Dinheiro, empréstimos e aluguéis

Hoje por acaso me deparei com um artigo muito interessante sobre o porquê de os alemães quase sempre pagarem tudo com dinheiro. Vários aspectos da cultura alemã apontados no artigo são coisas que eu já tinha notado e estranhado logo de início, e por isso achei que seria uma boa escrever um post sobre o assunto, baseado nesse artigo e nas minhas experiências pessoais por aqui.

No Brasil paga-se quase tudo com cartão. Enquanto estava lá eu raramente carregava mais que 20 reais na carteira uma vez que QUALQUER lugar aceita cartão. Os motivos são vários: é muito mais prático não precisar lembrar de tirar dinheiro, as pessoas se sentem mais seguras carregando menos dinheiro – para o caso de serem assaltadas ou furtadas – e tem ainda o conforto de não “ver” o dinheiro sendo gasto: quando você tem o dinheiro na carteira e vê ele diminuindo, é bem mais difícil gastá-lo.

Mas na Alemanha o contrário é o normal: Aqui se paga muito mais com dinheiro que com cartão. Tem que lembrar de carregar dinheiro porque muitas lojas e restaurantes nem sempre aceitam cartão de crédito. A porcentagem de pagamentos realizados em dinheiro na Alemanha chega a 82%, bem maior se comparada, por exemplo, ao valor nos Estados Unidos: 46%. Eu não sei qual é essa porcentagem no Brasil, e imagino que seja difícil comparar países desenvolvidos com países em desenvolvimento nesse quesito. Mas imagino que pelo menos em São Paulo seja um valor parecido ao dos Estados Unidos.

O artigo sugeria alguns motivos para essa preferência forte por pagamentos em dinheiro aqui:

1. Ter uma noção dos gastos
Assim como a gente (ou eu, pessoalmente) prefere pagar com cartão pra não sentir tanto o dinheiro indo embora, para os alemães o contrário é o motivo: eles preferem ter uma noção dos seus gastos para ter um controle sobre os mesmos. Faz sentido, claro. (Ainda sou mais o cartão…)

2. Anonimidade
Como eu já mencionei em outros posts por aqui, especialmente nesse aqui sobre a internet, os alemães são suuuuper noiados com privacidade. Eles evitam colocar o nome completo em sites (incluindo o perfil do face), evitam colocar fotos de si e especialmente taguear essas fotos (pra evitar que esses programas de reconhecimento de rosto que as redes sociais (por exemplo) usam gravem seus rostos), evitam serviços de email e mensagens em que as mensagens não sejam criptografadas, ou em que o serviço mantenha o histórico gravado em seu sistema mesmo depois que as mensagens são apagadas (Face, WPP, Google, quem sabe o que eles fazem com as informações?), etc etc.

Pra gente no Brasil, que é extremamente apegada às dinâmicas sociais internéticas, esses cuidados parecem uma nóia insana, quase uma afronta à socialização. Como faz amizade com alguém que não tem nem Smartphone nem Facebook? (E não são poucos os alemães que se encaixam nessa descrição!) Tem que telefonar pra pessoa? Mandar um email e torcer pra pessoa sentar hoje a noite no computador pra ler seus emails?

Mas bom, se os alemães estão em um extremo em termos de nóia com privacidade online, a gente está no outro. Talvez um meio termo fosse ideal. Seja como for, esses cuidados acabam se refletindo nos costumes dos alemães em relação ao dinheiro: vários dizem que não gostam de pagar com cartão porque não querem que todas as suas compras e seus movimentos financeiros possam ser tão facilmente rastreados. É verdade que sua fatura do cartão de crédito já é o suficiente pra dizer muito sobre você: O que vc compra, onde, os lugares que você frequenta, os seus hobbies, etcetc. Mas, por outro lado, também não sei pq alguém se interessaria em saber tais coisas sobre mim, muito menos as pessoas que teriam acesso a essas informações, organizações governamentais, e tal. Mas bom, talvez o cuidado alemão com isso seja bem mais sensato do que nos parece.

3. Alemães evitam dívidas
Esse é o ponto mais interessante levantado pelo artigo, sobre o qual eu nunca tinha pensado muito a respeito, mas que se encaixa em várias das minhas observações alemanhísticas. Mas essa aversão a dívidas é de fato uma característica típica por aqui, e que se traduz em dois resultados bem interessantes: poucos alemães possuem cartões de crédito – especialmente os que são de fato de crédito por definição e; em relação a imóveis, os alemães têm uma clara preferência por alugel a compra por financiamento.

Sobre o cartão de crédito: Aqui existem dois tipos de cartão. Na verdade, três. O primeiro é o EC Card (Eletronic Cash Card), tb conhecido pelo nome de Girocard (não sei se tem diferença). É o cartão de débito alemão e que funciona como cartão de débito na europa inteira. Esse é bem amplamente aceito em lojas e restaurantes por aqui.

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Daí temos também os cartões de créditos, que podem ser de dois tipos: ou um normal onde vc faz as suas compras e paga a fatura no final do mês (embora o mais comum seja vc ter o cartão do banco onde tem conta e a fatura ser descontada automaticamente da sua conta no final do mês) ou um cartão de crédito pré pago (que portanto por definição não é de crédito, mas tudo bem) onde vc coloca crédito antes e vai gastando, meio como um cartão de débito.

O uso do cartão de crédito no esquema faça-suas-compras-de-boas-e-pague-tudo-no-final-do-mês é um conceito que vários alemães nem entendem! Eu tive várias discussões com meu namorado em que ele me dizia que não podia fazer tal compra com o cartão de crédito antes de transferir dinheiro pra conta do cartão e eu tendo que explicar que cartões de crédito, por definição, não exigem que vc tenha o dinheiro disponível na hora da compra, mas só no final do mês (ou seja lá quando for que vence a fatura). Demorou pra ele acreditar que ele podia comprar algo com o cartão de crédito sem ter o dinheiro disponível na conta no mesmo momento (e descobrir isso não o fez nem um pouco mais compelido a gastar dinheiro que não tem). Pode parecer estranho mas isso não deve ser raro por aqui: apenas 36% dos alemães possuem um cartão de crédito (comparando com 62% nos EUA). Parece que para os alemães a utilidade do cartão de crédito é basicamente para fazer compras ou tirar dinheiro no exterior, onde não se aceita o cartão de débito alemão. Eu mesma nunca usei o meu cartão de crédito alemão por aqui (embora tenha um). É raramente aceito, e para compras online pode sempre usar o tal cartão EC. Só uso o de crédito se compro alguma coisa num site estrangeiro.

Sobre alugar em vez de comprar: Isso é uma das coisas com que eu mais me identifico nos alemães e menos nos brasileiros. No Brasil as pessoas vêem alguel como uma perda de dinheiro. Pra quê pagar um aluguel se você pode pagar a mensalidade de um financiamento em vez disso, e ainda ficar com a casa depois (dos 60 anos de idade, ou algo assim)? Pra mim sempre foi bem curioso como no Brasil todo mundo está sempre desesperado pra comprar imóvel, colegas da minha idade (quase 30) preferem morar com os pais até os 35 pra poder juntar dinheiro pra dar entrada em um apartamento do que ir morar de aluguel com o namorado/a e experimentar um pouco da vida adulta e talz. Nesse sentido eu me encaixo bem por aqui. Os alemães preferem a independência de um aluguel: morar na sua própria casa tão cedo quando possível, não se prender a um local ou cidade ou a um emprego que você não pode correr o risco de perder porque precisa continuar pagando o financiamento do apartamento que comprou (o aluguel também precisa ser pago, claro, mas pode-se sempre procurar um mais barato se não tiver rolando). E evitam ao máximo um empréstimo que possa gerar dívidas no futuro: nunca se sabe o que o futuro guarda (e os alemães são sempre bem pessimistas).

Por essas e outras que a porcentagem de pessoas que têm casa própria na Alemanha, 40%, é bem abaixo da média de outros países desenvolvidos (por volta de 80% na Itália e Espanha, 70% na Inglaterra e EUA).

Outro ponto interessante nessa história toda é que por causa desse costume alemão de pagar com dinheiro que existe a nota de 500 euros. Aparentemente essa nota só existe por pressão da Alemanha, e na França é chamada de “nota alemã”. (Eu nunca vi e nem senti cheiro de uma, mas tudo bem!)

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Luis Javier Modino Martinez – Wikipedia

Acho que é isso! Aqui estão os artigos que serviram de fonte dos dados e alguns argumentos desse post:

Why Germans pay cash for almost everything

http://www.businessinsider.com/you-have-to-understand-germanys-long-standing-fear-of-debt-2012-7?IR=T

Most Germans don’t buy their homes, they rent. Here’s why


(Publicado em 26 de Setembro de 2016)

Sternsinger – Cantores da Estrela

Esse blog já tem 3 anos e meio. Eu nunca teria imaginado, quando comecei a escrever, que teria assunto o suficiente pra continuar escrevendo por 4 anos. Mas mesmo depois de tanto tempo eu ainda frequentemente me deparo com coisas que eu nunca tinha percebido antes e que dão um ótimo post.

Recentemente, por exemplo, notei uma coisa curiosa na porta da casa dos meus sogros:

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Aqueles escritos ali em cima da porta: 20 * C + M + B + 16.

Não era exclusivo da casa deles. Achei várias outras casas na vizinhança e também em outras cidades com escritos similares:

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A maioria das casas que vi tinha apenas “20 * C + M + B + 16“, mas a dos meus sogros em especial (a porta azul acima) tinha vários: 20 * C + M + B + 12, 20 * C + M + B + 14, 20 * C + M + B + 15 e 20 * C + M + B + 16, sendo o último o que estava mais claro, os outros mais apagadinhos.

Quem escreveu esses estranhos códigos? O que eles significam? Porque alguns estão mais apagados que os outros? Como que em 4 anos de Alemanha eu nunca tinha notado esses negócios escritos em vááárias portas??

As respostas para essas perguntas não foram difíceis de descobrir, qualquer alemão saberá te dizer o que significam esses códigos. São uma benção à casa.

No dia 6 de Janeiro, o dia dos três reis magos, grupos de crianças vestidas de três reis magos (ou 4, ou 5, ou quantos reis magos (e rainhas magas) forem necessários para o grupo de crianças em questão) carregando uma estrela vão de porta em porta cantando umas músicas e oferecendo uma bênção para a casa, em troca de uns trocados para projetos de caridade das igrejas, e também uns doces – que né, doces são sempre necessários.

Assim:

Hans Kadereit – Wikipedia

Chamam-se “Sternsinger”, ou “Cantores da estrela”

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Vários grupos de Sternsinger reunidos na igreja. Hans Kadereit – Wikipedia

E os códigos? 20 * C + M + B + 16? Os códigos são a bênção em si, que as crianças escrevem com giz. Os números, vc já deve ter concluido, significa o ano, no caso 2016. CMB é uma sigla para a frase em latim “Christus mansionem benedicat“, “que Cristo abençoe essa casa”. Mas também são popularmente interpretados como os nomes dos três reis magos: Caspar, Melchior e Balthasar. Só não sei como as crianças conseguem escrever a tal bênção lá no topo da porta… suponho que algum adulto dê uma ajudinha!

A benção do ano atual você encontra em várias portas, mas em algumas poucas portas você encontra ainda, meio apagadinho, as bênçãos de anos anteriores, como na porta dos meus sogros. Algumas casas têm até uma pequena lousinha na porta, especificamente pra esse fim (como a segunda foto lá em cima, da porta branca).

É isso! Um fato curioso que pode passar facilmente despercebido se você mora em apartamento! Agora fiquei pensando que teria feito mais sentido escrever esse post no dia 6 de Janeiro… oh well, 6 de Setembro é quase 6 de Janeiro!


(Publicado em 6 de Setembro de 2016)

Soletrando no telefone

Falar o nome de letras pelo telefone, quando você precisa soletrar alguma coisa, pode ser um certo desafio. F e S soam parecidos, B e P também, T e D, M e N… para não gerar confusão, é normal usar palavras que começam com aquela letra, para especificá-la. No Brasil, por exemplo, costuma-se usar N de Navio, D de Dado, M de Maria, A de Abelha, etc, algumas palavras escolhidas são sempre as mesmas (“N de Navio” é um clássico), outras vão da criatividade da pessoa que está soletrando.

Obviamente, na Alemanha isso também existe. Mas a diferença é que é totalmente oficial e segue uma norma específica. Tão oficial que, ao precisar soletrar por exemplo seu email por telefone, as pessoas nem falam mais as letras, só as palavras correspondentes. A norma em questão é a DIN5009 (DIN é a equivalente alemã da ABNT). Nessa lista, as palavras usadas para cada letra são, na maioria, nomes próprios.

Richard para R, Anton para A, Paula para P são alguns dos exemplos.

Ainda hoje passei por duas situações que me foram extremamente confusas, mas que são totalmente padrão em telefonemas na Alemanha. Primeiro tive que telefonar para uma pessoa e perguntar o email dela para enviar um arquivo. O fulano, Herr Thomas Müller (nome fictício) me responde: “Ah, claro, meu email é Theodor Martha Übermutt Ludwig Ludwig Emil Richard sem ponto, arroba etcetc”. Por sorte eu já tinha uma noção de que ele tava soletrando, se fosse há algum tempo atrás eu provavelmente teria enviado o email para theodormarthaübermuttludwigludwigemilrichard@etcetc. Só que ele falou tão, tão rápido os nomes que eu teria que ter estado muito pré-preparada pra entender se já não soubesse o nome dele. (Na verdade eu só sabia o segundo nome, e o email tinha a primeira letra do primeiro nome que eu obviamente não entendi na soletragem bizarra mega-rápida. Tive que ligar de novo e pedir pra ele soletrar de novo, mais devagar…)

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Telefonar em alemão ainda é uma atividade que me faz soar frio por causa dessas confusões, e como se não bastasse a primeira, no mesmo dia passei ainda por uma outra situação similar, só que ao contrário. Me liga uma pessoa que tinha tentado me mandar um arquivo, mas o email tinha voltado. Queria confirmar meu email. Não teria problema eu soletrar usando palavras ou nomes diferentes dos da norma, mas é lógico que nessa situação dá um branco total na cabeça e você não consegue pensar em absolutamente nenhuma palavra que comece com aquela letra. Especialmente em alemão!

Esse foi meu diálogo no telefone: “L de… ahm… L… L.” “De Ludwig?” “É. A de…. Ahm… não sei… A.” “Anton?” “Isso. I de… er, bem… I. S de… enfim, S. Lais.”. Foi bem constrangedor. E também não ajuda quando os nomes ou palavras tipicamente usadas pra isso são palavras que você desconhece completamente. A pessoa no telefone me soletra meu nome de volta e eu não tenho a menor idéia de que palavra ele falou quando chegou no I. Pareceu ser uma palavra começada com I, então eu confirmei, mas acho que era outra coisa porque o email voltou de novo…

Mas tudo bem, tudo bem: isso não acontecerá novamente. Logo depois do segundo telefonema fui correndo procurar a lista oficial de palavras para soletrar. Imprimi e deixei de cola do lado do telefone no escritório!

Essa lista você pode encontrar procurando por “Buchstabiertafel” (que pode ser traduzido pra algo como “quadro de soletrar”) ou pela norma, DIN5009. Ou ainda, clicando nesse link aqui do Wikipedia que mostra a lista oficial da Alemanha, a da Áustria, a da Suiça, e a de duas normas internacionais (uma dessas é aquela que sempre se ouve em filmes, usada para várias coisas internacionais como comunicação entre aviões e torres de comando: Alfa, Bravo, Charlie, Delta, Echo…).

Recomendo pra qualquer um que precise telefonar bastante na Alemanha aprender o seu nome desse jeito. O meu agora eu já sei: Ludwig Anton Ida Samuel!


(Publicado em 31 de Agosto de 2016)

Estacionando na Alemanha

Estamos de férias e pela primeira vez passeando um pouco de carro por aí. Não temos carro – em Dresden é completamente desnecessário – mas viemos passar as férias na casa dos sogros, que estão viajando, então aproveitamos para fazer uns bate-voltas por perto.

E agora com a história de tirar a carteira de motorista e com essas viagens de carro, estou percebendo várias coisas particulares da Alemanha na sua relação com carros.

Uma dessas questões é estacionar. Em cidades grandes alemãs é quase sempre pago estacionar na rua. Funciona mais ou menos que nem Zona Azul: você para o carro, compra um ticket (Parkschein) numa das maquininhas de ticket de estacionamento que nem nas ruas de acordo com quanto tempo você vai deixar o carro lá, e deixa o ticket dentro do carro. As regras variam de local pra local e estão escritas embaixo da placa que diz que é permitido estacionar. Pode ser que aos fins de semana seja gratuito, ou então a partir das 21h, ou então só pode estacionar por 2 horas, etc. É comum também que em áreas residenciais seja permitido estacionar apenas quem mora nos quarteirões ali em volta. Os moradores têm um documento específico (uma plaquinha verde) que deixam dentro do carro, e quem estaciona sem essa plaquinha leva multa. Em algumas dessas áreas, pode ser permitido para não-moradores estacionarem durante o dia, mas aí durante a noite é só para moradores. Enfim, as regras podem ser inúmeras, e estarão escritas na plaquinha.

Mas uma coisa que é bom prestar atenção é que às vezes as plaquinhas ficam meio escondidas. No Brasil é normal que as plaquinhas relativas às regras de estacionar na rua estão sempre ali onde você estacionaria. No quarteirão seguinte, se as regras são as mesmas, a plaquinha aparece de novo. Não tem como não ver as placas.

Mas na Alemanha não é incomum que tenha só uma placa na entrada da rua que serve pra toda rua, ou mesmo uma placa na entrada daquela zona inteira (sei lá, uns 4, 5 quarteirões), que serve pra toda aquela zona. Aqui as áreas residenciais normalmente são “30 Zone”, que assim que vc entra numa dessas zonas, valem algumas regras como velocidade máxima de 30km/h. (Aliás uma informação extra apenas por curiosidade só assim-pra-quem-interessar-saber-pq-as-pessoas-gostam-de-uma-comparaçãozinha-básica-né: a velocidade máxima dentro de cidades alemãs é via de regra sempre 50km/h, exceto nessas zonas em que é 30km/h, ou ainda outras zonas mais restritas ainda, onde é 10km/h).

Aí pode ser que junto com essa plaquinha de 30 Zone apareça alguma plaquinha especificando as regras para estacionar nas ruas de toda a zona. Só nas entradas aparece a plaquinha, e aí no meio da zona você tem que saber que passou por uma plaquinha e as regras eram xyz.

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Tem alguns lugares também em que você não precisa pagar para estacionar, mas pode estacionar só por um período máximo de x horas (por exemplo 2 horas). Para o guarda saber quanto tempo você está lá, você tem que deixar no carro uma plaquinha que diz o horário de chegada. É uma plaquinha padrão (chama Parkscheibe) que você compra baratinho em qualquer posto de gasolina (ou vc pode até imprimir em casa, desde que siga o padrão de cor e dimensões definidas) e deixa no carro para usar nessas ocasiões, tem essa cara:

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Se você quiser voltar duas horas depois (ou seja lá quanto tempo for permitido estacionar no local) para remarcar o horário, você tem que tirar o carro, dar uma volta no quarteirão e estacionar de novo. A regra é que vc tem que sair do local onde o carro está estacionado pra dar a chance a outros motoristas estacionarem lá. Mas não me pergunte como que o guarda vai saber se você fez isso ou não. Interessante também é que no disco que mostra o horário, as marcações estão de meia em meia hora. A princípio não é permitido colocar o disco marcando algo no meio, tem que sempre estar marcando em um dos risquinhos, ou seja, ou às 14:00, ou 14:30, ou 15:00, ou 15:30, etc. E a regra é que você pode marcar no “risquinho” que seria o “próximo”. Pra explicar melhor só com exemplo: se você estacionar às 9:07, por exemplo, você pode marcar na plaquinha 9:30. Se você estacionar às 9:25 você também deve marcar 9:30 (óbvio que se vc chegar às 9:25 vc vai esperar até às 9:31 pra poder marcar 10:00, né? rsrsrsrs).

E quando é pago, o preço normalmente é bem salgado, principalmente em lugares mais movimentados no centro.

Estacionamentos “fechados” existem, são normalmente públicos, e costuma ter placas pela cidade apontando pros estacionamentos mais próximos que além de tudo ainda mostram quantas vagas estão disponíveis! Às vezes são só um lote com algumas vagas (Parkplatz) e uma máquina de ticket de estacionamento como as de rua, às vezes são enooormes prédios de estacionamento (Parkhaus), com vários andares, que você só entra ou sai colocando ou tirando o ticket da maquininha que nem em shopping.

E aí que vem o esquema sagaz: eles organizam os estacionamentos, preços, etc, de maneira a te desencorajar ao máximo de ir para o centro de carro. Alguns dos estacionamentos maiores têm um nome específico: P+R. E são indicados com a seguinte plaquinha:

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P+R significa Park und Reise, algo como estacione e viaje. Quando você vir uma plaquinha indicando para um estacionamento desse tipo, significa que o estacionamento está diretamente conectado com o transporte público: ou exatamente do lado de uma estação de trem ou metrô, ou logo na frente tem um ponto de ônibus onde param várias linhas para o centro, etc. E esses estacionamentos costumam ser gratuitos, às vezes por tempo ilimitado, outras vezes por um tempo definido, por exemplo 24h. A idéia é que quem mora meio fora da cidade ou nos subúrbios e trabalha no centro pode ir de carro até um desses estacionamentos e pegar de lá um metrô que te leva em 10 minutos até o centro. Em várias cidades (provavelmente em qualquer cidade de tamanho razoável) esses estacionamentos são então estrategicamente posicionados nas entradas da cidade, ou nas entradas da área central, para desencorajar as pessoas de irem de carro até o centro. Se no centro você além de sofrer pra achar vaga paga, sei lá, 2 euros por hora para estacionar e tem que tirar o carro a cada 2 horas e estacionar de novo, ou então 15 euros para estacionar o dia inteiro num dos estacionamentos públicos no centro, acaba valendo muito mais a pena você deixar o carro num desses P+Rs de graça o dia inteiro, pegar o metrô pro resto do seu percurso por um valor bem mais em conta e pronto. Funciona muito bem e é um esquema bem sagaz para diminuir o trânsito e o excesso de carros nas áreas centrais das cidades maiores.

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Um prédio residencial com um estacionamento público nos dois primeiros andares.

Pela nossa experiência passeando de carro em várias cidades nos últimos dias, estacionar no centro nunca vale a pena – é difícil de achar vaga e super caro. Quase sempre faz mais sentido deixar o carro em algum outro lugar e fazer o resto do percurso de transporte público.

(E só pra terminar: uma coisa que você não vai encontrar nunca jamais é estacionamento com manobrista. Esquece.)


(Publicado em 10 de Agosto de 2016)

O sistema de saúde alemão 3: Receitas e farmácias

Esse é o terceiro post sobre o sistema de saúde alemão. Nos dois primeiros posts eu escrevi respectivamente sobre os tipos de seguros de saúde (público ou privado) e sobre médicos e consultas.

Nesse post – o último sobre o assunto por hora – vou falar um pouco sobre como funcionam as receitas.

Na verdade eu nem sei direito como funcionam receitas para remédios no Brasil. Todas as receitas que eu recebi lá eram para remédios que não precisavam de receitas, então não tinha nada de especial, era só um papel com o nome do remédio assinado pelo médico.

Mas uma diferença já começa aí: Aqui quase tudo precisa de receita. Remédios bem genéricos como aspirina, ibuprofeno, essas coisas típicas para dores gerais não precisam de receita. Mas, por exemplo, anti-concepcional é uma coisa que não dá de jeito nenhum pra comprar sem receita. E os anti-concepcionais vêm sempre em uma caixa com 3 ou 6 meses de pílulas. Ou seja, você tem que voltar no seu ginecologista para buscar uma receita nova a cada 3 ou 6 meses. Isso é uma coisa que eu acho meio exagerada – facilita demais você ficar sem a pílula porque não percebeu que já era a última cartela e não conseguiu ir no consultório a tempo pra buscar outra receita. E o preço dos anti-concepcionais nunca é coberto pelo seguro de saúde – seja público ou privado – o que eu também acho problemático. Mas enfim.

Tem quatro tipos diferentes de receitas, as rosas, azuis, verdes e amarelas.

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A receita rosa é a mais comum. É a para remédios em geral receitados pelo médico cujo custo é coberto – parcialmente ou no total – pelo seguro de saúde do paciente. Nesse papelzinho como na imagem acima o médico imprime os dados do remédio receitado, o nome e os dados do paciente assim como o nome, dados e assinatura do médico.

Tem ainda um monte de outros números e campos que eu não tenho a menor idéia de pra que servem (¯\_(ツ)_/¯) mas são certamente muito úteis. Uma observação é que ali do ladinho tem ainda um campo para a farmácia que te vendeu o remédio em questão imprimir a identificação deles e o valor pago pelos remédios. Assim você envia a receita para seu seguro de saúde para eles reembolsarem o preço dos medicamentos. Isso no caso de vc ter um seguro privado. Se o seu seguro for público, do valor que você paga pelo remédio já é automaticamente descontado o que o seguro público cobre, e a farmácia fica com a receita para ser reembolsada pelo seguro público. Essas receitas têm uma validade que acho que varia dependendo do remédio, pode ser entre 4 semanas e 3 meses.

Receita azul

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A diferença da receita azul para a rosa é que o remédio receitado nas receitas azuis deve ser pago pelo paciente – porque os seguros não cobrem (Por exemplo receita para anti-concepcional). Essas receitas são válidas por 3 meses.

Receita verde

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As receitas verdes são para remédios que não exigem receita (mas que só podem ser vendidos por farmácias), digamos por exemplo ibuprofeno. Essa receita obviamente não tem validade.

Receita amarela

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Já a receita amarela é para medicações mais controladas, como por exemplo morfina. Essas receitas têm uma validade de 7 dias, e o são emitidas em três cópias: uma para o médico, uma para o seguro de saúde e uma para a farmácia. O valor é coberto pelo seguro de saúde, mas normalmente o paciente tem que pagar uma parte (por exemplo um mínimo de 10 euros por medicação, algo assim dependendo do seguro).

 

Ok, receitas explicas, falta ainda saber onde comprar a medicação.

Existem dois tipos de lojas aqui que poderiam ser traduzidas como farmácias: As Apotheke e os Drogeriemarkt. 

Drogeriemarkt são grandes farmácias que vendem principalmente artigos de higiene: fraldas, absorventes, cremes, shampoos, lenços, protetor solar, camisinha e também outras coisas como elástico pra cabelo, esmalte, maquiagem, etc. Basicamente tudo o que você acha em farmácias no Brasil que não são remédios. As duas principais redes de farmácias desse tipo são a DM e a Rossmann, que você encontra fácil em qualquer lugar.

Apotheke são as farmácias que vendem medicações. Lá que você leva sua receita. Elas têm sempre esse mesmo logo, independente da loja:

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O curioso é que não é muito fácil achar farmácias abertas a noite ou em domingos. A maioria fica aberta só até às 6, 7. Se você precisa de uma farmácia em horários não-comerciais, tem uma ou outra que fica aberta, mas não aberta, aberta. Você tem que apertar a campainha e vem alguém abrir a porta e te perguntar na porta o que você precisa, e você espera lá fora! E ainda te cobram mais caro pelo medicamento.

O resto acho que é bem parecido com no Brasil. Se a Apotheke não tem o medicamento que você precisa e tem que encomendar, normalmente chega logo no dia seguinte. Eles também sugerem medicamentos (os que não precisam de receita) se você perguntar.

Acho que é isso! Por hora é o que eu tenho a compartilhar sobre o sistema de saúde alemão.  Talvez eu escreva algum dia um post sobre hospital se eu tiver a má-sorte de precisar de algum, ou então um post sobre gravidez (que certamente dá muito papo no assunto sistema de saúde) se algum dia eu resolver engravidar.


(Publicado em 4 de Agosto de 2016)

Sistema de saúde alemão 2: médicos e consultas

No primeiro post sobre o sistema de saúde alemão eu falei sobre os tipos de seguro (público e privado), como funcionam, e quem pode ter qual tipo.

Mas talvez o mais interessante sobre o assunto seja como funcionam as consultas, médicos e hospitais.

Uma diferença grande daqui pro Brasil é que é quase impossível você marcar uma consulta diretamente com um médico especialista sem antes passar por um clínico geral. Normalmente todo mundo tem um médico clínico geral que é com quem você marca uma consulta pra qualquer assunto e esse médico – se for o caso – te encaminha para algum outro especialista. Pra várias especialidades, se você ligar pra marcar consulta sem o papel de encaminhamento de um clínico geral (Chama Überweisung) eles não te aceitam. E o clínico geral trata várias coisas sem encaminhar.

No Brasil, a gente só vai no clínico geral se não sabe de onde vem o problema. Se sabe, já marca com o especialista.

Há, claro, algumas exceções: ginecologista, por exemplo, você marca diretamente sem passar por clínico geral.

Uma outra diferença por aqui – e uma muito prática, por sinal – é que vários dos exames quem faz é o próprio médico no consultório. Por exemplo exame de sangue ou os exames ginecológicos, o próprio médico ou médica já faz a coleta no próprio consultório e envia para o laboratório para a análise. E o laboratório envia o resultado de volta diretamente para o médico ou médica. Ou seja, você nem vê o resultado antes de marcar outra consulta – o que eu acho que faz muuuuuito mais sentido. Acho meio absurdo você ter acesso ao resultado do exame sem ter o conhecimento necessário para interpretá-lo, o que em vários casos deve gerar sustos super desnecessários. E a vantagem do médico fazer a coleta ali direto é, claro, que você não precisa achar um laboratório, marcar os exames pra sei lá quando, ir fazer os exames, etcetcetc. O processo todo acaba sendo bem mais rápido.

Claro que não são todos os exames que são assim, alguns mais específicos você tem que marcar em algum lugar específico, mesmo, já que o médico não vai ter todos os instrumentos possíveis lá no consultório dele.

Para marcar uma consulta não tem nada muito especial, mas nem todos os clínicos gerais aceitam pacientes novos. Então no começo você pode precisar tentar alguns até achar um para você. Alguns aceitam mas com o tempo de espera bem maior que para quem já é paciente. E mudar de um pro outro também não é muito fácil – se você não for paciente eles te perguntam se você já tem outro médico naquela cidade e porque você quer mudar de médico.

Se você tiver um seguro público, pode ser que não seja qualquer médico que te aceite. Mas não por escolha do próprio médico: o que acontece é que no sistema público tem um número x de vagas para cada especialidade por cidade. Por exemplo, digamos que em Berlim tenha, sei lá, 2000 vagas para fisioterapeutas. Se você se formou em fisioterapia e quer abrir um consultório em Berlim, mas todas as vagas já estão ocupadas, você tem que esperar abrir uma vaga (alguém fechar um consultório, se aposentar, etc) para poder atender pacientes do sistema público, e enquanto isso só pode atender pacientes com seguros privados. Pra você como médico isso é pior porque a maioria das pessoas tem seguros públicos, então sem poder atender pelo sistema público você vai ter menos pacientes te procurando. Mas se você como paciente não conseguir marcar nenhuma consulta entre os médicos que atendem o sistema público porque todos tem um enorme tempo de espera, você pode ver com o seu seguro de eles te reembolsarem uma consulta com um médico que não atende o sistema público.

Uma coisa que também é diferente é que no Brasil normalmente os convênios não cobrem dentista – exceto os planos mais caros – nem psicólogo, psicoterapeuta, psiquiatra, etc. Aqui os seguros públicos sempre cobrem ambos, e a maioria dos privados também. Alguns seguros (privados) cobrem também o custo de óculos novos a cada x anos (normalmente dois anos) e até um valor x.

Eu queria falar também sobre hospitais, mas aí me toquei que não sei nada sobre hospitais uma vez que nunca precisei de um aqui até agora, ainda bem.

No próximo e último post sobre o sistema de saúde alemão vou falar como funcionam as receitas e farmácias por aqui!


(Publicado em 3 de Agosto de 2016)

O sistema de saúde alemão 1 – Seguros públicos e privados

Faz 4 anos que eu sei que um dia teria que criar coragem pra escrever esse post. Acho que esse dia chegou. A coragem é necessária porque esse post vai ser bem cabeludo.

O tema é complicado porque o sistema de saúde daqui tem umas regras muito loucas e em certos momentos, bem sem sentido. Dependendo das circunstâncias, pode parecer que o sistema é super simples, lógico e direto. Mas se você cai em certas categorias, as regras vão ficando mega complexas.

Aqui não existe uma saúde pública como no Brasil – em que vc vai no hospital público e pronto, ninguém vai te mandar uma conta. Todo mundo, pra ter assistência médica, tem que pagar um seguro de saúde. É obrigatório ter um seguro de saúde. Se você não tiver um seguro de saúde, é lógico que eles vão te atender e te tratar no hospital, mas aí você que vai ter que pagar a conta. Mas isso nem é uma alternativa uma vez que é obrigatório ter um seguro.

Tem dois tipos de seguros de saúde: os públicos e os privados. Os dois você que paga, embora de maneira diferente. E a complicação é na hora de saber qual tipo você pode ter. Não é simplesmente uma escolha sua.

Para ter um seguro de saúde público você tem que ser ou estudante da universidade ou estar contratado em alguma empresa. Ou, se você perder o emprego ou terminar a universidade e começar a procurar um emprego, aí você tem direito a algum dos programas sociais (bolsas estilo Bolsa Família, para quem não tem renda ou não recebe mais que tantos euros, etc) e aí vc também pode ter o seguro público. Basicamente são essas as situações em que você “entra” no sistema público (Krankenkasse). Só que se você nunca tiver tido um seguro público na Alemanha (ou na Europa) e não estiver numa dessas situações em que você tem o direito de entrar no sistema público, aí você não pode ter um seguro público. Então você tem que ter um seguro privado (Privatkrankenversicherung).

A outra opção é que se você ganhar mais de 50.000 euros você pode escolher ter um seguro privado sobre um seguro público. A lógica por trás dessa regra eu acho que é pra eles assegurarem que vai ter um tanto de pessoas pagando no sistema público pra poder ter capital para fazer o sistema funcionar. Como os seguros privados cobrem mais (e na situação de você poder comprovar renda e ser uma pessoa nova sem grandes doenças, o seguro privado pode ser mais barato), eles têm que ter um jeito de manter as pessoas no sistema público pra ter o capital. Acho que é isso.

Isso tudo é normalmente bem simples se você tiver nascido aqui. No começo da sua vida o seguro dos seus pais cobre você, e em determinado momento você vai poder entrar no sistema público – ou pq vc conseguiu um emprego, ou pq vc se inscreveu num dos programas de ajuda social, ou pq vc começou uma faculdade. Tem certas situações que vc pode escolher continuar no sistema privado (por exemplo: seus pais têm um seguro privado que te cobre até os 27 anos, vc começou a faculdade com 18 e como o seguro dos seus pais é bom e vc não paga nada, vc escolher continuar com ele até terminar a faculdade e conseguir seu próprio emprego – situação pela qual vc é então obrigado a mudar pro sistema público). Nesse caso você não pode mais ir pro sistema público como estudante, só depois que vc conseguir seu próprio emprego. Se vc sempre foi coberto pelo sistema público pq seus pais são cobertos por seguros públicos, aí tá sussa, vc continua pra sempre no sistema público de boas.

Os nós aparecem se você – o que é bem provável se você está lendo esse post sobre o sistema de saúde alemão, em português – não nasceu aqui mas veio pra cá em algum momento da vida.

Situações em que você chegando aqui já vai poder ter um seguro público (Krankenkasse):
– se você veio pra Alemanha porque conseguiu um emprego aqui
– se você veio pra Alemanha porque casou com um/a alemã/o (o seguro do cônjuge cobre você caso você seja desempregado)
– aaacho que se vc chegou aqui pra fazer uma faculdade (o curso inteiro, não intercâmbio). Acho que nessa situação vc tb tem direito ao sistema público, mas não tenho 100% de certeza.
– se vc tem direito a algum programa social (pouco provável sem ter trabalhado aqui, mas digamos, por exemplo, que vc seja refugiado. Aí vc conseguiu o status de refugiado e automaticamente começa a receber do sistema social até conseguir um emprego. Nesse caso vc vai ter o seguro público).
– se você é europeu e é segurado pelo sistema público do seu país (europeu) de origem

Situações em que você chegando aqui vai ter que procurar um seguro privado (Privatkrankenversicherung):
– se você veio com visto de turista tentar arranjar um emprego
– se você veio com visto de estudante para um intercâmbio, ou para estudar alemão
– se você têm passaporte europeu, mas nunca morou no país da sua cidadania e consequentemente nunca foi segurado pelo sistema público de algum país europeu (era o meu caso no início)

E aí é que a situação pode ficar difícil. Se você for estudante tá fácil, os seguros para estudantes são normalmente super em conta e cobrem tudo (e se você tiver bolsa, muitas vezes a bolsa já inclui um seguro). Se você tiver aqui com a intenção de procurar um emprego eu recomendo fortemente se inscrever num curso de alemão pra poder ter um seguro de estudante. (isso só vai funcionar no começo, pq os seguros de estudantes se você tiver aqui só estudando alemão tem uma validade de no máximo um ou dois anos). Sem ser estudante você tem que conseguir um seguro normal, e aí é que o negócio pode ficar complicado.

Quando eu cheguei, antes de ter um emprego, eu comecei a procurar um seguro privado, e o mais barato que encontrei, que não cobria um monte de coisa, o mais basicão de todos, custava 200 euros. Que é um belo de um dinheiro quando você está desempregado. Só que pra piorar as coisas eu não consegui esse seguro porque quando eu pedi o mesmo, a seguradora me falou que como eu não tinha como comprovar renda, eles não podiam me dar o seguro. MAS como é obrigatório ter um seguro, eles tinham então uma opção de um outro seguro para quem não consegue seguro por um motivo qualquer (por exemplo não poder comprovar renda). Esse outro seguro, que eu podia ter, custaria então 600 euros!!! Lógica supimpa essa: “não, vc não pode pagar então não vamos te dar o seguro de 200 euros. Mas se você quiser, pode ter o de 600!”…

Aí eu descobri que podia ter o seguro de estudante já que estava estudando alemão, e isso resolveu a história até eu começar um mestrado e depois conseguir um emprego.

Ok, resolvida as questões de como você pode ter um ou o outro tipo de seguro, a pergunta que você deve estar se fazendo agora é: mas quais são as vantagens ou diferenças entre os dois tipos?

No geral, os seguros privados cobrem mais coisas, mais exames, quarto individual no hospital, sei lá o quê. Então se for analisar a cobertura dos seguros, valeria mais a pena ter o privado. Só que os públicos são mais “justos”, digamos assim. O privado você paga de acordo com o risco que vc representa pra seguradora. Então enquanto você é jovem e saudável você paga pouco, mas à medida que você representar mais custos pra seguradora seu seguro vai ficando cada vez mais caro. O público você paga sempre a mesma coisa: uma porcentagem x do seu salário. Quando você é jovem e saudável, os dois seguros vão custar mais ou menos a mesma coisa – o privado pode ser inclusive um tanto mais barato – mas quando você for ficando mais velho o negócio muda.

E quais são os seguros de cada tipo, e como fazê-los?

Seguros públicos costumam ter K no nome: TK, AOK, IKK, Barmer GEK. Sei lá, tem vários. Eu vou ser sincera e dizer que eu não tenho idéia da diferença entre eles. Pra se inscrever num deles (se você tiver numa daquelas situações descritas anteriormente, nas quais você tem o direito de entrar no sistema público) foi a coisa mais fácil do mundo: eu liguei pra TK, falei “oi, eu fui contratada numa empresa e gostaria de ter um seguro com vcs.” Eles me perguntaram meus dados e pronto, fim. O pagamento é feito automaticamente através do meu salário (o salário vc recebe já com o valor do seguro, imposto de renda e “INSS” subtraídos), eu recebi então a carteirinha pelo correio, e fim. Nenhuma pergunta relacionado a saúde, só os dados básicos da minha pessoa.

Seguros privados também têm vários: Mawista, Allianz, Hanse Merkur, Continentale são alguns exemplos. Para se inscrever num deles é bem mais complicado (exceto se vc for estudante, aí normalmente é mais simples). Eles vão pedir toda uma avaliação médica completa pra poder saber seu atual estado de saúde e calcular seu risco e conseqüentemente o preço do seu seguro de acordo. Vão ter várias opções que cobrem coisas diferentes: quarto individual no hospital, exame sei lá qual, remédios sei lá quais, etcetcetc. As diferenças entre os seguros são bem grandes, normalmente as pessoas quando procuram um seguro privado procuram um consultor de seguros pra saber as opções e escolher a desejada.

No caso de você ter um seguro público, o pagamento de consultas e exames funciona que nem no Brasil: o médico manda a conta direto pro seu seguro e vc nem vê o preço nem nada. Se tiver alguma coisa que seguros públicos não cobrem, o médico vai te avisar antes de fazer aquele tratamento pra vc decidir se quer pagar por ele ou não.

Caso seu seguro seja privado, o médico/laboratório envia a conta pra você e você ou paga e é reembolsado pelo seguro, ou você envia a conta pra eles e eles pagam o médico diretamente. Mas de uma maneira ou de outra, a conta vem primeiro pra você. E aí tem um outro negócio meio complicado. Os médicos adicionam na conta um “fator”. Basicamente eles multiplicam o preço por um fator que pode ser 1.3, 1.8, 2.3, 2.8, 3.5. Acho que 3.5 é o máximo. NÃO ME PERGUNTE qual é a lógica por trás desses fatores misteriosos. Mas a questão é que o seu seguro vai cobrir determinado fator. Por exemplo, o seguro que eu tinha antes cobria no máximo fator 1.3. Que é o mínimo. Então eu tinha sempre que pedir pro médico escrever a conta com o fator 1.3. Porque se ele colocasse fator 2.3, aí eu teria que pagar a diferença.

Por exemplo. Se a consulta custou 100 euros e ele colocou fator 2.3, o total é 230 euros. Mas como o meu seguro paga só até o fator 1.3, que seria 130 euros, a diferença de 100 euros eu teria que pagar do próprio bolso. Então eu tinha que pedir pro médico colocar só o fator 1.3 na conta. Juro que não tenho a MENOR idéia de qual a lógica por trás desses fatores. É uma coisa meio “Ah, essa consulta custa 100 euros, mas tô a fim de cobrar 200, hoje, então bota aí fator 2.3”. (?????) Pro seguro público não tem isso (ou tem, mas como vc não vê a conta, é uma discussão entre o médico e o seguro da qual vc não participa).

Ok, por esse post já deu. No post seguinte eu vou explicar um pouco mais sobre como funciona ir no médico / fazer exame / ir no hospital, por aqui!

Uma observação: esse tópico de seguros é um que gera muuuuitas perguntas. Eu demorei 4 anos pra entender como funciona esse negócio todo.

Não me mande perguntas. 

“Ó, mas pq não, Laís, vc é tão antipática assim que nem se disponibiliza a responder uma perguntinha ou outra?”

Não é isso, a questão é que tudo o que eu sei sobre seguros está escrito nesse post. Qualquer outra pergunta que você possa pensar em me escrever, eu não vou saber responder porque eu não sou expert, nem trabalho com isso. Se você me perguntar algo que eu sei responder, é porque você não leu o post, e aí eu vou me chatear de você me perguntar dúvidas que estão respondidas no post. Então, de verdade, se esse post não resolveu suas dúvidas, ligue diretamente pra algum dos seguros e pergunte pra eles como funciona, porque eu não vou saber te responder, e eles é que são os experts, afinal. =)


(Publicado em 31 de Julho de 2016)