Tradições daqui, tradições de lá

Um efeito curioso de morar em outro país é adotar tradições que você até então não conhecia e passar a segui-las como se fossem suas.

Curiosamente é uma coisa que acontece mais com quem nunca deu muita atenção para tradições do seu próprio país. Quem sempre deu muito valor para as tradições de sua própria cultura têm mais dificuldade em esquecer algumas e adotar outras.

Não estou dizendo de maneira alguma que abrir mão de características da sua cultura e adotar as da cultura do novo país é o certo, de jeito nenhum. Não tenho dúvidas de que os imigrantes mais felizes são aqueles que encontram um bom meio-termo: adotam algumas das tradições locais enquanto mantém outras do país de origem.

No Brasil eu nunca dei muita atenção para tradições. Claro que tem várias que são tão generalizadas que só uma pessoa muito chata e do-contra se recusaria a seguir, como digamos comemorar o Natal e o Ano Novo. Outras são tão fortemente ligadas a algum significado específico que não seguir acaba sendo uma forma de protesto pessoal contra aquela norma social (por exemplo a mulher adotar o sobrenome do marido ao casar). Mas a maioria das tradições que não se encaixam nem no primeiro nem no segundo caso eu nunca dei muita atenção e sempre achei meio bobinho (como, digamos, usar branco no reveillon). Mas na verdade são essas que são as mais interessantes. Usar branco no reveillon é bobinho, mas justamente por ser tão difundida apesar de bobinha é que ela é uma tradição bonitinha. Esses dias mesmo eu comentei com as colegas do trabalho que no Brasil as pessoas usam branco pro ano novo – meio com vergonha, por ser uma coisa boba – e eles acharam super legal.

Então resolvi escrever um post sobre algumas tradições brasileiras que não existem na Alemanha e algumas tradições alemãs que não existem no Brasil.

Tradições do Brasil que não existem na Alemanha

Usar branco no ano novo
Ok, já comentei na introdução mas pronto: na Alemanha pode usar qualquer cor no ano novo. Aliás nem daria mto pra restringir porque é inverno então se você sair pra ver fogos você vai estar usando o seu um casaco de inverno.

Aliança de compromisso
Bom, isso no Brasil é mais pra adolescente namorando, acho… mas aqui muita gente não usa aliança nem depois que casa, quem dirá antes. E acho que se você sugerisse para sua namorada ou namorado alemão usar aliança de compromisso lhe seria tão estranho quanto definir que roupas ela/e pode ou não pode usar.

Furar a orelha de nenê menina
Melhor você nem comentar com os alemães que isso é comum no Brasil, eles vão achar o maior absurdo!

Dar flor (ou qualquer outra coisa) pras mulheres no dia da mulher
Uma tradição recente que pega mal com muita mulher, mas felizmente não existe por aqui. Dê flores no aniversário, isso é comum e apreciado.

Ovo de páscoa de chocolate
Ok, isso eu acho errado, mas eis que na Alemanha não tem ovo de páscoa de chocolate! “Ovo de páscoa” (Ostereier) aqui é um ovo normal com a casca pintada… ganha-se normalmente um coelho de chocolate, mas pequeno e insignificante perto dos nossos gigantes maravilhosos (e muito caros) ovos de chocolate.
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Dar presente de dia das mães/pais/namorados/crianças/etc…
Até existe dia das mães, dia dos namorados, e tal, mas ninguém troca presente. No máximo um buquê de flores pra mãe pq mãe é um caso a parte. Mas fora isso não conheço ninguém aqui para quem esses “dias dos…” tenha qualquer importância. No início do namoro com meu alemão eu fiquei meio chateada que ele não queria trocar presente de dia dos namorados, mas irc, ainda bem! Agora que desacostumei dessas coisas não tenho a menor vontade de trocar presente nesses dias bobos. Difícil é lembrar de ligar pros pais nos dias das mães e dos pais porque como ninguém fala disso aqui fica muito fácil esquecer!

Festa Junina
Não que eu fosse uma super entusiasta de arraiais, mas dá uma saudadinha de festa junina, às vezes! Eis uma tradição que só envolve coisa legal: comida, danças e músicas engraçadas, decorações e roupas propositalmente bregas, fogueira, balão, joguinhos divertidos. Maior saudade de festa junina! Na verdade a comunidade brasileira daqui organiza todo ano uma festa junina em Dresden, mas eu nunca fui. Esse ano vou sem falta.
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Soltar fogos de artifício no Natal
Causaria um enorme estranhamento para qualquer alemão passando Natal no Brasil, os fogos de artifício à meia noite. É uma coisa meio recente no Brasil, também, não tinha isso quando eu era criança, mas foi ficando mais comum.

Tradições da Alemanha que não existem no Brasil

Comemorar os adventos
Uma das minhas preferidas tradições alemãs: comemorar os 4 domingos de advento antes do Natal. Aqui um post só sobre isso pra quem não sabe do que eu estou falando. Claro, não é assim nooossa, que comemoração. Mas sei lá, arrumar a mesa do café da manhã com decorações natalinas e velas de advento: gosto.
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Nikolaus
Outra tradição supimpa também da época de Natal: Dia de São Nicolau (6 de Dezembro). As crianças têm que limpar suas botas e deixar na frente da porta de casa para o São Nicolau passar e deixar uns presentinhos (chocolates, basicamente).
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Nome de família
Como no Brasil, aqui é comum que a mulher adote o sobrenome do marido ao casar, e que os filhos recebam o sobrenome do pai. Essa tradição patriarcal eu já não gostava no Brasil, mas aqui é sinceramente bem pior. É muuuuito muuuuito raro os noivos manterem seus nomes de nascimento ao casar, muito mesmo. Quase sempre se adota um para ser o sobrenome da família, e lógico que 99% das vezes é o do homem. Além disso, a diferença do Brasil é que aqui existe isso de nome de família. Mesmo que você mantenha seu nome de nascimento ao casar, se o casal tiver filhos um dos sobrenomes vai ter que ser escolhido para ser o sobrenome de família. Todos os filhos terão que receber esse mesmo sobrenome. E aqui só pode ter um sobrenome, então também não tem isso de ter um sobrenome da mãe e um do pai, as crianças recebem realmente só o sobrenome do pai. E as mulheres que mudam de nome não adicionam o nome do marido mas trocam o sobrenome pro do marido, já que não dá pra ter dois. Uma outra alternativa é adicionar o nome do outro só que com hífen, por exemplo Fulana Oliveira-Silva. Silva sendo o do marido e Oliveira o de nascimento. Mas os filhos pegam só o sobrenome de família, o Silva. Não o hifenado. E mesmo essa alternativa é pouquííííssimo utilizada, a grande maioria esmagadora dos casais fica com um nome só que na grande maioria esmagadora das vezes é o do marido. Quando eu falava pras pessoas daqui que ia casar, quase todos perguntavam se eu ia mudar de nome e ficavam muuuuito surpresas quando eu dizia que ambos íamos manter nossos nomes de nascimento sem mudar nada. É uma coisa quase inconcebível para os alemães. Esse assunto me deixa com muita raiva. Eis aqui, aqui e aqui diversos posts que eu já escrevi sobre esse tema.

Cortar um tronco ao casar
Uma tradição bobinha que eu certamente não segui no meu casamento, mas que é bastante comum por aqui: Após casar-se o casal corta, juntos, um tronco de árvore com uma serra de dois “lados”. Assim:tron o

Pra simbolizar o vencimento de dificuldade a dois etcetc.

Árvore de Maio
Uma tradição fofa comum em algumas partes da Alemanha é a árvore de Maio. Na noite do dia 30 de Abril pro dia 1˚ de Maio, moços colocam na janela de suas amadas uma bétula decorada com fitas coloridas. Assim:

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Spring

Fizemos uma aquarela de uma árvore de Maio para o nosso convite de casamento! 🙂

Escrevi um post sobre as árvores de maio aqui. É uma tradição bem simpática!

Zuckertüte
E pra terminar, a melhor tradição alemã de todas! Os cones de doces que as crianças ganham quando entram na primeira série! No fim de semana antes do primeiro dia de aula do ano letivo, há uma cerimônia nas escolas para dar boas-vindas aos novos alunos: os que estão ingressando na primeira série. Nessa cerimônia bem importante, com os pais e até avós das crianças, cada criança ganha um cone enorme cheio de doces e presentinhos (como digamos lápis coloridos, réguas, algumas coisas relacionadas à escola e outras não).

Eis uma tradição que podia existir em todos os lugares!


(Publicado em 13 de Janeiro de 2018)

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Desmontando o Natal

Dia 6 de Janeiro é uma data importante na comemoração natalina. Religiosamente é a data (conhecida como a 12a noite após o Natal) que os 3 reis magos chegaram para visitar Jesus e também o dia em que Jesus foi batizado.

Muito que bem. Por essas e outras o dia 6 tem certo significado na cultura ocidental e é comemorado em alguns países de diferentes maneiras. Aqui na Alemanha, por exemplo, é o dia em que os Sternsinger aparecem na sua porta. São três crianças vestidas de reis magos (eram pra ser três, mas às vezes são 4, 5, 6…) cantando musiquinhas em troca de uns trocados e doces. Leia o post linkado acima para saber mais sobre os Sternsinger.

Mas o dia 6 também é marcado por outra coisa importante: é o dia de desmontar as decorações de Natal. Quem andou lendo outros posts recentes do blog talvez tenha visto o post sobre árvores de Natal. Naquele post eu falei sobre as árvores de Natal serem árvores de verdade aqui, que as pessoas frequentemente escolhem e cortam elas mesmas num viveiro de árvores de Natal.

O que eu não falei nesse post – e é um pequeno detalhe que nem passou pela minha cabeça até ser confrontada com o problema – foi: o que fazer com a árvore de Natal depois do Natal? Tem que jogar fora, claro. Duas semanas depois do natal as árvores já estão secando e perdendo as agulhas (as folhinhas). Mas onde jogar fora a árvore de Natal?

Não é uma questão tão simples quanto possa parecer. São 30 milhões de árvores de Natal descartadas no início de cada ano na Alemanha! (30 milhões dá 1 árvore pra cada 2.7 habitantes do país!) Várias dessas grandes demais para o lixo orgânico doméstico.

Há algumas opções de como descartar a sua árvore de Natal:

Você pode cortá-la em vários pedaços para colocar no lixo orgânico da sua casa, mas dá um certo trabalho, principalmente se sua árvore for maior. Algumas cidades recolhem árvores de Natal até certo tamanho (normalmente as pequenas) se você deixá-la ao lado do lixo orgânico nos dias de coleta do mesmo. E na maioria das cidades tem pontos de coleta espalhados pela cidade, para onde você pode levar sua árvore até certa data (normalmente no meio de Janeiro).

Esses pontos de coleta podem ser caçambas, containers, ou simplesmente uma área livre (por exemplo algum canto de algum parque) com uma plaquinha de ponto de coleta. Claro que tem um mapa com todos os pontos no site da prefeitura para você encontrar aquele mais próximo da sua casa. Esse é o mapa de Dresden com os pontos de coleta de árvore de Natal desse ano:

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São vários. Ontem levamos a nossa árvore de Natal para o ponto mais próximo de casa, menos de 200m de distância. Carregar não é um grande problema – as árvores são bem leves, ainda mais quando já estão secas. Mas o problema é que secas basta qualquer balançadinha pra já forrar o chão com as agulhas. Então você tem que enrolar a árvore em algum lençol para não ir deixando um rastro de folhinhas pelo caminho.

Muita gente já se desfaz da árvore logo depois do Natal, mas a maioria das árvores é jogada fora no dia 6 ou no fim de semana mais próximo. Então ontem a pilha de árvores no ponto de coleta estava bem notável:

Uma outra alternativa para se desfazer da sua árvore é fazer uma fogueira numa noite fria. Esse tipo de árvore queima bem e ainda solta um cheiro agradável ao queimar, então acaba sendo um eventinho – se você tem um quintal grande e uma “tijela de fogueira”. Sei lá se tem um nome pra isso em português, mas é tipo uma grande tijela de metal para fazer fogueira no quintal, assim:

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Mas e o que a prefeitura faz com as árvores de Natal recolhidas? Bom, tem algumas opções. Grande parte vai pra compostagem junto com outros lixos orgânicos e vira adubo. Outra parte é queimada e usada para gerar bioenergia.

Mas uma alternativa interessante e inusitada é: algumas árvores viram comida de elefante! Eis que pinheiros de Natal são uma iguaria fina e super gourmet para elefantes. Então depois do Natal os elefantes dos zoológicos pelo país têm seu próprio banquete com árvore de natal no cardápio! Mas as árvores que viram comida de elefante são as que não foram compradas e são descartadas diretamente pelo fornecedor. As que a prefeitura coleta das casas das pessoas vêm muitas vezes com resto de parafina de vela ou com algum lixo qualquer dos enfeites que estavam na árvore, e que obviamente não são muito deliciosos para os elefantes.

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“Nossa, que delícia!” SEAN GALLUP/GETTY IMAGES

E assim termina o Natal!


(Publicado em 8 de Janeiro de 2018)

Mais sobre o Natal

Feliz Natal! É dia 26 mas esse post não está atrasado: Dia 26 ainda é Natal na Alemanha. É o segundo dia de natal, e as pessoas ainda dizem feliz natal no dia 26 (se elas não se encontraram já no dia 25).

Muitos posts já foram escritos sobre o Natal, mas sempre sobra algumas coisinhas extras. Esse post vai ser uma combinação de coisinhas variadas sobre o Natal que não cabem num post individual, e com referências a posts específicos antigos sobre outros temas.

Além do dia 26 também contar como dia de Natal, outra diferença no que diz respeito aos dias é que aqui as principais comemorações acontecem no dia 24. Tem a ceia de natal, claro, mas também é na noite do dia 24 que se troca os presentes. A meia-noite não tem grande significado – as pessoas não ficam esperando a meia noite para dizer feliz natal e se abraçar nem nada disso. E também não tem isso de fogos de artifício à meia noite – isso só acontece no ano novo, mesmo.

Assar um grande peru não é essencial, as ceias são bem variadas de família para família. A família do meu marido faz sempre fondue para a ceia de Natal.

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Uma palavra importante pra definir o Natal na Alemanha é: aconchegante. Um clima aconchegante dentro de casa é essencial. O item principal nessa questão é: iluminação. Lâmpadas brancas, por exemplo – que são comuns no Brasil em cozinhas e banheiros – aqui não se usa em casas quase nunca. Porque elas são frias e criam ambientes nada aconchegantes. Mas mesmo as lâmpadas amarelas, mais quentes, são apagadas quando se quer criar um ambiente aconchegante como durante a ceia de Natal. Em vez disso, acende-se abajures e velas pela sala de jantar. Iluminação indireta e velas são ideais para o tal ambiente aconchegante.

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Até na árvore de Natal tem velas! Só tem que tomar cuidado para não colocá-las logo embaixo de um outro galho, mas são vários os enfeites de árvore de Natal onde coloca-se velas. Claro que só se acende as velas quando se está sentado em volta da árvore de Natal para abrir os presentes. A árvore, aliás, é sempre uma árvore de verdade, como já expliquei nesse post recente aqui.

Se você passar o Natal com uma família alemã, você vai perceber muito claramente uma característica típica dos alemães: tudo tem que planejar e organizar com horários marcados, mesmo que sejam coisas espontâneas com a família. Que horas a gente senta pra tomar um café da tarde, que horas a gente senta para a ceia, que horas a gente faz a troca de presentes, etc. Nesse ano ficou até uma discussão e pré-planejamento para ver como que as pessoas presentes iam sentar no sofá, quem em cada lugar, para trocar os presentes… rsrsrs!

Os alemães costumam passar o Natal em poucas pessoas, normalmente só a família mais direta – pais e filhos, sem tios, primos ou avós. É bem raro convidar alguém de fora da família para passar o Natal junto – namorados dos filhos por exemplo. Só nas relações que já duram há mais anos, onde o casal já mora junto há um tempo e já conhece toda a família do outro muito bem, é que o casal passa junto. E quando tem filhos logo começam a passar o Natal sozinhos o casal e os filhos em casa, indo encontrar a família de um ou dos dois só nos dias seguintes. Talvez por isso que aqui o Natal dure 3 dias em vez de dois? Aí dá pra passar o 24 só entre a família direta, dia 25 vai visitar a família de um e dia 26 a família do outro?

Ir à igreja no dia 24 ou 25 também não é incomum, para muitas famílias o Natal é a uma data do ano em que se vai à igreja.

Eu já escrevi um post sobre presentes que são comuns por aqui, mas vale a pena falar um pouco disso de novo também. Uma diferença do Brasil é que enquanto lá é muito comum dar roupa de presente, aqui isso é bem raro. Roupa é uma coisa que só se dá quando se conhece a pessoa muito bem. Tipo, uma alemã talvez desse alguma roupa para a irmã ou irmão, mas nunca para a sogra ou para tios. Por outro lado, um presente bem comum são vales. Vale para alguma loja grande – Amazon, Saturn, Globetrotter, por exemplo – ou vale ingresso de cinema, vale para uma sessão de fotos, vale para isso, vale praquilo. Ontem ouvimos no rádio que nesse ano os alemães gastaram um total de 3 bilhões de euros em vale-presentes para o Natal. E foi o presente mais comum.

Também muito importante nos Natais alemães são as bolachinhas de Natal. Já fiz um post sobre elas com algumas receitas, mas aqui nessa época é muito comum assar várias bolachinhas.

E as decorações também são importantes, embora muito diferente das decorações natalinas brasileiras. Aqui luzinhas são menos comuns que no Brasil, normalmente coloca-se luzinhas na árvore de Natal, mas não nas janelas ou sacadas como é comum no Brasil. Aqui são muito comuns algumas decorações de mesa, principalmente de madeira. Por exemplo:

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E presépios são uma decoração também muito presente, mesmo em famílias não particularmente religiosas.

Um dos primeiros posts sobre Natal que escrevi para o blog foi sobre decorações natalinas típicas daqui, que eu sempre achei muito bonitas e elegantes.

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Mandar cartões de Natal e expor os cartões recebidos como decoração na sala também é bem comum por aqui. Tanto famílias quanto empresas costumam enviar cartões de natal para os conhecidos.

Acho que é isso!

Fröhliche Weihnachten!


(Publicado em 26 de Dezembro de 2017)

Mais sobre adventos

Continuando a série de posts natalinos do ano, esse post vai ser sobre adventos e calendários de advento, uma das tradições natalinas alemãs que eu mais gosto. Na verdade eu já escrevi um post sobre calendários de adventos há quatro anos atrás. Mas na época calendários de advento eram uma coisa nova pra mim, e eu mesma nunca tinha feito ou tido um.

Esse ano eu finalmente fiz um calendário de advento, algo que eu vinha planejando fazer há cinco anos.

No Brasil não se fala muito de advento, é uma coisa que fica mais nas igrejas, mesmo. Aqui os adventos são bem importantes e comemorados. São os quatro domingos que precedem o Natal. Esse ano o primeiro advento caiu no dia 3 de dezembro, o segundo no dia 10, o terceiro vai cair no dia 17 e o quarto no dia 24. O período entre o primeiro advento e o Natal é chamado de ‘Adventszeit‘, ou período de advento. Na verdade é meio como uma contagem regressiva para o Natal, mesmo. Não é uma comemoração por assim dizer, mas uma preparação para o Natal.

Aquelas coisas que se faz nas semanas anteriores: comprar presentes, montar a árvore de Natal, decorar a casa, preparar as comidas da ceia, todas essas coisas são o que caracterizam o período de advento. E pra marcar essa contagem regressiva, o advento do Natal, são dois os itens típicos encontrados em grandes quantidades na Alemanha: A Coroa de Advento e o Calendário de Advento.

A Coroa de Advento é basicamente uma guirlanda de colocar na mesa, com quatro velas, as quais são acesas aos domingos. No primeiro domingo acende-se a primeira vela, no segundo domingo a primeira e a segunda, no terceiro, as duas e a terceira, e no quarto, todas.

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É uma decoração de Natal presente em todas as casas alemãs, nessa época do ano se acha super fácil para vender em qualquer lugar. Nas igrejas, as velas dos adventos ficam acesas o tempo todo até o Natal (são umas velas gigantes).

Ontem eu fui a um concerto de Natal de um coral, e eles cantaram uma música tradicional de Natal sobre o advento que ilustra muito bem esses preparativos típicos e o significado do Advento. Vou colocar a letra aqui com tradução e uma explicação de cada estrofe. São quatro estrofes, e cada uma representa um advento e as atividades típicas dele.

Vorfreude, schönste Freude. Freude im Advent. 
Tannengrün zum Kranz gewunden, 
rote Bänder dran gebunden, 
und das erste Lichtlein brennt. 
Erstes Leuchten im Advent, Freude im Advent. 

Antecipação, a melhor alegria. Alegria no Advento.
Os ramos de pinheiro trançados numa coroa,
fitas vermelhas amarradas,
e a primeira luzinha brilha
A primeira luz do advento, alegria no advento.
A primeira estrofe ilustra justamente a coroa de advento, feita de ramos de pinheiro trançados e decorados. A primeira vela é acesa.

Vorfreude, schönste Freude. Freude im Advent. 
Heimlichkeit im frühen Dämmern, 
Basteln, kleben, sägen, hämmern, 
und das zweite Lichtlein brennt. 
Heimlichkeiten im Advent, Freude im Advent.

Antecipação, a melhor alegria. Alegria no advento.
Aconchego no amanhecer,
montar, colar, serrar, martelar
e a segunda luzinha brilha.
Aconchego no Advento, alegria no advento.
A segunda estrofe fala sobre as decorações de Natal sendo preparadas: montar, colar (decorações diversas), serrar (a árvore), e a segunda vela é acesa.

Vorfreude, schönste Freude. Freude im Advent. 
Was tut Mutti, könnt ihrs raten? 
Kuchen backen, Äpfel braten, 
und das dritte Lichtlein brennt. 
Süße Düfte im Advent, Freude im Advent. 

Antecipação, a melhor alegria. Alegria no advento.
O que está fazendo a mamãe, adivinha?
Assando bolo, fritando maçãs,
e a terceira luzinha brilha.
Aromas doces no advento, alegria no advento.
A terceira estrofe é sobre os doces, bolos e tortas que caracterizam a época de Natal. Torta de maçã é uma torta típica do inverno, quando as maçãs são uma das poucas frutas que se encontra frescas no mercado. A terceira vela é acesa.

Vorfreude, schönste Freude. Freude im Advent. 
Kinderstimmen leise, leise, 
üben manche frohe Weise, 
und das vierte Lichtlein brennt. 
Lieder klingen im Advent, Freude im Advent.

Antecipação, a melhor alegria. Alegria no advento.
As vozes de crianças suaves, suaves,
praticando sons felizes,
e a quarta luzinha brilha.
As canções tocam no advento, alegria no advento.
E finalmente a quarta estrofe é sobre as crianças praticando as músicas de Natal para cantar de porta em porta na noite e no dia de Natal. A quarta vela é acesa.

Eu gostei dessa música porque ela transmite muito bem o feeling dessa época por aqui.

E o segundo item tradicional é o Calendário de Advento. É o seguinte: o calendário de advento é basicamente um calendário de contagem regressiva para o Natal. Ele começa no dia 1° de Dezembro e termina dia 24. Só que ele não é um calendário como qualquer outro, mas especial: cada dia guarda uma surpresinha! Normalmente é um chocolatinho, mas existem várias formas e variações de calendários de advento e você pode fazer o seu própio e decidir o que colocar nele!

Calendários de advento são super comuns aqui. Você pode comprá-los prontos (normalmente de alguma marca de chocolate, é basicamente uma caixa com uma imagem natalina e janelinhas pra destacar e abrir. Atrás de cada, um chocolate) ou fazer o seu próprio, que é o mais legal, já que os prontos são meio feios.

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Um calendário de advento de comprar pronto, da Lindt.

E como fazer o seu própio calendário? O formato fica para a sua criatividade definir, o mais legal dos calendários de adventos feitos à mão é que cada um inventa um jeito diferente de fazer e acaba saindo as variações mais diversas! O importante é que tenham 24 caixinhas, ou sacolinhas, ou potinhos ou o que for, Um para cada dia de Dezembro que precede o Natal. Legal também é quando dá pra ver quais caixinhas já foram abertas. Como os domingos são os dias de adventos, dias mais importantes, você pode também fazer uma caixinha maior para cada domingo e colocar por exemplo um presentinho em cada um, em vez de chocolate.

Você pode fazer um calendário para dar de presente para alguém (mas tem que dar antes do dia primeiro de dezembro, senão não tem graça!), para as crianças abrirem, ou para as pessoas da sua família, etc. Eu e meu marido fizemos o calendário para nós dois, alternando. Então ele colocou chocolates em metade das caixinhas, nos números pares, e eu nas caixinhas de números ímpares. Aí eu abro as caixinhas que ele preparou e vice-versa. Nos domingos, colocamos presentinhos (ingressos pro cinema no dia, uns enfeitinhos de natal… coisinhas assim).

Esse ano o primeiro advento caiu no dia 3 de Dezembro. Mas ás vezes o primeiro advento cai já no final de Novembro. O calendário de advento começa mesmo assim só no dia primeiro, então nos anos em que o primeiro advento cai antes, ficam só três domingos de advento no calendário. Mas tudo bem.

Assim ficou o calendário de advento que fizemos esse ano:

Eu fiz as caixinhas de origami, e o marido montou essa rede de cordão para pendurar. Aliás, uma observação importante: os dias no calendário de advento nunca ficam organizadinhos de 1 a 24, mas misturados aleatoriamente, pra você ter sempre que ficar procurando a janelinha daquele dia.

Aqui alguns outros exemplos de calendários de advento:

Agora já está meio tarde pra fazer um calendário de advento para esse ano, mas você já pode ir planejando o seu do ano que vem. Eis o nosso calendário no momento:

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Muitos chocolates foram comidos!

É isso!


(Publicado em 20 de Dezembro de 2017)

Cortando árvores de Natal

Nessa época do ano eu invariavelmente escrevo vários posts sobre Natal e temas relacionados. O Natal é uma comemoração tão importante na cultura dos países cristãos que não tem como você não falar sobre o Natal e pensar em Natal nessa época. E curiosamente todo ano aparece alguma coisa nova sobre o Natal que dá um post.

Esse ano pela primeira vez temos uma árvore de Natal em casa. A gente sempre passa o Natal com meus sogros, então nunca nos preocupamos de montar uma árvore de Natal pra ficar aqui sozinha enquanto a gente vai passar o Natal em Colônia.

Mas esse ano foi diferente.

Aqui na Alemanha as árvores de Natal são sempre árvores de verdade. Ninguém tem árvore de plástico aqui, pelo menos nenhuma família. Talvez se você for numa república de alguns estudantes você encontre lá uma arvorinha brega de plástico, pode ser. Mas numa casa de alguma família, onde as pessoas passam de fato o Natal, pode ter certeza que vai ter uma árvore de verdade. Os alemães ficariam horrorizados de se deparar com uma árvore de plástico. Mas claro, faz sentido, aqui as árvores de Natal já eram queridas antes de serem de Natal.

Aliás, uma observação importante. Árvores de Natal não são pinheiros. Pinheiro de Natal é na verdade um erro de tradução. As árvores da família dos pinheiros (são várias espécies diferentes) tem galhos parecidos com esse:

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A árvore de Natal “oficial” é uma Tannenbaum, em português se chama Abeto. Pois é, ninguém conhece esse nome, provavelmente por isso que traduzem pra pinheiro. Mas as árvores da família dos Abetos têm galhos parecidos com esse aqui:

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É bem diferente, também na aparência da árvore como um todo. Mas tanto o Pinheiro quanto o Abeto são coníferas, árvores que permanecem verde o ano inteiro, e por isso sua ligação com o inverno e o Natal – porque são os únicos tipos de árvores que não perdem as folhas para o inverno. As coníferas tem uma grande importância na cultura de países frios. E o Natal não é no solstício de inverno por acaso, já muito antes do cristianismo o solstício de inverno era comemorado em diferentes culturas.

Mas voltemos às árvores de Natal. Então aqui todo mundo tem uma árvore de verdade, certo. E onde se arranja uma árvore?

Tem diferentes opções. Você pode roubar uma árvore da floresta mais próxima, não recomendo porque é roubo, mesmo. Mas tem quem faça isso. Mas a maioria das pessoas simplesmente compra uma árvore de algum produtor próximo. Tem vários lugares nas cidades onde os produtores trazem as árvores de Natal já cortadas para vender, mas você também pode ir direito no viveiro e escolher e cortar sua própria árvore de Natal.

No escritório em que trabalho, todo ano no início de dezembro os colegas e o chefe vão juntos buscar uma árvore de Natal em um viveiro de um amigo do chefe. Quem quer árvore de Natal em casa pega a sua, e juntos escolhemos uma árvore bem bonita para o escritório. Esse ano eu fui pela primeira vez junto – ano passado não pude ir e no ano anterior o evento acabou não rolando. A gente não tinha planos de comprar uma árvore de Natal já que não passamos o Natal aqui, mas já que estávamos lá resolvemos levar uma pequena. E o processo todo de ir escolher, cortar, embalar e levar a árvore foi tão divertido e novo para mim que não tive outra opção se não vir correndo escrever um post a respeito!

O tal viveiro de árvores de Natal fica em algum lugar há uns 40 minutos de carro de Dresden. Os alemães só colocam as decorações de Natal em dezembro, ou a partir do primeiro advento (o quarto domingo antes do Natal, que às vezes cai nos últimos dias de Novembro). Então o viveiro só abre para venda a partir do fim de semana do primeiro advento. Ou seja. Abriu hoje. Não por acaso, estava super cheio, muitas pessoas vão lá buscar suas árvores de Natal, e vários saem inclusive com várias árvores!

 

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Parte do viveiro de árvores de Natal

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Tem árvores de todos os tipos, tamanhos e formatos. Os preços variam bastante de acordo com o tipo de árvore e o tamanho (a etiqueta no topo da árvore indica o preço). Tem algumas espécies diferentes, inclusive com cores ligeiramente diferentes. Na foto de cima, do lado direito dá para ver algumas árvores mais azuladas por exemplo. A árvore que escolhemos, uma bem pequena (em comparação com a maioria das outras árvores disponíveis, mas ficou grande o suficiente na nossa sala!), custaria só 9,99€. Mas alguns dos meus colegas que tem mais espaço em suas salas levaram maravilhosas árvores enormes, que teriam custado uns 60€ cada. Estou falando que teriam custado porque as nossas foram de graça – o chefe que pagou todas!

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A árvore que escolhemos é a da direita, verde clara. Bem pequena na média.

Bom, o primeiro passo é escolher a árvore. Daí o passo seguinte é cortar a árvore. Você pode pegar uma serra emprestada na entrada, claro.

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Meu marido cortando a nossa árvore

Quando eu digo “cortar a árvore”, você já deve estar imaginando um lenhador com uma serra gigante gritando “Madeeeeeiraaaa!” à la Picapau. Na verdade é bem mais simples que isso, já que essas árvores são bem pequenas (mesmo as grandes) em relação a árvores que se cortaria numa floresta para usar a madeira. A serra é super simplesinha e o tronco ainda é bem fininho. Difícil mesmo é se tiver tudo coberto de neve. Aí fica complicado encontrar o tronco, rsrsrs. Mas num dia como hoje, é bem tranquilo cortar a árvore.

Ok, árvore cortada, o próximo passo é embalar. Não tem como levar a árvore assim tão arvoresca pra casa. Então você fica aqui numa fila de pessoas com árvores esperando para embalá-las:

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E aí vem a parte mais engraçada: os funcionários do viveiro colocam a árvore numa máquina de embalar árvore, que puxa a árvore para dentro de uma rede. Assim:

Tchans! E assim ficam as árvores embaladas:

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Eu e a minha árvore (à direita) e a árvore do escritório (à esquerda).

Bem mais fácil de transportar.

Tá, aí você leva a sua árvore pra casa, mas como deixar uma árvore cortada de pé? Precisa de uma base, claro. E você precisa ter uma base especificamente para árvores de Natal. Lógico que é super fácil de achar pra vender em Dezembro. Tem vários tipos diferentes, nós compramos essa assim:

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Não dá pra ver direito, mas ela tem um buraco no meio e quatro “dentes” que prendem o tronco da árvore. É uma base super pesada – tem que ser, se não a árvore tomba – e dá para colocar água dentro como se fosse um vaso.

Um detalhe importante é que os alemães costumam decorar a árvore só no dia 24! Frequentemente a árvore já está bonitinha em casa e com luzinhas desde o início de dezembro mas os enfeites mesmo só no dia 24. A gente vai enfeitar a nossa agora, mesmo, já que não estaremos aqui no dia 24. Já colocamos umas bolas iluminadas que é uma decoração bem comum por aqui.

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Aí pronto!

No começo (da minha vida na Alemanha) eu achei estranho que todo mundo tivesse árvores de verdade, me parecia ruim “matar” uma árvore só para ter ela decorada na sua sala e não sei o quê. Mas na verdade isso é uma ideia bem boba. A árvore foi plantada especificamente pra isso, num campo, tudo seguindo todas as leis ambientais e seja lá o que for. A gente meio que aprende que “cortar árvore” é uma coisa ruim, mas não é tão simples assim. Ruim é destruir o meio ambiente, não cortar uma árvore. Não tem problema nenhum cortar uma árvore (para usar a madeira, por exemplo), se aquela árvore veio ou de uma plantação para corte ou de uma floresta natural gerida de acordo com as regras ambientais de maneira que a quantidade de árvores cortadas não seja além do que a floresta naturalmente produz, etc. Na verdade essas coisas eu só aprendi depois que fiz um mestrado em ciências florestais. E plantar árvores de natal para vendê-las depois de um ano não tem nenhum impacto ambiental que justifique qualquer indignação ou estranhamento. É que a gente não está acostumado com a idéia mesmo.

Mas foi super divertida a experiência de hoje, e com certeza é muito mais legal ter uma árvore de verdade no Natal que uma árvore de plástico! (Só que tem que varrer as folhinhas do chão toda hora!)


Publicado em 2 de Dezembro de 2017

Como a Alemanha mudou meu paladar

Uma das coisas mais difíceis de acostumar, para quem se muda de um país para outro, é a comida. Vale para quaquer pessoa mudando de qualquer país para qualquer outro, a comida é sempre uma questão difícil. Comida brasileira é de longe do que eu mais sinto falta aqui (exceto, claro, pessoas queridas que estão no Brasil). E os posts possivelmente mais comuns nos grupos de facebook de estrangeiros ou brasileiros aqui são pessoas perguntando onde encontram esse ou aquele ingrediente específico, ou como substituí-lo.

Aqui em Dresden não tem um único restaurante brasileiro, e eu não super sei cozinhar. Já tentei várias vezes fazer feijão mas não consigo temperar direito e não tenho paciência de esperar cozinhar totalmente, de maneira que o gosto nunca fica igual. Fica um feijão muito improvisado. Desisti.

O que significa que eu quase nunca como comida “normal”. Realmente muito raro eu comer assim um básico arroz e feijão com gosto de arroz e feijão. Outro dia viajando numa cidade encontrei um restaurante brasileiro e juro, quando chegou a comida e eu dei a primeira garfada quase comecei a chorar de saudade (“quase” aqui é só disfarce, saíram lágrimas de verdade). Outro dia ofereci um pote de doce-de-leite que estava sobrando aqui em casa (eu trouxe, ou alguém trouxe pra mim, sei lá, e eu não queria comer) num grupo de brasileiros daqui e em 5 segundos umas 20 pessoas responderam desesperadas que queriam muito aquele doce-de-leite.

Mas enfim. Tudo isso foi só introdução. A questão principal é: eu raramente tenho acesso a comida brasileira de fato, o que me obrigou a adaptar meus hábitos alimentares. Como qualquer imigrante tem que fazer, claro. Inevitavelmente mudar de país faz com que seus hábitos alimentares mudem até certo ponto. Certamente quem vai morar nos EUA acaba comendo mais fast food, quem vai morar no Japão acaba comendo muitos frutos do mar, etc.

Então esse post é sobre como o Alemanha mudou meus hábitos alimentares, e eventualmente inclusive minhas preferências alimentares.

Refrigerantes

A primeira coisa (que eu mencionei no post anterior, e que foi o ponto de partida pra escrever esse post): refrigerante. No Brasil eu era absolutamente viciada em Coca-cola. Tomava muito mesmo, coca no almoço, coca na janta. E eu não era nenhuma exceção, tem gente que toma menos, mas no geral muitas pessoas no Brasil tomam muito refrigerante, e coca-cola está sempre presente em festas, jantares e almoços com muitas pessoas, restaurantes, etc. Ir comer em algum lugar e não ter coca-cola como opção para beber é quase inimaginável.

Nos meus primeiros dois anos na Alemanha eu trouxe esse costume pra cá, e foi bem difícil. Escrevi um post inteiro sobre o quanto os alemães não tem menor idéia de como servir coca-cola. Aqui, se você pede uma coca num restaurante, ela vem sem gelo, quente, sem gás, e muito provavelmente nem é coca-cola de verdade mas alguma marca alternativa. Se você for convidado para almoçar ou jantar na casa de alguém, você pode ter certeza absoluta que não vai ter coca-cola na geladeira da pessoa. Refrigerantes no geral são coisas que os alemães bebem com pouquíssima frequência. Logo parei de pedir coca em restaurantes, porque era sempre nojenta, e passei a tomar só em casa. Depois de uma viagem ao Brasil em que uma amiga querida me apresentou a bebida mais simples e mais maravilhosa da terra – água com gás com gelo e limão – foi um pulinho pra abandonar a coca de vez. Passei a tomar água com gás com gelo e limão em casa, o que supriu a necessidade por uma bebida gelada e gasosa e eu te garanto: se você fica um mês sem beber refrigerante quando você voltar vai te parecer doce demais. A Alemanha curou de fato meu vício em coca de uma vez por todas. Acho que faz tipo um ano que eu não tomo uma coca, e a última vez deve ter sido assim pq não tinha outra opção e eu estava com muita sede, e me arrependi depois do primeiro gole. De todas as mudanças no paladar pelas quais a Alemanha foi responsável, passar de absolutamente viciada em coca para achar coca meio nojento foi realmente a mais radical.

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Açúcar

Na verdade a minha tolerância a coisas com muito açúcar no geral mudou. No Brasil coloca-se muito açucar nas coisas, nos doces, no café, onde der. Quando queremos evitar açúcar no Brasil, a alternativa é adoçante artificial, mas nunca simplesmente nada. Aqui isso é bem diferente. Por exemplo café. Colocar açúcar no café é raríssimo aqui. Só se for um espresso. Mas aqui não se toma tanto café espresso, mas café com leite. Sem açucar. Quando eu ainda tomava café com açucar e me ofereciam café em casas alheias e eu pedia açúcar, as pessoas tinham que ir procurar o potinho de açúcar no canto mais esquecido do armário da cozinha de onde ele sai uma vez por ano. Parei de tomar café com açúcar na mesma época que abandonei a coca-cola. E doces muito doces eu hoje não agüento nem olhar. Cocada, que era um doce que eu adorava quando morava no Brasil, por exemplo. Só de pensar em morder uma cocada já dá enjôo por ser tão doce. Quando faço bolos aqui com receitas brasileiras, coloco menos da metade do açúcar da receita e mesmo assim os alemães convidados a experimentarem dizem que é super doce. Ah, e adoçante artificial é algo que nem existe aqui. Eu nem tinha percebido isso (porque sempre detestei adoçante) até virem me visitar parentes que só tomam café com adoçante, e reclamarem de nunca ter adoçante em lugar nenhum. Realmente não tem mesmo.

Batata ou arroz

O alimento básico de cada cultura pode ter diferentes caras, gostos e cheiros, mas tem algo em comum: carboidratos. Qualquer cultura tem basicamente um item da culinária presente em quase todas as refeições, e que é a fonte principal de carboidratos e conseqüentemente energia e talz. No Brasil é o arroz e feijão, também comum em outros países latino-americanos. Na Itália é a massa. Em muitos países asiáticos também é arroz. Em vários países africanos é a mandioca. E na Alemanha, assim como outros países norte europeus, esse alimento básico sempre presente é a batata. Batata em diferentes formas e consistências: batata cozida, purê, batata assada, etc. Eu ainda prefiro arroz, mas acabo comendo pouco arroz por aqui. Como mais quando vou em restaurante vietnamita (que é a comida oriental mais presente por aqui) ou indiano.

Bom, na verdade essa mudança de hábito não é uma mudança de paladar, eu ainda prefiro arroz a batata. Arroz é bem mais gostoso. Mas uma coisa que você certamente nunca vai encontrar aqui é um prato com arroz E batata. É arroz OU batata. Pra gente batata é um legume, né, você poderia colocar batata junto com uma salada, talvez. Na Alemanha se chamar batata de legume eles te olham estranho.

Óleo

Uma diferença grande é a quantidade de óleo usada nas comidas por aqui. Aqui se usa beeeem menos óleo para cozinhar que no Brasil. E quando usa, usa-se preferencialmente azeite a outros óleos. Isso é uma coisa que eu notei também da última vez que fui pro Brasil, como certas comidas que você compra vem muito oleosas. Por exemplo salame e presunto. Sei lá, você tira o salame da embalagem ele vem todo gosmento e oleoso. Aqui ele vem sequinho. Isso me dá a impressão de que várias coisas meio “básicas” (básicas no sentido de alimentos que você compra assim no supermercado, como salame e presunto) são de pior qualidade no Brasil. Não sei se pior qualidade é a melhor maneira de descrever, mas a minha impressão, comparando um presunto que sai da embalagem sequinho com um que sai da embalagem todo oleoso e gosmento, é que o primeiro é mais saudável que o outro. Será que estou viajando?

Enfim, só sei que eu acostumei a usar bem menos óleo para cozinhar aqui.

Temperos prontos

Aqueles cubinhos ou potinhos de tempero pronto para carne, arroz, ou o que for, são super incomuns aqui. Eu usava sempre pra cozinhar no Brasil. No começo eu comprava aqui também (tinha que procurar meia hora no supermercado até achar os cubinhos escondidos num canto esquecido) e usava para cozinhar, mas aos poucos fui acostumando a cozinhar como meu marido e temperar as coisas com sal, pimenta do reino e cebola. Sei lá, talvez isso seja meio básico, e acho que várias pessoas lendo no Brasil logo dirão que também não usam tempero pronto nunca. Acho que quem gosta de cozinhar não usa mesmo. Mas eu usava e desaprendi aqui.

Pão

Pão é um assunto de extrema importância para um alemão. Alemães adoram pão. Na verdade, se você perguntar para qualquer alemão morando fora da Alemanha do que ele mais sente falta, pode ter certeza que a primeira resposta sem hesitação será “PÃO!”.

Aqui tem muitos tipos diferentes de pão, e eles comem no café da manhã sempre uma seleção variada desses. Esse post aqui explica melhor.

Pão branco é o menos querido entre a maioria dos alemães. Eu ainda não troco um pãozinho francês com crosta bem crocante por nada no mundo, mas os pães alternativos alemães – pretos, com sementes as mais diversas e todo tipo de coisas que você poderia imaginar colocar num pão antes de assá-lo – eu aprendi a gostar. Eu realmente não gostava no começo, só comia pão que não fosse branco se fosse realmente a única opção, e ainda fazia cara feia. Hoje gosto da variedade e como pães diferentes também. (Mas se a opção for entre um pãozinho francês e um outro pãozinho qualquer, vou inevitavelmente escolher o pãozinho francês que ainda não tem igual).

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Comidas diferentes em diferentes épocas do ano

Uma coisa interessante daqui é que, como as estações do ano são bem marcadas e bem diferente, as verduras, legumes e frutas disponíveis variam bastante entre as épocas do ano. Por exemplo, em Abril e Maio come-se muito aspargo. Em Outubro e Novembro, receitas com abóbora são muito comuns, assim como doces com ameixas. O verão, de Junho a Agosto, é época das frutas vermelhas, que aparecem em todos os bolos e doces. Essas variações são tão comuns que quando chega determinada época do ano as pessoas já começam a ficar com vontade de aspargos, ou de abóbora, ou do que for comum daquele período. E isso é uma coisa que morando aqui você logo acostuma e incorpora, até porque comprar framboesas em dezembro (por exemplo), até dá, mas pelo triplo do preço que custa no verão. E você só encontra em supermercados mais “gourmet” em embalagens com pequenas quantidades. Quando encontra.

 

Não sei, com essa lista ficou parecendo que os alemães comem muito melhor que a gente e são muito mais saudáveis. Isso em parte é verdade, mas só em parte. Eu não acho que a comida normal deles seja mais saudável, tipo o prato do almoço diário de um alemão médio. Um PF na Alemanha seria provavelmente: batata cozida, repolho cozido e alguma carne de porco, possivelmente um schnitzel (que é alguma carne à milanesa). Não acho isso mais saudável que arroz, feijão, bife e salada. Talvez igual? Não sei. Com certeza acho repolho e batata cozida bem menos gostoso que arroz, feijão e salada. De vez em quando até vai, mas como prato básico de comer todo dia? Yuk. Pra falar a verdade as comidas típicas alemãs – as bem normais – eu não tenho nem vontade de olhar. Saudades de um quilo, ou de um PF basicão.

À esquerda: Yuk! À direita: Yum! Tá, a foto da direita tá toscona, pq eu tirei rapidão com o celular, mas essa é a comida que proporcionou lágrimas de saudades.

Mas no que diz respeito a açúcar aí sim dá pra dizer que os costumes por aqui são mesmo mais saudáveis. A gente consome realmente muito açúcar no Brasil, e é vício. Quando você começa a reduzir o consumo, logo você vai perdendo a vontade de coisas muito doces. Mas dar esse primeiro passo de reduzir o consumo é muito difícil quando todo mundo em volta tá comendo um maravilhoso pudim de leite com uma coca-cola bem gelada. Então acho que acaba virando um vício coletivo.

E da última vez que estive no Brasil eu tive, mesmo, a impressão de que a comida industrializada era mesmo de pior qualidade.

Pra finalizar, acho que vale a pena comentar também que a adaptação em termos de comida varia muuuuito de imigrante pra imigrante. Se você cozinha muito em casa, e é só você em casa que cozinha, a adaptação é bem menor porque você continua cozinhando da mesma maneira de antes – você descobre onde encontrar os ingredientes mais raro, ou acha alguns substitutos suficientemente similares e pronto. Principalmente se as outras pessoas pra quem você cozinha têm os mesmos hábitos alimentares que o seu (por exemplo se você mudou com a família brasileira pra cá, em contraste com alguém que montou uma família binacional aqui). Se por outro lado você não cozinha nada mas come de tudo, aí inevitavelmente você se adapta à comida 100%.

Pra mim não foi nem um nem outro, mas um meio termo. Eu sempre fui bem fresca pra comer, tem um monte de coisa que eu não gosto, e normalmente quando eu encontro algo que gosto eu repito aquilo infinitamente. Em todos os restaurantes que eu vou regularmente (tem um italiano, um indiano, um tailandês e uma padaria) inevitavelmente assim que eu chego lá a pessoa que vem me atender já chega me dizendo meu próprio pedido. Que é sempre o mesmo. E eles já decoraram. Sério, a padaria do lado de casa (em que eu paro todo dia de manhã pra comprar dois pãozinhos com gotas de chocolate que é meu café da manhã dos dias de semana), assim que eu entro a pessoa que está atendendo já coloca dois Schokobrötchen na sacolinha de papel sem nem perguntar. E isso porque tem umas 5 pessoas diferentes que trabalham lá. Mas voltando: eu sou fresca pra comer mas não cozinho muito. Cozinho às vezes. Meu marido cozinha com mais freqüência, mas come de tudo. Então algumas coisas que eu não comia antes porque não estava acostumada e achava que não gostava, passei a comer. Mas várias outras coisas que seriam comuns se só meu marido cozinhasse e eu comesse qualquer coisa não aparecem nunca na nossa geladeira. Então fomos adaptando nossos costumes culinários um ao outro de maneira que as nossas comidas típicas em casa acabam sendo uma mistura de Brasil e Alemanha.


(Publicado em 30 de Novembro de 2017)

Comendo com alemães – Atualizado

Este humilde blog completa 5 anos daqui a poucos meses. Em 5 anos muita coisa muda, tanto fatos quanto impressões. Esse ano “renovei” vários posts antigos, principalmente escritos no primeiro ano de blog, e acho que isso vai ser uma tendência inevitável enquanto o blog continuar vivo.

Um dos temas sobre o qual escrevi bem no comecinho, e que precisa de atualização, é hábitos ao comer.

Talvez o mais importante: os alemães sempre falam “Bom apetite” antes de comer. Guten Apetit, ou às vezes só Guten, ou Lass/t es dir/euch schmecken são as diferentes frases que eles usam, mas sempre se diz algo antes de começar. Normalmente espera-se todo mundo estar sentado com comida no prato antes de começar (com muito mais frequência que no Brasil, onde em situações informais não se espera nunca), mas há exceções: em almoços rápidos, informais entre colegas de trabalho às vezes já começa-se antes dos outros. Na dúvida preste sempre atenção para ver se os outros estão esperando ou se já estão comendo, porque se você começar numa situação em que todo mundo espera, pega bem mal.

Com bebidas é ainda mais importante esperar, os alemães brindam sempre. Preste sempre atenção nos outros e só comece a beber depois que outros já estiverem bebendo – ou depois do brinde. Aqui é muito importante olhar nos olhos da pessoa que está brindando com você, faz parte do brinde. Esses detalhes é bom prestar atenção porque são aquelas coisas pequenas que a gente nem percebe que fez errado, mas passa uma má impressão!

Essas coisas eu já escrevi em posts passados, de temas variados.

Mas tem um outro assunto que eu ainda não abordei, que é como os alemães comem. Para mim, mesmo depois de quase 6 anos aqui, uma coisa que não me entra na cabeça é como eles usam colher. Não como mas em que situações. No Brasil só se usa colher pra tomar sopa, sopa líquida, mesmo. Ou pra comer sobremesa. Usar colher para qualquer outra comida é super estranho, parece que a pessoa não aprendeu a usar garfo e faca, fica feio. Mas aqui se usa colher pra qualquer coisa que tenha molho, basicamente. Macarrão, por exemplo, ou massas no geral – que não precisam ser cortadas – os talheres que se põe na mesa são só garfo e colher! E frequentemente, mas bem comum mesmo, os alemães dispensam totalmente o garfo e comem tudo com colher!

Nossa, eu confesso que isso me passa uma super má impressão. É engraçado pq eu não tenho lá grandes preocupações com etiqueta ou “boas maneiras” no sentido exagerado dos dois termos, mas comer com colher qualquer coisa que não seja totalmente líquida, ou sobremesa, eu acho totalmente bizarro.

Toda semana às terças feiras o pessoal do escritório pede comida indiana pro almoço. Comida indiana quem conhece sabe, é basicamente pedaços de legumes, batata, frango ou outros com muuuuito molho muito gostoso. Com arroz e pão pra comer junto. A idéia é que o molho você mistura com o arroz ou molha o pão no molho e assim come o molho. A ideia não é comer o molho como se fosse sopa. Mas toda terça-feira eu olho em volta e tá todo mundo comendo a comida indiana só com colher, como se fosse sopa. Eu hein. Com massa é a mesma coisa, penne, spirelli, essas massas que não precisa cortar? Não comem com garfo mas com colher. Sempre que eu “reclamo” disso pro meu marido ele me assegura que esse costume é mais específico daqui da Saxônia, e que em outras partes da Alemanha isso não é tão comum. Mas você pode ter certeza que em qualquer lugar da Alemanha, se você pedir uma massa, os talheres que serão colocados ao lado do seu prato são garfo e colher. Nunca faca.

Uma outra coisa que eu acho curiosa é que em algumas situações o guardanapo que você usou para uma refeição é reutilizado (por você mesmo, não por outra pessoa). Tipo, na época de Natal você almoça/janta com a família vários dias seguidos, certo. Dia 24, dia 25, dia 26. Nesses dias os alemães montam a mesa bem bonita, com decorações natalinas e guardanapos daqueles grossos.

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E curiosamente depois que se retira a mesa deixa-se os guardanapos lá, nos mesmos lugares, para usar e novo pra janta ou pro café ou o que for, no dia seguinte. Um tanto estranho. Eu não sei como que eles usam o guardanapo que faça sentido reutilizar, mas ao final da janta o meu não está só sujo como também dobrado, amassado, sei lá. Eu fico super dobrando o guardanapo. Aí eu olho e os outros tão todos bonitinhos e só o meu tem que ser reposto pq eu destruí o negócio, hehe. Mas gente, reutilizar o guardanapo de papel? Estranho, isso, hein. Estranho.

Aliás, voltando às bebidas, legal falar também das opções. Num almoço ou janta com alemães, na casa de alguém, vão te oferecer pra beber: cerveja, vinho, água (com gás) e talvez algum suco. Só. Coca-cola e outros refrigerantes, que são quase essenciais numa casa brasileira, são super raros aqui. Já fiz um post inteiro sobre coca-cola na Alemanha, que dá mto assunto. Mas se tem uma coisa que a Alemanha curou em mim foi o vício em coca. Realmente parei de beber coca e refrigerantes no geral depois que vim pra cá. Essa foto acima é de um dos meus primeiros (talvez o primeiro) natais aqui, e aquela coquinha ali no fundo tava lá especialmente pra mim. Na época eu ainda não conseguia imaginar um jantar sem coca. Engraçado como essas coisas mudam.

Aliás, muita coisa mudou nas minhas preferências em termos de comida e bebida depois de quase 6 anos aqui, dá pra fazer um post só sobre isso. Ok, vou fazer um post só sobre isso.


(Publicado em 26 de Novembro de 2017)