Estacionando na Alemanha

Estamos de férias e pela primeira vez passeando um pouco de carro por aí. Não temos carro – em Dresden é completamente desnecessário – mas viemos passar as férias na casa dos sogros, que estão viajando, então aproveitamos para fazer uns bate-voltas por perto.

E agora com a história de tirar a carteira de motorista e com essas viagens de carro, estou percebendo várias coisas particulares da Alemanha na sua relação com carros.

Uma dessas questões é estacionar. Em cidades grandes alemãs é quase sempre pago estacionar na rua. Funciona mais ou menos que nem Zona Azul: você para o carro, compra um ticket (Parkschein) numa das maquininhas de ticket de estacionamento que nem nas ruas de acordo com quanto tempo você vai deixar o carro lá, e deixa o ticket dentro do carro. As regras variam de local pra local e estão escritas embaixo da placa que diz que é permitido estacionar. Pode ser que aos fins de semana seja gratuito, ou então a partir das 21h, ou então só pode estacionar por 2 horas, etc. É comum também que em áreas residenciais seja permitido estacionar apenas quem mora nos quarteirões ali em volta. Os moradores têm um documento específico (uma plaquinha verde) que deixam dentro do carro, e quem estaciona sem essa plaquinha leva multa. Em algumas dessas áreas, pode ser permitido para não-moradores estacionarem durante o dia, mas aí durante a noite é só para moradores. Enfim, as regras podem ser inúmeras, e estarão escritas na plaquinha.

Mas uma coisa que é bom prestar atenção é que às vezes as plaquinhas ficam meio escondidas. No Brasil é normal que as plaquinhas relativas às regras de estacionar na rua estão sempre ali onde você estacionaria. No quarteirão seguinte, se as regras são as mesmas, a plaquinha aparece de novo. Não tem como não ver as placas.

Mas na Alemanha não é incomum que tenha só uma placa na entrada da rua que serve pra toda rua, ou mesmo uma placa na entrada daquela zona inteira (sei lá, uns 4, 5 quarteirões), que serve pra toda aquela zona. Aqui as áreas residenciais normalmente são “30 Zone”, que assim que vc entra numa dessas zonas, valem algumas regras como velocidade máxima de 30km/h. (Aliás uma informação extra apenas por curiosidade só assim-pra-quem-interessar-saber-pq-as-pessoas-gostam-de-uma-comparaçãozinha-básica-né: a velocidade máxima dentro de cidades alemãs é via de regra sempre 50km/h, exceto nessas zonas em que é 30km/h, ou ainda outras zonas mais restritas ainda, onde é 10km/h).

Aí pode ser que junto com essa plaquinha de 30 Zone apareça alguma plaquinha especificando as regras para estacionar nas ruas de toda a zona. Só nas entradas aparece a plaquinha, e aí no meio da zona você tem que saber que passou por uma plaquinha e as regras eram xyz.

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Tem alguns lugares também em que você não precisa pagar para estacionar, mas pode estacionar só por um período máximo de x horas (por exemplo 2 horas). Para o guarda saber quanto tempo você está lá, você tem que deixar no carro uma plaquinha que diz o horário de chegada. É uma plaquinha padrão (chama Parkscheibe) que você compra baratinho em qualquer posto de gasolina (ou vc pode até imprimir em casa, desde que siga o padrão de cor e dimensões definidas) e deixa no carro para usar nessas ocasiões, tem essa cara:

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Se você quiser voltar duas horas depois (ou seja lá quanto tempo for permitido estacionar no local) para remarcar o horário, você tem que tirar o carro, dar uma volta no quarteirão e estacionar de novo. A regra é que vc tem que sair do local onde o carro está estacionado pra dar a chance a outros motoristas estacionarem lá. Mas não me pergunte como que o guarda vai saber se você fez isso ou não. Interessante também é que no disco que mostra o horário, as marcações estão de meia em meia hora. A princípio não é permitido colocar o disco marcando algo no meio, tem que sempre estar marcando em um dos risquinhos, ou seja, ou às 14:00, ou 14:30, ou 15:00, ou 15:30, etc. E a regra é que você pode marcar no “risquinho” que seria o “próximo”. Pra explicar melhor só com exemplo: se você estacionar às 9:07, por exemplo, você pode marcar na plaquinha 9:30. Se você estacionar às 9:25 você também deve marcar 9:30 (óbvio que se vc chegar às 9:25 vc vai esperar até às 9:31 pra poder marcar 10:00, né? rsrsrsrs).

E quando é pago, o preço normalmente é bem salgado, principalmente em lugares mais movimentados no centro.

Estacionamentos “fechados” existem, são normalmente públicos, e costuma ter placas pela cidade apontando pros estacionamentos mais próximos que além de tudo ainda mostram quantas vagas estão disponíveis! Às vezes são só um lote com algumas vagas (Parkplatz) e uma máquina de ticket de estacionamento como as de rua, às vezes são enooormes prédios de estacionamento (Parkhaus), com vários andares, que você só entra ou sai colocando ou tirando o ticket da maquininha que nem em shopping.

E aí que vem o esquema sagaz: eles organizam os estacionamentos, preços, etc, de maneira a te desencorajar ao máximo de ir para o centro de carro. Alguns dos estacionamentos maiores têm um nome específico: P+R. E são indicados com a seguinte plaquinha:

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P+R significa Park und Reise, algo como estacione e viaje. Quando você vir uma plaquinha indicando para um estacionamento desse tipo, significa que o estacionamento está diretamente conectado com o transporte público: ou exatamente do lado de uma estação de trem ou metrô, ou logo na frente tem um ponto de ônibus onde param várias linhas para o centro, etc. E esses estacionamentos costumam ser gratuitos, às vezes por tempo ilimitado, outras vezes por um tempo definido, por exemplo 24h. A idéia é que quem mora meio fora da cidade ou nos subúrbios e trabalha no centro pode ir de carro até um desses estacionamentos e pegar de lá um metrô que te leva em 10 minutos até o centro. Em várias cidades (provavelmente em qualquer cidade de tamanho razoável) esses estacionamentos são então estrategicamente posicionados nas entradas da cidade, ou nas entradas da área central, para desencorajar as pessoas de irem de carro até o centro. Se no centro você além de sofrer pra achar vaga paga, sei lá, 2 euros por hora para estacionar e tem que tirar o carro a cada 2 horas e estacionar de novo, ou então 15 euros para estacionar o dia inteiro num dos estacionamentos públicos no centro, acaba valendo muito mais a pena você deixar o carro num desses P+Rs de graça o dia inteiro, pegar o metrô pro resto do seu percurso por um valor bem mais em conta e pronto. Funciona muito bem e é um esquema bem sagaz para diminuir o trânsito e o excesso de carros nas áreas centrais das cidades maiores.

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Um prédio residencial com um estacionamento público nos dois primeiros andares.

Pela nossa experiência passeando de carro em várias cidades nos últimos dias, estacionar no centro nunca vale a pena – é difícil de achar vaga e super caro. Quase sempre faz mais sentido deixar o carro em algum outro lugar e fazer o resto do percurso de transporte público.

(E só pra terminar: uma coisa que você não vai encontrar nunca jamais é estacionamento com manobrista. Esquece.)


(Publicado em 10 de Agosto de 2016)

O sistema de saúde alemão 3: Receitas e farmácias

Esse é o terceiro post sobre o sistema de saúde alemão. Nos dois primeiros posts eu escrevi respectivamente sobre os tipos de seguros de saúde (público ou privado) e sobre médicos e consultas.

Nesse post – o último sobre o assunto por hora – vou falar um pouco sobre como funcionam as receitas.

Na verdade eu nem sei direito como funcionam receitas para remédios no Brasil. Todas as receitas que eu recebi lá eram para remédios que não precisavam de receitas, então não tinha nada de especial, era só um papel com o nome do remédio assinado pelo médico.

Mas uma diferença já começa aí: Aqui quase tudo precisa de receita. Remédios bem genéricos como aspirina, ibuprofeno, essas coisas típicas para dores gerais não precisam de receita. Mas, por exemplo, anti-concepcional é uma coisa que não dá de jeito nenhum pra comprar sem receita. E os anti-concepcionais vêm sempre em uma caixa com 3 ou 6 meses de pílulas. Ou seja, você tem que voltar no seu ginecologista para buscar uma receita nova a cada 3 ou 6 meses. Isso é uma coisa que eu acho meio exagerada – facilita demais você ficar sem a pílula porque não percebeu que já era a última cartela e não conseguiu ir no consultório a tempo pra buscar outra receita. E o preço dos anti-concepcionais nunca é coberto pelo seguro de saúde – seja público ou privado – o que eu também acho problemático. Mas enfim.

Tem quatro tipos diferentes de receitas, as rosas, azuis, verdes e amarelas.

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A receita rosa é a mais comum. É a para remédios em geral receitados pelo médico cujo custo é coberto – parcialmente ou no total – pelo seguro de saúde do paciente. Nesse papelzinho como na imagem acima o médico imprime os dados do remédio receitado, o nome e os dados do paciente assim como o nome, dados e assinatura do médico.

Tem ainda um monte de outros números e campos que eu não tenho a menor idéia de pra que servem (¯\_(ツ)_/¯) mas são certamente muito úteis. Uma observação é que ali do ladinho tem ainda um campo para a farmácia que te vendeu o remédio em questão imprimir a identificação deles e o valor pago pelos remédios. Assim você envia a receita para seu seguro de saúde para eles reembolsarem o preço dos medicamentos. Isso no caso de vc ter um seguro privado. Se o seu seguro for público, do valor que você paga pelo remédio já é automaticamente descontado o que o seguro público cobre, e a farmácia fica com a receita para ser reembolsada pelo seguro público. Essas receitas têm uma validade que acho que varia dependendo do remédio, pode ser entre 4 semanas e 3 meses.

Receita azul

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A diferença da receita azul para a rosa é que o remédio receitado nas receitas azuis deve ser pago pelo paciente – porque os seguros não cobrem (Por exemplo receita para anti-concepcional). Essas receitas são válidas por 3 meses.

Receita verde

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As receitas verdes são para remédios que não exigem receita (mas que só podem ser vendidos por farmácias), digamos por exemplo ibuprofeno. Essa receita obviamente não tem validade.

Receita amarela

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Já a receita amarela é para medicações mais controladas, como por exemplo morfina. Essas receitas têm uma validade de 7 dias, e o são emitidas em três cópias: uma para o médico, uma para o seguro de saúde e uma para a farmácia. O valor é coberto pelo seguro de saúde, mas normalmente o paciente tem que pagar uma parte (por exemplo um mínimo de 10 euros por medicação, algo assim dependendo do seguro).

 

Ok, receitas explicas, falta ainda saber onde comprar a medicação.

Existem dois tipos de lojas aqui que poderiam ser traduzidas como farmácias: As Apotheke e os Drogeriemarkt. 

Drogeriemarkt são grandes farmácias que vendem principalmente artigos de higiene: fraldas, absorventes, cremes, shampoos, lenços, protetor solar, camisinha e também outras coisas como elástico pra cabelo, esmalte, maquiagem, etc. Basicamente tudo o que você acha em farmácias no Brasil que não são remédios. As duas principais redes de farmácias desse tipo são a DM e a Rossmann, que você encontra fácil em qualquer lugar.

Apotheke são as farmácias que vendem medicações. Lá que você leva sua receita. Elas têm sempre esse mesmo logo, independente da loja:

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O curioso é que não é muito fácil achar farmácias abertas a noite ou em domingos. A maioria fica aberta só até às 6, 7. Se você precisa de uma farmácia em horários não-comerciais, tem uma ou outra que fica aberta, mas não aberta, aberta. Você tem que apertar a campainha e vem alguém abrir a porta e te perguntar na porta o que você precisa, e você espera lá fora! E ainda te cobram mais caro pelo medicamento.

O resto acho que é bem parecido com no Brasil. Se a Apotheke não tem o medicamento que você precisa e tem que encomendar, normalmente chega logo no dia seguinte. Eles também sugerem medicamentos (os que não precisam de receita) se você perguntar.

Acho que é isso! Por hora é o que eu tenho a compartilhar sobre o sistema de saúde alemão.  Talvez eu escreva algum dia um post sobre hospital se eu tiver a má-sorte de precisar de algum, ou então um post sobre gravidez (que certamente dá muito papo no assunto sistema de saúde) se algum dia eu resolver engravidar.


(Publicado em 4 de Agosto de 2016)

Sistema de saúde alemão 2: médicos e consultas

No primeiro post sobre o sistema de saúde alemão eu falei sobre os tipos de seguro (público e privado), como funcionam, e quem pode ter qual tipo.

Mas talvez o mais interessante sobre o assunto seja como funcionam as consultas, médicos e hospitais.

Uma diferença grande daqui pro Brasil é que é quase impossível você marcar uma consulta diretamente com um médico especialista sem antes passar por um clínico geral. Normalmente todo mundo tem um médico clínico geral que é com quem você marca uma consulta pra qualquer assunto e esse médico – se for o caso – te encaminha para algum outro especialista. Pra várias especialidades, se você ligar pra marcar consulta sem o papel de encaminhamento de um clínico geral (Chama Überweisung) eles não te aceitam. E o clínico geral trata várias coisas sem encaminhar.

No Brasil, a gente só vai no clínico geral se não sabe de onde vem o problema. Se sabe, já marca com o especialista.

Há, claro, algumas exceções: ginecologista, por exemplo, você marca diretamente sem passar por clínico geral.

Uma outra diferença por aqui – e uma muito prática, por sinal – é que vários dos exames quem faz é o próprio médico no consultório. Por exemplo exame de sangue ou os exames ginecológicos, o próprio médico ou médica já faz a coleta no próprio consultório e envia para o laboratório para a análise. E o laboratório envia o resultado de volta diretamente para o médico ou médica. Ou seja, você nem vê o resultado antes de marcar outra consulta – o que eu acho que faz muuuuuito mais sentido. Acho meio absurdo você ter acesso ao resultado do exame sem ter o conhecimento necessário para interpretá-lo, o que em vários casos deve gerar sustos super desnecessários. E a vantagem do médico fazer a coleta ali direto é, claro, que você não precisa achar um laboratório, marcar os exames pra sei lá quando, ir fazer os exames, etcetcetc. O processo todo acaba sendo bem mais rápido.

Claro que não são todos os exames que são assim, alguns mais específicos você tem que marcar em algum lugar específico, mesmo, já que o médico não vai ter todos os instrumentos possíveis lá no consultório dele.

Para marcar uma consulta não tem nada muito especial, mas nem todos os clínicos gerais aceitam pacientes novos. Então no começo você pode precisar tentar alguns até achar um para você. Alguns aceitam mas com o tempo de espera bem maior que para quem já é paciente. E mudar de um pro outro também não é muito fácil – se você não for paciente eles te perguntam se você já tem outro médico naquela cidade e porque você quer mudar de médico.

Se você tiver um seguro público, pode ser que não seja qualquer médico que te aceite. Mas não por escolha do próprio médico: o que acontece é que no sistema público tem um número x de vagas para cada especialidade por cidade. Por exemplo, digamos que em Berlim tenha, sei lá, 2000 vagas para fisioterapeutas. Se você se formou em fisioterapia e quer abrir um consultório em Berlim, mas todas as vagas já estão ocupadas, você tem que esperar abrir uma vaga (alguém fechar um consultório, se aposentar, etc) para poder atender pacientes do sistema público, e enquanto isso só pode atender pacientes com seguros privados. Pra você como médico isso é pior porque a maioria das pessoas tem seguros públicos, então sem poder atender pelo sistema público você vai ter menos pacientes te procurando. Mas se você como paciente não conseguir marcar nenhuma consulta entre os médicos que atendem o sistema público porque todos tem um enorme tempo de espera, você pode ver com o seu seguro de eles te reembolsarem uma consulta com um médico que não atende o sistema público.

Uma coisa que também é diferente é que no Brasil normalmente os convênios não cobrem dentista – exceto os planos mais caros – nem psicólogo, psicoterapeuta, psiquiatra, etc. Aqui os seguros públicos sempre cobrem ambos, e a maioria dos privados também. Alguns seguros (privados) cobrem também o custo de óculos novos a cada x anos (normalmente dois anos) e até um valor x.

Eu queria falar também sobre hospitais, mas aí me toquei que não sei nada sobre hospitais uma vez que nunca precisei de um aqui até agora, ainda bem.

No próximo e último post sobre o sistema de saúde alemão vou falar como funcionam as receitas e farmácias por aqui!


(Publicado em 3 de Agosto de 2016)

O sistema de saúde alemão 1 – Seguros públicos e privados

Faz 4 anos que eu sei que um dia teria que criar coragem pra escrever esse post. Acho que esse dia chegou. A coragem é necessária porque esse post vai ser bem cabeludo.

O tema é complicado porque o sistema de saúde daqui tem umas regras muito loucas e em certos momentos, bem sem sentido. Dependendo das circunstâncias, pode parecer que o sistema é super simples, lógico e direto. Mas se você cai em certas categorias, as regras vão ficando mega complexas.

Aqui não existe uma saúde pública como no Brasil – em que vc vai no hospital público e pronto, ninguém vai te mandar uma conta. Todo mundo, pra ter assistência médica, tem que pagar um seguro de saúde. É obrigatório ter um seguro de saúde. Se você não tiver um seguro de saúde, é lógico que eles vão te atender e te tratar no hospital, mas aí você que vai ter que pagar a conta. Mas isso nem é uma alternativa uma vez que é obrigatório ter um seguro.

Tem dois tipos de seguros de saúde: os públicos e os privados. Os dois você que paga, embora de maneira diferente. E a complicação é na hora de saber qual tipo você pode ter. Não é simplesmente uma escolha sua.

Para ter um seguro de saúde público você tem que ser ou estudante da universidade ou estar contratado em alguma empresa. Ou, se você perder o emprego ou terminar a universidade e começar a procurar um emprego, aí você tem direito a algum dos programas sociais (bolsas estilo Bolsa Família, para quem não tem renda ou não recebe mais que tantos euros, etc) e aí vc também pode ter o seguro público. Basicamente são essas as situações em que você “entra” no sistema público (Krankenkasse). Só que se você nunca tiver tido um seguro público na Alemanha (ou na Europa) e não estiver numa dessas situações em que você tem o direito de entrar no sistema público, aí você não pode ter um seguro público. Então você tem que ter um seguro privado (Privatkrankenversicherung).

A outra opção é que se você ganhar mais de 50.000 euros você pode escolher ter um seguro privado sobre um seguro público. A lógica por trás dessa regra eu acho que é pra eles assegurarem que vai ter um tanto de pessoas pagando no sistema público pra poder ter capital para fazer o sistema funcionar. Como os seguros privados cobrem mais (e na situação de você poder comprovar renda e ser uma pessoa nova sem grandes doenças, o seguro privado pode ser mais barato), eles têm que ter um jeito de manter as pessoas no sistema público pra ter o capital. Acho que é isso.

Isso tudo é normalmente bem simples se você tiver nascido aqui. No começo da sua vida o seguro dos seus pais cobre você, e em determinado momento você vai poder entrar no sistema público – ou pq vc conseguiu um emprego, ou pq vc se inscreveu num dos programas de ajuda social, ou pq vc começou uma faculdade. Tem certas situações que vc pode escolher continuar no sistema privado (por exemplo: seus pais têm um seguro privado que te cobre até os 27 anos, vc começou a faculdade com 18 e como o seguro dos seus pais é bom e vc não paga nada, vc escolher continuar com ele até terminar a faculdade e conseguir seu próprio emprego – situação pela qual vc é então obrigado a mudar pro sistema público). Nesse caso você não pode mais ir pro sistema público como estudante, só depois que vc conseguir seu próprio emprego. Se vc sempre foi coberto pelo sistema público pq seus pais são cobertos por seguros públicos, aí tá sussa, vc continua pra sempre no sistema público de boas.

Os nós aparecem se você – o que é bem provável se você está lendo esse post sobre o sistema de saúde alemão, em português – não nasceu aqui mas veio pra cá em algum momento da vida.

Situações em que você chegando aqui já vai poder ter um seguro público (Krankenkasse):
– se você veio pra Alemanha porque conseguiu um emprego aqui
– se você veio pra Alemanha porque casou com um/a alemã/o (o seguro do cônjuge cobre você caso você seja desempregado)
– aaacho que se vc chegou aqui pra fazer uma faculdade (o curso inteiro, não intercâmbio). Acho que nessa situação vc tb tem direito ao sistema público, mas não tenho 100% de certeza.
– se vc tem direito a algum programa social (pouco provável sem ter trabalhado aqui, mas digamos, por exemplo, que vc seja refugiado. Aí vc conseguiu o status de refugiado e automaticamente começa a receber do sistema social até conseguir um emprego. Nesse caso vc vai ter o seguro público).
– se você é europeu e é segurado pelo sistema público do seu país (europeu) de origem

Situações em que você chegando aqui vai ter que procurar um seguro privado (Privatkrankenversicherung):
– se você veio com visto de turista tentar arranjar um emprego
– se você veio com visto de estudante para um intercâmbio, ou para estudar alemão
– se você têm passaporte europeu, mas nunca morou no país da sua cidadania e consequentemente nunca foi segurado pelo sistema público de algum país europeu (era o meu caso no início)

E aí é que a situação pode ficar difícil. Se você for estudante tá fácil, os seguros para estudantes são normalmente super em conta e cobrem tudo (e se você tiver bolsa, muitas vezes a bolsa já inclui um seguro). Se você tiver aqui com a intenção de procurar um emprego eu recomendo fortemente se inscrever num curso de alemão pra poder ter um seguro de estudante. (isso só vai funcionar no começo, pq os seguros de estudantes se você tiver aqui só estudando alemão tem uma validade de no máximo um ou dois anos). Sem ser estudante você tem que conseguir um seguro normal, e aí é que o negócio pode ficar complicado.

Quando eu cheguei, antes de ter um emprego, eu comecei a procurar um seguro privado, e o mais barato que encontrei, que não cobria um monte de coisa, o mais basicão de todos, custava 200 euros. Que é um belo de um dinheiro quando você está desempregado. Só que pra piorar as coisas eu não consegui esse seguro porque quando eu pedi o mesmo, a seguradora me falou que como eu não tinha como comprovar renda, eles não podiam me dar o seguro. MAS como é obrigatório ter um seguro, eles tinham então uma opção de um outro seguro para quem não consegue seguro por um motivo qualquer (por exemplo não poder comprovar renda). Esse outro seguro, que eu podia ter, custaria então 600 euros!!! Lógica supimpa essa: “não, vc não pode pagar então não vamos te dar o seguro de 200 euros. Mas se você quiser, pode ter o de 600!”…

Aí eu descobri que podia ter o seguro de estudante já que estava estudando alemão, e isso resolveu a história até eu começar um mestrado e depois conseguir um emprego.

Ok, resolvida as questões de como você pode ter um ou o outro tipo de seguro, a pergunta que você deve estar se fazendo agora é: mas quais são as vantagens ou diferenças entre os dois tipos?

No geral, os seguros privados cobrem mais coisas, mais exames, quarto individual no hospital, sei lá o quê. Então se for analisar a cobertura dos seguros, valeria mais a pena ter o privado. Só que os públicos são mais “justos”, digamos assim. O privado você paga de acordo com o risco que vc representa pra seguradora. Então enquanto você é jovem e saudável você paga pouco, mas à medida que você representar mais custos pra seguradora seu seguro vai ficando cada vez mais caro. O público você paga sempre a mesma coisa: uma porcentagem x do seu salário. Quando você é jovem e saudável, os dois seguros vão custar mais ou menos a mesma coisa – o privado pode ser inclusive um tanto mais barato – mas quando você for ficando mais velho o negócio muda.

E quais são os seguros de cada tipo, e como fazê-los?

Seguros públicos costumam ter K no nome: TK, AOK, IKK, Barmer GEK. Sei lá, tem vários. Eu vou ser sincera e dizer que eu não tenho idéia da diferença entre eles. Pra se inscrever num deles (se você tiver numa daquelas situações descritas anteriormente, nas quais você tem o direito de entrar no sistema público) foi a coisa mais fácil do mundo: eu liguei pra TK, falei “oi, eu fui contratada numa empresa e gostaria de ter um seguro com vcs.” Eles me perguntaram meus dados e pronto, fim. O pagamento é feito automaticamente através do meu salário (o salário vc recebe já com o valor do seguro, imposto de renda e “INSS” subtraídos), eu recebi então a carteirinha pelo correio, e fim. Nenhuma pergunta relacionado a saúde, só os dados básicos da minha pessoa.

Seguros privados também têm vários: Mawista, Allianz, Hanse Merkur, Continentale são alguns exemplos. Para se inscrever num deles é bem mais complicado (exceto se vc for estudante, aí normalmente é mais simples). Eles vão pedir toda uma avaliação médica completa pra poder saber seu atual estado de saúde e calcular seu risco e conseqüentemente o preço do seu seguro de acordo. Vão ter várias opções que cobrem coisas diferentes: quarto individual no hospital, exame sei lá qual, remédios sei lá quais, etcetcetc. As diferenças entre os seguros são bem grandes, normalmente as pessoas quando procuram um seguro privado procuram um consultor de seguros pra saber as opções e escolher a desejada.

No caso de você ter um seguro público, o pagamento de consultas e exames funciona que nem no Brasil: o médico manda a conta direto pro seu seguro e vc nem vê o preço nem nada. Se tiver alguma coisa que seguros públicos não cobrem, o médico vai te avisar antes de fazer aquele tratamento pra vc decidir se quer pagar por ele ou não.

Caso seu seguro seja privado, o médico/laboratório envia a conta pra você e você ou paga e é reembolsado pelo seguro, ou você envia a conta pra eles e eles pagam o médico diretamente. Mas de uma maneira ou de outra, a conta vem primeiro pra você. E aí tem um outro negócio meio complicado. Os médicos adicionam na conta um “fator”. Basicamente eles multiplicam o preço por um fator que pode ser 1.3, 1.8, 2.3, 2.8, 3.5. Acho que 3.5 é o máximo. NÃO ME PERGUNTE qual é a lógica por trás desses fatores misteriosos. Mas a questão é que o seu seguro vai cobrir determinado fator. Por exemplo, o seguro que eu tinha antes cobria no máximo fator 1.3. Que é o mínimo. Então eu tinha sempre que pedir pro médico escrever a conta com o fator 1.3. Porque se ele colocasse fator 2.3, aí eu teria que pagar a diferença.

Por exemplo. Se a consulta custou 100 euros e ele colocou fator 2.3, o total é 230 euros. Mas como o meu seguro paga só até o fator 1.3, que seria 130 euros, a diferença de 100 euros eu teria que pagar do próprio bolso. Então eu tinha que pedir pro médico colocar só o fator 1.3 na conta. Juro que não tenho a MENOR idéia de qual a lógica por trás desses fatores. É uma coisa meio “Ah, essa consulta custa 100 euros, mas tô a fim de cobrar 200, hoje, então bota aí fator 2.3”. (?????) Pro seguro público não tem isso (ou tem, mas como vc não vê a conta, é uma discussão entre o médico e o seguro da qual vc não participa).

Ok, por esse post já deu. No post seguinte eu vou explicar um pouco mais sobre como funciona ir no médico / fazer exame / ir no hospital, por aqui!

Uma observação: esse tópico de seguros é um que gera muuuuitas perguntas. Eu demorei 4 anos pra entender como funciona esse negócio todo.

Não me mande perguntas. 

“Ó, mas pq não, Laís, vc é tão antipática assim que nem se disponibiliza a responder uma perguntinha ou outra?”

Não é isso, a questão é que tudo o que eu sei sobre seguros está escrito nesse post. Qualquer outra pergunta que você possa pensar em me escrever, eu não vou saber responder porque eu não sou expert, nem trabalho com isso. Se você me perguntar algo que eu sei responder, é porque você não leu o post, e aí eu vou me chatear de você me perguntar dúvidas que estão respondidas no post. Então, de verdade, se esse post não resolveu suas dúvidas, ligue diretamente pra algum dos seguros e pergunte pra eles como funciona, porque eu não vou saber te responder, e eles é que são os experts, afinal. =)


(Publicado em 31 de Julho de 2016)

 

Coisas que eu aprendi na Alemanha

Semana passada completei 4 anos de Alemanha. Acho que estou ficando velha, porque embora pareça que eu me mudei pra cá faz tempo, quando eu digo “4 anos” não parece muito tempo.

Mas com certeza esses 4 anos foram bem marcantes na minha vida em vários aspectos.

Coincidentemente, encontrei num canto um papel em que eu tinha escrito, há alguns meses atrás, uma lista de coisas q eu aprendi desde que mudei pra cá. Achei que caberia muito bem um post sobre isso bem nessa data importante.

Você provavelmente está achando que eu vou escrever sobre como eu, sei lá, aprendi a ficar do lado direito da escada rolante ou dar preferência pra pedestres ou sei lá o quê que as pessoas acham que se aprende quando se mora na Europa.

Mas não é nada disso. Acho que esse post poderia ser escrito por qualquer pessoa que se mudou pra outro país em que se fala outra língua. (Quase. Alguns itens são, mesmo, relacionados à Alemanha).

Vejamos, vejamos…

1. A responder “sim” ou “não” de acordo com o que a pessoa espera ouvir como resposta

Isso, lógico, da época que eu ainda não entendia alemão muito bem. Fiquei craque em reconhecer se uma pessoa desconhecida me perguntando alguma coisa espera ouvir “sim” ou “não” como resposta. Tive várias conversas com desconhecidos em que a pessoa me perguntou algo, eu respondi o que ele esperava ouvir, e ele foi embora satisfeito e eu fiquei pra sempre sem saber o que ele tinha perguntado.

Os exemplos são bem mais bobos do que você está provavelmente imaginando. São coisas como, vc encontra seu vizinho na escada e ele te pergunta alguma coisa. Pode ter sido algo como:

“Não foi você que esqueceu a porta aberta hoje de manhã, não, foi?”
“Não, não.”
“Ah, então tá. Que não pode deixar aberta, mas tem alguém que sempre esquece.”

ou então o mesmo vizinho talvez esteja saindo com o carro e te viu indo pegar sua bicicleta, pergunte:

“Você tá de saída, né?”
“Sim, sim!”
“Ah, vc fecha a porta pra mim, então, por favor?”
“Sim, sim!”
“Obrigado!”

Juro, tive vários diálogos desse gênero que eu até hoje não sei com o que eu concordei ou o que eu neguei. Mas as pessoas pareceram satisfeitas, e eu evitei a chateação embaraçosa de explicar que não entendi o que ele estava falando, e às vezes é só isso que importa.

2. A ler expressões faciais, coisas faladas nas entrelinhas e linguagem corporal.

Todo mundo gosta de acreditar que é muito bom nisso, de saber o que o outro está pensando. Não é verdade, a maioria das pessoas é bem ruim disso. Para não cometer o mesmo erro, não vou dizer que fiquei muito boa nisso, vou apenas dizer que eu era beeeem pior em ler sutilezas de expressões faciais, linguagem corporal e coisas assim e que melhorei pra caramba essa habilidade depois que vim pra cá. Eu não tinha idéia que eu era relativamente ruim em ler essas coisas até melhorar muito essa habilidade. O motivo, óbvio, era que por um bom tempo esses eram os únicos instrumentos que eu tinha pra me comunicar. Ou melhor, pra entender a outra pessoa.

Quando você não fala bem a língua e tem que se expressar e compreender pessoas se expressando nela constantemente, é inevitável que você melhore muito sua habilidade e compreender outros aspectos da comunicação além das palavras que estão sendo ditas. Isso, lógico, se relaciona super com o item anterior, o de saber o que a pessoa espera como resposta mesmo sem ter ideia de qual foi a pergunta. O fato é que, quando vc entende as palavras, vc acaba ignorando muitos outros aspectos da comunicação pq o significado das palavras têm prioridade no seu entendimento do que está sendo dito. Quando vc perde esse aspecto, vc tem que melhorar nos outros. É que nem aquilo de cegos serem muito bons de reconhecer sons e cheiros. Quando vc perde o sentido principal, os outros ganham uma importância tremendamente maior.

De novo, não quero cometer o erro de dizer que sou muito boa nisso – já que quase todo mundo acha que é. Não sei o quão boa eu sou nisso, só sei que sou muito melhor que antes de vir pra cá.

3. Respeitar pessoas diferentes

Isso com certeza não foram os alemães que me ensinaram, vale observar. Mas desde que eu vim pra cá eu passei a ter muito mais contato com pessoas de culturas e origens muito diferentes da minha. Fiz amigos muçulmanos, hindus, budistas. Não é que eu fiquei necessariamente mais tolerante que antes – eu sempre tentei ser tolerante. Mas a convivência diária realmente é o que te mostra que as pessoas no final das contas são todas muito parecidas, e o que muda é só o contexto e o passado delas, e ninguém simplesmente nasce mau ou bom. A convivência diária também faz com que você trate fatores que antes eram coisas inimagináveis e impensáveis pra você como normais e sem importância. Por exemplo, os hijabs, aquele pano que as mulheres muçulmanas usam para cobrir os cabelo. É uma coisa que antes de vir pra cá – por mais que eu me esforçasse em não julgar – eu via como necessariamente uma imposição, uma opressão, uma coisa que certamente qualquer moça independente dona de si imediatamente desistiria de usar na primeira oportunidade. Depois de fazer amizade com uma palestina muito querida, e conviver diariamente com alguém que em muitos sentidos é parecida comigo mas vem apenas de uma cultura diferente, o fato de ela usar ou não um pano na cabeça me parece a coisa mais sem importância possível. Porque isso me incomodava tanto, antes? Se a menina quer usar um pano na cabeça, usa, ué. Ela tava morando sozinha na Alemanha, fazendo um mestrado, a família na Palestina, quase nenhum muçulmano por perto, se ela continuou usando o hijab é porque ela quer, ué. Achar que a mulher não tem capacidade de crítica e de decisão também é machismo, ora.

Enfim. Essas coisas que quando estão totalmente fora da sua realidade parecem totalmente sem sentido, mas quando estão lá na sua cara de repente viram uma coisa boba.

Pra ser justa, acho que eu teria aprendido isso se tivesse ficado no Brasil também, uma vez que a quantidade de imigrantes lá – pelo menos em São Paulo da última vez q estive lá – aumentou pra caramba nos últimos anos! (Acho isso ótimo.)

4. Quem no Brasil realmente se importa comigo – e com quem no Brasil eu realmente me importo

Essa é clássica pra quem vai morar fora, mesmo que por um tempo relativamente curto. Eu já tinha percebido quando passei um ano na Itália fazendo intercâmbio. Quando você está fora, todo e qualquer contato com seus amigos só acontece se existe um esforço por trás. Lógico que dar um like ou outro no facebook não exige esforço. Mas contato, mesmo, contar da sua vida e querer saber da vida do outro e ele se interessar em saber da sua, isso exige um esforço extra. E o fato é que as pessoas só fazem esse esforço quando é com alguém que realmente importa.

Depois de 4 anos, eu sei exatamente quem no Brasil realmente se importa comigo – com sinceridade, porque gosta de mim, não porque está simplesmente curioso de saber como é viver na Alemanha ou, pior, que está curioso de saber como está a sua vida apenas porque está torcendo loucamente pra dar tudo errado, por inveja. (tem desses, também). E eu imagino que para os meus amigos de lá também (espero) tenha ficado bem claro o quanto eu me importo de fato, com sinceridade, com eles, e o quanto eu quero saber que eles estão bem e estão felizes. Depois de um tempo fora é inevitável, vc sabe exatamente quem são de fato seus amigos.

E mesmo a quantidade de comunicação com cada amigo é diferente. Tem uns que não são tão ligados nas internets quanto eu, e que portanto eu tenho menos contato. Mas não necessariamente isso significa que eles não se interessam ou não se importam, e mesmo com esses fica claro.

Priiiincipalmente quando você volta. Quando você vai viajar rapidinho e tem pouco tempo pra ver todo mundo. Aí fica óbvio pra TODO MUNDO (pra vc e pra eles) quem realmente importa pra quem, porque:
a) você não tem tempo pra ver todo mundo, então vc acaba limitando só aos realmente muito importantes, e sempre tem alguns que vc deixa pra trás que gostariam de ter sido lembrados

b) tem outros que você sugere encontrar e vc percebe que a pessoa fez zero esforço pra te ver naquelas semanas que vc passou lá, mesmo você tendo insistido.

(Lógico que eu estou falando aqui de amigos mais próximos. Tem vários amigos que são queridos, que eu gosto de saber que estão bem e estão felizes, mas não são necessariamente próximos o suficiente para eu marcar alguma coisa quando volto pro Brasil.)

5. Manter contato intercontinental

Bem relacionado ao item anterior. Mas uma coisa que você percebe quando está longe é que o contato físico é importante e que só emails e conversas no facebook não bastam para matar a saudade de alguém. O que isso significa é que receber cartas ou pacotes pelo correio têm um significado gigante quando você está fora. E embora seja pouco freqüente eu receber coisas pelo correio do Brasil, eu tento sempre enviar alguma coisa para os amigos mais próximos (às vezes alternando que o dinheiro não nasce em árvore, né). Principalmente no Natal eu tento sempre enviar alguma coisa. Às vezes você vê algo que te lembra muito alguém e aproveita pra mandar pro correio – sem nenhum motivo especial – e a pessoa fica profundamente contente de receber um presente inesperado seu vindo direto da Alemanha. Acho que essas coisinhas super ajudam a manter o contato com as pessoas de lá.

6. O preço de morar fora

Morar fora tem um preço que a gente não tem idéia de quão alto é até ter que pagar. Lógico que não estou falando de dinheiro. Tem coisas que não são segredo, que você sabe que vão ser assim e você sabe que vão ser difíceis. Mas essa dificuldade é muito vaga na sua cabeça antes de você passar por ela pra vc ter idéia dela de fato e ter noção de se o preço vale a pena. Isso você só descobre quando já está longe.

No final do ano passado minha avó materna faleceu, e estar longe naquele momento foi bem mais difícil do que eu imaginaria que fosse ser. Eu sabia que seria difícil perder uma avó querida, sabia que quando isso acontecesse eu provavelmente não teria como pular correndo num avião para chegar a tempo do enterro. Sabia dessa coisas. Mas não tinha ideia de como elas seriam difíceis de lidar. Minha avó se importava muito comigo e isso sempre ficou muito óbvio. Quando acontecia algum acidente em que a vítima era alguém da mesma idade e gênero de algum dos netos dela, ela imediatamente ficava toda preocupada que pudesse ser o neto em questão. Caiu um avião na Alemanha – “Ai, meu Deus, a Laís não estava nesse avião, não, né? Melhor ligar pra ter certeza!”. Na última vez que eu visitei ela, ela disse que se ela morresse (ela já estava bem mal) ela viria pra Alemanha me visitar. “Mas como você vai saber onde eu moro, vó?” “Ah, espírito sempre acha!”.

Quando ela faleceu eu não estava lá para me despedir, nem dela viva nem na hora do enterro. E o pior, todas as pessoas que estavam passando pelo mesmo que eu, que também estavam sofrendo com a morte dela, todas estavam longe. Eu percebi como o enterro/velório é mais que uma oportunidade pra se despedir da pessoa, mas é também uma oportunidade pra você encontrar e abraçar as pessoas que estão sofrendo com essa perda como você. Não ter tido essa oportunidade é algo que eu nunca teria imaginado que me chatearia tanto. É um dos preços a pagar por escolher morar longe.

Nessa semana nasceu minha primeira sobrinha, filha do meu irmão, e eu já estou planejando de ir visitá-los em Janeiro, mas é super decepcionante não poder ir lá no hospital logo depois do nascimento. E principalmente de saber que você não vai poder assistir a criança crescer e ter a oportunidade criar um vínculo forte com ela que você como tia gostaria de ter, de ir passear com a sobrinha uma vez por mês ou coisa do tipo, estar em todos os aniversários e momentos importantes, etc.

(Mas em minha defesa, se eu tivesse ficado no Brasil seria igual uma vez que meu irmão também mora fora)

7. A parar de achar que tudo aqui é melhor

É lógico que tem muitas coisas aqui que são bem melhores. Mas é uma ingenuidade imensa achar que TUDO aqui é MUITO melhor que no Brasil. Tem coisas melhores e coisas piores. Tudo depende do que é mais importante pra você. E a questão é que as coisas piores você só vai descobrir que são piores quando você estiver morando aqui de fato.

8. A não discutir problemas do Brasil com europeus

Outra coisa que eu parei completamente é de criticar o Brasil para europeus. Sério, se tem uma coisa que eles não precisam é mais motivo pra se acharem melhores que o resto do mundo. Eu deixo as críticas para discutir entre outras pessoas que também são de fora.

9. A ser direta, a me comunicar, a dizer o que eu quero.

Isso sim é uma coisa bem relacionada à Alemanha. Como já discuti em outros posts, os alemães são bem diretos, não fazem grandes cerimônias para responderem “sim” ou “não” de acordo com o que querem ou não querem. Isso é algo que eu incorporei e acho muito mais prático do que o nosso
“Você quer alguma coisa pra comer?”
“Não, não, tô bem, obrigada!” *morrendo de fome*
“Mas tem certeza?”
“Magina, não precisa se incomodar!” *morrendo de fome*
“Mas magina, não é incômodo nenhum, pega aqui um pedaço dessa torta que eu fiz ontem!”
“Não, magina, deixa aí pra vc comer mais tarde!” *morrendo de fome*
“Quê isso, eu não vou agüentar essa torta inteira, pega um pedaço!”
“Ah, mesmo, mas você não vai querer, depois?” *morrendo de fome*
“Não, pega, ó, vou cortar aqui um pedaço pra você!”
“Ah, tá, brigada então!”

10. A procurar amigos

Eu nunca tive nenhuma dificuldade super gigante em fazer amizades, mas também nunca fui mega sociável daquelas pessoas que conversa com qualquer um com a maior facilidade. Eu já escrevi um post sobre como fazer amizade com alemães no qual eu expliquei já na primeira linha que eu não sei como se faz amizade com alemães. Embora o post eu tenha escrito há dois anos atrás, a resposta para essa pergunta continua em aberto. Se alguém souber me avisa.

A verdade é que os alemães são bem diferentes nesse quesito, e o processo de fazer uma nova amizade aqui é uma coisa diametralmente oposta ao que a gente está acostumado no Brasil.

Nesses 4 anos o que eu percebi é que de longe o mais fácil é fazer amizade com americanos (do continente inteiro, não só dos Estados Unidos. Mas também dos Estados Unidos) ou com alemães que já moraram no continente americano. Na verdade foi bem surpreendente pra mim perceber o quão parecido a gente é com os americanos (agora falando dos dos Estados Unidos, mesmo) em vários sentidos e o quanto isso ajuda pra caramba a fazer amizade com eles. No momento meus amigos principais são ou americanos (EUA) ou sul-americanos, e uns poucos alemães americanizados (no continente, não necessariamente nos EUA).

Mas na verdade não era disso que eu queria falar, mas sim sobre como fazer amizades aqui. Ou melhor, como eu descobri como procurar amigos aqui.

Pra mim a solução apareceu só no ano passado. Existe um grupo de facebook especificamente para mulheres internacionais em Dresden, e foi lá que eu finalmente comecei a fazer umas amizades mais efetivas. Até então eu tinha alguns amigos, mas ninguém que fosse de fato muito próximo. Através desse grupo eu comecei a participar de coisas como clube de leitura, trabalho voluntário com refugiados, e outros eventinhos onde conheci pessoas muito legais e muito fáceis de conversar. Isso faz um ano. Ou seja, demorou 3 anos para eu realmente começar a fazer amizades aqui de fato, de pessoas q eu tenho certeza que mesmo que se eu voltasse pro Brasil ou elas para seus países, continuaríamos em contato.

Mas isso é completamente diferente dependendo das circunstâncias. Acho que a maioria dos brasileiros é bem mais sociável que eu e faz amizades com mais facilidade que eu. E quem vem pra cá estudar tb tem essa facilidade extra de fazer amizade com os colegas de classe. (Eu fiz um mestrado aqui mas era um grupo bem pequeno e acabou não rolando nenhuma amizade forte no grupo).

Outra coisa que ajudou PRA CARAMBA fazer amizade aqui: ir atrás de pessoas que pudessem cuidar dos meus gatos quando a gente viaja. A minha melhor amiga daqui é uma americana que eu conheci quando ela postou naquele grupo de mulheres internacionais perguntando se alguém podia cuidar do gato dela ou dos dois cachorros por um fim de semana. Aí nós montamos um grupinho de donos de bichos pra ter quem pedir ajuda pra cuidar dos bichos durante viagens, e através desse grupinho conheci mais um monte de gente legal.

 

É isso! Eis aqui uns posts relacionados:

10 costumes alemães que eu incorporei
10 costumes alemães que eu não incorporei
5 coisas do Brasil e da Alemanha que eu sinto/sentiria falta


(Publicado em 30 de Julho de 2016)

Mahlzeit! – Hora do rango!

Uma coisa bem peculiar de se trabalhar na Alemanha é esse misterioso “cumprimento” de hora do almoço. Mahlzeit!

É uma coisa que eu só ouço em ambiente de trabalho. É tipo um bom apetite, mas não exatamente.

Mahlzeit significa “hora da comida”. Vou carinhosamente traduzir para “Hora do rango!”. E o contexto em que é usado é, basicamente, se você vir alguém almoçando no escritório, vc fala “Hora do rango!”. Se você também estiver indo comer, a pessoa vai responder com “Hora do rango!”. Se você já tiver almoçado, a pessoa vai responder “obrigada!”.

Sim, é ridículo. É meio difícil de compreender, demorou um bom tempo pra eu descobrir como que era pra responder alguém que olhava pra minha marmita e dizia “Hora do rango!” todos os dias. Na primeira vez eu respondi com “oi”. Não fez sentido.

Também serve se vc tá voltando do almoço e no caminho cruza com um colega de trabalho. “Hora do rango!” você diz. “Obrigado!”, ele responde.

Parece uma coisa absurda, uma piada interna entre alguns colegas… mas não é! Aqui em qualquer escritório as pessoas trocam esse “cumprimento” na hora do almoço. Se a gente tá almoçando no escritório e alguém entra na cozinha, invariavelmente a pessoa diz “Mahlzeit!”. Hora do rango. Tá, eu sei que é hora do rango, gente. Não precisava avisar, eu já tava comendo, sabe.

Aviso que talvez isso não se aplique à Alemanha inteira. Aqui em Dresden é assim, e já ouvi pessoas falando que tem isso em Berlim, também, mas meu namorado que é de Colônia não conhecia essa Hora do Rango até vir pra cá.

Mas bom. Agora você já está avisado. Se alguém te disser “Mahlzeit!” você responde com obrigado, ou igualmente com “Mahlzeit!” se a pessoa também estiver indo comer.


(Publicado em 1˚ de Julho de 2016)

Dirigindo na Alemanha 2 – Prova teórica

Hoje finalmente fiz a prova teórica para tirar a habilitação alemã – e passei!

Esse post é a parte 2/3 sobre como validar sua habilitação na Alemanha. Na parte 1 eu expliquei a parte burocrática, nessa parte vou falar sobre a prova teórica, e na parte 3, sobre a prova prática (daqui há umas 2 semanas, tomara!)

Retomando a história. Se você seguiu os 7 passos descritos no primeiro post, você entregou seus documentos na Führerscheinstelle e agora está esperando a carta que diz que você pode se inscrever para a prova teórica. Chegando a carta (pra mim demorou QUATRO MESES pra chegar!), os próximos passos são…

Passo 8: Ir até sua auto-escola pra marcar o teste teórico • 30€ • quase imediatamente • theoretische Prüfung
Quando eu fui na Autoescola marcar a prova, escolhi fazê-la dali a duas semanas, pra dar mais um tempinho de ter certeza que eu sabia o que tinha que saber pra prova. Mas tem vários horários pra prova e dá pra marcar – pelo menos aqui em Dresden – quase que pro dia seguinte. Eu imagino que em cidades maiores demore mais pra marcar, não sei. Daí pra auto-escola você tem que pagar 30 euros, só pra eles marcarem a prova pra você. Só isso, eles entram num sistema online qualquer, marcam o horário pra prova, e te cobram 30 euros por isso. E é um valor fixo, então em qualquer auto-escola vai ser assim.

Passo 9: Estudar pra prova • 0€ – 60€
Bom, o preço que você vai pagar pra estudar depende do material que você escolher usar. Você pode comprar o material de estudo que te oferecem nas Auto-escolas (Livro + DVD + código pra usar um portal online) por 55 euros (ou mais, pelo que eu tinha visto pra comprar o livro em outra língua que não alemão era mais caro), ou você pode comprar apps ou pagar uma inscrição em algum site, tem várias opções. Eu escolhi a opção mais barata: baixei um app de graça que é super bom e eu super recomendo, chama iTheorie. O único problema do app é que só tem a opção de estudar em alemão. Então se você escolheu fazer a prova em outra língua (no primeiro post eu expliquei quando que você escolhe a língua da prova e quais as opções), pode ser meio contra-produtivo estudar em alemão e fazer a prova em português ou inglês.

Vou dar mais detalhes de como eu estudei e como é a prova mais pra frente no post.

Passo 10: Ir buscar sua habilitação brasileira na Führerscheinstelle • 0 • assim que você receber a carta
Você vai precisar apresentar sua habilitação brasileira na hora de fazer a prova teórica, então não se esqueça de ir buscá-la quando vc receber a carta dizendo que você já pode se inscrever pra prova!

Passo 11: Ir até a Dekra no dia e horário marcado pra fazer a prova • 20,83 • resultado sai imediatamente
A prova custa 20,83 euros, você pode ou fazer uma transferência do dinheiro pra Dekra e levar o comprovante pra prova, ou trazer o dinheiro e pagar na hora. No segundo caso você tem que trazer o dinheiro EXATO, vinte euros e oitenta e três centavos. Os documentos que você precisa levar pra prova:
I –  O seu passaporte ou documento de identidade (no caso o documento de residência da Alemanha, ou documento de identidade europeu se for o caso). Quando você entrega os documentos na Führerscheinstelle eles colocam o número do documento que você tem que trazer pra prova, traga esse.
II – A sua habilitação brasileira
III – O dinheiro ou comprovante de pagamento
IV – O seu Bewerbernummer (número de inscrição), que a sua auto-escola terá te passado na hora que você marcou a prova.

Você faz a prova num iPad e o resultado sai imediatamente! Se você passar, no dia seguinte já pode ligar pra sua auto-escola pra marcar a prova prática!

Até agora você terá gasto, ao todo (incluido os passos do primeiro post e os desse post), por volta de 290€ (se você tiver pago pelo material de estudo) ou 240€ se você tiver emprestado o livro de alguém ou estudado por algum app gratuito, etc.

Mas agora vamos à parte que interessa: como é a prova, o que vc precisa saber, como são as questões, etc!

Primeiro deixa eu avisar que: a prova teórica daqui é beeeeeem mais difícil que a do Brasil, nem se compara! Então leva essa prova a sério e se prepara mesmo, que se você não passar terá que pagar as taxas de novo pra marcar outra!

É o seguinte: existe um catálogo oficial de questões da prova, a partir do qual 30 questões são escolhidas aleatoriamente. Esse catálogo tem, ao todo, 1.047 questões. Sim, você leu certo, mil e quarenta e sete perguntas. Sua prova conterá 30 dessas mil e poucas questões. A escolha é mais ou menos aleatória pq as questões são divididas em algumas categorias diferentes: direção defensiva, sinalização de tráfego, mecânica, meio ambiente, conduta no tráfego, regras burocráticas e prioridade. E aí na prova tem sempre, por exemplo, 10 perguntas sobre direção defensiva, 2 perguntas sobre meio-ambiente, etc.

Cada pergunta tem um peso diferente, variando de 2 a 5 pontos. Os pontos contam “ao contrário”, quer dizer: a regra pra passar é que você só pode errar um máximo de 10 pontos. Isso significa, por exemplo, que vc pode errar ou  uma pergunta de 5 pontos e uma de 4, ou 3 perguntas de 3 pontos, ou 5 perguntas de 2 pontos, ou 1 pergunta de 5 pontos e três de 2 pontos, etc. Somando no máximo 10. Se passar de 10, você reprova. A grande maior parte das perguntas tem 4 e 5 pontos, então normalmente com 3 questões erradas você já reprova. (Detalhe: se você errar duas perguntas de 5 pontos, vc reprova tb, mesmo podendo errar até 10 pontos. É um exceção.)

Quanto ao formato das perguntas: a maioria é de múltipla escolha, só que é um pouco diferente. Tem normalmente 3 alternativas, e podem estar corretas uma, duas ou três alternativas! Então pra maioria das questões não rola descobrir a alternativa certa por exclusão, você realmente tem que saber pra todas as alternativas se aquela é certa ou errada!

Algumas perguntas não tem alternativas, mas a resposta é só um número, por exemplo: Se você estiver dirigindo com uma velocidade de 100km/h, qual é a sua distância de freagem (Bremsweg)?
Aí você tem que calcular com uma fórmula ({velocidade em km/h}/10 x {velocidade em km/h}/10 = {distância de freagem em m},  no caso, 100m)  e digitar só o número 100.

Algumas perguntas têm ou uma imagem ou um vídeo. As com vídeo, na prova você vai poder assistir o vídeo no máximo 5 vezes e você só pode ver a pergunta depois de assistir o vídeo. Depois que você ler a pergunta, não dá mais pra assistir o vídeo, então você tem que tomar cuidado de observar todos os detalhes do vídeo, principalmente pedestres, ciclistas, motociclistas ou carros que bem na hora que o vídeo termina entram no ponto cego do espelho do carro, tem várias questões que se vc não tiver prestando atenção no espelho você não vai saber a resposta. Os vídeos são super detalhados e bem feitos! No seu material de estudo (por exemplo esse app que eu comentei, o iTheorie) você vai ver exatamente os vídeos e imagens que podem aparecer na sua prova.

Pra terminar, vou colocar aqui uns exemplos de perguntas que podem aparecer na prova. Vou colocar duas de cada categoria, pra dar uma idéia geral de como são as perguntas. Os prints são do app iTheorie e a tradução é minha. Se você for fazer a prova em português, não confie que a minha tradução vai ser igual à da prova, que a prova é em português de Portugal e eu tb não sei os vocabulários específicos em português já que estudei em alemão e fiz a prova em inglês.

Exemplos de perguntas!

Categoria: Direção defensiva (Gefahrenlehre)

Pergunta à esquerda: Ao que você deve atentar neste momento?

Resposta: > À bicicleta
                    > Ao carro à sua frente

Essa é uma das perguntas com vídeo. Não dá pra eu postar o vídeo aqui, mas nele você veria que poucos segundos antes dessa imagem (que é como termina o vídeo) um ciclista vindo à sua direita entra no ponto cego do seu espelho direito. Também não dá pra ver na imagem, mas você está com a seta para a direita ligada, ou seja, você quer virar à direita, assim como o carro à sua frente. Então nesse momento você tem que prestar atenção ao carro à sua frente, que pode frear de repente se aparecer um pedestre ou coisa assim, e ao ciclista que está no seu ponto cego, que pode seguir em frente.

Pergunta à direita: Você quer ultrapassar. O que você tem que ter em mente?

Resposta: > Que o ciclista diretamente à minha frente pare de repente.
                    > Que o ciclista mais distante vire à esquerda

Na imagem você vê o que o ciclista diretamente à sua frente está acenando para os pedestres – então talvez ele pare para conversar com os mesmos. E pela posição do ciclista mais distante, dá pra ver que ele está virando à esquerda, como quem vai desviar de algum obstáculo. Então você tem que ter em mente, se for ultrapassar esses ciclistas, que o outro ciclista pode virar à esquerda e que o ciclista à sua frente pode frear de repente.

Váááááárias questões envolvem ciclistas, várias mesmo. Se você passar nessa prova, você definitivamente aprendeu a considerar ciclistas participantes normais do trânsito, que devem ser respeitados, e não alguém que está ocupando o espaço destinado tão somente ao seu divino e imaculável carro.

Categoria: Conduta no tráfego (Verkehrsverhalten)

iTheorie

Pergunta à esquerda: Você está dirigindo a 100km/h e tem um tempo de reação (Reaktionszeit) de 1 segundo e uma freagem normal. O quão longa é a distância de paragem (Anhalteweg) de acordo com a fórmula da regra prática?

Resposta: 130m 

Aqui é o seguinte. Tem essas fórmulas práticas (Faustformel) pra calcular distância de freagem (Bremsweg), distância de reação (Reaktionsweg) e distância de paragem (Anhalteweg). A distância de paragem (quantos metros vc precisa pra parar o carro) é a distância de freagem (quantos metros vc precisa pra frear) e a distância de reação (quantos metros você anda no tempo que vc demora pra reagir quando precisa frear (normalmente é 1 segundo). As fórmulas são:

Distância de freagem (Bremsweg) em m = {velocidade em km/h}/10 x {velocidade em km/h}/10

Distância de reação (Reaktionsweg) = 3 x {velocidade em km/h}/10 x {tempo de reação em s}

E a distância de paragem (Anhalteweg) a soma dos dois. Então nesse caso temos

Bremsweg: 100/10 x 100/10 = 10 x 10 = 100 m
Reaktionsweg: 3 x 100/10 x 1 = 3 x 10 = 30 m
Anhalteweg: 30 + 100 = 130 m

Pergunta à direita: A que distância você deve parar da “cruz de Andreas” (Andreaskreuz)  fora de cidades?

Resposta: 50m

Mais umas explicações: essa cruz de Andreas é uma placa em formato de X com pontas vermelhas, que é o que indica que a rua cruza um trilho de trem. Assim:

Zeichen_201

Essa placa indica onde você deve parar se o cruzamento estiver fechado porque um trem vai passar. Dentro de cidades você deve parar a 5m de distância dessa placa, e fora de cidades, a 50m.

Outras distâncias boas de saber que são perguntadas na prova: você só pode parar ou estacionar há 5m de distância de uma faixa de pedestres (5m antes da faixa, depois da faixa não tem distância mínima) e você só pode estacionar há 15m de distância de uma placa de ponto de ônibus.

Categoria: Prioridade (Vorfahrt/Vorrang)

A questão de quem tem ou deve dar a prioriade a quem é aqui SUPER diferente de no Brasil. Vou dar uma explicação rápida antes das perguntas. Basicamente é o seguinte: quando um cruzamento não tem nenhum sinal especificando se a prioridade é sua ou não, você deve seguir a regra “direita antes da esquerda”. Significa que carros/bicicletas/motos vindos pela rua à sua direita têm prioridade sobre você, e você tem prioridade sobre carros/bicicletas/motos vindos pela rua à sua esquerda. Quanto a carros/bicicletas/motos vindo na direção contrária à sua: se vocês estão entrando na mesma rua, tem prioridade àquele que está virando à direita e não á esquerda. Se ambos estão virando à esquerda, devem fazer a curva na frente um do outro. Ambos virando à direita ou indo em frente não se influenciam.

É importante prestar atenção no seguinte: não importa se uma rua é asfaltada e a outra é em paralelepípedo, ou se uma rua é maior e a outra é menor, isso não dá nenhuma indicação de prioridade. O que indica a prioridade são sempre as plaquinhas, ou, se não tiver plaquinhas, a regra “direta antes da esquerda”. Isso vale INCLUSIVE se não forem duas ruas se cruzando, mas uma rua chegando em outra rua! Por exemplo, você está indo em uma rua que continua em frente, e tem uma rua chegando à sua direita que não cruza, só termina na sua rua. Se tiver um carro/bicicleta/moto vindo dessa rua, como ele está à direita, ele tem prioridade.

Já quanto às placas. Tem as seguintes placas importantes sobre prioridade:

Vorfahrt gewahren   Zeichen_208      stop

Essas três placas acima dizem que você deve dar a prioridade. A primeira significa simplesmente que a prioridade é da rua que está cruzando. A segunda diz que carros/bicicletas/motos vindo na direção contrária à sua têm prioridade (por exemplo se tem algum trecho da rua em que por algum motivo tem só uma faixa pra ambas as direções, e os carros vindos de cada direção têm que se alternar pra passar por aquela faixa). E a velha e conhecida placa de pare significa que você deve dar a prioridade E que você deve, de fato, parar antes de continuar! Não vale só dar uma reduzida na velocidade, com placa de pare tem que parar mesmo, pq é um cruzamento particularmente perigoso.

Vorfahrt Straße   vorfahrt

As duas placas acima dizem que a prioridade é sua. A primeira indica que você está numa rua prioritária (então você tem prioridade nesse cruzamento e também no próximo, até aparecer uma placa “cancelando” a prioridade, ou até a rua terminar). Já a plaquinha seguinte significa que você tem prioridade no próximo cruzamento, mas essa não é uma rua prioritária, então provavelmente no cruzamento seguinte você terá que dar a prioridade.

mapinha

Essa plaquinha indica que a rua que tem prioridade vira à direita ou à esquerda. Às vezes é uma grande avenida com uma curva, por exemplo, e ruazinhas pequenas chegando, e aí tem que ficar especificado que a rua prioritária vira. A plaquinha tá sempre virada no sentido de acordo com a sua posição.

Então vamos aos dois exemplos de perguntas:

iTheorie

Pergunta à esquerda: Qual conduta é correta?

Resposta: > Eu devo dar a prioridade ao carro vermelho
                    > Eu tenho prioridade sobre o carro azul

Nesse cruzamento não tem nenhuma placa, então vale a regra “direita antes da esquerda”. Logo, o carro que está vindo pela rua à sua direita, o carro vermelho, tem prioridade sobre você e você tem prioridade sobre o carro que está vindo pela rua à sua esquerda.

Pergunta à direita: Qual conduta é correta?

Resposta: > Eu tenho que esperar

Aqui tem uma placa de rua prioritária, e embaixo uma plaquinha indicando que a rua prioritária vira à direita. Portanto, se eu estou virando à esquerda, eu estou saindo da rua prioritária, e o carro amarelo está vindo pela direita e seguindo pela rua onde estou, portanto seguindo o percurso da rua prioritária. Logo, eu tenho que esperar ele passar para poder fazer a conversão.

Os exemplos dos exercícios aqui foram só com carros, mas tem vários exercícios com bicicletas e motos, e não se esqueça que as bicicletas têm os mesmos direitos que o carro, então se tem uma bicicleta vindo à sua direita você tem que dar a prioridade.

Categoria: Sinalização de tráfego (Verkehrszeichen)

Antes dos exemplos, vou fazer uma observação mega importante aqui. Dá uma olhada nessas plaquinhas:

Uma coisa que eu acho super confusa da sinalização aqui é que as plaquinhas com o círculo vermelho significam que aquilo que a placa indica está proibido. Pra gente é confuso pq proibido tem que necessariamente ser cruzado com a diagonal vermelha. Mas aqui não. Então, acima: a bicicleta no fundo azul significa que ali é uma rua (ciclovia, ciclofaixa) exclusiva pra bicicletas, onde nem pedestres nem carros nem motos podem entrar. Já a bicicleta com o círculo vermelho significa que naquela rua bicicletas não podem entrar. A mesma coisa pra plaquinhas com carros, motos, pedestres, etc, segue sempre essa lógica.

Já as placas triangulares com a borda vermelha significam “atenção”.

Vamos aos exemplos, então.

iTheorie

Pergunta à esquerda: Como você deve se comportar em uma estrada ao ver essa sinalização?

Resposta: > Ficar mais atento, aumentar a distância de segurança
                    > Em caso de congestionamento, ligar o pisca alerta

A placa indica que nesse local é comum ter congestionamento (na estrada). Então você deve aumentar a distância de segurança, ficar atento e em caso de congestionamento, ligar o pisca-alerta.

Pergunta à direita: Como você se comporta nessa área de perigo?

Resposta: > Mudar de farol alto para farol baixo caso aviste um animal silvestre
                    > Dirigir devagar, ficar atento a animais silvestres.
                    > Não desviar de animais se o tráfego no sentido contrário for colocado em risco

A placa indica que nos próximo 3km há boas chances de animais silvestres (veados, raposas, por exemplo) cruzarem a estrada. Caso você aviste um animal, você deve baixar o farol, pois o farol alto confunde o animal e faz com que ele fique parado em vez de correr. Você deve dirigir devagar, já que há o risco de colisão com animais. E você não deve desviar de um animal na estrada, caso o desvio coloque em risco carros vindo no sentido contrário ao seu.

O interessante das perguntas sobre sinalização é que a maioria não pergunta simplesmente “o que significa essa placa”, mas são mais específicas, querendo saber como você deve se comportar ao ver aquela placa.

Categoria: Proteção ao meio-ambiente (Umweltschutz)

Uma categoria interessante da prova é a de proteção ao meio ambiente. As perguntas envolvem consumo de combustível, poluição (inclusive sonora), e, inclusive, perguntas sobre como evitar sobrecarregar o meio-ambiente em que a resposta envolve “pegar transportes públicos em vez de carros” “ir de bicicleta em vez de carro” “dar caronas”, etc.

iTheorie

Pergunta à esquerda: Quais atitutes criam poluição sonora desnecessária?

Resposta: > “brincar” com o acelerador quando o carro está desengatado
                    > dirigir com escapamento com defeito

Pergunta à direita: Como você pode economizar combustível?

Resposta: > Retirando os suportes do capô quando eles não estão sendo utilizados (suporte pra bagagem ou bicicletas que ficam no capô)
                    > Dirigindo com atencipação

Categoria: Mecânica (Technik)

iTheorie

Pergunta à esquerda: A direção do seu carro está tendendo para um dos lados durante a viagem. Qual pode ser o motivo?

Resposta: > defeito no armortecedor
                    > rodas estão em desequilíbrio
                    > suspensão está com defeito

Pergunta à direita: Qual pode ser o motivo se o seu carro com motor a diesel não está partindo?

Resposta: > Ar no sistema de combustível
                    > Filtro de combustível bloqueado

Categoria: Regras burocráticas (Betriebsvorschriften)

iTheorie

Pergunta à esquerda: Como você sabe que deve levar seu carro para a revisão?

Resposta: > Pela data na etiqueta de inspeção
                    > Pela data no documento do carro

Pergunta à direita: Após um rebaixamento, é necessário levar o carro para uma avaliação. Quando ela deve ocorrer?

Resposta: > diretamente após a modificação (no caso, o rebaixamento)

OK CHEGA! Enfim, acho que deu pra dar uma idéia do tipo de pergunta que aparece na prova. Quer dizer: se prepara bem antes de marcar a prova que não é fácil!

É isso por hora!

Espero escrever a parte 3 – prova prática em breve!

Obs: um leitor recomendou o seguinte site para estudar pra prova: https://www.fuehrerschein-bestehen.de/ , onde tem testes em todas as línguas da UE. Obrigada pela dica, Newton!


(Publicado em 27 de Junho de 2016)