnico e o Abitur ao mesmo tempo.

Terminado a escola você tem então dois caminhos possíveis: ou você entra numa universidade (Universität) ou numa escola superior (Fachhochschule), ou você faz uma Ausbildung, que é um curso técnico profissionalizante de, normalmente, 3 anos.

A diferença importante entre uma Ausbildung e um curso universitário (além da diferença óbvia de um ser acadêmico e o outro técnico) é uma Ausbildung é sempre diretamente conectada com uma bolsa, até porque é uma mistura de trabalho e estudo, você aprende aquela profissão enquanto a exerce, e é portanto pago por isso. A Ausbildung é por isso uma boa alternativa pra quem quer já receber um salário diretamente depois de sair do ensino médio, e também para quem não tem muita afinidade com a academia, já que é um curso mais prático.

Mas alguns desses cursos podem ser beeeem concorridos. Principalmente aqueles que dão acessos a profissões mais procuradas, claro. Você pode fazer Ausbildung pra ser padeiro/a, vendedor/a, carpinteiro/a, para trabalhar numa piscina pública, costureiro/a ou até profissões que precisam de uma qualificação mais específica como fonoaudiólogo/a, parteiro/a, entre outros. Praticamente qualquer emprego que não exige uma qualificação universitária exige uma Ausbildung.

Alguns exemplos:

A minha cunhada fez o Gymnasium + Abitur, então poderia se inscrever numa universidade. Mas como ela não se dava muito bem com a área acadêmica, preferiu seguir uma carreira mais prática, onde ela pudesse aprender a profissão enquanto trabalhava. Ela primeiro conseguiu um emprego numa loja de móveis de couro. O emprego era ligado a uma Ausbildung que era parte na universidade – com aulas teóricas sobre marketing, business, etc – e parte na própria loja aprendendo a profissão. Com o diploma dessa Ausbildung, depois que ela resolveu sair dessa loja, ela conseguiu um emprego trabalhando para uma rede de supermercados como responsável por encomendar os produtos que o supermercado vende: ela tem que saber otimizar as quantidades a serem encomendadas para evitar que os produtos esgotem ou sejam disperdiçados, ela tem que saber quando encomendar cada tipo de produto de acordo com as vendas, etcetc.

Uma amiga minha brasileira que mora aqui resolveu, depois de vir pra cá, seguir uma carreira diferente. Ela tinha curso superior em biologia, mas estava se interessando por obstetrícia e resolveu tentar uma Ausbildung para ser parteira. Ela conseguiu uma vaga bem concorrida para a Ausbildung do hospital universitário local, que tem duração de 3 anos. Nos dois primeiros anos, o curso alterna entre 5 semanas de teoria, com aulas normais e provas, e 5 semanas de prática no hospital. O último ano é inteiro no hospital, exceto por 5 semanas de aula preparatória para o exame final que dá a certificação para exercer a profissão. Fazer a Ausbildung significa que ela é contratada pelo hospital como um emprego normal, recebe um salário suficiente, além de todos os benefícios obrigatórios de contratação como férias, seguro de saúde, previdência, etc. Completando a Ausbildung no hospital ela ainda tem boas chances de ser contratada pelo próprio hospital para exercer sua profissão lá.

Não é incomum que algumas pessoas façam uma Ausbildung para começar uma profissão e alguns anos depois acabem se inscrevendo em cursos universitários também relacionados. Um exemplo é um colega que trabalha junto com meu namorado, que primeiro fez uma Ausbildung de desenho técnico e depois, já trabalhando, resolvou ir estudar arquitetura na universidade.

A maioria desses cursos têm 3 anos de duração, mas há alguns com 2 ou 4 anos de duração. As bolsas variam entre aproximadamente 500 a 950 euros no primeiro ano e 750 a 1400 euros no último ano (Em todos os cursos a bolsa aumenta ao longo do curso). Alguns valores mais específicos:
Um aprendiz de padeiro recebe no primeiro ano 458 euros, no segundo 620 euros, e no terceiro, 750. (valores mensais, claro).
Um aprendiz de construtor de ruas recebe no primeiro ano 755 euros, no segundo 1.115 euros, e no terceiro, 1400 euros.
Um aprendiz de sapateiro recebe no primeiro ano 710 euros, no segundo 740, e no terceiro 830 euros.
Aqui tem uma lista com as diferentes profissões e o salário médio da Ausbildung para cada ano de curso.

A maior diferença que eu percebi entre a Alemanha e o Brasil nesse sentido de cursos ténicos e profissões que não exigem curso superior é que essas profissões não são desvalorizadas como no Brasil. No Brasil, quem não faz curso superior ou exerce uma profissão que não exige qualificação acadêmica de nível superior é sempre visto como alguém inferior, menos capaz. Tem uma separação muito grande entre as profissões e como elas e as pessoas que as exercem são vistas. Aqui alguém que exerce profissões menos acadêmica não é visto como uma pessoa menos capaz ou inferior em nenhum sentido. E o fato de todas as profissões exigirem algum diploma para serem exercidas – seja um diploma universitário ou de curso profissionalizante – também faz com que as profissões mais práticas também sejam valorizadas, e poucas profissões sejam vistas como “algo que qualquer um pode fazer”. Até porque não é assim, nenhuma profissão pode ser feita por qualquer leigo, todas exigem experiência, habilidade e prática.

Empregos que não exigem nenhum tipo de qualificação costumam ser empregos temporários, bicos, e são exercidos mais por estudantes universitários aproveitando as férias ou o tempo livre pra ganhar um dinheiro extra pra bancar os estudos. E por aqui, qualquer profissão que você escolha exercer vai quase com certeza te dar acesso a uma vida bem normal de classe média.


(Publicado em 12 de Fevereiro de 2017)

Feriados alemães

Sempre útil de saber quando se está morando em outro país são os feriados públicos lá observados. Vou fazer uma lista dos feriados alemães e falar um pouquinho de cada um deles.

Mas antes, um detalhe: há algumas diferenças entre os diferentes estados da Alemanha. Alguns observam feriados que outros não observam. Para cada feriado, vou colocar um mapinha mostrando em quais estados alemães ele é válido. O melhor estado para se morar, se você gosta de feriados (e se você não gosta você deve ser uma pessoa bem triste), é a Bavária. Lá observa-se 14 feriados públicos durante o ano. Os estados com menos feriados (9) são Berlin, Bremen, Hamburgo, Schleswig-Holstein e a Baixa-Saxônia. E pra quem não sabe qual estado é qual, um primeiro mapa com os nomes dos estados todos, capitais e outras cidades importantes (pretendo escrever um post falando um pouco de cada estado, qualquer hora dessas):

Estados alemães

Ok… na ordem cronológica com data, nome em português e nome em alemão:
(tem uma listinha resumida com os feriados desse ano no final do post)

1˚ de Janeiro – Dia da Fraternidade Universal – Neujahr

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Primeiro de Janeiro, como no Brasil e em várias partes do mundo, é feriado na Alemanha inteira. Não tem o que falar sobre esse feriado que todo mundo conhece, então bora pro próximo:


6 de Janeiro – Três Reis Magos – Heilige Drei Könige

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Dia 6 de Janeiro é o dia dos Três Reis Magos. Esse feriado religioso comemora-se nos dois estados mais católicos da Alemanha – Bavária e Baden-Württemberg – e também na Alta-Saxônia por algum motivo qualquer. É um feriado ótimo pra dar uma alongada nas férias de Natal, uma pena que não é feriado aqui na Saxônia! 😦


Sexta-feira Santa – Karfreitag

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A sexta-feira antes da Páscoa, que cai em algum momento de Março ou Abril, é feriado na Alemanha toda.

Feriados que caem no Domingo aqui não têm muito significado porque de domingo é proibido por lei abrir o comércio de qualquer maneira. Então não faz muita diferença pra ninguém se é feriado ou não, as lojas estarão fechadas de qualquer maneira, e se você trabalha de domingo é pq você tem um emprego em que trabalharia de feriado também.


Segunda-feira de Páscoa – 
Ostermontag

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A parte legal da páscoa é que a segunda-feira seguinte também é feriado, e na Alemanha toda! O post sobre a páscoa na Alemanha foi um dos primeiros posts que eu escrevi nesse blog e você pode lê-lo aqui. Como os feriados aqui nunca emendam – nem na escola nem no trabalho – a páscoa é uma das poucas oportunidades de tirar 4 dias seguidos de folga (sem ser férias, claro). Boa oportunidade pra dar uma viajada por aí!


1˚ de Maio – Dia do Trabalho – Tag der Arbeit

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O Dia do Trabalho também é comemorado aqui na Alemanha, em todos os estados. É um dia tradicionalmente usado pelos sindicatos para manifestações e coisas do tipo. Há também alguns outros costumes relacionados ao 1˚ de Maio como a árvore de maio – moços decoram uma bétula (uma árvore típica daqui) com fitas coloridas e coloca na frente da janela da sua amada na noite do dia 30 de Abril para 1˚ de Maio – e entrar em Maio dançando – ir numa balada e dançar a noite inteira para comemorar a chegada da primavera. Falei dessas tradições nesse post aqui.


Dia da ascenção de Jesus – Christihimmelfahrt 

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O Dia da Ascenção de Jesus é comemorado na Alemanha inteira, 39 dias após o domingo páscoa. Cai sempre numa quinta-feira. Nessa data comemora-se aqui na Saxônia, extra-oficialmente, o Dia dos Homens – Männertag. É uma comemoração tão estúpida quanto o nome dá a entender, escrevi sobre ela aqui. Também é esse dia que é considerado aqui o dia dos pais.


Pentecostes – Pfingsten

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5o dias após a Páscoa comemora-se na Alemanha toda o Pentecostes – o dia em que o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos e sobre Maria (disse o Wikipedia). Mais um feriado religioso que é comemorado tanto no domingo quanto na segunda-feira seguinte. Cai em Maio ou Junho dependendo do ano, uma semana e meia depois do feriado anterior, o da Ascenção de Cristo.


Corpus Christi – Fronleichnam

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Corpus Christi existe como feriado por aqui também, mas apenas em alguns estados: Bavária, Baden-Württemberg, Alta-Saxônia, Saarland, Hessen, Rheinland-Pfalz e Nordrhein-Westfallen. O feriado cai 60 dias após a páscoa, então se você está em algum desses estados do mapinha acima, maio-junho é um período com 3 feriados um atrás do outro!


15 de Agosto – Ascenção de Maria – Mariä Himmelfahrt

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A Ascenção de Maria é comemorada no dia 15 de Agosto, apenas na Bavária – o estado mais católico da Alemanha. Eu não reclamaria de ter esse feriado, porque entre o Pentecostes, que cai em Junho, e o feriado seguinte tem três meses inteiros sem feriados…


3 de Outubro – Dia da Reunificação Alemã – Tag der Deutschen Einheit

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O dia da reunificação alemã é comemorado em 3 de Outubro desde 1990. Curiosamente, primeiro de Janeiro e 3 de Outubro são o único feriado público numa data civil (e não numa data religiosa como todo o resto). É um dia com grandes celebrações que acontecem cada ano em uma cidade. No ano passado foi aqui em Dresden, e eu queria muito ter ido mas bem no dia fui pro hospital – o que também rendeu um post. Mas esse ano escreverei um post sobre o dia da Reunificação.


31 de Outubro – Dia da Reforma Protestante – Reformationstag

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No Dia da Reforma Protestante celebra-se a fundação da igreja protestante por Martinho Lutero – que era alemão. Esse feriado é observado, claro, nos estados protestantes da Alemanha. Aqui no post sobre religião eu falei um pouco sobre dessa divisão geográfica da Alemanha entre protestantes e católicos. Esse ano em especial (2017), o feriado do Dia da Reforma Protestante vai valer para a Alemanha inteira porque é o aniversário de 500 anos das teses de Martinho Lutero.


1˚ de Novembro – Todos os Santos – Allerheiligen

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E enquanto os estados protestantes comemoram o Dia da Reforma, os estados católicos comemoram, no dia seguinte, o Dia de Todos os Santos.


Quarta-feira anterior ao dia 23 de Novembro – Dia de Arrependimento e Reza – Buß- und Bettag

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O Dia de Arrependimento e de Reza é um feriado protestante que era, até 1994, observado no país inteiro. O feriado foi abolido por motivos econômicos, exceto aqui no estado da Saxônia, onde o feriado ainda é observado todo ano na quarta-feira anterior ao dia 23 de Novembro. Eu não gostava de feriados em quartas-feiras no Brasil porque não emendavam nem combinavam com o fim-de-semana. Mas aqui os feriados não emendam de qualquer forma, e eu acho é ótimo dividir a semana em duas partes!


25 de Dezembro – Primeiro dia de Natal – Erster Weihnachtstag

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Dia 24 de Dezembro, véspera de Natal, é um dia útil normal. Dia 25 é feriado, e é considerado o Primeiro dia do Natal. Isso porque…


25 de Dezembro – Segundo dia de Natal – Zweiter Weihnachtstag

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… o dia 26 também é feriado, e é chamado de “Segundo dia do Natal”! Acho bom!

Pra resumir, os 9 feriados observados em toda a Alemanha, com datas de 2017:

1˚ de Janeiro (domingo)
14 de Abril de 2017 – Sexta-feira Santa
17 de Abril de 2017 – Segunda-feira de Páscoa
1˚ de Maio – Dia do Trabalho (Segunda-feira)
25 de Maio de 2017 – Ascenção de Jesus (quinta-feira)
3 de Junho de 2017 – Pentecostes (segunda-feira)
3 de Outubro – Reunificação Alemã (terça-feira)
31. de Outubro de 2017 – Dia da Reforma Protestante (válido na Alemanha toda apenas em 2017) (terça-feira)
25 de Dezembro – Primeiro dia de Natal (segunda-feira)
26 de Dezembro – Segundo dia de Natal (terça-feira)

É isso!


(Publicado em 8 de Fevereiro de 2017, 65 dias antes do próximo feriado! 😦 )

 

Dirigindo na Alemanha 3 – Prova prática

Acabei demorando muito mais do que o esperado para escrever esse post que MEUDEUS. QUE. COISA. SOFRIDA.

Esse post é o último da série de como validar sua CNH na Alemanha.
O primeiro foi sobre os documentos necessários e o passo-a-passo, o segundo foi sobre a prova teórica, e esse será sobre a prova prática.

Eu vou começar a conclusão dessa série de posts te dando três conselhos que eu queria muito que me tivessem sido dados há alguns meses atrás:

1 – Não tenha pressa. Esse processo é demorado e pressa vai acabar te custando tempo e dinheiro. E juntamente com esse conselho, outro conselho relacionado: Comece o processo o quanto antes. Se você veio pra Alemanha pra ficar, vai atrás disso logo, porque aqui TODO MUNDO tem habilitação, e consequentemente pra qualquer emprego é quase 100% de certeza que vão esperar que vc possa dirigir. Eu fiz a bobeira de esperar precisar pra tirar, podia ter feito isso tranquilamente na maior calma nos anos em que estava fazendo o mestrado. Aí não fiz, comecei a trabalhar e de repente precisava e não tinha e demorou UM ANO pra eu conseguir tirar. Sorte minha que meu chefe é bem paciente.
2 – Na hora de se inscrever numa auto-escola, escolha baseado na sua afinidade com o instrutor (Fahrlehrer)!! (a maioria tem um ou dois, só) Você faz a prova com o instrutor da auto-escola sentado do seu lado, se você não se sentir confortável com seu instrutor, você vai ficar muito mais nervoso na hora da prova. Então quando você for escolher uma auto-escola, pede pra conversar com o instrutor, sério.
3 – e o mais importante: NÃO VÁ FAZER AS PROVAS ACHANDO QUE VAI SER TRANQUILO PORQUE VC JÁ DIRIGE HÁ VÁRIOS ANOS. Antes de marcar a prova prática faça tantas aulas práticas quanto o seu instrutor achar necessário!

Ok, lá vamos nós: primeiro, pra terminar o passo-a-passo iniciado nos dois posts anteriores, eis aqui os próximos passos após passar na prova teórica. Lembrando que preços em verde são variáveis de acordo com onde vc for, preços em azul são fixos/tabelados. Os passos estão descritos em: nome/descrição, preço, tempo de demora, nome em alemão.

Passo 12: Aulas práticas • 60€ •  depende de quantas você fizer • Fahrstunden
Eu coloquei o preço como variável, mas tenho minhas dúvidas se é mesmo variável, porque todas as auto-escolas que eu pesquisei ofereciam por esse preço. Eu já falei lá em cima mas vou falar de novo: sério. Faz as aulas. Eu sei que não precisa e que é caro, eu sei. Mas vai sair muito mais caro não passar na prova pq vc não estava preparado, e eu te juro que você vai precisar praticar dirigir aqui, com as regras daqui, antes de conseguir passar na prova. Eu nem sei quantas eu fiz, acho que umas 8, sei lá. Ah, 60 euros é pela aula dupla, de 1h30. O preço por aula é 30 euros, mas as aulas são sempre duplas.

Passo 13: Marcar a prova • 91,75€ para a Dekra + 90€ para a autoescola • de umas duas semanas a um mês • Termin für die Prüfung vereinbaren
Assim como a prova teórica, a prova prática tem que ser paga uma vez para a Dekra (equivalente ao Detran) e outra vez para a autoescola. Nesse caso faz sentido porque você faz a prova com o carro da autoescola E com o instrutor da mesma sentado do seu lado. Dependendo de quando e onde você fizer a prova, quando você vai marcar a mesma normalmente as próximas datas disponíveis são dali a 2 semanas, um mês. Pelo menos foi assim em Dresden, de repente em cidades maiores demora ainda mais, não sei. O valor vc normalmente paga no próprio dia da prova para o seu instrutor, mas dependendo da autoescola pode ser diferente. Na minha o instrutor fazia o depósito antes pra não correr o risco de você esquecer e não poder fazer a prova no dia, e você pagava em dinheiro para ele no dia.

Passo 14: Fazer a prova  • 45 minutos  • Praktische Prüfung
A prova tem duração de 45 minutos, e normalmente seu instrutor vai marcar com você uma aula de 45 minutos ou 1h30 diretamente antes da prova pra você dar uma treinada final e ficar já bem em forma pra prova. Se você passar de primeira: parabéns, ufa!! Se você reprovar, tem que pagar de novo para fazer outra prova, esperar pelo menos duas semanas para repetir, e obrigatoriamente fazer mais uma aula dupla com o seu instrutor antes da próxima prova… Mas com certeza você não pega o mesmo examinador, é obrigatoriamente outro. Você pode refazer a prova infinitas vezes até passar, mas a prova teórica vale só por um ano… então se depois de um ano de passar na teórica você ainda não tiver passado na prática, tem que refazer a teórica também! :/ Mas isso certamente não acontecerá! 🙂

Passo 15, o último: Ir buscar a habilitação alemã  • 15€  imediatamente  • Führerschein abholen
Com o comprovante de êxito da prova prática e a sua habilitação brasileira e documento de identidade (o mesmo que você usou para fazer as provas) em mãos, você pode ir à Führerscheinstelle durante o horário de atendimento para buscar a sua habilitação alemã, que já está prontinha sentadinha te esperando desde que você recebeu a carta dizendo que podia se inscrever na prova teórica. Porque eles realmente REALMENTE fazem muito esforço para cobrar tanto dinheiro quanto possível presse processo todo, você ao retirar a habilitação terá que pagar ainda 15 euros. Esse valor é para eles guardarem a sua habilitação brasileira. Só que não tem alternativa: vc não pode ficar com a brasileira, tem que deixar lá, e eles não podem destruir porque é um documento brasileiro que portanto pertence ao governo brasileiro. Então eles têm que guardar pra sempre em alguma gaveta com teias de aranha em algum porão escuro esquecido empoeirado. E te cobram 15 euros por isso.
Oh well. Mas aí você pega lá sua habilitação e tchans, fim!

Se você passar de primeira nas duas provas, você terá gasto para obter sua habilitação alemã um total de aproximadamente 465 euros + as tantas aulas que você tiver feito. Ou seja, espere gastar bastante dinheiro pra tirar sua habilitação alemã. É até bom que demora tanto pra tirar porque vc vai pagando esse dinheiro aos pouquinhos e não sente tanto.

OK, MAS VAMOS AO QUE IMPORTA:

Como é essa prova diabólica?

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Seguinte. Diferente de no Brasil, a prova você faz com o seu instrutor da autoescola sentado no banco de passageiro, e o examinador sentado no banco de atrás. Por isso que eu digo pra escolher uma autoescola com um instrutor que você tenha achado simpático e boa gente, porque se você não estiver confortável com seu instrutor, você vai ficar bem mais nervoso na hora da prova.

Bom, você chega lá na Dekra com seu instrutor no carro da autoescola, vem o examinador e senta no branco de trás, olha o seu documento de identidade pra ver se você é você mesmo, diz bom dia, etcetc, e dá umas instruções iniciais. Preste bem atenção porque essas instruções às vezes são diferentes dependendo do examinador. Por exemplo, ruas preferenciais que viram à esquerda ou à direita, alguns examinadores falam pra você seguir em frente se ele não disser nada, outros falam para você seguir o percurso da rua se eles não disserem nada. Coisinhas assim você tem que saber antes de começar a prova. Você não precisa fazer aquela cena de acertar os espelhos e o banco antes de começar a prova como no Brasil porque o examinador sabe que você veio pra prova dirigindo o mesmo carro.

Depois dessas instruções e antes de você dar partida, o examinador ainda faz alguma pergunta teórica. Normalmente são coisas como: onde liga o farol normal, o farol alto, o farol de neblina, o pisca-alerta, o limpador de pára-brisa, etc. Pra mim perguntaram o que eu tinha que saber sobre os pneus, a resposta é: tem que ver se não tem nenhum dano, que o perfil tem que ter 1,6mm, e se a pressão do pneu está correta – sendo que a pressão recomendada pode ser lida no manual do carro ou na tampa do tanque de gasolina. E como eu fiz a prova no inverno na neve, ele perguntou ainda que pneus têm que estar instalados naquela época do ano (pneus de inverno, logicamente). São exatamente essas três respostas que eles querem que você dê, e obviamente seu instrutor te dá fala isso antes – as perguntas que podem vir e as respostas que você tem que dar. Não é nada muito difícil.

Daí o examinador fala para você que pode começar a prova. Você vai dirigindo e ele vai dando as instruções de onde você tem que ir: vire à direita no próximo semáforo, vire à esquerda na próxima rua, entre na estrada na direção sei lá qual, etc. Você dirige normalmente no trânsito regular da cidade (e parcialmente fora da cidade também).

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Exercícios que aparecerão na prova com certeza:

Gefahrbremsung – Freagem de emergência > O examinador te avisa que agora você vai fazer a Gefahrbremsung. Você tem que então andar a 30km/h até seu instrutor dizer STOPP. Você tem que frear com toda força empurrando o freio e a embreagem ao mesmo tempo tão rápido quanto possível. Nada de muito especial, mas é algo que embora você faça automaticamente se for necessário, dá aflição de fazer só porque te pediram.

Paralleles Parken – Baliza > Você certamente terá que fazer uma baliza durante a prova, mas essa é a única parte da prova que é mais fácil que no Brasil. Normalmente eles escolhem um lugar com espaço suficiente pra encaixar cinco elefantes entre os dois carros, sério. Você tem três chances pra consertar, se não conseguir fazer a baliza direitinho da primeira tentativa.

Umkehren – Dar meia-volta > Em algum momento da prova o examinador vai pedir pra você procurar um lugar para dar meia-volta. Você tem que achar um uma vaga 90˚ ou uma entrada de algum lote, manobrar no mesmo de ré para sair de novo de frente. Também tá fácil.

Pode ser ainda que o examinador queira que você estacione 90˚ em algum lugar, mas não aparece em toda a prova.

Outras coisas que quase com certeza aparecerão na sua prova:

30 ZoneEm algum ou alguns momentos da prova você vai entrar numa 30 zone, onde tem que andar a 30km/h e nos cruzamentos dar preferência pra quem vier da direita. Essa é uma das regras mais difíceis de acostumar, na minha opinião. Porque por exemplo, numa rua que termina em outra num T. Pra mim é impensável que você vindo da rua que termina teria preferência sobre quem está na rua que continua. Mas se a pessoa está vindo da esquerda, a preferência é sua, ele tem que parar pra você entrar na rua. A regra é simples e direta, mas é estranhamente difícil acostumar com isso.

Autobahn – Auto-estrada > Certamente em algum momento da prova você vai ter que pegar estrada. O examinador quer ver que você sabe entrar direitinho na estrada, ultrapassar, e sair direitinho da mesma. Normalmente ele fala para você pegar já a primeira saída, mas não hesite em ultrapassar com medo de que ele fale que você tem que sair da estrada logo, porque eles normalmente querem ver que você sabe ultrapassar. O examinador avisa com bastante antecedência antes da saída que você tem que pegar, então é tranquilo. Na Alemanha não tem velocidade máxima nas auto-estradas, mas na prova você não deve passar de 130km/h, que é a velocidade recomendada para as mesmas.

Estrada que não é Autobahn > Também em algum momento da prova você vai entrar em alguma estrada menor sem separação física entre as duas direções. Nessas estradas a velocidade máxima é 100 km/h.

Variadas regras de preferência > Os alemães têm toda uma série de regras de quem tem preferência onde, e placas referentes a preferência. Eu falei de algumas delas no post sobre a prova teórica. Certamente você vai durante a prova passar por vários desses lugares onde você tem que saber que a preferência é sua, ou que é do outro.

Pois é, cabe tudo isso nesses 45 minutos de prova! Essa é a pior parte: tem tempo suficiente pra você conseguir bombar!

Coisas importantes pra você lembrar: Tem que sempre fazer a maior cena de virar a cabeça pros lados quando for virar ou mudar de faixa. Eles chamam de Schulterblick: vista por cima do ombro, e é basicamente pra você ter certeza que não tem nenhum carro, moto ou bicicleta no ponto cego dos espelhos. Então tem que sempre olhar pros lados, não basta olhar nos espelhos.

Outra coisa é de não andar nem muito rápido nem muito devagar!!! Eu quase bombei porque em uma determinada rua eu andei muito devagar!! Eles querem saber que você sabe qual é a velocidade permitida em todas as ruas, então você tem que sempre andar tão próximo da velocidade permitida quanto possível. (Claro, se for na estrada você não precisa necessariamente andar a 100km/h ou 130km/h, você pode ajustar à velocidade de acordo com a situação. Mas nunca muito devagar!!) Dentro das cidades a velocidade máxima é sempre 50kmh, exceto nas 30 Zone ou quando estiver indicado diferente (normalmente 30km/h por algum motivo específico qualquer: curva perigosa, faixa de pedestre, etc).

Você tem que ficar sempre muuuuuito atento atodas as placas, e MEUDEUSCOMOELESGOSTAMDEPLACA. Eu só percebi depois de algumas aulas o quanto aqui se depende de placa. No Brasil tem bem menos placas, tenho certeza, é tudo regulado mais com semáforos, lombadas, lombadas eletrônicas, etc. Eu nunca vi uma lombada aqui. Em vez da lombada é uma placa dizendo que ali a velocidade permitida é menor e pronto, as pessoas respeitam (ou não, sei lá).

Outra coisa, a que mais me deixou insegura nas provas, é que você não pode ser cuidadoso DEMAIS. Sério. Você reprova se for CUIDADOSO DEMAIS. Se a preferência é sua e você parar pra olhar, por exemplo! Ou se onde você tem que só diminuir a velocidade e não parar, você parar de fato. Vc não vai reprovar de fazer isso uma ou outra vez, mas se fizer várias, sim.

Alguns erros o examinador também “perdoa” se não forem muitos, por exemplo se você estiver dirigindo devagar, se você esquecer de olhar pro lado uma vez ao mudar de faixa, coisas assim. Se você fizer vários você reprova. Mas um ou outro tudo bem.

Outros erros te reprovam imediatamente. São basicamente os erros que o seu instrutor, sentado do seu lado, tem que corrigir. Se ele tiver que frear, por exemplo, toca um alarme e você reprova imediatamente. Então em casos como: se você não parou totalmente numa placa de Pare, se você não diminuiu a velocidade num cruzamento de uma 30 Zone pra ver se tinha alguém vindo da direita, se você não deu preferência quando tinha que dar, essas coisas.

Se você reprovar por algum desses erros de reprovação imediata, ou se você cometer muitos errinhos já na primeira metade da prova, eles pedem pra você parar o carro, falam que você bombou, e o seu instrutor que dirige de volta pra Dekra. Se você terminou a prova na Dekra não significa que você passou! Ao estacionar o examinador vai falar as coisas que você errou ou fez mais ou menos, e te dizer se você passou ou não. Quando eu passei, o examinador citou alguns erros que eu fiz e deu a entender que estava sendo bem legal de me passar, rsrsrs!

Se você passou, parabéns!!! Finalmente terminou!! O examinador vai imprimir um papel dizendo que você passou ali na hora mesmo, eles têm com eles um laptop e uma impressora portátil! O_O Esse papel você leva pra Führerscheinstelle juntamente com a sua habilitação brasileira (que vai ficar retida com eles).

E agora você terá a sua habilitação alemã PRA TODO O SEMPRE. Precisa renovar o documento a cada 15 anos, mas só pra trocar a foto por uma mais recente. Nem o teste de visão precisa fazer de novo! A sua habilitação brasileira fica retida, mas se você resolver mudar de volta pro Brasil você pode trocar e pegar sua brasileira de volta, deixando a alemã. Mas segundo a lei alemã não é permitido ter as duas.

E bom, claro, se você dirigir bêbado ou drogado, aí você perde sua habilitação e tem que fazer o processo tuuuuuudo de nooooovooo do zeeeeero. Faz isso, não.

Pra terminar, eu vou ressaltar aqui de novo meu conselho de amigo do início:
FAZ. VÁRIAS. AULAS. ANTES. DE. MARCAR. A. PROVA. PRÁTICA. Só marca a prova prática quando seu instrutor disser que acha que você já tá craque. Sério. Eu sei, eu sei, você tem carta há 10 anos. Tudo bem. Você dirige bem. Eu acredito. Você não quer gastar muito dinheiro. Eu compreendo. Você suspeita que seu instrutor vai fazer você fazer umas aulinhas a mais pra ganhar um pouco mais. Pode ser. Mas não vale a pena você gastar tanto dinheiro pra fazer a prova, quase 200 euros, e reprovar porque não tinha praticado o suficiente. Todo mundo consegue passar eventualmente, é uma questão de prática. Então faça-se um favor e não perca tempo e dinheiro fazendo provas a mais quando tudo o que você precisava era de um pouco mais de prática pra se acostumar com as regras diferentes daqui. Eu queria ter recebido esse conselho de amigo!

Boa sorte! 🙂


(Publicado em 02 de Fevereiro de 2017)

Nomes de ruas

Esses dias eu estava pensando em nomes de ruas daqui e como eles são diferentes dos no Brasil.

No Brasil, o mais comum é que as ruas tenham nomes de pessoas consideradas importantes, com feitos importantes para a cidade ou para o país. Em vários casos nem são assim “nossa, que pessoa realmente importante!”, mas alguém que algum vereador x queria homenagear por algum motivo qualquer. Também não é raro que alguma rua ou ponte ou local público (escola, aeroporto, cemitério) seja conhecido por um nome, mas oficialmente tenha um outro nome totalmente diferente – normalmente o de um fulano qualquer. Exemplos em São Paulo são vários: o Minhocão, de nome oficial, usado mais ou menos nunca pela população, Elevado Costa e Silva, o Aeroporto de Guarulhos, de nome oficial Aeroporto Governador André Franco Montoro, ou ainda a Ponte Estaiada, oficialmente Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira. Aliás pontes são ótimos exemplos, quase todas as pontes de São Paulo tem um nome popular e um nome oficial de algum fulano que quase ninguém sabe quem é. Imagino que em outras cidades brasileiras não seja diferente.

Curiosamente, vários desses ilustres fulanos são generais e marechais e outros militares da época da ditadura que certamente não deveriam estar sendo homenageados como grandes heróis e sim vilipendiados pelos abusos e crimes cometidos durante o período de ditadura.

Essa história de dar nomes a logradouros, ou mudar nomes já consolidados para outros para homenagear alguém virou um certo jogo político no Brasil, uma oportunidade de fazer alianças ou agradar as pessoas certas na esperança de obter algo em troca.

Pensando nisso comecei a prestar atenção nos nomes das ruas alemãs.

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Entre as ruas maiores, os nomes mais comuns são nomes de cidades próximas. Principalmente em cidades pequenas ou vilarejos isso fica muito claro porque quase todas as ruas têm o nome do vilarejo vizinho com o qual elas ligam. Eu percebi isso com muita clareza certa vez: eu estava trabalhando num projeto de planejamento urbano de um vilarejo vizinho a Dresden (onde moro), e montando a planta do vilarejo pensei em colocar flechinhas nas ruas que conectavam com as cidades ou bairros vizinhos indicando quais bairros ou cidades ficavam em cada direção. Exceto que era a informação mais redundante que eu poderia ter pensado em adicionar, uma vez que todas as ruas onde eu poderia colocar uma flechinha indicando a cidade com que conectavam já levavam o nome da mesma, que já estava marcado na planta. Era algo assim:

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Aqui em Dresden são vários os exemplos de ruas com nomes de cidades vizinhas: Bautzner Str. (Bautzen), Meißner Landstraße (Meißen), Tharandter Str. (Tharandt), Görlitzer Str. (Görlitz), Dohnaer Str (Dohna), Lockwitzer Str. (Lockwitz), Chemnitzer Str. (Chemnitz), Leipziger Str. (Leipzig), etcetcetc. E essa nomeação é bem consequente: a Radeberger Landstr., por exemplo, que liga a cidade com uma cidadezinha vizinha de nome Radeberg, chama Radeberger Landstr. até o momento em que ela cruza a fronteira com o município de Radeberg, quando o nome da rua então muda para… adivinha, adivinha? Dresdener Str., claro.

(Str., pra quem ainda não sacou, é a abreviação de Straße, que obviamente significa: rua.)

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Um tanto prática essa maneira de nomear ruas, certo? Imagina se as avenidas e estradas em volta de cidades brasileiras fossem assim, e em vez de “Rodovia João Hermenegildo de Oliveira”, por exemplo, você tivesse “Rua que vai pra Mairiporã”. Ficaria um tanto fácil saber chegar em Mairiporã. E também facilitaria lembrar os nomes das ruas e avenidas que saem da cidade. Além de ajudar aqueles que não se dão muito bem com mapas a criarem um mapa mental das redondezas.

Embora ruas com nomes de cidade sejam comuns, essa não é a única maneira de nomear ruas por aqui. Uma escolha muito comum para nomear logradouros alemães são referências físicas. Por exemplo: A rua ou avenida onde fica a estação ferroviária central da cidade frequentemente leva o nome de Bahnhofstraße – Rua da Estação. Uma rua chamada Am Theater, ou Theaterstraße certamente é a rua do teatro municipal. Am Pfaffenberg, por exemplo, seria uma rua ao longo do pé de um morro chamado Pfaffenberg. Uferstraße (rua da costa), Strandpromenade (passeio da praia) ou Seeweg (caminho do mar) (por exemplo) são ruas ao longo da praia ou da costa. Outro nome que aparece de vez em quando é Stadtblick, Vista da Cidade. É, claro, uma rua em algum lugar alto estratégico onde tem-se uma vista boa da cidade.

Algumas vezes o ponto referenciado pelo nome da rua nem existe mais. Um exemplo: dei um zoom em uma cidadezinha qualquer no meio da Alemanha no googlemaps, Straßfurt, na Alta-Saxônia (Sachsen-Anhalt). Uma rua chamada Zollstraße atravessa o rio que cruza a cidade naquela que deve ser a principal ponte da mesma. Zoll significa alfândega, o que nos leva a supor que em algum momento da história esse rio deve ter sido uma fronteira, a Zollstraße era a rua onde ficava a alfândega. Pra confirmar as suspeitas, uma rua logo ao lado chama-se Grenzstraße, Rua da Fronteira. Mesmo sem saber absolutamente nada sobre o local, dá pra inferir um pouquinho da sua história simplesmente prestando atenção aos nomes das ruas.

Também comum é nomear as ruas de acordo com a espécie de árvore plantada ao longo das calçadas. Lindenstraße por exemplo, é uma rua que tem em quase qualquer cidade (Linden, Tilia sp., é uma das espécies de árvore mais comuns em cidades alemãs). É também o nome de uma das principais ruas de Berlin, Unter den Linden, Sob as Tílias (não consegui descobrir se tem um nome em português para Linden então estou usando o nome em latim).

Ruas com nomes de pessoas também tem bastante por aqui, mas são normalmente nomes bem conhecidos. Típicos homenageados são nomes importantes das ciências, artes e filosofia, como Beethoven, Dürer, Einstein, Karl Marx, Nietzsche, etc. Não apenas alemães, mas outros de nacionalidades diversas também são comuns, como Newton, Vivaldi, Mozart, Freud. Esses aparecem só com o sobrenome. Também comum é homenagear pessoas que foram perseguidas pelo nazismo como Rosa Luxemburgo, Hannah Arendt, Olga Benario. Esses aparecem com o nome completo. Aparecem ainda alguns políticos importantes para a história do país como Willy Brandt, ou ainda nomes de alguns reis de um passado mais distante, como – aqui em Dresden, a capital do extinto reino da Saxônia – Augustus (Augusto, o Forte).

Dando zooms aleatórios nos mapas de diversas cidades, me parece que os nomes mais comuns são mesmo as referências físicas: igreja, escola, lago, morro, rio, orla, mercado, castelo, estação, e cidades vizinhas. Essa impressão é corroborada por essas estatísticas aqui mostrando os cinco mais comuns nomes de ruas da Alemanha: Hauptstraße (Rua Principal), Schulstraße (Rua da Escola), Dorfstraße (Rua do Vilarejo), Gartenstraße (Rua do Parque/Jardim) e Bahnhofstraße (Rua da Estação).  Hauptstraße, a mais comum, é nome de alguma rua em nada mais nada menos que 6.284 cidades alemãs!

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No Brasil também tem alguns desses exemplos, claro. E não é por acaso, essas ruas têm esses nomes não porque alguém sentado num escritório de um edifício governamental inventou assim, mas porque elas já eram conhecidas por esses nomes antes destes serem oficializados. Mesmo ruas com nomes já oficiais acabam ganhando nomes de referência não oficiais. Não é difícil imaginar alguns dos muitos diálogos corriqueiros do dia-a-dia que se encaixam nesse contexto, digamos por exemplo a sua avó te dizendo “Ô Filha, leva esse doce aqui pra Dona Maria pra mim? Ela mora ali na rua do sacolão, na casa verde!” ou então talvez “Filha, busca pra mim um pão lá na padaria? Mas vai naquela da rua da feira, que a da esquina ali da igreja o pão é mais caro!”. Então na prática a diferença é que enquanto no Brasil quem define nome de rua são uns políticos feios e antipáticos, na Alemanha quem decide são as vovós!

Pra terminar, deixo aqui algumas referências que usei para escrever esse post:

Um artigo interessante sobre a nomeação de logradouros no Brasil e o jogo político por trás;
Um mapa com os nomes de ruas mais comuns nos diferentes países da Europa;
Um artigo interessante sobre nomeação e renomeação de ruas em Berlin.

Mas a principal referência mesmo foi o Google Maps! 😉


(Publicado em 27 de Janeiro de 2017)

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Quando a neve derrete

Neve, um tema profundamente curioso para brasileiros ou pessoas de lugares em que não neva. E por um bom motivo, um fenômeno meteorológico completamente inexistente na sua região e tão comum em outras, ir a um lugar em que neva é quase como visitar outro planeta.

Mas mesmo sem nunca ter visto neve, todo mundo tem uma concepção clara na mente de como aparenta uma paisagem nevada. Algo assim:

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Mas o que você só descobre depois de passar um tempo morando num lugar que neva é que esse fenômeno é muito mais complexo do que você imagina, que se manifesta de variadas maneiras, muito além da simples paisagem nevada dos filmes.

Uma dessas maneiras é, claro, a neve derretida. É uma coisa que os filmes nunca mostram, mas quando a neve começa a derreter, de coisa bonita, mágica e especial ela passa para coisa inconveniente, suja, irritante.

O primeiro problema aparece mesmo quando ainda está frio demais pra neve derreter por conta própria. Nas ruas e calçadas com muito movimento, a neve logo derrete. Com os carros passando e sapatos sujos das pessoas, fica uma meleca lamacenta:

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A neve suja fica parecendo areia, tanto na cor quanto na consistência.

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E quando é muita neve, ficam alguns montinhos acumulados onde a neve foi jogada pro lado (quando limparam a rua ou a calçada), e esse montinho demora mais pra derreter que o resto. Fica uma beleza:

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Mas a pior parte é que a neve dá uma derretida nas calçadas onde as pessoas passam, e se continua frio, ela, lógico, congela de novo. Só que o que congela é água logo, o resultado é… gelo.

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Aí é que fica uma beleza pra andar… tudo bem escorregadio. O que nos leva a outro ponto importante: como não escorregar na neve? Quando a previsão é de neve, a prefeitura passa pela cidade jogando umas pedrinhas nas calçadas, que deixam as mesmas menos lisas e escorregadias. Essas pedrinhas são outra chateação depois que a neve derrete, porque fica um monte de pedrinhas espalhadas pela rua, que ficam presas no sapato, entram no mesmo, etcetc. Maior bagunça. A prefeitura eventualmente passa de novo recolhendo as pedrinhas, mas só se eles não forem precisar jogar elas todas de novo na semana seguinte. Então durante janeiro e fevereiro ficam as pedrinhas por todos os lados:

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É um alívio quando as pedrinhas finalmente desaparecem! Mas quando tem bastante neve nas ruas, ou gelo, mesmo com pedrinhas é bem perigoso escorregar. Ideal é também ter boas botas de inverno, que além de serem à prova d’água também têm solas bem robustas, pra aumentar o atrito com a neve (o fato de serem à prova d’água não te ajuda a não escorregar, claro, mas é o critério mais importante pra escolher boas botas de inverno, já que é o que faz o seu pé não ficar molhado de andar na neve).

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Outra coisa chata desse derretimento geral é que a rua fica toda suja, com as pedrinhas e lama, como já mencionei, mas também com poças de água como se tivesse acabado de chover.

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E ficam umas ilhas de neve engraçadas onde as pessoas não andam… nesta foto mostra bem, exatamente em volta dos postes e árvores um montinho restante de neve na rua já bem seca:

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E todas essas pedrinhas e lamas e água suja vão parar dentro de casa… Ok, dentro de casa não porque os alemães sempre tiram o sapato na porta de casa (justamente por causa disso). Mas em lugares em que você não tira o sapato pra entrar, como supermercados, lojas e ônibus, o chão fica bem nojento em dia de neve:

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Outra coisa que você jamais imaginaria é que pedaços de gelo caindo dos telhados podem ser perigosos. Se escorrega um monte de neve do telhado não é grande problema. Mas como na rua, acontece no telhado de a neve dar uma derretida porque a temperatura subiu, e aí congelar de novo quando a temperatura cai de novo, de noite, por exemplo. Quando a neve acumula no telhado e começa a derreter-e-recongelar, é comum escorregar uns pedaços de gelo… Por isso inclusive que os telhados têm uma gradezinha embaixo:

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Essa gradezinha é justamente pra segurar uns pedaços maiores de gelo, para eles não caírem na rua. Mas alguns acabam passando, e pode ser um tanto perigoso para quem está andando na rua lá embaixo. E se você mora no apartamento diretamente sob o telhado (como o apartamento das janelas que aparecem na foto acima), em dias que a temperatura sobe um pouco acima de zero você às vezes é acordado às 2 da manhã com o barulho nada agradável de enormes blocos de gelo escorregando pelo telhado…

Tem também as estalactites que formam no telhado e às vezes quebram e caem antes de derreter.

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Pedaço de estalactite no chão. Não é suficiente pra grandes estragos, mas pode machucar bem se cair bem na sua cabeça!

Enfim. A neve é bonita, bem bonita. Todo mundo gosta pra caramba quando neva, mesmo os alemães que já conviveram com neve a vida inteira. Tudo fica mais claro, mais simpático… mas com a neve vem várias inconveniências e chateações, também.

Mas pra terminar, ficam umas fotos bonitas de paisagens nevadas!

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Schnee… kalt!


(Publicado em 21 de Janeiro de 2017)